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CONTRA A BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA
A recuperação produtiva do passado como garantia contra a barbárie do futuro

Ciro Marcondes Filho

Quando se estuda as relações entre história, cobertura jornalística e memória aparecem regularmente três gêneros de questões fundamentais, que vão do "Seria o progresso inconciliável com a transmissão das vivências?", passando pelo "Por que é preciso transmitir o vivido?", "É possível representar o trágico ou ele se desfaz na representação?", até aquelas que fazem um questionamento mais amplo, se perguntando em suma "Para que serve a história, afinal?". Em torno dessas indagações estrutura-se a dúvida central, que está na base de todas as reflexões: afinal, como trabalhar a questão da memória, da vivência no momento atual das altas tecnologias de comunicação e informação?

1

A história da cultura sempre foi uma espécie de "cultura da história". Os homens sempre registraram vivências, quer sob a forma de relatos de lutas e guerras, de contos épicos - que não necessariamente estiveram distantes de lutas reais divinizadas pela religião -, de acontecimentos políticos, pessoais, passionais, de intrigas humanas. O relato, como forma de registro, cumpria uma necessidade do relatante em fixar, em assentar sobre uma base mais duradoura algo que merecia ser transmitido, algo que diferia da tradição oral, marcada antes pela repetição do que pela inovação: pela precedência do metro sobre o acento(1).

A vida significava para o homem da Antigüidade um acontecimento excepcional, diferente da existência indiferente dos animais e de outros seres vivos: era algo que sempre engendrava um conhecimento, uma experiência, um saber que precisava ser repassado. Da mesma forma, a expressão literária contemporânea, cuja finalidade seria a se registrar, fixar, eternizar vivências humanas, numa clara busca do transcendental, além dos estreitos limites de vida que a natureza nos dotou.

A história do contar e do ouvir acompanhou a civilização pelo menos até o advento dos impressos em massa. Com a inovação tecnológica do século 19, a humanidade se viu diante de uma objetivação do relato, de uma despersonalização na narrativa e da subseqüente subtração do agente humano no processo de transmissão de saberes. Livros, jornais e revistas tornaram-se os recicladores do conhecimento, que, assim, deixou de lado todos os componentes subjetivos da transmissão, tanto seus erros e imperfeições quando seu toque individual, particular, humano. Como isso, como relata Benjamin, a capacidade de ouvir atentamente foi se perdendo e perde-se também a comunidade dos que escutam(2) .

Detenhamo-nos um pouco nesta observação de Walter Benjamin sobre a capacidade de ouvir, a comunidade dos que escutam. É inegável que o avanço das publicações em massa introduziu nas sociedades de 150 atrás uma profunda mudança na forma de perceber o mundo. Robert Junk fala, a esse respeito, que o dilema do homem hoje deriva de uma crise atual da percepção do mundo e, naturalmente, nossa sociedade informatizada atual aumenta ainda mais esse processo. Perceber o mundo por meio do ouvir é diametralmente oposto do perceber o mundo por meio do ver. O ouvir, assim como o ler, o sentir o gosto, o olfato, o tato são formas de internalização do mundo, maneiras de o universo circundante entrar em nós: nós o bebemos, o consumimos, nós trazemos para dentro da nossa experiência interior e isso provoca seus efeitos de choque e de adaptação. São fenômenos que hoje seriam chamados de "ruídos auto-organizadores" pela teoria da complexidade de filiação termodinâmica. São esses, efetivamente, que mexem conosco, nos reestruturam, aumentam nossa complexidade.

A experiência de internalizar o mundo externo desperta em nós diferentes formas de abertura: nós nos abrimos, nós deixamos entrar, nós permitimos a invasão de outras histórias, de outras sensibilidades, nós nos expomos a outras sensações, que, queiramos ou não, mexem de forma fascinante e assustadora com nossas lembranças residuais. As diferentes formas de mudança (de hábitos, de opiniões, de visões de mundo, de gostos, etc.) têm a ver com a abertura concedida a novos ruídos. A sensibilidade feminina, seu "sexto sentido" estaria talvez associado a este componente tanto espiritual quanto físico de "se deixar entrar", de permitir o novo, de dar a chance ao diferente.

Outra é a forma de perceber o mundo pelo ver. Joachim-Ernst Berendt, em sua obra Ouvir o mundo(3), utiliza-se repetidamente da frase: "O olho conduz o homem ao mundo; o ouvido leva o mundo ao homem". Segundo ele, o primado do olho começou na história ocidental exatamente no momento em que se desenvolveu o pensamento racionalista, mecanicista e materialista com Descartes, Bacon, Newton e outros fundadores do moderno pensamento científico. Diferente das antigas culturas clássicas, que afirmavam que "o ouvido é o caminho" (como nos Upanixades), a cultura contemporânea é centrada no olho, que estaria continuamente ausente, sempre à caça de alguma coisa(4).

Ver, escrever, falar estão na mesma situação. São formas de sair de si e dominar o mundo, de se apropriar dele, de conquistá-lo. Não têm nada a ver com o processo receptivo, captador, feminino, de se abrir, de acolher a informação externa. Estão associados a um espírito de conquista e de busca de outros mundos, que, em princípio, tendem à expansão centrípeta, à escalada de avanços e de apropriações progressivas.

O fim da comunidade de ouvintes, de que falava Benjamin, o declínio da capacidade de ouvir caracterizam desta forma um procedimento do homem, especialmente do século 20, de se voltar para fora, para o progresso. É o primado da visão de mundo do desenvolvimento científico ilimitado, da industrialização que vai levar à fantasia do conforto absoluto, da expansão do capitalismo por todo o planeta, da vida de prazeres e de felicidade que a religião cristã havia apenas adiado.

A perspectiva de progresso, da conquista, do "olho antes do ouvido", é a mesma da imagem preocupante do anjo de Paul Klee. Em suas "Teses sobre a filosofia da história", Walter Benjamin fala de um quadro do pintor, intitulado Angelus Novus, onde um anjo parece querer afastar-se de algo que ele observa. O anjo tem olhos arregalados, a boca está aberta e está prestes a voar. Benjamin diz que o Anjo da História deve ser do mesmo jeito: com um rosto voltado ao passado, em que para nós aparecem diversos acontecimentos, mas que para o anjo significam todos uma única catástrofe, catástrofe essa que sem cessar acumula escombros sobre escombros, atirando-os a seus pés. O anjo bem que gostaria de poder parar, de acordar os mortos e de reconstruir o que foi destruído, mas não consegue, pois uma tempestade sopra do Paraíso e fortemente se aninha em suas asas de forma a impedi-lo de fechá-las. A tempestade o leva inexoravelmente ao futuro, ao qual ele dá as costas, enquanto o monte de escombros cresce diante dele até o céu. Benjamin diz que aquilo que nós chamamos "progresso" seria essa tempestade que o anjo presencia.

O anjo de Paul Klee é uma espécie de Janus, deus mitológico da Antigüidade, que possuia dois rostos, um voltado ao passado e outro ao futuro. Ambos resumem o dilema da história, seu compromisso ético e sua debilidade ante a pressão dos ventos do progresso. Esses ventos são representados hoje pelas novas tecnologias de comunicação e informação. Elas sopram violentamente na direção de uma idéia de futuro não dando muito espaço ao cidadão para voltar a cabeça à catástrofe que se passou e a seus resultados.

Dois dilemas são sintetizados nesta parte: o declínio da capacidade de ouvir (portanto, de sentir, de absorver, de se transformar pela captação do ruído) e o esquecimento da história como conseqüência do progresso, um olhar para frente deixando atrás de si rastros da destruição e dos dramas não trabalhados.

É também a ideologia do cibesperpaço. Na construção da Biosfera II e dos projetos da NASA, Rötzer descreve o povoamento do espaço sideral quando a Terra não puder mais ser habitada (guerras, poluição, devastação geral), quando se precisar emigrar, quando não se suportar mais a convivência com os vizinhos(5). São deslocamentos hoje tecnicamente possíveis, viagens para outras partes do universo, construção de ilhas e de estações flutuantes, todos sob um único e mesmo princípio, seguramente não o mais correto, de em lugar de recuperar, corrigir, equilibrar os espaços de vida, de trabalho e de lazer, abandonar o que foi destruído, manter os privilégios, inocentar a pilhagem.

2

Mas qual é efetivamente a importância de se repassar o vivido às novas gerações, por que precisamos da história?

Paul Ricœur fala, a esse respeito, da história como "ato de sepultura"(6). Renovar o ato de pôr no túmulo, fazer ressuscitar o passado, cumprir as promessas irrealizadas dos que morreram. Nisso se encerra a nosso ver uma espécie de compromisso ético da civilização, algo que resgataria aquilo que o pensador chama da "passeidade do passado"(7).

Mas esse compromisso ético é sistematicamente falsificado pelas formas que tomaram o lugar do testemunho: a pilhagem política ou religiosa do passado, as reconstruções mediáticas do que aconteceu, a historiografia fria e positivista marcada pelo partidarismo dos historiadores. Todas essas formas de mutilação do vivido com fins de intervenção no que aconteceu, naquilo que a memória vivencial conheceu, nos fatos dos quais só se tem hoje rastros remotos atuam para desacreditar a história, juntá-la às múltiplas estórias circulantes, torná-la - como todas as interpretações - apenas mais uma forma de ficção. A maneira mais eficiente de desculpabilizar o passado é reduzindo-o a obra imaginária da cultura humana.

Ora, mas fatos efetivamente ocorreram: os genocídios, o terror colonial, as imposições da violência e da barbárie a milhões de pessoas, as guerras sanguinárias, tudo isso que faz parte da loucura persecutória e criminosa de todos os povos que aspiraram ao poder e isso não pode ser simplesmente silenciado às novas gerações. A questão, entretanto, que se coloca no momento é como transmitir isso? Que instrumentos gerantem legitimidade, fidelidade, resgate da força intrínseca emocional e vivencial do acontecido? É possível isso?

Toda a representação é necessariamente uma perda; o que importa aqui, portanto, não é atingir a reprodução plena do que passou através da reconstrução do passado, mas o de minimizar a perda, o de recuperar um pouco da legitimidade, da respeitabilidade histórica do acontecido. Recriar o contexto expressivo do fato, de forma a que ele reinstitua o morto, refaça o ato de enterramento, faça a sociedade reviver - e não como encenação - aquilo que as gerações passadas tiveram de assistir. Para isso há meios que são mais quentes, como é o caso da fotografia, da literatura, do cinema, que não buscam explicar(8) mas reconstruir. Entretanto, mesmo as formas que buscam reproduzir o contexto expressivo através da ficção e não enxertá-lo de explicações "objetivas" tem alcance limitado.

O exemplo sempre rememorado em todas essas discussões é o da maior tragédia do século 20, o do Holocausto. Lyotard fala que a representação, também ela é uma forma de apagar os vestígios do extermínio(9). Trazer as imagens de Auschwitz é uma forma de esquecê-lo: as coisas que não estão exatamente inscritas (pois não há superfície para tanto), que não são sintetizáveis, mas que existem apenas como afecção(10), que são "inqualificáveis", não permitem a representação fílmica, mediática, escrita. Para Lyotard, a representação se limita ao recalque secundário(11); ela faz com que se evoque os direitos do homem, o "nunca mais acontecerá" e pronto, diz ele, tudo está arrumado(12).

Também Ricœur considera o Holocausto no limite da representação mas, mesmo assim, clama pela sua recuperação(13). Em verdade parece refletir advertindo contra uma sociedade sem passado, marca de uma tendência bastante presente do pensamento atual, de simplesmente virar as costas para o que aconteceu anteriormente e acreditar que se pode simplesmente deletar a consciência.

3

A última indagação se refere aos fins: para quê serve a história? Sem dúvida não se estuda a história apenas para não repetir os erros, visto que eles sempre retornam. Tampouco se estuda a história simplesmente para satisfazer o compromisso ético da civilização diante dos exterminados.

As sociedades se preocupam com a história porque ela é nossa consciência enquanto espécie, ela é nossa infância enquanto humanidade. Marc Bloch dizia que a história não é apenas uma ciência em marcha. É também uma ciência na infância: como todas aquelas que têm por objeto o espírito humano, este retardatário no campo do conhecimento racional(14). Mas a história também, segundo Fustel de Coulanges, não estuda somente os fatos materiais e as instituições, seu verdadeiro estudo é a alma humana(15).

Consciência da espécie, infância da humanidade. Talvez uma infância eterna visto que por todo o sempre as obras da civilização precisaram ser revistas, trabalhadas, discutidas para não se repetirem, para que a barbárie não retornasse, para que se atinja, em suma, a suposta maioridade em que tudo seja visto com cautela, com respeito, com cuidado.

Mas até que ponto isso é possível? Até que ponto pode-se encarar a história da civilização humana como algo a ser melhorado, até que ponto podem os homens ser tomados como um ser que cresce e se desenvolve, até que ponto há a crença numa responsabilidade ética da espécie quando historicamente as coisas parecem ter andado exatamente na direção contrária? Direção do agir irresponsável, da devastação, da aniquilação, da barbárie? Poderíamos confiar na espécie como um ser autoconsciente, capaz de avaliar seu passado desastroso e voltar-se a um futuro mais promissor?

Isso parece muito improvável. Mesmo assim, um compromisso ético parece sobreviver junto àqueles poucos que não conseguem assistir impassíveis a tudo que se desenrola à sua frente e que acreditam que à cultura deva-se dar voto de confiança. Há um desenvolvimento mediático contemporâneo na direção da destruição do passado (niilismo, fragmentação, pilhagem, falsificação, descrédito, apagamento do passado), que atua no sentido de zerar a lembrança histórica e cultural dos tempos. Tudo no sentido de se forjar um homem novo, leve, livre da "doença histórica", absolutamente indiferente a tudo o que se passou. Uma máquina de triturar as experiências e as vivências de outros tempos e que substitui tudo isso por um Nada, uma ausência total de passado, um Cronos que se impõe e nega totalmente as possibilidades de um Aion(16).

A isso se junta o trabalho sistemático de descrédito à história, aos historiadores, ao empenho em se recuperar aquilo que a máquina da cultura e das ondas modistas tenta neutralizar.

Mas apesar de esquecermos o passado, diz o filme Magnólia, o passado não nos esquece. Ele é nosso trauma, a marca da uma infância caracterizada por acontecimentos trágicos e da qual não nos desvencilhamos por um ato racional. Os exterminados podem ter morrido mas a máquina de extermínio não foi desmontada. Por isso nossa única chance, ao sentir a história como consciência da espécie e infância da humanidade, só pode existir num trabalho terapêutico, numa forma de perlaboração. Só esta nos permitirá conhecer nossa própria miséria e evitar a repetição dos horrores passados.

Perlaborar é o trabalho que permite a um paciente de terapia aceitar os erros recalcados e libertar-se da influência dos mecanismos repetitivos(17). Em O pós-moderno explicado para crianças, diz Lyotard que se trata de algo como a anamnese, uma elaboração da perturbação presente, associando livremente elementos aparentemente inconsistentes com situações passadas, o que permite ao indivíduo descobrir sentidos ocultos de sua vida, de seu comportamento.

O procedimento psicanalítico deveria, segundo o pensador francês, poder ser adaptado também às sociedades. Por que, afinal de contas, as novas gerações alemãs ainda impõem, até hoje, um enorme silêncio sobre os 13 anos de fascismo que arrepiaram toda a história de uma civilização? Sem dúvida porque não o trabalharam devida e profundamente, sem dúvida o trataram como um recalque secundário, como assunto não trabalhado mas "superado", mas que, por sobreviver efetivamente no plano do recalcamento originário, jamais será de fato vencido.

Assim poderia ser a história: resgate da dívida com os exterminados, re-enterramento dos processos passados, recuperação do contexto expressivo dos acontecimentos, tudo isso sob um profundo trabalho de perlaboração das fixações, dos afetos, das ligações, dos desejos. Não há satisfação desse compromisso ético com a civilização sem a história, não há história sem um olhar responsável ao passado, não há futuro da espécie sem tratamento dos erros e das barbáries.

Texto escrito em 3 de outubro de 2000.

Citações:

(1)Os relatos são marcados por um certo ritmo, que é a razão entre um metro e um acento. O metro marca o tempo em períodos regulares, repetitivos, enquanto que o acento modifica-o. A prevalência do metro é o que se observa nas cantigas infantis, nos provérbios. Lyotard diz: "À medida que o metro prevalece sobre o acento nas ocorrências sonoras, faladas ou não, o tempo deixa de ser o suporte da memorização e torna-se uma cadência imemorial que, na ausência de diferenças observáveis entre os períodos, impede de enumerá-los e os relega ao esquecimento". O pós-moderno, Rio, José Olympio, p. 40. O relato científico, contrariamente, precisa de uma memória, toma conhecimento dos enunciados precedentes e difere deles: o acento é mais importante que o metro.

(2)W. Benjamin. "O Narrador". In: Benjamin, W, Horkheimer, M., Adorno, T.W., Habermas, J.: Os Pensadores, vol. 48, São Paulo, Abril, 1975, p. 68.

(3)Berendt, Joachim-Ernst. Vom Hören der Welt. Das Ohr ist der Weg. Frankfurt, Network Medien-Cooperative, s/d.

(4)Diz-se dos olhos que eles estariam "sempre se deslocando", indo de um lado para outro de forma nômade, continuamente à caça de algo. (cf. Berendt, op.cit.)

(5)Florian Rötzer. "Espaço virtual ou espaço mundial?" In: Stiftinger, E./Strasser, E. (Org.) Binäre Mythen. Cyberspace als Renaissance der Gefühle/ Binary Myths. Ciberspace - The Renaissance of Emotions. Viena, Zukunfts- und Kulturwerkstätte, 1997, pp.50-78. Trad.: Ciro Marcondes Filho.

(6)"A história tem a carga dos mortos de ontem, da qual nós somos os herdeiros. A operação histórica, toda ela, pode então ser tomada como um ato de sepultura. Não um lugar, um cemitério, simples depósitos de ossos, mas um ato renovado de pôr no túmulo. Esta sepultura pela escrita prolonga no plano da história o trabalho de memória e o trabalho de luto. Este último separa definitivamente o passado do presente e dá lugar ao futuro. O trabalho de memória teria atingido seu objetivo se a reconstrução do passado conseguisse suscitar um tipo de ressurreição do passado. Será que seria preciso deixar aos únicos concorrentes, confessos ou inconfessos, de Michelet a responsabilidade desta promessa romântica? Não é ambição de todo historiador atingir, por trás da máscara da morte, o rosto daqueles que outrora existiram, agiram e sofreram, e cumprir as promessas que eles deixaram irrealizadas?". Paul Ricœur, "Reconnaître le souvenir, connaître le passé". Le Monde des Débats, setembro de 2000, p.24-25.

(7)"A história pode ampliar, completar, corrigir, mesmo refutar o testemunho da memória sobre o passado, ela não pode aboli-lo. Por quê? Porque, nos parece, a memória permanece o guardião da última dialética constitutiva da passeidade do passado [passéité du passé], a saber, a relação entre o "não mais" e o "tendo-sido" que designa o caráter originário e neste sentido indestrutível". Paul Ricœur, idem.

(8)"...metade da habilidade de narrar reside na capacidade de relatar a estória sem ilustrá-la com explicações. E nisto Lescov é um mestre indiscutível (...). O extraordinário e o maravilhoso são sempre relatados com a maior exatidão, mas o relacionamento psicológico dos fios da ação não é oferecido à força do leitor. Fica a seu critério interpretar a situação tal como a entende, e assim a narrativa alcança uma envergadura ampla que falta à informação". Benjamin, "O Narrador", p.67.

(9)"Os SS fizeram tudo para apagar os vestígios do extermínio (...). Deveria ser um crime perfeito, a sentença seria inocente, na certeza da ausência de provas. É uma `política´ do esquecimento absoluto, esquecido.(...) Essa política apolítica se perpetua depois de `Auschwitz´ e seria preciso examinar seus meios. E há-os ao menos de dois tipos: uns procedem pelo apagamento, os outros pela representação. Apagamento: os criminosos se travestem de honestos e bons comerciantes ou em chefes de Estado, são `desnazificados´ sumariamente (...). Mas fazer esquecer o crime representando-o é mais apropriado, se é verdade que se trata, no caso dos `judeus´, de algo como o afeto inconsciente de que o Ocidente não quer saber de modo algum. Não pode ser representado, a não ser com falha, esquecido de novo, pois desafia as imagens e as palavras. Representar `Auschwitz´ em imagens, em palavras, é uma forma de fazê-lo esquecer. Não estou pensando só nos filmes ruins e nas séries de grande audiência, nos maus romances ou `testemunhos´. Penso até mesmo naquilo que se pode ou poderia do melhor modo fazer com que não se esquecesse, pela exatidão, pela severidade. Mesmo isso representa o que deve continuar irrepresentável para não ser esquecido como sendo o esquecido mesmo.(...) Representando, inscreve-se na memória, e isto pode parecer uma boa guarda contra o esquecimento. É o contrário, julgo eu. Não se pode esquecer no sentido comum a não ser aquilo que se pôde inscrever, pois então poderá se apagar. Mas aquilo que não está inscrito, por falta de superfície onde possa inscrever-se, por falta de uma duração e de um lugar onde se situe a inscrição - o que não tem lugar no espaço nem no tempo da dominação, na geografia e na diacronia do espírito seguro de si, por não ser sintetizável, digamos - o que não é matéria para experiência, mesmo inconsciente, aquela que produz o recalque secundário, lhes são inaptas ou ineptas, isto não se pode esquecer, não oferece chance ao esquecimento - permanece presente `somente´ como uma afecção, que nem se chega a qualificar e como um estado de morte na vida do espírito. É preciso, certamente, é preciso inscrever, em palavras, em imagens. Não há como escapar à necessidade de representar. Seria o próprio pecado julgar-se santo, salvo. Mas uma coisa é fazê-lo em vista de salvar a memória, outra, tentar reservar o resto, o esquecido inolvidável, na escritura." Jean-François Lyotard. Heidegger e `os judeus´. Petrópolis, Vozes, 1994, p. 37-8.

(10)Estado afetivo, estado psíquico acompanhado de prazer ou de dor.

(11)Conforme Laplanche e Pontalis, há um recalcamento originário ou primário, que está na origem das primeiras formações inconscientes. Ele não incide na pulsão enquanto tal mas nos seus sinais, nos seus "representantes", que não têm acesso à consciência e nos quais a pulsão se conserva fixada. Assim se encontraria criado um primeiro núcleo inconsciente funcionando como pólo de atração para os elementos a recalcar. Se distingue do recalcamento secundário, ou recalque propriamente dito, que é um processo duplo que associa a esta atração uma repulsa por parte de uma instância superior.

(12)Idem, p. 38.

(13)"Os acontecimentos tais como o Shoah e os grandes crimes do século 20, situados nos limites da representação, se firmam em nome de todos os acontecimentos que deixaram sua marca traumática sobre os corações e os corpos: eles protestam afirmando que aconteceram e, sob esse título, pedem que sejam ditos, relatados, compreendidos." (Ricœur, idem)

(14)Em: Apologia da história ou Profissão do historiador, Paris, A. Colin.

(15)Em: A cidade antiga.

(16)Há dois tipos de temporalidade: Cronos e Aion. Cronos é centrado num presente único, contrai o passado e o futuro, e, de contração em contração, atinge o universo todo. Em sua descontração reaparecem estas outras duas dimensões. Trata-se de um tempo presente sempre limitado, mas infinito, pois cíclico. Sua animação é o eterno retorno como o retorno do Mesmo e uma eterna sabedoria moral como sabedoria da Causa. No Aion só existem o passado e o futuro. Ele divide o presente infinitamente e o alonga sobre uma linha vazia. Cada presente se divide em passado e futuro, ao infinito. Ou melhor: um tal tempo não é infinito, já que não volta jamais sobre si, mas é ilimitado, pois pura linha reta cujas extremidades não cessam de se distanciar no passado e no futuro. Aion é a verdade eterna do tempo: pura forma vazia do tempo, que se libertou de seu conteúdo corporal presente e por aí desenrolou seu círculo, se alonga em ma reta. Representa o instante, diferente do presente vasto e profundo de Cronos: presente sem espessura, o presente do ator, do dançarino ou do mímico, puro "momento" perverso. Cf. Gilles Deleuze. A lógica do sentido. São Paulo, Perspectiva, 1998, 10ª série.

(17)Diz Lyotard: "Ao se rememorar deseja-se ainda mais. Deseja-se apoderar-se do passado, compreender o que se foi, deseja-se administrar, exibir o crime inicial, o crime de origem, perdido, manifestá-lo como tal, como se ele pudesse ser desembaraçado de seu contexto afetivo, das conotações de erro, de vergonha, de orgulho, da angústia nas quais ainda se é submerso no presente e que precisamente motivam a idéia de uma origem". Jean-François Lyotard, L'inumain. Causeries sur les temps. Paris, Gallimard, 1988, p. 38.

Este texto foi apresentado no X Encontro Latino-Americano de Faculdades de Comunicação Social, em São Paulo, no ano de 2000.

Ciro Marcondes Filho é professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e autor de vários livros.