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ESTRATEGIAS
DISCURSIVAS NO NOVO
ÁGORA DA GLOBALIZAÇÃO
Dennis
de Oliveira
Os signos permitem
que a realidade seja compreendida e interpretada pelo ser humano,
afirma o semiólogo Roland Barthes, um dos que inovaram na
compreensão do papel social da linguagem como construtora
de sentidos e não mera representação gráfica
de uma "realidade concreta" como uma linguística
mais ingênua compreendia. Tal concepção foi
de grande valia para os estudos científicos da comunicação
que deixou de ser vista apenas como mera troca de mensagens para
um locus de construção de significados e de
perspectivas de ação humanas.
Queremos recuperar
estas noções teóricas para um aprofundamento
no papel social dos media no atual momento que chamaremos
de globalização neoliberal. Tal discussão é
de grande importância tendo em vista que os aspectos tidos
como "positivos" da globalização referem-se,
em geral, às possibilidades de interconexão e constituição
de relações sociais com pouca ou nenhuma restrição
de caráter espacial ou temporal e tais possibilidades estão
vinculadas ao extraordinário desenvolvimento das tecnologias
de informação que combinou a capacidade de armazenamento
de dados com a de transmissão dos mesmos (a chamada telemática).
Por esta razão, as práticas comunicativas se transformaram
no principal veio condutor da construção destas relações
e toda a configuração da sociedade neoliberal globalizada.
Antes de tudo,
gostaríamos de chamar a atenção para o recorte
político do termo globalização que fazemos
ao acrescentarmos o adjetivo neoliberal. Isto porque partimos do
pressuposto que o atual processo de globalização não
é uma novidade em si, mas sim difere-se pelo seu conteúdo
político - o neoliberalismo. Tal recorte político
é importante para situarmos historicamente este processo
que foi fruto do resultado da Guerra Fria, simbolicamente encerrada
em 1988, com a queda do Muro de Berlim. A vitória do bloco
capitalista liderado pelos Estados Unidos no conflito geopolítico
que opôs esta nação à ex-União
Soviética (que simbolizava a alternativa socialista) implicou
que a globalização atual tivesse o seguinte conteúdo,
segundo Otho Jambeiro:
a-) conteúdo
político: o paradigma da democracia representativa na clássica
tradição liberal;
b-) conteúdo
econômico: o paradigma da economia de mercado;
c-) conteúdo
ideológico: o neoliberalismo.1
Queremos, entretanto,
fazer um aprofundamento da relação destas três
dimensões apontadas por Jambeiro. O aspecto ideológico
- o neoliberalismo - reconstrói o significado das dimensões
política (democracia representativa) e econômica (economia
de mercado) e, particularmente, a relação entre as
duas. No sentido neoliberal, a democracia representativa implica
em um Estado mínimo, reduzido as formalidades do gerenciamento
administrativo da máquina burocrático-estatal, deixando
de ser um instrumento mediador (embora com conteúdo de classe,
na clássica definição de Lénin); no
aspecto econômico, ao deificar as regras da economia do mercado,
transplantando-as para todas as dimensões da vida social;
e na relação entre as duas, ao apontar para o avanço
da esfera econômica sobre a esfera política, relativizando
cada vez mais as noções de direitos formais.
Já alertamos
em outros trabalhos nossos2 de
que esta é a principal diferença entre o neoliberalismo
e o liberalismo clássico surgido das revoluções
burguesas ou mesmo dos primórdios do capitalismo quando se
buscava um equilíbrio entre igualdade de direitos formais
e desigualdade econômica (esta era, aliás, a função
do aparelho de Estado capitalista, a ponto dele, em determinados
momentos, avançar sobre a esfera econômica inaugurando
o intervencionismo econômico-estatal e os Estados de Bem Estar
Social).
Esta nova formação
ideológica do discurso hegemônico reposiciona os demais
discursos e exige a discussão de novas estratégias
contra-hegemônicas para se constituir alternativas. Os espaços
de mediação social sofreram alterações
profundas e o lugar do exercício da política (no sentido
weberiano, de luta pelo poder) se evanesce, se capilariza, tornando
muito mais complexa a busca de novos referenciais de transformação
social.
Os media
na era da globalização
As estratégias
dos meios de comunicação de massa junto a sociedade
obedecem a duas lógicas aparentemente contraditórias,
mas de conteúdo complementar: centralização
do comando e capilarização nos exercícios de
comando. As novas tecnologias de comunicação permitiram,
entre outras coisas, a agilização nos processos produtivos
dos bens simbólicos, a ponto de qualquer pessoa com um microcomputador
moderno em casa e com conhecimentos técnicos, poder produzir,
por exemplo, uma revista. Desta forma, percebe-se uma explosão
na quantidade de bens simbólicos produzidos nos últimos
tempos, atendendo, inclusive, as demandas de grupos sociais marginalizados
e discriminados que anteriormente reclamaram da sua sub-representação
nos media.
A impressão
que se percebe, primeiramente, são as possibilidades multiculturais
que o atual momento permite. Negros, capoeiristas, praticantes de
relgiões africanas, sambistas, homossexuais, adolescentes,
entre outros grupos não tradicionalmente atendidos pela indústria
cultural passam a contar com produtos específicos para os
seus hábitos. Este mosaico de possibilidades criou a noção
de fragmentação de um sujeito-homem universal, típica
do Iluminismo, o que atingiu frontalmente as proposições
clássicas da esquerda. Segundo Stuart Hall,
"Neste
final de século fala-se muito em crise de identidade
do sujeito. O homem da sociedade moderna tinha uma identidade
bem definida e localizada no mundo social e cultural. Mas uma
mudança estrutural está fragmentando e deslocando
as identidades culturais de classe, sexualidade, etnia, raça
e nacionalidade. Se antes estas identidades eram sólidas
localizações, nas quais os indivíduos se
encaixavam socialmente, hoje elas se encontram com fronteiras
menos definidas que provocam no indivíduo uma crise de
identidade."3
Embora concordemos
com este processo de descentramento das identidades, é preciso,
porém, lembrar que esta capilarização do poder
tem uma centralidade lógica que lhe dá um sentido,
uma direção. Por isto, insistimos na necessidade de
se articular a dimensão da capilarização com
a da centralização, conforme alertou Mattelart, que
considera a globalização como um modo de gestão
que concentra a dimensão decisória da distribuição
e descentra o da produção e suas formas.4
As críticas
à cultura hegemônica que tem como utopia um retorno
aos primórdios e princípios iluministas não
dão conta deste novo processo. Citamos como exemplo a clássica
Teoria Crítica (mais conhecida como Escola de Frankfurt)
cujas idéias centram-se em uma aparente frustração
pela falência do projeto ético iluminista e criticam
as formas culturais oriundas do capitalismo na sua fase monopolista
e da massificação da sociedade civil. A base das críticas
dos frankfurtianos à indústria cultural (conceito,
aliás, fruto da contribuição teórica
destes intelectuais) é o fato dela ser um processo de "integração
dos consumidores pelo alto"5
e de que a cultura deixou de existir no capitalismo por considerarem
que há uma pasteurização das formas simbólicas
produzidas no capitalismo e, conseqüentemente, das formas de
recepção das mesmas. A perspectiva frankfurtiana de
que há uma tendência à repetição
de formas, de esgotamento de qualquer possibilidade criativa dentro
deste processo não se percebe atualmente.
Pelo contrário,
a estratégia hegemônica é muito mais sofisticada:
há uma capacidade muito maior de incorporação
de formas novas e diferenciadas de produção e consumo
que, hoje, há muito menos condições objetivas
para a geração de uma contracultura ou uma cultura
marginal que nos tempos áureos do capitalismo fordista.
A centralidade, o lugar do comando, do poder, não está
nas formas de manifestação e sim na direção
dos processos distributivos. Vejamos alguns exemplos ilustrativos
disto:
1) A
tecnologia da TV por assinatura permitiu que este meio possibilitasse
o oferecimento de mais "opções" de programação
para o público - opções estas que significam
um potencial de segmentação que interessa a nova configuração
do modo de acumulação capitalista baseado na produção
em pequena escala e de forma fragmentada. Diante disto, até
mesmo algumas reivindicações históricas no
Brasil, como a existência de canais de televisão comunitários,
locais, institucionais, educativos e universitários foram
incorporadas. Entretanto, o comando da distribuição
da TV por assinatura é dividido entre dois grandes oligopólios
do sistema nacional de comunicação de massa: o Grupo
Abril (TV-A) e as Organizações Globo (Net).
2) As
modernas tecnologias de produção da mídia impressa
(como os desktopop publishing, as máquinas compactas de reprodução,
a Internet um instrumento ágil e barato para a captação,
entre outras) possibilitaram o surgimento de inúmeras publicações
segmentadas, inclusive com segmentos novos no campo editorial (homossexuais,
negros, adolescentes, entre outros) boa parte delas propduzida por
pequenas editoras que trabalham com corpos editoriais pequenos e
um grande número de jornalistas free-lancers. Entretanto,
a distribuição das publicações impressas
no Brasil é totalmente monopolizada por duas "gigantes":
a Dinap (pertencente ao Grupo Abril) que controla 60% do mercado
e a Fernando Chinaglia Distribuidora, que abocanha os 40% restantes.
Estes dois exemplos
mostram a correção desta afirmação de
Mattelart da centralidade nos processos distributivos ao mesmo tempo
que se percebe uma ampla variedade no campo da oferta de produtos
segmentados. A indústria da comunicação talvez
seja a que mais incorporou esta nova lógica do modo de produção
capitalista na era da globalização neoliberal.
Os media
como lugar da representação das tipologias sociais
O que é
importante para refletirmos sobre estas novas configurações
da sociedade neoliberal globalizada é cruzarmos este novo
modelo da indústria de comunicação e da cultura
com o seu papel de novo ágora e de representação
das tipologias sociais. O esvaziamento do espaço público
da sociedade civil coincide com a crise da utopia do sujeito universal
iluminista, crise esta que afeta até mesmo os movimentos
sociais. Canclini observou esta mudança nos movimentos sociais
como um redirecionamento dos mesmos do plano da produção
para o plano de consumo, entendendo que estaria se constituindo
um novo conceito de cidadania baseada no direito ao consumo.6
Entendemos que
esta afirmação pode estar até correta, mas
é limitada. Esta mudança nos movimentos sociais está
ligada a este processo de descentração do sujeito
iluminista reforçado por este esvaziamento do lugar da política
e, conseqüentemente, de novas formas de interpelações
constitutivas da identidade.7
Tais interpelações ocorrem a partir de e também
no espaço dos meios de comunicação de
massa.
As novas interpelações
constitutivas do sujeito acontecem a partir dos meios de comunicação
de massa se considerarmos que a massa de informações
- não só na quantidade mas na sua variedade de formas
e possibilidades de segmentações - cresce de forma
assustadora, a ponto de grande parte dos teóricos modernos
chamarem a sociedade contemporânea de sociedade midiática
ou sociedade da informação.
Cohn resgata,
a este respeito, a origem da palavra informação,
que vem do grego impor forma a.
"Decisiva
é a intuição básica de que informação
tem a ver com a imposição de forma junto com a
idéia de que essa imposição é da
ordem de sobredeterminação. E ela ganha sua mais
plena atualidade no momento atual, em que o atributo da informação
já não se aplica apenas a determinadas técnicas
mas ao formato da sociedade como um todo"8
A segmentação
do discurso da indústria da comunicação e da
cultura impõe uma forma de fragmentação à
sociedade e aos seus sujeitos que acabam por re-definir o espaço
público. Temos então uma nova forma de exercício
da política que vai novamente se realizar no mesmo espaço
dos meios de comunicação de massa, legitimando-os
como o novo ágora neoliberal, pois são eles
a única instituição que tem uma unidade sistêmica
e uma diversidade formal.
Neste sentido,
os movimentos sociais contemporâneos não apenas redirecionam
seus discursos para o consumo como acredita Canclini, mas sim para
este novo ágora: os meios de comunicação
de massa, a partir das formas impostas pelas informações
socializadas que apontam interpelações constitutivas
de sujeitos fragmentados, de múltiplas identidades.
De qualquer
forma, o que percebemos na atualidade é um reforço
de múltiplas formas da legitimidade dos meios de comunicação
como instituição - o que não significa concordar
com o conteúdo dos mesmos, mas se referenciar à
partir deles.
Citações:
(1)
JAMBEIRO, Otho Prefácio de FERREIRA, Maria Nazareth
Comunicação e movimentos sociais. S. Paulo: Celacc,
1998
(2) Conceituamos primeiramente esta questão na tese
de doutorado intitulada Comunicação sindical, globalização
neoliberal e mundo do trabalho (S. Paulo: ECA/USP, 1998) e depois
aprofundamos nos textos Cultura popular: noções de
tempo, espaço e transcendências (trabalho apresentado
no Congresso da Intercom de 2000) e A violência resultante
da prifvatização dos espaços midiáticos
(trabalho apresentado no Congresso da Felafacs de 2000 em S. Paulo).
Também apontanos esta questão na exposição
feita no painel Racismo estrutural: apontamos para uma discussão
conceitual no Fórum de ONGs das Américas realizado
em março de 2001 na cidade de Quito (Equador)
(3) HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade.
Rio de Janeiro, DP&A Editora, 1999.
(4) MATTELART, Armand. Comunicação-mundo: história
das idéias e das estratégias. Petrópolis, Vozes,
1994, esp. cap. 10 "A busca da cultura global"
(5) ADORNO, Theodor. A indústria cultural in:
COHN, Gabriel (org) Comunicação e indústria
cultural. S. Paulo, TAQ, 1987
(6) Ver CANCLINI, N. G. Consumidores e cidadáos.
Rio de Janeiro: UERJ, 1998 e também do mesmo autor, Culturas
transnacionales y culturas populares in: CANCLINI, N.G. & RONCAGLIOLO
(orgs) Culturas transnacionales y culturas populares. Lima: IPAL,
1997
(7) Utilizamos aqui o conceito de interpelações
constitutivas do sujeito incorporando o conceito de ideologia de
Althusser (ideologia como interpelação) e de identidade
de Stuart Hall (identidade como interpelação). Ver
as obras ALTHUSSER, Louis. Sobre a reprodução. Petrópolis,
Vozes, 1999 (esp. cap. IX) e HALL. Stuart, op cit, cap. I
(8) COHN, Gabriel A forma da sociedade de informação
in: DOWBOR, Ladislaw et all (orgs) Desafios da comunicação.
Petrópolis: Vozes, 2000, p. 21
Bibliografia:
ADORNO,
Theodor. A indústria cultural in: COHN, Gabriel (org) Comunicação
e indústria cultural. S. Paulo: TAQ, 1987
ALTHUSSER, Louis. Sobre a reprodução. Petrópolis:
Vozes, 1999
CANCLINI, N. G. Consumidores e cidadáos. Rio de Janeiro:
UERJ, 1998
CANCLINI, N. G.Culturas transnacionales y culturas populares
in: CANCLINI, N.G. & RONCAGLIOLO (orgs) Culturas transnacionales
y culturas populares. Lima: IPAL, 1997
COHN, Gabriel A forma da sociedade de informação
in: DOWBOR, Ladislaw et all (orgs) Desafios da comunicação.
Petrópolis: Vozes, 2000
FERREIRA, Maria Nazareth Comunicação e movimentos
sociais. S. Paulo: Celacc, 1998
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade.
Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999.
MATTELART, Armand. Comunicação-mundo: história
das idéias e das estratégias. Petrópolis: Vozes,
1994
OLIVEIRA, Dennis A violência resultante da privatização
dos espaços midiáticos (trabalho apresentado no Congresso
da Felafacs de 2000 em S. Paulo)
OLIVEIRA, Dennis Comunicação sindical, globalização
neoliberal e mundo do trabalho (tese de doutoramento) S. Paulo:
ECA/USP, 1998
OLIVEIRA, Dennis. Cultura popular: noções de
tempo, espaço e transcendências (trabalho apresentado
no Congresso da Intercom de 2000)
Dennis
de Oliveira é
Doutor em comunicação pela Universidade de São
Paulo (USP), professor na Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep),
coordenador geral da União de Negros pela Igualdade (Unegro)
e autor do livro Globalização e Racismo no Brasil
(ed. Unegro).
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