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RE-VIRE-SE
Qual o plural de auto-ajuda?
José
Chrispiniano
Esta questão
surgiu agora, enquanto estou pensando em entrar neste lucrativo
ramo. Parece que quem escreve livros de auto-ajuda auto-ajuda-se
muito, e eu estou precisando auto-ajudar-me um pouquinho, depois
de tanto auto-atrapalhar-me desde que nasci.
Note que a questão
é facilmente resolvida se eu associá-la a um produto.
Livros de auto-ajuda, fitas de auto-ajuda, palestras de auto-ajuda.
Mas haveria plural da própria expressão auto-ajuda?
Em tese, não. Quebrei a cabeça. Auto-ajudas. Não.
Autos-ajuda. Também não. Auto-ajuda, em si, é
um eu que não tem nós.
O desafio começou
a influenciar meu livro sobre auto-ajuda. "O ombro amigo"
pensei que seria um bom título. Nada tão bom quanto
"Você e seu carro" de um dos Gasparettos (entre
espíritos e presenças físicas a família
é grande) mas o suficiente para tirar um troco, colocando
uma foto sensual de um ombro desnudo na capa. O livro começaria
com a citação de Aristóteles "Nenhum Homem
é uma ilha". Seguiria escrevendo que não somos
onipotentes, que o indivíduo é fruto e se relaciona
com um contexto social, que nem tudo pode se resolver sozinho, da
importância do convívio social, da força do
coletivo.
Vi que me traía.
E que trairia os leitores. Meu livro de auto-ajuda era anti-auto-ajuda.
Não que eu seja contra a auto-ajuda. Conselhos não
conseguem ir mesmo além dos chavões e alguns deles
(os chavões) são muito bons e podem ser muito úteis.
Assim como certas músicas horrorosas soam românticas
quando estamos deprimidos. Mas tudo que vira "filão",
"nicho", comércio, descamba, ainda mais que a palavra
escrita é terreno fértil para irresponsabilidades.
É que nem dieta. Torna-se uma indústria em si mesma.
Lembro-me de um texto que li sobre burocracia, que quando você
constrói uma estrutura para resolver um problema, e estes
percebem que resolvendo o problema perdem o trabalho, tendem a perpetuá-lo
para manter seus empregos. Novamente, igual a dietas. É mais
lucrativo vender eternamente soluções ilusórias,
do que resolver, definitivamente, o problema. Ou seja, tenho algo
contra a auto-ajuda.
O que tenho
contra a auto-ajuda é a idéia que temos no nosso cotidiano,
às vezes sem perceber, de que todas as questões podem
se resolver pelo consumo. Nossas relações são
cada vez menos mediadas pela nossa criatividade (dizem que poucos
a teriam), como "trabalhadores" (coisa de comunista),
ou como cidadãos membros de uma sociedade. Até incentivam
que nossas ações políticas se resumam apenas
ao chamado "consumo consciente" (nada contra este).
Assim, consumo
um livro de auto-ajuda na busca da minha felicidade. Consumo uma
dieta, ou vou para um spa, para emagrecer. Se deu errado, foi um
erro de consumo, que talvez o spa mais caro resolva. Isso, apesar
de eu saber exatamente os hábitos que devo mudar para emagrecer.
O que os livros
de auto-ajuda não preenchem é o plural. É nossa
inserção em um meio. Que nem todos os problemas se
resolvem por nós mesmos. Que vivemos em um contexto cultural
e político, e que não há "atitude vencedora",
ou "mentalização positiva" que ajudem quando
um avião de terroristas bate em uma torre em Nova York, ou
quando um avião de terroristas joga bombas sobre Bagdá
ou Belgrado. Que não resolvem os preconceitos raciais, os
nacionalismos genocidas, a violência social entre ricos e
pobres. O medo do real e a realidade do medo.
Quando você
abre uma torneira e sai água dela, existe toda uma imensa
infra-estrutura, regida por leis da natureza e dos homens que vocês
nem faz idéia, mas das quais você depende. Em um dia
que a água não sair da sua torneira, ou que você
não tiver emprego para pagar a sua luz, tente resolver isso
com auto-ajuda.
Por mais que
queiramos negar, o plural de auto-ajuda chama-se sociedade, chama-se
relacionamentos, chama-se coletivos, chama-se público, chama-se
a política. Não apenas a dos homens brancos de terno
de Brasília, mas também essa, e a do nosso dia-a-dia.
A que nos domina sem que a dominemos. O primeiro chavão do
livro seria de que a união faz a força, de que o homem
é um ser político.
É, meu
livro acabaria não sendo de auto-ajuda. Seria uma picaretagem
da picaretagem, para tentar ser sério por linhas tortas.
Propaganda enganosa e fracasso certo de vendas. Ao menos já
sei com que citação iria encerrá-lo. De Tom
Jobim em "Wave": "É impossível ser
feliz sozinho."
FIM
Crônica
extraída, sob autorização do autor, do boletim
eletrônico "Palelotes". Saiba mais sobre no endereço
http://papelotes.blogspot.com.
José
Chrispiniano é
jornalista e autor do livro "A Guerrilha Surreal" (Editora
Conrad/Com-Arte) sobre protestos anti-globalização.
Também edita o boletim via e-mail "Papelotes".
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