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Bem vindo à Locômbia!

Locômbia: "País de loucos, delirantes, poetas e artistas, país sonhado e utópico". É com esta aliteração do nome Colômbia, que o grupo Locômbia Teatro de Andanzas vive há 16 anos, percorrendo inúmeros países e constituindo um trabalho sólido e inovador no âmbito do teatro não verbal, utilizando-se de técnicas como Mímica, máscaras, circo, Dança Clássica da Índia, pernas de pau, música ao vivo e dramaturgia específica.

Em suas "Andanzas", o grupo já percorreu países como Equador, Peru, Argentina, Brasil, Paraguai, Venezuela, Costa Rica, México, Canadá, Alemanha, Itália, Suíça, Eslovênia, Hungria, Suécia, Dinamarca, Índia, Nepal, Tibet, Moçambique, Brasil e a própria Colômbia. Atualmente, a trupe reside no Brasil.

O grupo nasceu em 1981, de uma associação de Poetas, escritores, jornalistas e fotógrafos em um Mimo, na cidade de Barranquilla (Caribe colombiano). A partir daí, surgiu a necessidade de formar um grupo de artistas para desenvolver atividades artísticas na cidade, o nome inicial foi "La Tarima" que significa: Palco posto na rua.

O nome atual surgiu em 1987, quando o grupo foi proibido de entrar na embaixada colombiana em Brasília, durante evento comemorativo, apenas porque não estavam vestidos adequadamente. O grupo queria participar do evento, oferecendo seu espetáculo, entretanto não passou da porta de entrada. Desde então, optaram por não pertencer mais a nenhum país.

A passagem pela Índia foi uma experiência significativa para o grupo, uma vez que a arte desse país tem uma ligação intrínseca com a religiosidade, tornando-a algo muito diferente do comum. O espetáculo infantil "Maha Bahara" e também o de Dança Odissi (indiana) são alguns dos trabalhos criados a partir dessa viagem, que durou cinco anos.

O grupo é composto pelo casal Orlando Moreno e Beatriz Brooks. Atualmente, foi incorporado à trupe, o novo integrante Shanti Sai, um simpático garoto de pouco mais de dois anos, filho do casal. Normalmente, eles viajam para diversas localidades em sua Kombi/Casa, realizando turnês em vários pontos do país. No mês de junho, o grupo se encontra no Estado de Minas Gerais, tendo se apresentado em Juiz de Fora e Tiradentes, seguindo então para o Rio de Janeiro.

Em entrevista exclusiva, diretamente "da estrada", Orlando Moreno dá mais detalhes sobre a trajetória, a técnica e o estilo de vida do Locômbia.

Barão em Revista: O nome "Locômbia" é uma aliteração de "Colômbia"?

Orlando Moreno: Sim, o nome nasce no momento em que fomos barrados na embaixada da Colômbia em Brasília, no ano de 1987, quando pretendíamos participar da festa do dia da independência, só porque não tínhamos paletó e gravata (a gente vestia smoking teatral), queríamos dar de presente uma apresentação na festa. Assim que ficamos com os instrumentos na rua e impotentes ante a discriminação diplomática. Dali para adiante, resolvemos chamar o grupo de Locômbia (País de loucos, delirantes, poetas e artistas, pais sonhado e utópico), afirmando não querer representar um pais injusto donde se atenta contra os direitos humanos, nem defender uma bandeira com cores contraditórias: como o amarelo, que significa o ouro que já não existe. Azul, o céu que é invadido e o vermelho, que representa a sangue de nosso povo.

B. R. Por que o teatro não verbal?

Orlando: O teatro essencialmente é o ator, quando usa a palavra esta se apoiando na literatura. Nesse sentido, achamos que o teatro não verbal seja mais essencial. Em nosso caso, que viajamos por diferentes países, a palavra seria uma barreira. Assim, preferimos contar com o corpo, e o gesto para sermos mais universais.

B. R. Como se deram as primeiras pesquisas para este teatro não verbal?

Orlando: Na Colômbia somos filhos do movimento teatral de grupo, no qual compartilhamos experiências com grupos de Teatro de Rua, Circo, Músicos e Dramaturgos, no intuito de formar atores integrais a partir de diferentes técnicas. Cansados da retórica das escolas de teatro, através dessa convivência, começamos nossa experiência no ambiente teatral.

B. R. Atualmente, quais são as principais técnicas do "teatro não verbal" que o grupo utiliza?

Orlando: Mímica, máscaras, circo, Dança Clássica da Índia, pernas de pau, música ao vivo e dramaturgia específica.

B. R. O espetáculo "Maha Baraha" é direcionado também para o público infantil. Como é aplicada a técnica do teatro não verbal para essa faixa etária?

Orlando: Maha Baraha e uma adaptação da Mitologia Indiana. Utilizamos a trama deste conto maravilhoso e, através de símbolos, criamos imagens que vão ilustrando a história. As máscaras, a música e a cor cativam a atenção das crianças.

B. R. O fator que os motivou a viver "na estrada" tem a ver com a filosofia hippie norte-americana dos anos 70? O que os motivou a esta filosofia de vida.

Orlando: Não. No começo, a gente viajou por diferentes festivais e carnavais na Colômbia, como fonte de inspiração. Logo fomos convidados pelo grupo Yuyachkany, do Peru, depois de uma experiência de paródias às peças teatrais do Festival Internacional de Teatro de Manizalez (Colômbia). Logo, foram surgindo convites para Argentina, Brasil, Canadá, e desde então não paramos mais.

B. R. Qual a característica da cultura indiana que mais os cativou, uma vez que vocês a seguem como um todo (alimentação, música, yoga, etc.)?

Orlando: Antes de chegar na Índia, sempre que nos perguntavam qual era a nossa religião. Respondíamos que era a Arte. Na Índia, isto é essencial. Não existe arte que não seja oferecida aos deuses. Então, esse respeito e essa vocação nos cativa.

B. R. Atualmente, vocês são devotos de alguma divindade hindu?

Orlando: A dança que praticamos, Odissi, é oferecida ao Deus Jagannath, uma representação de Visnhu, o Deus que preserva o Universo. Nossa filosofia de vida esta vinculada à preservação da natureza e seremos devotos de qualquer religião que tenha esse propósito.

B. R. Existem algumas características semelhantes do "teatro não verbal" na cultura indiana?

Orlando: Muitas. Na dança indiana, o ator é um contador de história, que é seguido pelos músicos em seus movimentos. Eles têm um apurado trabalho de gestos e códigos com as mãos que dispensam a fala, além de todo um trabalho corporal.

B. R. Como vocês definiriam a questão cultural no Brasil em relação a outros países que já estiveram (como os da Europa)?

Orlando: Não há muita diferença. O teatro brasileiro é muito amplo... Podemos dizer que na maioria das vezes, olha-se muito para Europa. A diferença de movimentos teatrais na América Latina, em países como Peru, Colômbia e Uruguai, onde o teatro de grupo e de criação coletiva começou primeiro. Agora se generaliza uma cultura global que acaba com a identidade de cada povo. A diferença, em relação à Europa, é que a política cultural no Brasil é muito comercial e as poucas companhias e grupos teatrais terminam fazendo publicidade ao comércio, graças a lei de incentivo á cultura do governo. Isto faz com que, no final, o teatro seja um produto que deva agradar àqueles que o patrocinam.

B. R. Como é conviver com culturas de países tão diferentes entre si e de que forma essas "andanzas" influenciam o trabalho do grupo?

Orlando: A viagem é como um livro que se abre, a cada passo se aprende e se compartilha novas experiências, influenciando tanto na vida como no trabalho. Ë uma fonte de inspiração.

Para conhecer mais sobre o trabalho grupo Locombia Teatro de Andanzas, visite o site:

www.locombiateatro.tk