Ir para Inicial
Quem sou
Dissertação (mestrado)
Tese (doutorado)
Jornalismo popular
Jornalismo e literatura
Jornalismo e história
Rádios comunitárias
Pesquisas
Cultura
Links interessantes
Dicas
Seu recado
Contato
 

 

 


     
 

Fahrenheit 451
Esse também é quente!

Por Marta Maia

Em tempos de Fahrenheit 9/11, de Michel Moore, vale a pena resgatar o outro, que também é muito quente e atual, o "451: a temperatura na qual o papel do livro pega fogo e queima..." Este romance, escrito por Ray Bradbury em 1953, antevê o papel da imagem nos tempos atuais. O enredo é simples (o próprio Bradbury classifica a sua obra como um "folhetim") e a ambientação também, pois não contém elucubrações tão típicas desse tipo de ficção como cidades futuristas e máquinas mortíferas. O personagem principal, Guy Montag, é um bombeiro que começa a ter uma crise de identidade a partir de conversas com sua vizinha, uma perspicaz adolescente, que questiona uma série de valores existentes na sociedade.

A situação vivida pelos personagens do livro é insólita: como as casas tornaram-se a prova de combustão, a tarefa da corporação dos bombeiros passou a ser a queima de livros. Considerados uma ameaça ao status quo, os livros poderiam trazer idéias que prejudicariam o desenvolvimento de uma sociedade baseada na televisão, no esporte e na cultura do carro (qualquer semelhança com a situação atual não será mera coincidência).

Televisão "em tamanho real" é a expressão máxima da sociedade descrita pelo autor. Ela assume um lugar privilegiado na arquitetura interna das residências: paredes inteiras ocupam o lugar das telas. A interação é quase direta. As pessoas esperam a "presença" de seus convidados em horários definidos e ainda têm a possibilidade de conversar com estes a partir de mecanismos de conversão em que a visita pronuncia o nome da pessoa que está assistindo/participando da representação, já que os roteiros são entregues antecipadamente para os telespectadores.

A frivolidade também é outra marca desta sociedade preconizada pelo autor. Vale a pena citar uma fala em que o bombeiro-chefe, ao perceber a angústia de Montag, descreve a importância da "felicidade" na vida das pessoas: "Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com 'fatos' que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente 'brilhantes' quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia" (p. 86). Atividades e mais atividades, assim não haverá "tempo" para pensar (novamente: qualquer semelhança...).

No prefácio do livro, Manuel da Costa Pinto, jornalista especializado em literatura, estabelece uma relação deste livro com outros autores que discutem o mesmo tema, como Aldous Huxley (Admirável mundo novo) e George Orwell (A revolução dos bichos e 1984) e demonstra que a obra de Bradbury é muito mais sutil do que as outras, pois foi não produzida em um período excepcional da história: "O que interessa aqui, porém, é frisar a singularidade da distopia de Bradbury. Pois enquanto Huxley e Orwell escreveram seus livros sob o impacto dos regimes totalitários (nazismo e stalinismo), Bradbury percebe o nascimento de uma forma mais sutil de totalitarismo: a indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético - a moral do senso comum". (p. 17)

Este livro também teve sua versão para o cinema, em um filme homônimo, dirigido por François Truffaut, em 1966. Filme difícil de encontrar nas locadoras, tem como atores principais Oskar Werner e Julie Christie e retrata a sociedade descrita por Bradbury, em que a posse de livros representa uma situação de risco.

Parece que risco mesmo corremos todos nós se permitirmos que a sociedade continue a disseminar valores consumistas e competitivos a toda hora e em todo lugar. É fogo!

BRADBURY, Ray. Farenheit 451. São Paulo: Globo, 2003.