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A FOTOGRAFIA COMO MÉTODO
(instantâneas
# 2)
José
Lima Jr.
O premiado
fotógrafo Sebastião Salgado, afirmou numa entrevista: Fotografia
para mim é uma forma de escrever, de contar histórias(1).
O destaque por nós sublinhado nas palavras deste brasileiro com
renome internacional corresponde ao nosso objetivo/interesse neste
artigo: tematizar sobre recursos fotográficos e ciências sociais
(lato sensu) e, mais especificamente, sobre fotografia e
método.
Como sabemos,
uma forma de equivale a modo como, jeito pelo qual,
maneira através de... Também lembramos que a palavra método
tem como origem a expressão grega metá tá (h)odon, que significa
caminho através do qual. Portanto, método é um caminho, uma
via, um meio, um jeito, um modo, uma forma de... No caso da frase
de Salgado (que tem como formação acadêmica e significativa experiência
profissional anterior, passagens pela área das ciências econômicas),
entendemos seu significado no sentido de que ele toma a fotografia
como seu jeito, seu modo, seu método de (d)escrever as realidades
da concretude social. Parece-nos que para ele a foto-grafia (registro
da luz) é também historio-grafia (registro do que se conhece). E
o conhecer, por definição, nunca é neutro.
Salgado não
esgota os casos de vínculo metodológico foto/história. Sem dúvida,
muitas pesquisas científico-históricas resultam de releituras sobre
a realidade social, feitas a partir do que a fotografia escreve-e-traduz.
Bem mais que apenas subsídio ilustrativo ou corroborativo, a fotografia
tem se constituído como elemento/fator metodológico fundante do
fazer epistêmico - sempre compromissado/comprometido com algum objetivo/interesse.
Tentando avançar
um pouco mais, lembramos que apesar do caráter mecânico da câmara
fotográfica, a fotografia está bastante longe de uma suposta representação
mecânica, automática da realidade. Entre um momento "captado" da
realidade e seu incapturável movimento pulsam inúmeras complexidades.
E o que se vê, através da câmara fotográfica e das necessárias manipulações
dos laboratórios fotográficos, está sempre cercado por condições
objetivas e subjetivas sobremodo determinantes. A propósito, com
particular ênfase nesta subjetividade, o jornalista Janio de Freitas,
prefaciando um livro do próprio Sebastião Salgado, nos alerta:
É
um engano corrente, que percorre o mundo e o tempo, o de que
a câmera fotografa o que o olho vê. Não, ela registra o que
a alma vê. E os olhos da alma não são os olhos do rosto, também
meras câmeras. Os olhos da alma são este mistério impenetrável
que se chama sensibilidade - um confuso amálgama de talentos,
história pessoal de vida, instinto, reflexos, convívio, raízes
culturais e todo o inexplicável humano(2).
Com certeza,
este aviso nos faz pensar com maior senso de apuro o seguinte: as
implicações relativas ao jeito como os olhos lêem escapam, portanto,
ao âmbito do simples; não são pequenas e poucas as suspeitas diante
das determinantes (e seus imponderáveis) que fazem variar as leituras
visuais. Só que, mesmo assim,
ninguém
poderá sustentar que, por inverter as imagens na retina, o
olho "falsifica" o mundo visível. (...) Ele apenas tem sua
maneira de ver e essa é a sua única técnica operativa. Assim
como não se pode exigir que o olho seja o que não é, assim
também não se pode entender o mundo sem invertê-lo(3).
A citação acima
vem do rigoroso estudo semiótico sobre fotografia, realizado pelo
respeitadíssimo Arlindo Machado. Dando relevo ao que há de inevitável
no procedimento ótico (dos olhos e da câmera fotográfica), o referido
autor recoloca a temática da "inversão ideológica", ampliando sua
complexidade ao relacioná-la aos sofisticados mecanismos de observação
(tanto do corpo humano quanto da máquina fotográfica).
Victor Burgin,
ao pensar sobre os olhares que atravessam o processo fotográfico
e preocupado com sua dimensão ideológica, conclui que a fotografia
é um lugar de trabalho (place of work(4)
), um espaço estruturado e estruturante... Então, não dá para ignorarmos
que a objetiva da máquina traduz um assunto (subject) em
discurso semioticamente codificado, enquanto a subjetividade de
quem fotografa intervem para pintar (picturing) uma imagem
que será, independente de qualquer intuito, no mínimo, a réplica
exata da impossibilidade de exatidão ao representar. E mais,
sabemos que a sensibilidade do filme, conforme diversos tratamentos,
pode sugerir inúmeras respostas não só nos suportes suscetíveis
à luz, bem como nas inusitadas idéias e inevitáveis inversões de
quem olha e vê a foto.
Noutros termos,
desde a gênese da (proto)photographia, a refração da luminosidade
do objeto nas lentes da câmera obscura já construía uma imagem
(distribuída no plano bidimensional) portadora de ambigüidades que,
ainda hoje, obscurecem a compreensão do real/fotografado. Ao congelar
o r(ar)efeito cotidiano..., ao embalsamar o fugidio dia-a-dia, a
câmera fotográfica submete e subverte a situação, minimizando/reduzindo
a complexidade da natura (em sua possível plurividência) ao arranjo
da perspectiva central única (... e tudo isso, muitas e muitas vezes,
numa fração de segundo).
Essa redução,
sem dúvida, funciona como exercício semiótico do poder. Na própria
materialidade da foto está consubstanciada a convergência periferia/centro.
A definição delimitadora da imagem/realidade no quadro pictórico/cultural,
estabelecida a partir do enfoque centralizador... faz co-incidir
uma história ótico-científica/político-ideológica: ao se obnubilar
o código das lentes, também se oblitera uma leitura desfocante oriunda
da linguagem hegemônica (... infelizmente, o obturador também serve
para esconder ou negar o diverso/divergente, até mesmo em nome da
diversão).
E quase terminado
estes ligeiros e despretensiosos parágrafos, transcrevemos uma cuidadosa
passagem de Walter Benjamin:
Já
se disse que o analfabeto do futuro não será aquele que ignora
o alfabeto, mas aquele que ignora a fotografia. Mas será que
não é menos analfabeto o fotógrafo que não sabe ler as suas
próprias imagens?(5)
Portanto, visto
que ler fotos é bem mais que olhar pela vidraça da câmera ou pela
janela da cópia (revelada/ampliada), uma leitura do real
por meio da fotografia exige sempre alguma reflexão, alguma legenda
como moldura semiótica. Assim, tão fundamental quanto as imagens
fotográficas é um suporte crítico (um sistema estruturado com conceitos
e critérios) que procure decodificar as coordenadas que in-formam
as mesmas imagens fotografadas.
Valendo-nos
das sugestões de Burgin e no empenho de resumir alguns pontos sobre
a fotografia como método (lugar de trabalho ideológico-científico),
convém agora enumerarmos possíveis e ulteriores aprofundamentos:
(1) a fotografia, como registro material de um ponto-de-vista enquadrado,
é lugar de trabalho de um mecanismo, de um sistema físico-químico;
(2) a fotografia, como enquadramento cultural de um ponto-de-vista,
é lugar de trabalho de um corpo situado em condições históricas
específicas; (3) a fotografia, como opção de luminosidade e foco,
é lugar de trabalho codificador de um sentido semiótico; (4) a fotografia,
como produto para leitura, é lugar de trabalho de uma decodificação
redefinidora e reorganizadora de sentido.
Citações:
(1)
SALGADO, S. - Declaração citada pela revista ISTOÉ, # 1234 (26/05/93),
p. 74 (destaque nosso). São Paulo: Editora Três, 1993.
(2)FREITAS,
J. - "A condição de Salgado", in SALGADO, S. "As melhores fotos",
p. 5. São Paulo: Bocatto Ed., 1992.
(3)MACHADO,
A. - "A ilusão especular", p. 6. São Paulo: Tese PUC-SP, 1983.
(4)BURGIN,
V. - "Thinking Photography", p. 153. London: MacMillan Press, 1982.
(5)BENJAMIN,
W. - "Pequena história da fotografia", in Textos Grandes Cientistas
Sociais, p. 240. São Paulo: Ed. Ática, 1985.
José
Lima Jr. é
filósofo e professor da Universidade Metodista de Piracicaba
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