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País
Fast Food: "A Selva" no século 21
Upton Sinclair1
, denuncia, em 1906, as péssimas condições
de trabalho e higiene
nos frigoríficos de Chicago; Eric Schlosser mostra, em 2001,
o que há por trás do hamburguer,
da batata frita, do frango e das pizzas servidas nas redes de fast
food
Por
Antonio Claudio Bontorim
Em 1906, a indústria
frigorífica de Chicago, um dos mais fortes segmentos econômicos
dos Estados Unidos do começo do Século XX, sofre um
efetivo revés, obrigando-a a dar início a uma revisão
nas suas relações trabalhistas, ou seja, melhorar
as condições de trabalho de seus operários.
E o responsável por essas mudanças foi o livro "The
Jungle"2
(A Selva), do escritor socialista americano Upton Sinclair, publicado
em 1906. Sinclair relata, pela primeira vez, os horrores de se trabalhar
em um frigorífico, onde denuncia as péssimas e anti-higiênicas
condições dos currais, onde trabalhavam os assalariados
desses frigoríficos.

O personagem
central da história é Jurgis Rudkus, um jovem imigrante
lituano, que chega à América com sonhos de riqueza,
liberdade e oportunidade. Ele encontra trabalho num imundo, porém
próspero, curral de Chicago. No início ele gosta de
seu trabalho e fica admirado com seu companheiro que detesta. Ele
tem a sensação de que o enorme estabelecimento lhe
dá proteção, tornando-se responsável
por seu bem-estar. Ele era sincero, e ignorante da natureza do negócio,
ele não notava que tinha se tornado um empregado da Brown's,
e que Brown e Durham eram conhecidos por todos como competidores
terríveis - e que tinham sido obrigados pela própria
lei do país a se tornarem competidores - sob ameaça
de multa e até prisão. Gradualmente, a visão
de Jurgis vai mudando, desiludido com o salário-escravo e
no caos da vida urbana. Ele perde sua mulher, violentada por um
capataz do próprio frigorífico, e seu segundo filho.
Jurgis se torna um criminoso e logo mais tarde um socialista.
Esse pequeno
trecho do livro "The Jungle" dá uma mostra real
de como era a situação vivida por trabalhadores e
como eram tratados. Ao tomar conhecimento do livro, o presidente
americano, Theodore Roosevelt (1901-1909), conhecido por suas posições
"anti-trustes" principia a reformulação
das leis, então vigentes, sobre esse segmento, que, embora
nada radicais, permite um fôlego a mais aos operários.
É evidente que tanto as indústrias como seus principais
executivos tentaram de todas as formas diminuir o impacto do livro
e dos atos do presidente Roosevelt. O forte impacto que a publicação
causou, porém, não pôde ser evitado a ponto
desses empresários manterem inabalados seus impérios,
que foram obrigados a rever as relações com seus empregados.
Para que se
possa entender melhor esse quadro, pintado com suor e sangue desses
trabalhadores - boa parte deles composta por norte-americanos e
outra por imigrantes - a partir do final do Século XIX, vale
a pena citar o professor Voltaire Schilling3,
em seu artigo "O Truste e a Democracia - J.D. Rockefeller
e a Standard Oil Co"4,
em que ele comenta:
"Na
década de 1890, durante o chamado Movimento Progressista,
um profundo sentimento de indignação contra os
grandes negócios varreu boa parte dos Estados Unidos.
Era preciso por um basta nos paxás americanos (expressão
usada por Henry D. Lloyd, um combativo jornalista de Chicago).
Havia uma crença generalizada de que as corporações
gozavam de liberdade demais, enquanto o homem comum, o operário,
o trabalhador, o empreendedor principiante, o modesto comerciante,
e o pequeno granjeiro, estava desamparado, sujeito como um cristão
jogado às feras na arena do mercado. Um mercado em que
só os grandes ursos brancos levavam vantagem. Além
disso, havia de parte dos empregadores e do estado controlado
por eles, fosse ele federal, estadual ou municipal, uma total
indiferença pela sorte dos trabalhadores, dos pequenos.
É
neste clima de difusa insatisfação coletiva e
de intensa agitação social que se entende o enorme
impacto causado pela novela The Jungle (A Selva, 1906) de Upton
Sinclair que, ao relatar as durezas da vida de uma família
de emigrados lituanos, denunciou as péssimas e anti-higiênicas
condições dos currais em que talhavam os assalariados
dos frigoríficos de Chicago. O clamor foi tamanho que
o governo federal viu-se constrangido a adotar o Food Drug Act
e, depois, um sistema federal de fiscalização
sobre as fábricas de alimentos. Sinclair, como tantos
outros novelistas da sua geração, que fora fortemente
influenciado pelo relato naturalista de Emile Zola (especialmente
na novela "Germinal", 1885), e tal como seu ídolo
alcançou na França de 1890, ele também
conseguiu alterar a legislação trabalhista a favor
dos operários".
Quase um século
depois da publicação do livro de Upton Sinclair, o
assunto volta à tona. E um novo segmento da economia americana
- talvez muito mais expressivo em termos de números, se comparados
os diferentes períodos históricos que separam os dois
momentos - também foi dissecado. E, passo a passo, numa verdadeira
cronologia de datas, fatos e personagens, tornou-se o centro de
um dos mais importantes livros já publicados nos Estados
Unidos nesse início de Século XXI: "País
Fast Food" (Fast Food Nation, em sua versão original
em inglês), lançado em 2001, pelo jornalista americano
Eric Schlosser.

Capa do livro
publicado nos EUA
Desta vez, é
a indústria americana da "comida rápida"
(que já não é apenas americana, mas ganhou
o mundo nos contornos da globalização) quem está
na berlinda. E graças ao tino investigativo de Schlosser
- jornalista graduado em História pela Princeton University
- e três anos de pesquisas e viagens, hoje se pode ver muito
além dos balcões coloridos e bem decorados dos fast-foods.
Alguém,
entretanto, pode até perguntar o porquê da citação
de Upton Sinclair, na introdução desse artigo que
pretende comentar o "País Fast Food"? Sem querer
fazer marketing da editora ou do próprio jornalista, a relação
parece ser óbvia: assim como "The Jungle", o "País
Fast Food" trata da indústria e da saúde alimentar
dos Estados Unidos e, muito mais que isso, das relações
(nada amistosas, mas de senhores e servos) entre patrões
e empregados desse segmento, que hoje movimenta cerca de US$ 110
bilhões só nos Estados Unidos (números do ano
2000).
E muito, mas
muito além da relação entre uma obra e outra,
existe uma identidade entre os dois livros e os dois autores. Pode
ser que o segundo seja conseqüência do primeiro. Ambos,
porém, foram concebidos para tentar mudar os rumos nas relações
sociais entre o poder público, com alguns de seus representantes
bancados pelo dinheiro do lobby das grandes corporações,
empregadores, empregados e consumidores, com esses dois últimos
elos sofrendo todos os impactos negativos das irresponsabilidades
praticadas pelos dois primeiros.
E a própria
crítica especializada, encarregou-se de acentuar ainda mais
essa relação, chamando "País Fast Food"
de "new jungle". Mesmo porque, ao rigor dessa análise,
vale lembrar que a grande diferença entre um e outro livro,
são os 95 anos que separam suas publicações.
Ao tomar o pequeno trecho acima, que conta a vida do operário
Jurgis nos currais da Chicago do início do Século
XX e os exemplos e depoimentos descritos por Schlosser nesse início
de terceiro milênio, "País Fast Food" pode,
realmente, ser chamado de "A Selva" do Século XXI.
Uma boa leitura...
e bom apetite a todos!
"Empurre
a porta de vidro, sinta a lufada de ar fresco, avance alguns passos,
entre na fila e olhe em volta, olhe para os garotos trabalhando
na cozinha, para os fregueses sentados, para os anúncios
do brinquedo mais recente, estude as fotos iluminadas sobre o
balcão, pense de onde veio a comida, sobre como e onde
foi feita, o que você vai pôr em marcha com uma única
compra, o efeito cascata, tanto em volta quanto lá longe,
pense nisso. Depois faça o seu pedido. Ou vire as costas
e saia. Ainda não é tarde demais. Mesmo no país
da fast food, você ainda pode se impor". (SCHLOSSER,
337).
Entender este
último parágrafo do livro "País Fast Food"
de Eric Schlosser, mais que uma necessidade, é um dever de
todos quantos lerem esse raríssimo (no sentido de espetacular)
livro-reportagem. Muito mais que uma denúncia contra o poder
econômico de grandes redes de restaurantes e verdadeiros monopólios
da indústria frigorífica e processadora de carnes
nos Estados Unidos, trata-se de um completo "raio-X" da
saúde pública e alimentar americana, onde manda quem
tem dinheiro (e "lobby" junto ao governo) e obedece a
grande maioria da população. Em especial as crianças,
vítimas das grandes campanhas de marketing e da publicidade
compulsiva, em torno da chamada "comida rápida",
hoje uma obsessão dos norte-americanos e que já se
espalhou pelo resto do mundo. Inclusive no Brasil.
E os números
e estatísticas mostrados pelo autor, que é correspondente
da revista The Atlantic Monthly, com sede em Boston,
é um exemplo fascinante dessa narrativa, fundamentada por
pesquisas e dados das próprias cadeias de fast food e entidades
governamentais e não governamentais.
Números
que falam por si só:
- Em 1970 os
americanos gastaram cerca de US$ 6 bilhões em fast food;
- Em 2000,
foram US$ 110 bilhões.
- A McDonald's
responde hoje por 90% dos novos empregos.
- Em 1968 operava
com cerca de mil restaurantes.
- Hoje são
28 mil espalhados pelo mundo todo.
- E inauguram-se
perto de 2 mil outros estabelecimentos anualmente.
- 96% das crianças
com idade escolar conseguiram identificar o Ronald McDonald, que
só perde em popularidade para Papai Noel.
- O americano
médio consome, hoje, três hambúrgueres e quatro
saquinhos de batata frita por semana.
- Desde 1992
o número de franquias dobrou e por volta de 5 mil novas
abrem todos os anos.
- Além
do fast food, os EUA globalizaram também a obesidade, que
hoje atinge países como a Grã-Bretanha, Japão
(ninguém ficou mais alto e loiro, mas teve o peso e a cintura
aumentadas) e China.
- O país
tem, hoje, a maior taxa de obesidade do mundo, que cresceu nas
últimas décadas devido ao consumo de fast food.
- Ela é
duas vezes maior agora do que em 1960. E entre as crianças
é duas vezes maior do que era no final dos anos 70.
- Hoje, 44
milhões de adultos norte-americanos são obesos e
seis milhões obesos mórbidos, pesando 45 quilos
a mais do que deviam.
- A taxa de
obesidade está aumentando em todos os estados: em 1991
apenas 4 estados tinham taxa de obesidade de 15% ou mais, hoje,
pelos menos 37.
- Há
dez anos, os restaurantes vendiam 20% de todo o bacon consumido
nos EUA, hoje vendem 70%.
- 280 mil americanos
morrem todos os anos por estarem acima do peso normal e os tratamentos
para a obesidade estão perto de US$ 240 bilhões
e os americanos gastam mais de US$ 33 bilhões com programas
de perda de peso, sendo que a obesidade está relacionada
com várias doenças: problemas cardíacos,
câncer do cólon, câncer do estômago,
de mama, diabetes, artrite, pressão alta, infertilidade
e derrames.
- Crianças
entre 6 e 10 anos, com problemas de obesidade, estão morrendo
de ataque cardíaco. Entre 1983 e 1984, o número
de lanchonetes fast food dobrou na Inglaterra, assim como a obesidade.
Os britânicos comem hoje mais fast food que qualquer outra
nação européia ocidental. E na China a proporção
de adolescentes acima do peso quase dobrou na última década.
No Japão, durante a década de 80, a venda de fast
food mais que dobrou, como também a obesidade infantil
e 1/3 dos homens japoneses com 30 anos - primeira geração
criada com "Bi-gu Ma-Kus", está acima do peso
normal.
- Pesquisa
sobre publicidade para o público infantil, feita pela União
Européia mostrou: 95% dos anúncios são de
comidas com altos teores de gordura, sal e açúcar.
O maior número de anúncios dirigido às crianças
era do McDonald's.
Por intermédio
do uso da história oral e relatos humanos comoventes (entrevistas
com diretores e executivos das grandes redes e da indústria
de processamento de carnes, trabalhadores dessas grandes corporações,
líderes sindicais e especialistas em saúde e segurança
alimentar, entre outras tantas fontes) e da história tradicional,
documentada e amparada em estudos técnicos, ele vai esmiuçando
todo um mundo até então desconhecido da maioria. É
o mundo que está por traz do hambúrguer, da batata
frita, do frango, da pizza entre tantas outras variedades alimentares,
servidas nos mais de 60 mil estabelecimentos de "fast food"
espalhados pelo mundo.
Eric Schlosser
foi muito feliz no seu projeto e, "embora tenha feito pessoalmente
diversas pesquisas e entrevistas para esse livro", como ele
próprio diz em suas notas complementares, ele contou
com o trabalho de várias outras pessoas, para levantar dados
sobre essa indústria. "A McDonald's desempenhou papel
central na criação dessa indústria" (SCHLOSSER,
338).
O que o autor
mostra no transcorrer da sua narrativa, que vai da poesia (quando
descreve as colinas de Colorado Springs) à frieza do aço
embebido em sangue (quando expõe os perigos da indústria
frigorífica norte-americana), é um claro dossiê
sobre como todos são envolvidos pelo marketing do "fast
food", sem saber como essa indústria opera suas redes,
explora a mão-de-obra jovem e sua verdadeira "preocupação"
com a sanidade da comida que serve. E apesar de todas as citações
serem de antes de 2001 e sem fazer uma relação direta
com essa ou aquela rede (e quando faz os nomes são mostrados),
é importante que se esteja atento a alguns dados e números
que o livro traz, quando traz à luz os meandros da saúde
pública e a contaminação dos alimentos.
São
constatações surpreendentes e assustadoras:
- Contaminação
por E. coli fez Hudson Beef Patties, da Hudson Foods Columbus
fazer um recall para recolher 15 milhões de quilos de carne
moída processados em agosto de 1977. Até que fosse
anunciado o recall, mais de 11 milhões de quilos tinham
sido consumidos.
- Todos os
dias 200 mil americanos adoecem por causa de algum alimento estragado.
- 900 são
hospitalizadas e 14 morrem.
- 1/4 da população
norte-americana sofre crises de intoxicação alimentar
por ano.
- 1/3 das mortes,
segundo agentes do CDC, talvez tenham sido provocados por ingestão
de alimentos nos Estados Unidos ainda não identificados.
- Um estudo
em bases nacionais, do Ministério da Agricultura dos EUA,
em 1996 mostraram: 7,5% das amostras de carne moída recolhidas
em fábricas estavam contaminadas com Listeria monocytogenes;
30% com Staphylococcus aureus e 53,3% com Costridium perfringens.
Na mostra do Ministério, 78,6% da carne moída continham
micróbios que se espalham sobretudo por matéria
fecal.
- Em 1990 a
carne bovina era responsável por quase metade dos empregos
no campo. O americano médio comia até 3 hambúrgueres
por semana, 2/3 comprados em redes de fast foods e crianças
entre 7 e 13 anos comiam mais hambúrgueres que todos os
demais.
- Em janeiro
de 1993 aumentou o número de crianças com diarréia
hemorrágica. 200 foram hospitalizados e quatro morreram.
A primeira a morrer foi uma criança, em dezembro de 1992.
- Nos oito
anos que se seguiram ao surto provocado pelo Jack in the Box,
aproximadamente meio milhão de americanos, em sua maioria
crianças, adoeceram em virtude do E. coli 0157:H7, milhares
foram hospitalizados e centenas morreram.
- Em 1994 no
estado de Arkansas, 1,4 milhões de toneladas de esterco
de galinha entraram na composição para ração
de gado.
- Na IBP de
Lexington, Nebraska, 20% dos intestinos de bois espirram escrementos
por todo o lado. No inverno, 1% do gado reunido nos currais de
engorda é portador de E. coli 157:H7 no intestino e no
verão a proporção aumenta até 50%.
- Hoje uma
fábrica processadora pode fabricar até 360 toneladas
de carne para hambúrguer por dia.
- Um único
animal infectado pode contaminar 14.515 quilos de carne moída.
Uma atenção
que deve ser redobrada, principalmente, pela pouca divulgação
das demandas judiciais em curso contra essa grande "rede do
paladar". Os processos que envolvem essa indústria,
são inúmeros e já começam a ganhar maiores
proporções, repetindo aquelas ocorridas há
alguns anos, envolvendo a indústria do tabaco. Ongs e pessoas
físicas, empenhadas e preocupadas com a saúde dos
consumidores, encontram, hoje, uma mídia mais suscetível
às denúncias e, a despeito do seu poder econômico,
as próprias redes estão se posicionando de forma a
atenderem esses apelos, introduzindo em seus cardápios as
chamadas "comidas lights" ou então estampando as
informações nutricionais de cada produto em suas embalagens.
E além
dessa preocupação com a onda da "comida politicamente
correta", é muito provável que a publicação
de "País Fast Food" tenha influenciado nessas pequenas
transformações num segmento até então
intocado e revestido de proteção por todos os lados.
Nesse aspecto fica mais fácil entender a co-relação
existente entre "The Jungle" e "País Fast
Food".
E alguns países
da Ásia, Europa e África, por exemplo, onde as grandes
redes de "fast food" já chegaram, os protestos
têm se acentuado, exigindo posturas mais rígidas e
normas de fiscalização efetivas, não contrárias
aos lucros dessa indústria, mas em respeito à própria
saúde pública. Em especial das crianças.
China, Dinamarca,
Rússia, Grécia, África do Sul, França
e Inglaterra, têm sido, dentre os anos de 1995 e 1999, os
países onde começaram a acontecer protestos contra
as redes de fast food; em especial ao McDonald's. Na França,
por exemplo, o ativista José Bové liderou os protestos
e destruiu um McDonald's em Millau, sua cidade de Natal.
É na
Inglaterra, entretanto, onde se arrasta o mais longo e sistemático
ataque contra o McDonald's. Ataques que partiram de militantes do
"Greenpeace" de Londres. Em 1986 o grupo decidiu-se voltar
contra o McDonald's e começou a distribuir folhetos contra
a rede relatando todo o mal que ela causava, com refrões
como McDólares, McCobiça, McCâncer, McMorte,
McLucros e McLixo. Em 1990 a McDonald's abriu processo contra o
grupo e então se deu mal, Helen Steel, uma atendente de bar,
jardineira e motorista de microônibus, à época
com 25 anos, e Dave Morris, de 36 anos, ex-funcionário dos
correios, persistiram no caso apesar de alguns membros do grupo
terem se desculpado com a rede. Com insistência e mesmo sendo
espionados pela Scotland Yard e detetives contratados pelo McDonald's
de 1989 a 1991, eles perderam em primeira instância, apelaram
e no dia 31 de março de 1999, os três juízes
do Tribunal de Apelação derrubaram o veredicto original
do caso "McLibel" (como ficou conhecido), indicando que
eles teriam que pagar apenas 40 mil libras, em vez das 60 mil. A
própria rede disse que não queria receber nada porque
queria ver o caso o mais rápido fora da mídia, uma
vez que estavam cansados dos dez anos de desgaste. Helen e Dave
ganharam 10 mil libras de indenização da própria
polícia especial inglesa, pela espionagem que foram vítimas.
O caso, hoje, está em cortes internacionais. (SCHLOSSER,
306/314).
As ações
judiciais contra essas cadeias, entretanto, longe de terem um fim,
prometem agitar bastante o "milk shake" dos restaurantes
e pegar "pesado" nos hambúrgueres e batatas fritas.
A mais recente é relativa a um processo contra a McDonald's,
onde dez adolescentes americanos, que juntos pesam uma tonelada,
estão alegando que a rede é responsável por
seus problemas de saúde.
Em matéria
publicada pela revista "IstoÉ", do
último dia 15 de janeiro (O povo contra McDonald's,
páginas 52/53), o jornalista Osmar Freitas Jr. conta, de
Nova York, como está o andamento do processo envolvendo os
dez jovens e as medidas que a rede está tomando, como o anúncio,
no início deste ano, de que em breve mudará a receita
e mexerá nos ingredientes tradicionais de sua linha de produtos.
No Brasil, a rede fornece, desde dezembro, tabelas com valores calóricos
e o perfil nutricional de seus lanches. E, na França, a filial
local já fixou cartazes em suas paredes, alertando sobre
os perigos do consumo freqüente desse tipo de produto.
O livro não
é somente uma leitura importante, acaba sendo obrigatória
para quem quiser entender as contradições da "mais
moderna" e avançada sociedade, mas que ainda não
se preocupa com a segurança alimentar de sua população.
E como essa sociedade conseguiu exportar para o mundo um hábito
tão exclusivo e regionalizado.
A origem
de tudo
O livro "País
Fast Food" originou-se de um artigo publicado em duas partes
na revista Rolling Stone, (edição 794, de setembro
de 1998) encomendado pelo seu editor, Bob Love. A idéia original,
bem como o título e o objetivo que há por trás
do livro, foi de Will Dana, outro editor e amigo de Eric Schlosser.
Essas informações estão nas três últimas
páginas do livro, onde o jornalista faz os seus "agradecimentos",
e fala sobre as pessoas que o ajudaram, dando os devidos créditos
a todas elas (Págs. 403 a 405).
E para o exercício
da profissão jornalística, Eric Schlosser deixa, entretanto,
um legado muito maior que o próprio conteúdo do "País
Fast Food": a sua dedicação à pesquisa
e a riqueza de detalhes com que descreve, das páginas 339
a 394, passo a passo, todo o seu trabalho para a produção
do livro, em suas "notas" complementares. Ele se
vale de cada capítulo, desde a Introdução ao
Epílogo, para mostrar como produziu seu livro. Denúncias
graves, histórias de vida, relatos poéticos e, às
vezes, até cruéis, de uma dura realidade a que está
submetida uma parcela da população norte-americana.
E o mais grave
de tudo isso: grande parte dessa população é
composta por imigrantes ilegais vindos, principalmente, do México,
da Guatemala e países orientais. Mão-de-obra barata,
analfabeta e que não pode reclamar seus direitos, explorada
pela grande cadeia que tem na sua ponta a chamada "comida rápida".
Isso tudo no país das oportunidades e da igualdade, que caçam
imigrantes legais porque são árabes e deixam os ilegais
trabalharem porque interessam aos deputados, senadores e ao próprio
presidente republicano, cujas campanhas políticas recebem
ajuda financeira dos empresários desse segmento.
Dá para
afirmar, sem cair no lugar comum, que o capítulo destinado
às "notas" é um livro à parte.
É onde ele vai contar a história de todas as entrevistas
e locais que visitou; das pessoas com quem conversou e um pouco
sobre os documentos onde pesquisou. E o que não falta no
livro é a descrição dos documentos e onde os
conseguiu. Talvez esteja aí um dos segredos do jornalista
e historiador não ter enfrentado, até o momento, nenhum
processo judicial por conta de suas denúncias. Na entrevista
que deu ao jornal espanhol "La Vanguardia", em abril de
2002, ele mesmo afirma que ainda não enfrentou nenhum processo
porque tudo o que disse e escreveu está muito bem documentado.
E o último
passo do livro é a catalogação bibliográfica,
feita com o auxílio da sua mulher, Shauna Wrigth: são
oito páginas contendo cerca de 125 títulos, que vão
de livros de história, biografias, de economia, saúde
pública e alimentar, além daqueles que tratam explicitamente
da criação, evolução e sucesso das redes
de "fast food". Ou seja, um árduo e longo trabalho
(durou cerca de três anos) que só poderia resultar
numa obra como esta.
Difícil
classificá-lo dentro das 13 modalidades de livro-reportagem,
propostas por Edvaldo Pereira Lima, no livro "Páginas
Ampliadas", tamanha é a sua abrangência. É
certo que temos por obrigação inseri-lo dentro das
categorias "atualidade" e "denúncia",
como as mais fortes. Não podemos nos esquecer, entretanto,
de outras, como "ciência", "ambiente"
e "instantâneo" e até "nova consciência".
Enfim, trata-se de uma leitura bastante pessoal, que pode exigir
muita reflexão e uma visão bastante crítica
da sociedade atual. Em especial nesses tempos extremos de "fast
food".
Além
do livro de Eri Schlosser, outras publicações também
tratam do assunto. Cada uma à sua maneira. Mas vale a lembrança,
para quem se interessar em complementar os conhecimentos na história
do "fast food", que em janeiro do ano passado, a Boitempo
lançou "O Nome da Marca-McDonald's, Fetichismo e Cultura
Descartável", de Isleide Fontenelle, no qual a autora,
de acordo com Paulo Eduardo Arantes, professor de Filosofia da USP,
fala sobre a "avassaladora máquina de moer chamada McDonald's".
No livro, ela retrata a influência dessa marca e os efeitos
do marketing sobre as pessoas, dizendo inclusive que algumas já
estão "mcdonaldizadas".
Outro, também
citado, é o "Food: The History", do historiador
e professor da Universidade de Londres, Felipe Fernandez-Armesto,
ainda sem tradução para o português. Num artigo
publicado no "The Guardian", e traduzido por Clara Allain,
publicado no caderno "Mais!", da Folha de S. Paulo, de
20 de outubro de 2002, com o título "A Civilização
FAST FOOD". Ele diz que a solidão de uma pessoa que
consome "fast food" é incivilizadora. O livro,
entretanto, é muito mais que isso, trata sobretudo dos hábitos
saudáveis que estamos deixando de ter na hora das refeições,
contribuindo assim para a própria desagregação
social, inclusive familiar.
E após
todas essas considerações vale a pena retornar, definitivamente,
à leitura do último parágrafo de "País
Fast Food" transcrita neste texto e, de forma pausada e com
muita atenção, ler as considerações
finais feitas por Eric Schlosser sobre consumir ou não "fast
food".
Quem é
Eric Schlosser
Foto: Mark Mann
Graduado
em História pela Princeton University, Eric Schlosser é
conhecido como um dos mais premiados jornalistas investigativos
dos EUA. Ele é correspondente da revista Atlantic Monthly.
Em agosto e setembro de 1994, ele escreveu uma reportagem, em duas
partes, sobre o endurecimento da lei contra a maconha ("Cigarro
de doido" e "A maconha e a lei"), recebendo, por
isso, um prêmio nacional na categoria revistas: o National
Magazine Award. Em novembro de 1995, um outro artigo, "Nos
campos de morango", falando sobre a indústria do morango
na Califórnia, dá a ele o prêmio Fundação
Sidney Hillman. Ele escreveu, também, sobre as famílias
vítimas de homicídio, sobre a prisão industrial
e sobre o "negócio" pornografia.
"País
Fast Food" é o seu primeiro livro. Ele vem sendo chamado
de "new jungle", numa referência ao livro "The
Jungle" e que, por suas denúncias, causou as primeiras
transformações na indústria frigorífica
daquela época. E foi considerado pela imprensa norte-americana
e pela crítica especializada como a "obra do ano"
de 2002.
Bibliografia
- SCHLOSSER,
Eric. País Fast Food. São Paulo: Editora
Ática, 2001
Notas
bibliográficas
1
Novelista, ensaísta, contista e escritor de livros juvenis,
Upton Sinclair nasceu em Baltimore, Maryland, EUA, em 29 de setembro
de 1878, oriundo de uma família da arruinada aristocracia
sulista. Seus trabalhos sempre refletiram sua visão socialista
de mundo. Sinclair morreu em 25 de novembro de 1968, aos 90 anos
de idade.
2
A
mais famosa obra de Sinclair, publicada pela primeira vez em 1906,
"The Jungle" lhe rendeu fama e fortuna, e foi reimpressa
em 1981, em Nova Iorque, pela Bantam Books.
3
Voltaire
Schilling, é professor de História e Mestrando na
UFRGS, responsável pelo Projeto Cultural do Curso Universitário.
Escreveu 8 livros e mais de 40 polígrafos, a maioria sobre
História e História das Idéias Políticas.
É professor do Curso de Jornalismo Aplicado da RBS-RS e palestrante
da AJURIS-RS. É articulista da Zero Hora-RS na página
de "Opinião", colaborador do Caderno de Cultura
ZH e, também, foi comentarista de assuntos internacionais,
culturais e políticos do programa "Câmera 2"
na TV Guaíba-RS.
4
O artigo, segundo o próprio autor, é de 2001, publicado
no site www.terra.com.br/voltaire/mundo/truste.htm. Ele não
consta de nenhuma outra publicação. A razão
dele foi que naquela época havia o processo antimonopolista
contra o Bill Gates e ele aproveitou para fazer uma analogia com
o processo contra o velho John D. Rockefeller e o poder que ele
exercia sobre a distribuição do petróleo nos
EUA.
Leitura
de apoio
- O
nome do Sujeito, artigo de Paulo Eduardo Arantes, publicado no
caderno "Mais!", da "Folha de S. Paulo, no dia
27 de janeiro de 2002, sobre o livro "O Nome da Marca-McDonald's,
Fetichismo e Cultura Descartável", de Isleide Fontenelle.
- Caderno
"Mais!", "Folha de S. Paulo", 20 de outubro
de 2002, artigo do historiador e professor Felipe Fernandez-Armesto,
da Universidade de Londres.
- www.cnn.com.br/2002/saude/10/31/mcdonalds/index.html
- www.jt.estadao.com.br/editorias/2002/11/10/ger030.html
- www.terra.com.br/voltaire/mundo/truste.htm
Fontes
de pesquisa
Este
artigo foi produzido a partir do seminário apresentado dentro
do Curso de Pós-graduação em Jornalismo e Novas
Linguagens da Universidade Metodista de Piracicaba, Unimep, em novembro
2002, na disciplina Captações Não Diretivas,
ministrada pela professora Marta Maia, em conjunto com a jornalista
Kelly Camargo.
Antonio
Claudio Bontorim é
jornalista e aluno do Curso de Pós-graduação
em Jornalismo e Novas Linguagens da Universidade Metodista de Piracicaba,
Unimep.
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