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A MORTE ENTRE A POSE E A POSSE
(instantâneas # 1)

José Lima Jr.

A descoberta e o desenvolvimento da fotografia na cultura moderna trouxeram uma inequívoca mudança no modo como a pessoa humana passou a se retratar e preservar sua imagem em algum suporte material. Só para referimos a um aspecto, lembremos que antes do surgimento da fotografia imagens eram basicamente privilégio de uma elite que dispunha de recursos para pagar desenhistas e pintores. Depois, com o advento e as facilidades das câmaras fotográficas instantâneas houve, pouco a pouco, uma espécie de popularização no acesso à reprodução técnica da própria figura, "eternizando-a".

No interesse pela fantasia da "imortalidade", pessoas passaram até a relevar, aceitar situações talvez muito constrangedoras ou, no mínimo, desconfortáveis. Referências à história da fotografia, resgatadas por W. Benjamin, nos dão conta que

no cemitério franciscano Greyfriar de Edinburgh foram tomadas muitas imagens por David Octavius Hill (e) nada caracteriza melhor essa primeira época (meados do século XIX) do que a maneira como os modelos se sentem em casa neste cemitério.(1)

Assim, alguns lugares que pareciam impróprios para uma tentativa de "imortalização" - certos cemitérios, com suas lajes dispostas em recantos calmos - acabavam sendo os espaços mais propícios para os expedientes de pose, imperiosamente longos. Isso nos leva a imaginar o quanto a pose (que, à época, exigia a mais absoluta posição estática possível) concorreu para um desvio: na imobilidade - própria de um morto - buscavam garantir uma imagem que acabava sugerindo estarem "vivos-para-sempre".

Hoje em dia, não obstante sua afeição pela morte apresentar sinais de vitalidade, simultaneamente a fotografia também flagra e consagra o humor, numa discutível predicação. Noutros termos, apesar de sua faceta fúnebre, o ato fotográfico ainda se assemelha a um jogo de criar signos substantivos, que substituem (ou pretendem substituir) a morte exatamente no lapso de tempo em que ocorre a pose, a saber, através do fingimento diante da câmera e na auto-realização por trás dela.

Afinal, posar para a câmera sempre implicou um paradoxo: afirmação da corporeidade (pela imagem que se quer obter) e negação desse mesmo corpo (devido a imobilidade necessária). Numa fração de minuto congelada, visamos eternizar um momento. Quanto mais "morto" nosso movimento, mais "jeito de jogo" imprimimos ao registro; quanto mais imóvel o nosso corpo-vivo, mais fingida e falsa a figuração que alcançamos. Nossa pose acaba sendo, por este ângulo, como disse Arlindo Machado,

uma espécie de vingança do referente: se for inevitável que a câmera roube alguma coisa de nós, que ela roube então uma ficção.(2)

Há nessa mentira da corporeidade uma enorme demonstração do infinito desejo humano de subverter a natura pelos artifícios da cultura. Óbvio que o sucesso desta empreitada escapa completamente ao cabal, ao absoluto. Sempre a morte tem e terá a última palavra. Porém, o que mais nos instiga como humanos, como inventores e inventados pela cultura é que, definitivamente, somos teimosos; inconformados com o inexorável, procedemos ao sabor-e-saber de nossos inúmeros truques e mágicas. Ou, conforme as palavras de R. Barthes,

a partir do momento em que me sinto olhado pela objetiva, tudo muda: ponho-me a posar, fabrico-me instantaneamente um outro corpo, metamorfoseio-me antecipadamente em imagem. Essa transformação é ativa: sinto que a Fotografia cria meu corpo ou o mortifica, a seu bel-prazer.(3)

Se, por um lado, há como que um deslocamento do suicídio ao posarmos, por outro lado, há um tipo de homicídio quando possuimos o fotografado. Isto posto, caso proceda tal hipótese, convém deixarmos a questão da pose e nos voltarmos um pouco ao problema da posse. Ainda segundo o notável frankfurtiano, Walter Benjamin,

aquele amador que retorna para casa com inúmeras fotografias feitas por ele não está menos satisfeito do que um caçador que volta de uma caçada com um monte de animais abatidos...(4)

E Susan Sontag, dentro de sua peculiar competência para polêmicas, parece-nos estender e agudizar as palavras de Benjamin acima citadas. Em nosso contexto de virada de século e início de milênio, achando-nos perdidos, orfãos de paradigmas - outrora suficientes e utópicos - ela nos denuncia algo sobremodo grave:

fotografar pessoas é violá-las e vê-las como jamais podem ver-se a si próprias, conhecê-las como nunca poderão conhecer-se; é transformá-las em objetos de cuja posse nos asseguramos simbolicamente. Do mesmo modo que a câmara é uma sublimação do revólver, fotografar alguém é um assassinato sem vigor, bem de acordo com uma época triste e cheia de temor.(5)

Portanto, a fotografia pode revelar-nos a morte tanto pelo gesto suicida de quem posa quanto pelo gosto canibal de quem se apossa de outro. Há nisso tudo um protótipo de uma determinada necrofilia, científica e socialmente permitida, além de econômica e politicamente estimulada. Afinal, a morte continua sendo um negócio altamente rentável para ideologias e manipulações das mais variadas nuances: desde algumas formas de arte até específicos segmentos religiosos.

Citações:

(1) BENJAMIN, W. - "Pequena história da fotografia", in "Textos - Grandes Cientistas Sociais", p. 223. São Paulo: Ed. Ática, 1985.
(2) MACHADO, A . - "A ilusão especular", p. 43. São Paulo: Tese PUC-SP, 1983.
(3) BARTHES, R. - "A Câmara Clara", p. 22. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1984.
(4) BENJAMIN, W. - Op. cit. p. 237.
(5)SONTAG, S. - "Ensaios sobre fotografia", p. 14. Rio de Janeiro: Arbor, 1981

José Lima Jr. é filósofo e professor da Universidade Metodista de Piracicaba