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O colar envolvente

Marta Maia

Quando estávamos prontos para embarcar,
fomos acorrentados uns aos outros e amarrados com
cordas pelo pescoço e assim arrastados para a
beira-mar...Por fim, quando chegamos à praia, e
estávamos em pé na areia, oh! como eu desejei que
a areia se abrisse e me engolisse".

(Memória do ex-escravo Mahomma G. Baquaqua)

Os dedos corriam pelo colar. Sinal de tensão. São tantas reuniões e poucas decisões reveladoras de alterações substanciais. Algo se rompe em meio a tantos elos. Desta vez, foi só o fio do colar que sustenta uma história de carinho, de encontro. Recolhendo os adornos da jóia caribenha, que, felizmente, continuam intactos, ela libera a expressão de sua memória afetiva. Esvai-se mentalmente por poucos segundos, já que o senso de responsabilidade é sempre muito acentuado. Sua mente, sempre inquieta, percorre um domingo de 1972...

Surgem impressões dos Fortes, arquitetura arrojada para a época. Época de piratas, de saques e de luta desenfreada pelo ouro. Sonho de Eldorado, de riqueza, da "cólera dos deuses". Percorre as altas muralhas que escondem uma história de ganância, de escravidão, mas também de revoltas. Lembra-se ainda das duas Baías que desenham uma geografia curiosa, bélica e bela.

Lembranças de um barco e de um pequeno povoado. Diferença de trajeto, fuga do Balneário turístico, encontro da história sofrida. Quem a conta é um negro, homem de fibra ancestral, com vínculos enraizados na trama histórica africana. Cartagena também entrou na história como importante porto negreiro. O principal das colônias espanholas na América.

Um domingo com gente de bem, com gente que sobreviveu a todas as intempéries da vida, com um moço negro que esteve nas telas de cinema chefiando uma rebelião de escravos. Ironia do destino que poderia ter sido diferente caso este rapaz resolvesse seguir o convite de Hollywood para uma possível carreira cinematográfica. Ao ser indagado do porquê da recusa, não vacila ao responder: "não vou trair meu povo. A minha cabeça e meus pés têm um chão de verdade pela frente. Só posso estar onde meus antepassados honraram minha história, possibilitando inclusive a minha existência. Sem meu povo eu sou uma pessoa desfigurada, sem rosto".

Aqueles que viajam não esquecem o passado, a história gerada ancestralmente. No estrangeiro a gente se aproxima. A identidade de um povo não acaba porque houve um deslocamento, ela é mais profunda e deixa marcas indeléveis. É no estrangeiro, muitas vezes, que o homem se encontra ainda mais com o seu passado, com a sua gente, com o seu povo. Mas também com os sujeitos identificados com a sua família, esta a universal, a que independe de espaços genéticos ou geográficos definidos para se constituir. Que aproxima seres que sequer se entendem através de códigos instituídos pelas nações, como a língua, por exemplo. São personagens arquetípicos, que extrapolam qualquer visão emoldurada pela psicologia comportamental.

Recolhe as marcadas pedras do chão, guarda-as na bolsa que hoje está combinando com o casaco azul, não sem antes lembrar-se do ato fraterno dos braços negros tirando o colar do próprio peito e colocando-o numa parte de sua história, em pleno colo de uma irmã latino-americana. A reunião continua e ela é obrigada a interferir, afinal o engajamento faz parte do seu jeito de ser humana cidadã.

Primeiro colocado no Concurso de Contos e Poesias do Sindicato dos Professores de Campinas e região (Sinpro), em 1998.

Dedicado à Cremilda Medina

Sobre Marta Maia