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Instantâneos
de uma guerra oculta
Livro "O Clube do Bangue-Bangue" é lançado
no Brasil
"Quando é que você aperta o botão do
obturador
e quando você deixa de ser fotógrafo?"
Greg Marinovich
Conflitos éticos
ocorrem em todas as profissões, entretanto em algumas delas
a situação agrava-se devido a relação
mais direta com seres humanos e, mais ainda, quando está
em jogo a própria vida. "O Clube do Bangue-Bangue: instantâneos
de uma guerra oculta" revela estes e outros conflitos na versão
de Greg Marinovich e João Silva, dois fotógrafos sul-africanos
que acompanharam o fim do apartheid na África do Sul. O livro
mostra os bastidores de uma verdadeira guerra que matou milhares
de pessoas entre 1990 e 1994, ano em que Nelson Mandela, após
27 anos de prisão foi eleito presidente da África
do Sul.

O "Clube
do bangue-bangue", denominação dada por uma revista
sul-africana, era composto por quatro fotógrafos brancos,
de classe média, que não mediram esforços para
captar as violentas cenas que aconteceram, especialmente em Joanesburgo,
em que pessoas eram assassinadas das formas mais brutais e bizarras.
Uma das formas é o necklace, um pneu cheio de gasolina era
colocado no pescoço da vítima e depois era incendiado,
queimando-a viva. O que parecia ser uma briga entre facções
de negros, acabou depois sendo desmascarado pelo governo democrático
de Nelson Mandela, que mostrou a participação decisiva
de brancos instigando divergências entre os próprios
negros.
As fotografias
tiradas pelo grupo mostraram ao mundo a violência que ocorria
naquela região, já que as fotos eram distribuídas
pelas principais agências de notícias como a Reuters,
e outras. A banalização da morte, de certa forma,
também contribuíram para pressionar o próprio
governo a acelerar o processo de democratização do
país. O resultado desse trabalho, infelizmente também
desencadeou problemas pessoais aos fotógrafos, já
que um deles, Ken Oosterbroek foi morto durante um tiroteio entre
facções negras (com envolvimento da chamada Força
Nacional de Manutenção da Paz) e Kevin Carter acabou
se suicidando, em meio a conflitos pessoais e éticos. Kevin
havia recebido o prêmio Pulitzer por uma foto publicada no
New York Times, em que uma criança sudanesa caída
no chão, sem forças para caminhas, é observada
de perto por um abutre.
O grande dilema
que permeia todo o livro é justamente qual a postura a ser
adotada pelo fotógrafo. Por exemplo, no caso de Kevin Carter,
houve uma cobrança mundial sobre o que teria acontecido com
a criança após ser fotografada, o fotógrafo
deveria salvá-la ou não? O próprio autor do
livro comenta a angústia que os assolava cotidianamente:
"Às vezes nos sentíamos uns abutres. Pisamos
em cadáveres, metafórica e literalmente, e fizemos
disso nosso ganha-pão. Mas nunca matamos ninguém e,
na verdade, até salvamos algumas vidas. E talvez nossas fotos
tenham feito alguma diferença, ao mostrarem componentes da
luta de outras pessoas pela sobrevivência que, de outro modo,
não teriam sido vistos" (p. 262).
Relatos como
esse são bastante bem-vindos, pois contribuem para refletir
sobre uma profissão que trabalha com imagens, já que
estas, na atualidade, têm um papel essencial no cotidiano
de uma sociedade altamente imagética. Como disse o Prêmio
Nobel da Paz, o arcebispo Desmond M. Tutu, na introdução
do livro, esta história precisava ser revelada ao mundo e
foi preciso muita coragem de brilhantes fotógrafos para que
isso acontecesse.
O livro conta
a história em forma de diário, possibilitando ao leitor
o ingresso não só aos fatos históricos, mas
especialmente ao aspecto subjetivo da profissão, mostrando
as contradições que assolam o ser humano em suas atitudes
corriqueiras. Se toda essa coragem, de qualquer forma, foi importante
para mostrar o que se passava naquele país, também
representou um enorme custo para os próprios fotógrafos,
como bem coloca Marinovich: "Boas fotos. Tragédia e
violência certamente geram imagens poderosas. É para
isso que somos pagos. Mas cada uma dessas fotos tem um preço:
parte da emoção, da vulnerabilidade, da empatia que
nos torna humanos se perde cada vez que o obturador é disparado"
(p. 199).
Para conferir
uma mostra das fotos, visite o endereço:
www.digitalfilmmaker.com/Bang/bang_frame.html
MARINOVICH,
Greg e SILVA, João. O Clube do Bangue Bangue: Instantâneos
de uma guerra oculta. São Paulo: Companhia das Letras,
2003.
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