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FOTOGRAFIA E FISGADA EMOCIONAL
(instantâneas # 3)

José Lima Jr.

A fotografia, além de se prestar como objeto e método de estudo, também oportuniza outro aspecto que "acontece" na recepção, na leitura de uma foto. É um acontecimento que não se configura apenas pela prevalência da razão e sim, principalmente, pelo fisgar emocional. É algo que coloca entre parênteses a frieza epistêmica, suspendendo o studium da pretensa pura e neutra objetividade. É o que Barthes batizou de

punctum... picada, pequeno buraco, pequena mancha, pequeno corte - e também lance de dados. O punctum de uma foto é esse acaso que, nela me punge (mas também me mortifica, me fere)(1).

Com isso estamos, num átimo, lembrando que além da ordem física (reflexo e refração), além da ordem química (sensibilização e fixação), à linguagem fotográfica cabe a possibilidade de provocar a ordem poético-estético-catártica da memória e do sentimento. A experiência punctual, transcendendo categorias, responde às tensões subjetivas de quem está diante de uma determinada foto. E sendo esta subjetividade intransferível, incomunicável... seriam inócuos nossos esforços para abarcar e explicitar todo seu sentido; afinal, o que está em jogo no punctum é uma emoção.

Às vezes, essa "coisa" inefável que nos fisga diante de uma determinada foto talvez esteja reverberando, durante nossa leitura desta imagem específica, algum dos muitos (e, nestas horas, esquecidos) arquétipos pictóricos que povoam o inconsciente de nossa civilização, conforme as palavras de Arlindo Machado(2).

Aliás, qualquer representação pictórica pode nos trazer essa dimensão metafísica. Porém, a força da fotografia nesse aspecto reside justamente na historicidade do referente - o que nos dá à reflexão/emoção um potencial de penetrante e profundo abalo: o que vejo(3) existiu. Fechando os olhos para a foto, mas ouvindo seu discurso emocional, recordamos nossas experiências - o que nos põem a pensar na possibilidade delas também terem sido densas realidades na vida de outras pessoas. Sim-patia. Portanto, ainda que a ferida do punctum seja uma construção marcadamente subjetiva para quem vê/esquece/recorda/se vê diante da foto, há um dado objetivo (o referente) que nos convida à solidariedade e/ou indignação existencial desde nossas entranhas.

Assim, o contraditório (racional/emocional) que a imagem fotográfica apresenta para a epistemologia, dentro da tensão semiótica entre o referente da realidade e a referência da representação, levanta-nos ainda outro problema: as máquinas fotográficas que até agora dispomos, não tendo a versatilidade do aparelho humano de visão binocular, não conseguem passear pela tridimensionalidade de um campo visual operando as devidas adaptações. Reduzem o quadro a uma perspectiva estática e única, optando sempre por uma só passagem de luz. Com efeito, não existe, de fato, o que se vê na foto, ainda que tenha sido tirada, tomada de algo que existiu (...pois isto foi assim).

Escapando-nos a possibilidade de estabelecer uma rigorosa e exata correspondência (analógica) entre o visto na revelação ampliada e o vivido no real, estamos convencidos que esta lacuna fica-nos ainda mais acentuada nas fotos de maior densidade estética. Talvez seja precisamente a falha desta representação analógica que torna a fotografia portadora de alguma qualidade estética. Ou seja, a ruptura com o mesmo desvia a foto dos limites do logos e a expõe ao pathos - esse novo da sensibilidade ante o visível-que-instaura-e-metaforiza-a-emoção.

Daí o paradoxo: a revelação/ampliação recria mistérios, faz surgir, de acordo com Joan Costa, partículas... morfemas no perceptibles en la visión directa de la realidad y si en la imagen(4). E insistindo nesta dimensão inventiva, J. Costa também nos avisa sobre as decorrências emocionais tributárias dos morfemas na imagem construída:

la fotografia es un procedimento técnico de REPRESENTAÇÃO ANALOGICA de lo real visible. El perfeccionamiento técnico alcanza tales grados de fidelidad óptica en la literalidad de la transcripción, y por otra parte, la sedución mágica que opera la Imagen es tal, que el pensamiento ingenuo confunde la literalidad reproductiva analógica de las apariencias con objectividad. La imagen fotográfica es siempre un fragmento del continuum de lo real y ella misma constituye una metáfora de ese contiuum(5).

Portanto, no intervalo fato/foto "coisas acontecem" na complexa trama câmera/filme/laboratório, resultando numa tradução pouco fiel ao original, desafiando razões e emoções, inventando o faz-de-conta. Contudo, em tempo, é imprescindível notarmos como na própria concretude do aparato fotográfico - mesmo mantendo seu constitutivo físico-químico, seus elementos de materialidade - estão as condições para se estabelecer uma variada gama de sentidos, inclusive os que apelam para nossas emoções e fantasias. Na interação câmera-filme-laboratório residem as chances polisêmicas que, conforme afirmou Ernest Hass, acabam por nos sugerir a fotografia como

uma mentira dizendo a verdade, um sim e um não ao mesmo tempo, um é e um não é. Digamos que é um momento poético no qual o faz-de-conta cria nova vida(6).

Citações:

(1) BARTHES, R. - "A Câmara Clara", p. 46. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1984.
(2) MACHADO, A. - "A ilusão especular", p. 53. São Paulo: Tese PUC-SP, 1983.
(3) Nota do autor: propositadamente, deixei de conjugar "vemos" (como deveria em concordância ao conjunto do texto) para acentuar o que há de mais subjetivo na experiência punctual.
(4)COSTA, J. - "Sobre la noción de analogia en la creación fotográfica", in Oliveira, A. C. & Santaella, L. (org) - "Semiótica da Comunicação e outras Ciências", p. 26. S. Paulo: EDUC, 1987.
(5) COSTA, J. - Op. cit., p. 15 (sublinhados nossos).
(6) HASS, E. - "O prazer de fotografar", p. 61. Ed. Nova Cultural, 1980.

José Lima Jr. é filósofo e professor da Universidade Metodista de Piracicaba