| |
"Como eles Roubaram o Jogo
- segredos dos subterrâneos da FIFA"
"Bem aventurados os que
não entendem
nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da
tranqüilidade"
Carlos Drummond de Andrade - Sermão da Planície
(Jornal do Brasil - 18/06/1974)
"O sexo, graças
a Deus, não é organizado pela CBF".
Luís Fernando Veríssimo
Por Fábio Frattini Manzini
"O futebol era um belo jogo - sem classes
sociais, cego para cor da pele, unificador. Dava-nos uma língua
universal. Oferecia ideais magníficos. Era, de muitas maneiras,
um exemplo de como a vida devia ser vivida. Tinha integridade, tinha
honestidade, tinha ética e tinha moral. Não mais.
Eles roubaram. Eles roubaram o jogo".

O trecho acima foi retirado do livro "Como
eles roubaram o jogo - segredos dos subterrâneos da FIFA"
lançado em 1998, do jornalista inglês David Yallop.
Pode ser encarado como um desabafo. E assim o é. Ele, no
livro, faz um panorama não só da FIFA, após
ser chefiada por João Havelange e posteriormente por Joseph
Blatter, como também do futebol mundial e seus cartolas.
Futebol que mudou muito desde o começo
do século, que hoje está voltado mais para o negócio
($), do que para o jogo dentro do gramado em si. Mas quem roubou
o jogo? Para o autor, a resposta é simples foi João
Havelange e seus amigos: Joseph Blatter e mais umas centenas de
cartolas e donos de TV e profissionais de marketing, principalmente
Horst Dassller, todo poderoso da empresa de material esportivo Adidas
e Patrick Nally. O presidente da CBF (Confederação
Brasileira de Futebol), Ricardo Teixeira, também está
incluído neste pessoal que "roubou o jogo", em
troca de comissões e dinheiro fácil.
Para produzir este livro, David Yallop entrevistou
João Havelange em 1998, no final de maio. A entrevista com
o Rei-Sol, como Yallop o chama no livro, durou dois dias e foi a
última que Havelange concedeu como presidente da FIFA. Dois
meses depois ele foi substituído por Joseph Blatter.
O resultado desta entrevista com João
Havelange é dissecada em todo o livro. Como eles roubaram
o jogo é quase uma biografia não autorizada de Havelange,
amarrada com várias outras entrevistas de pessoas que participaram
da vida dele, em sua maioria, com a história não oficial
das Copas do Mundo.
Yallop nos mostra um Havelange detalhista, capaz
de lembrar de tudo o que lhe interessa nos mínimos detalhes.
Um Havelange disposto a fazer tudo para alcançar seus objetivos,
desde a comprar votos, quanto "eliminar" do seu respectivo
cargo a pessoa que o está atrapalhando.
Segundo o autor, João Havelange não gosta da imprensa
e ainda menos das perguntas feitas pelos repórteres. "João
Havelange não dá entrevista, concede audiências",
diz o autor.
Nas páginas 336 e 337 do livro, o autor
comenta a entrevista feita com João Havelange.
"Ele cooperou com grande boa vontade durante
parte muito grande do tempo que passamos juntos. Conhecendo-lhe
o costume de explodir e dar por encerradas prematuramente as
entrevistas se seu orgulho ou auto imagem fossem ofendidos,
ponderei cuidadosamente o momento de fazer uma pergunta difícil".
Ao fazer a pergunta difícil, indagando
Havelange sobre desfalques na CBD, práticas comerciais corruptas
na FIFA, comissões pagas para o dono da Adidas, Yallop se
certificou que seu tradutor, que trabalha com ele há mais
de 20 anos, traduzisse a pergunta para o francês conforme
suas palavras.
Havelange ao ser questionado sobre isso inclinou-se
em direção ao autor, apontou o dedo para ele e respondeu
evasivamente, dizendo de seus princípios éticos e
que o autor fosse ao Brasil conversar com qualquer pessoa para ver
sua opinião sobre ele e que nunca tinha pedido ajuda de ninguém.
Uma resposta evasiva, diante de inúmeras provas do autor.
No livro, o autor nos mostra várias provas
de desfalques de Havelange e que no Brasil não existe só
pessoas que falam bem dele, como o próprio Havelange pensa.
O autor entrevistou inúmeras pessoas que combatem a figura
do ex-todo poderoso da FIFA. Como por exemplo, o Dr. Lobo, ex-sócio
comercial de Havelange e Márcio Braga, que acusa Havelange
de ter sido informante de governos militares, fato comprovado pelo
autor, ao ouvir outra fonte.
Além de várias outras pessoas,
cartolas, jogadores, empresários, Yallop entrevista Pelé,
com quem Havelange teve uma rusga pelo fato do ex-jogador ter criticado
Ricardo Teixeira. Por causa disso, segundo o autor, Havelange, tirou
Pelé do sorteio da Copa do Mundo de 1994.
Sobre Pelé, cabe aí uma crítica
ao autor. Yallop coloca o Rei do Futebol como eterna vítima
dos desmandos de Havelange. Sabemos que Pelé não é
nenhum santo e teve envolvido em negócios que estão
sendo investigados com seu ex-sócio Hélio Vianna,
depois de ter montado uma empresa de marketing esportivo. Parece
aí, que o autor deixa transparecer um pouco sua figura de
fã. Outra crítica, é que algumas acusações
são jogadas no ar e não são tão aprofundadas,
ficam como suposições, como o doping de Maradona.
David revela que a FIFA teria autorizado informalmente
o doping de Maradona para garantir a presença do craque na
Copa de 1994, para atrair mais atenção de todos. Resumindo:
Mais visibilidade, mais dinheiro. Depois, a FIFA suspendeu o craque
por doping na própria Copa. Uma conspiração,
que pode ter ocorrido como vingança pelas declarações
do craque argentino, quatro anos antes, chamando a FIFA de máfia.
Ele supõe que a suspensão do craque argentino pode
ter ocorrido, por uma tramóia de Havelange para ver o Brasil
campeão, já que seu genro era presidente da CBF. Apenas
suposições, nada provado.
Situações retratadas no livro
acontecem até hoje, tanto na FIFA, como no Brasil, na CBF
e no mundo do futebol. Como diria Cazuza: "eu vejo um museu
de grandes novidades". O futebol já foi alvo de CPI,
mas deu alguma coisa? Que nada. Uma viagem para assistir um jogo
da seleção brasileira, com tudo pago para um juiz
ou para um advogado é melhor forma de se esquecer as coisas.
É possível não concordar
com muitas coisas que o autor escreve no livro, mas Como Eles roubaram
o Jogo é essencial para se entender e compreender o que levou
o futebol a se transformar de um simples esporte a um grande negócio.
Negócio este que move bilhões de dólares, não
para o bem do jogo, mas sim para o bolso dos cartolas.
YALLOP, David A. Como eles roubaram
o jogo: segredos dos subterrâneos da FIFA. Rio de Janeiro:
Record, 2002.
Fábio Frattini Manzini é jornalista.
Atualmente trabalha no site www.futebolinterior.com.br,
além de colaborar com outros sites e Agência de Notícias.
|
|