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A
"voz" do dono da voz
Por
Dennis de Oliveira
O pecado da
soberba coube a um jornalista. Melhor dizendo, um comandante de
uma redação de um grande jornal diário de Buenos
Aires. Assumindo plenamente a condição de dirigente
do chamado "quarto poder", o jornalista Camargo extrapola
os horizontes do pretenso poder da mídia explicado por vários
pensadores da comunicação: não é apenas
influenciar os comportamentos do público, mas desafiar
a supremacia divina. Camargo brinca de ser Deus - transforma os
seus comandados em marionetes e quer decidir até mesmo quem
tem direito à vida.

O paralelo com
o caso de homicídio praticado pelo jornalista do jornal O
Estado de S. Paulo, Pimenta Neves, é direto. No livro,
Pimenta aparece como um amigo brasileiro de Camargo que inclusive
lhe pede conselhos por telefone. Como o seu colega da vida real,
Camargo se envolve amorosamente com uma jornalista subordinada a
si que, após revoar junto com o seu chefe-amante, decide
alçar vôo próprio, no que é condenada
a pena capital por Camargo. Uma pena aplicada de forma lenta, dolorosa,
como a própria dor que atormenta o algoz. Castigo que revela
as fraquezas do soberbo Camargo.
"-
Reina - disse Camargo
- O que foi? - respondeu ela, sem pensar. Era a primeira vez
que ele a chamava assim, pelo nome.
- Eu me casaria com você se tivesse vinte anos a menos.
Ou se você tivesse dez a mais.
Ela lhe sorriu, compassiva. Ao sorrir, levantava tanto o lábio
superior que a faixa das gengivas ficava à mostra. Aquela
era uma noite de mal-entendidos, de palavras que não
significavam o que diziam.
- Que é isso, doutor? Se for um galanteio, é muito
estranho.
- Não é um galanteio. Estou falando sério.
Eu me casaria com você mas não posso. Tenho o dobro
da sua idade.
- O dobro ou a metade da minha idade daria na mesma. O senhor
não pode porque não pode. Está sozinho,
longe. Quando a pessoa está sozinha e longe, diz qualquer
coisa.
- Eu não disse qualquer coisa. Disse que não posso.
Sou casado, sou infeliz, mas não é esse o motivo,
porque isso é o que qualquer homem diria no meu lugar.
Não posso porque nos parecemos muito. Faríamos
mal um ao outro." (p. 131)
O
poder quase absoluto que Camargo exercia no jornal e nos círculos
políticos não resistia aos vôos que a abelha-rainha
vez por outra insinuava a dar.
"
- Então é verdade? Você quer ficar sozinha
em Washington para sair com o seu amiguinho, não é?
Desde quando está escondendo isso, sua puta?
Estava tão perturbado que Reina se preparou para levar
uma bofetada. (...)
- Como você pode sequer imaginar que eu pense em outro?
De todos os homens que conheci, nenhum chega a seus pés.
O rosto de Camargo se iluminou, mas ele não disse palavra.
Tornou a vestir o paletó que tinha jogado sobre o sofá
e ordenou:
- Acabe de se arrumar, vamos nos atrasar." (p.174)
O cúmulo
da soberba é julgar-se filho de Deus - frase repetida por
diversas vezes por Reina Remis que se interessa por teologia. Camargo
vai além disto. Não se contenta em ser apenas filho
de Deus, mas o próprio, por isto avoca a condição
de castigar os "filhos". Mas encontrou uma rebelde que
não se contenta em ser a preferida - simplesmente não
quer ser uma filha. E o castigo maior vem de um outro subordinado,
capacho até, que simplesmente a apaga da história
quando da publicação da nota de falecimento de Camargo
no jornal que dirigia.
"Embora
já não fosse necessário, o texto respeitava
os desejos do falecido. Deixava escapar uma única vez,
de passagem, o nome que constava em seus documentos pessoais,
Gregório Magno Pontífice, e omitia quase todos
os detalhes íntimos de sua biografia..." (p.157)
MARTINEZ,
Tomás Eloy. Soberba: o vôo da rainha. (Coleção
Plenos Pecados) Rio de Janeiro: Editora Objetiva.
Dennis
de Oliveira é cordenador do curso de Jornalismo da Universidade
Metodista de Piracicaba e professor da Escola de Comunicações
e Artes da USP.
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