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Dona
do Seu Nariz
"A arte do Clown como instrumento
de formação humana"
Por
Clóvis Tôrres
A atriz Adelvane
Néia é uma artista que foge dos estereótipos
que comumente marcam alguns artistas. Residente em Barão
Geraldo, em Campinas, ela veio de Jacarezinho, interior do Paraná,
para fazer um curso de clown e, para sua surpresa, enredou-se
tão profundamente nas tramas das artes cênicas, que
acabou se mudando para a cidade, dando assim continuidade a seu
trabalho artístico. Porém, desta vez, trilhando os
caminhos do auto-conhecimento artístico e pessoal através
da investigação do seu próprio "clown".

Clown Margarida
no espetáculo A-MA-LA.
Foto: Ricardo Oliveira
Aos dez anos
de idade ela já era atriz nos espetáculos infantis
de sua cidade natal e cumpria temporadas de até dois meses
no início dos anos 70. "Nesta época eu já
sabia o que queria da vida: ser atriz. Depois participei do Festival
de Teatro de Londrina e já tinha a disciplina que a profissão
exige. Mas as dificuldades são enormes e resolvi fazer Artes
Plásticas na cidade de Ourinhos/SP, após ter prestado
vestibular também para direito e administração;
porém, continuando sempre com o teatro. Depois, a própria
convivência universitária e as viagens que fazíamos
a São Paulo serviram para aguçar minha necessidade
de buscar uma formação artística mais sólida",
observa. Em 1983 ela foi para o CPT - Curso Permanente de Teatro
no Teatro Guaíra, em Curitiba. Foi lá que sua vida
artística começou a se consolidar e a mudar. Conheceu
Carlos Simioni (ator do Grupo LUME) de quem se tornou companheira
de turma e grande amiga, ainda antes de desistir da conclusão
do curso. "Descobri que tinha outros caminhos para tirar o
DRT (registro profissional), para me aperfeiçoar e descobrir
minhas potencialidades e não achei importante terminar o
curso. Parei no terceiro ano".
Não foi
por acaso que ela parou de freqüentar o curso de artes dramáticas,
mas por convicção de que este não era o seu
caminho, embora defenda o estudo e a aprendizagem constante para
o ator. "Acho importante que o ator se aprimore, se interesse
pela arte como um todo, mas não vejo necessidade de se fazer
uma escola superior de cênicas. Acho importante estar em contato,
o difícil é fugir dos estereótipos. Eu fugi
de ser a boazinha, a frágil, delicada, que pode representar
personagens sempre iguais. Meus professores sempre diziam: seu tipo
físico será para a frágil, a delicada, a sofredora".
Mas por que este estigma, se eu posso ser tudo, fazer qualquer coisa?".
Foi com este raciocínio que ela recebeu a tarefa de "ser"
a Cordélia (a filha mais jovem) na peça Rei Lear,
de Shakespeare, e relutou até realizar o trabalho com convicção.
"Era a frágil, delicada, eu não queria isso!".
Para a atriz,
a necessidade de estudo dos atores pode ser saciada em grupos de
estudos e linguagens que desenvolvem trabalho de pesquisa e proporcionam
a convivência e a troca de informações e experiências.
"Aqui em Campinas temos boas opções. O LUME,
o Barracão Teatro, Seres de Luz, e outros... (discreta, ela
não cita os cursos que ministra anualmente sobre a técnica
do clown. Em julho deste ano ela realizou o VI Curso de
Iniciação de Clown e já contabiliza
mais de 200 alunos). Ressalta ainda que se fosse escolher um curso
superior hoje não escolheria artes cênicas, mas sim
ciências sociais (antropologia), filosofia ou outro curso
que estimulasse o pensamento crítico. "Acho que o ator
precisa ter percepção de mundo, além de si
mesmo. Ressaltar a importância de refletir sobre o mundo e
trazer esta reflexão para seu trabalho. Sem consciência,
não há ator. O que acontece muitas vezes nos cursos
de cênicas é que eles acabam ressaltando os estereótipos
e isso não é bom para o desenvolvimento dos atores.
Embora até há pouco tempo vinha trabalhando sozinha,
fiz parte de vários grupos, acho que aprendi muito, na relação
com o outro, nas discussões e nas trocas de linguagem, acho
isso imprescindível para a pessoa de teatro. O grupo ajuda
na formação desta profissão. Trabalhar sozinho
é muito difícil, cada vez mais esta profissão
tem exigido parcerias.
Quando estes
pensamentos todos afloraram em sua cabeça, seu amigo Simioni
estava em Campinas a convite do professor, mímico, ator,
diretor e pesquisador Luiz Otávio Burnier. Foi em 1984 o
início do LUME. Em 1989, Simioni a convidou para fazer parte
do "Retiro de Clown do Lume". "Perguntei:
O que é clown? Ele me respondeu que era um tipo de
palhaço na linha do Charles Chaplin. Achei curioso; a técnica
estava chegando no Brasil através do Burnier e de outra pesquisadora
do sul". Aceitou o convite e veio para a fazenda passar doze
dias estudando "clown". Descobriu o que era o tal
tipo de palhaço, mais: descobriu seu próprio clown
e tudo mudou no seu trabalho artístico e também na
vida. Seu interesse pelo teatro "tradicional" foi diminuindo
e entrou em crise até que, em 1990, o Lume a convidou para
fazer um estágio em sua sede, em Campinas. Veio e não
quis mais voltar. "Cheguei com meu baú, na rodoviária
da cidade e fiquei esperando o Burnier e o Simioni. Eles me perguntaram:
'Veio passar dois meses ou uma vida?' Ainda não sei se a
vida, mas estou aqui há doze anos". É que com
a técnica do LUME ela descobriu o que queria fazer no teatro,
pois, como explica, seu corpo foi acordado, despertado para se expressar
por inteiro, além do pensamento e do raciocínio lógico.
"O impulso me levava a realizar o trabalho. O LUME e o Burnier
foram um divisor de águas em minha vida".
Além
do clown ela começou a dar aulas em escolas da cidade
para sua sobrevivência. Primeiro na Escola Curumim, de 1ª
a 4ª séries e depois na Escola Comunitária, onde
permaneceu até 2000. Ser educadora é uma herança
materna. "Quando criança já ajudava a minha mãe
com seus alunos. Não se pode dizer que eu tenho formação
pedagógica, mas a experiência nestas escolas me mostrou
o que é didática e como aplicá-la para trabalhar
com o teatro". Trabalho que ela só paralisou por falta
de tempo, pois a procura pelos cursos e assessorias que ela ministrava
começou a aumentar e se interferir no horário das
escolas. Decidiu então investir no seu trabalho artístico,
auxiliado pela educação, invertendo a situação
anterior. Mas por que todo este interesse pelo clown e sua
técnica? "Eu recomendo para todo ator se aprofundar
no conhecimento do seu potencial. Com o clown não
tem como não ser verdadeiro. Você precisa estar por
inteiro, sem estereótipos. É preciso ser você
mesmo, teatralizando tudo que você descobre de você.
Um trabalho que se desenvolve pelo resto da vida, que não
depende de autor, diretor, produtor, texto e espaço. Depende
de quem o faz, em qualquer idade. Sendo algo que encontrei em mim,
posso escolher os elementos com os quais quero trabalhar. É
a liberdade da criação de forma total, inteira".
Foi isso que
ela fez ao descobrir o seu clown Margarida, que se apresenta
sozinha, no espetáculo A-MA-LA, direção
de Naomi Silman (Lume). O espetáculo já soma 65 apresentações
em diversas cidades e estados do Brasil Margarida nasceu no Retiro
de clown do LUME, depois passou a se apresentar, discretamente,
em aniversários de amigos, escolas, mas depois que sua "dona"
viajou para a França, Itália e Mônaco e voltou
decidida a realizar um espetáculo que falasse de amor e solidão,
ela acabou no palco contando uma história de forma hilária
e lúdica no referido espetáculo. "Trouxe uma
amiga de Recife para fazer a produção e conseguimos
apenas um apoio no valor de R$ 150,00. Resultado: me endividei e
só depois de muito tempo consegui pagar tudo aos amigos.
Mas com este espetáculo tive a oportunidade de crescer como
ser humano, produtora, atriz e aprimorar meu contato com o público
e os espaços". Uma das dificuldades se refere ao pagamento
dos cachês. As pessoas acham que só pelo motivo de
ser um monólogo o valor deve ser menor, como se não
bastasse a falta de patrocínio e apoios culturais.
Recentemente
se apresentou no Sesc Campinas, e no Pira em Cena Nacional, em Piracicaba,
aguarda resposta de alguns projetos e está no início
da produção da temporada no nordeste, incluindo Natal
e João Pessoa. Mas ela não pára nesta busca
de superar as dificuldades, função de quem não
faz parte da grande mídia. Se há dificuldade para
se apresentar no palco, sua paixão extravasa para as salas
de experimentos em cursos e assessorias. Trabalho que se iniciou
lá nos anos 90 A partir da assessoria do ator Ricardo Puccetti
(também do LUME) no espetáculo MIXÓRDIA
EM MARCHA-RÉ-MENOR, participou junto com os atores Pérola
Ribeiro, Cíntia Vieira, Fábio Leirias, Ana Elvira
Wuo, Luciene Pascolatti e o próprio Ricardo na primeira montagem.
A segunda somou com a presença de Renato Ferracini, Raquel
Scotti Hirson, Ana Cristina Colla e Jesser de Souza, todos no LUME
atualmente. Esta peça fez temporadas entre 1995 e 1997 em
diversos lugares, cidades e estados brasileiros. Depois ela iniciou
suas assessorias a grupos teatrais. Em Natal, por exemplo, ela introduziu
os estudos do processo pré-expressivo e criativo na técnica
de clown e, mais tarde, assessorou o projeto UPI - Unidade
de Palhaçada Intensiva, com o Grupo de Teatro Clowns
de Shakespeare em parceria com a UNIMED local, para atender hospitais
daquela capital. Além disso, desenvolve o curso de iniciação
na técnica de clown para diversos alunos e grupos
de Campinas, conquistando a cada dia mais alunos e admiração.
"O clown para mim é uma cura. Quero fazer para
a vida toda", se empolga uma de suas alunas, Brisa de Oliveira
Vieira, que fez sua iniciação em janeiro passado.
"Iniciei
aproximadamente 200 pessoas no picadeiro", relata a atriz e
educadora, com orgulho maternal (perceptível em seu olhar
generoso). "Elas querem trabalhar o carisma individual, se
soltarem e expressarem mais, saber as possibilidades do próprio
corpo. Tenho alunos que são pais de ex-alunos que vieram
recomendados por eles. Acho que as pessoas estão buscando
a reaproximação consigo mesmas", teoriza Adelvane.
Para ela, esta grande procura pelo clown é uma reação
à política do individualismo que estamos vivendo com
o tal neoliberalismo e globalização que afloram no
mundo todo. Ela vê a necessidade das pessoas se voltarem para
si diante da cansativa modernidade que supervaloriza a tecnologia
em detrimento do ser humano. "Vivemos uma época em que
as pessoas estão se preparando para viver o amanhã.
Elas se preparam, trabalham, fazem dívidas e compras para
viver melhor um dia e este nunca chega. A sociedade de consumo está
distanciando o homem de si mesmo. Eu busco viver com tranqüilidade
e fazer o teatro que acredito. Tenho necessidade em ouvir o silêncio.
O maior presente que me dei quando completei 40 anos este ano foi
visitar meus pais na cidadezinha onde eles moram e perceber o silêncio,
entrar no ritmo deles. Não para admitir uma situação
como a atual onde o velho vive do passado, o jovem de um futuro
incerto e os demais na luta para sobreviver como numa selva".
A saída, pelo menos em seu caso, está no clown
que "ensina a respirar, a sentir, a se enxergar tal como se
é".
A grande aflição
que tinha, quando era educadora nas escolas, era sobre o que falaria
para seus alunos e pais. "As crianças vivem com a agenda
lotada, não tem mais tempo livre. Os pais, em sua maioria,
não deixam elas serem elas mesmas. Eu dizia: pais joguem
as suas televisões no lixo. Seus filhos precisam de contato,
amor, atenção. É preciso passear, observar
a vida... A resposta era um imenso silêncio!".
Diante destes
conflitos sociais e existenciais, Adelvane continua com seu trabalho,
onde tem a "liberdade para se expressar, questionando as posturas
diante da vida, sempre enaltecendo o sonho. Não é
este o papel do artista? Outro dia ouvi uma pessoa da minha idade
dizendo que o amor é coisa da adolescência. Não
pode ser. Me recuso a ver o mundo assim. O clown pode ser
o canal de resgate do ser humano. Eu sei disso e comungo com o público
através do jogo, resgatando nossa essência. A globalização
é um erro, só serve para padronizar valores, culturas
e vidas. Eu continuo achando que sonhar é possível
e preciso".
Talvez seja
por isso que ela tenha fundado sua Companhia HUMATRIZ TEATRO,
junto com o bailarino e companheiro de vida Cid França, para
assessorar atores, educadores e todos que queiram buscar a humanização
como "respostas" à brutalização que
as políticas neoliberais, obedientes ao império norte-americano,
nos impõem diariamente. Outra vez seu trabalho se duplica.
Ela é a mais nova professora de teatro da ABAMBA (Associação
dos Bem-feitores e Amigos dos Meninos Bailarinos-Atores), que trabalha
na formação de meninos atores e bailarinos de baixa
renda em Barão Geraldo. Coisa de quem sabe onde tem o nariz.
Contatos
com Adelvane Néia pelo e-mail: adelvaneneia@uol.com.br.
Clóvis
Tôrres é jornalista, ator e dramaturgo.
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