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A
pintura é o meu trabalho
Entrevista
com o artista plástico Roberto Rossi
Duas crianças
conversam e uma pergunta à outra: "O que faz seu pai?
O amigo responde: Desenha, pinta... Volta ao interlocutor: E ele
não trabalha?". Isso pode parecer engraçado,
porém, é mais normal do que se possa imaginar, fruto
da ausência de informação e de cultura (algo
cultivado).
No entanto,
a arte está presente no cotidiano, embora o cidadão
comum não perceba e não disponha de meios para conhecê-la
e apreciá-la. Para o artista plástico Roberto Rossi,
a introdução dos primórdios das artes plásticas
na escola é fundamental para que a criança cresça
acostumada com o meio artístico, seja ele qual for.

Roberto Rossi.
Foto: Paulinho Silva
Paulistano e
publicitário por mais de 27 anos, Roberto Rossi é
artista autodidata, sendo que a arte manifesta-se em sua vida desde
a infância. Ele inicia sua vida profissional, em 1971, na
mais conceituada editora de livros jurídicos na época,
como revisor. Ainda um garoto de 16 anos, a alma do artista adquire
uma formação riquíssima: a convivência
com textos e autores muito diferentes, a linguagem acadêmica,
erudita etc. Essa profissão quase permitiria que, ainda muito
jovem, Roberto Rossi pudesse obter o seu registro de jornalista
profissional, não fosse a regulamentação da
profissão. A ligação da editora com a gráfica,
fez com que o artista migrasse para as artes gráficas. De
1976 a 1988, Roberto trabalhou uma conhecida agência, o que
lhe permitiu conviver com o melhores profissionais de criação
da época e conhecer, em detalhes, técnicas de fotografia,
laboratório, estúdio, direção de arte,
redação e a criação em áreas
como propaganda, merchandising e design.
A partir de
1988, Roberto Rossi passa a ter seu próprio escritório
de comunicação e começa a se dedicar mais intensivamente
à pintura, que hoje é o seu trabalho. Em 1997 realiza
sua primeira, praticamente uma imposição dos amigos.
Desde então, outras oportunidades surgiram e o trabalho do
artista torna-se conhecido também internacionalmente, bem
como a exposição realizada em Washington, nos EUA
(www.absolutearts.com/portfolios/r/robertorossi).
O artista tem recebido constantes convites para novas exposições
internacionais, como Córsega, Barcelona e França,
porém, ele aguarda possíveis patrocinadores.
A técnica
básica utilizada por ele é a acrílica, mas
a utilização de técnica mista, bem como a utilização
de outros materiais também compõe a sua arte. Sendo
autodidata, o uso de diversos materiais é algo certo. O resultado
é uma obra com cores muito vivas, em geral, retratando a
natureza, especialmente as frutas. Segundo ele, a diversidade de
cores na natureza, é uma característica brasileira.
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"As
Amarelas"
Técnica mista sobre Tela
(71,6 x 60,9 cm)
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"Duas
Rosas"
Técnica mista sobre Tela
(70 x 50 cm)
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Em entrevista,
Roberto Rossi comenta sobre a necessidade de difusão das
artes para uma maior fatia da população e também
da importância das associações e sindicatos.
Barão
em Revista: Na sua opinião, como anda o mercado de
artes plásticas no Brasil? Há alguma tendência
a melhorar?
Roberto Rossi: O mercado anda
parado. Surpreendentemente vemos milagres como tantos outros. E
também os otimistas. O principal mesmo, em todo este país,
é que as pessoas vejam a arte de maneira séria, reconheçam-na
como uma representante da cultura e da expressão de um povo
e de um país. Dêem-lhe o devido valor, percebendo que
é um investimento. E investimento sério. Talvez devessem
ler a história da criação da National Gallery,
em Washington, afinal, ninguém é eterno, a arte sim.
Vamos eternizar os doadores de coleções, vamos tomar
atitudes corajosas. A tendência à melhora depende muito
mais que esses colecionadores, investidores, bancos, empresas em
geral identifiquem aí um investimento realmente rentável,
uma moeda internacional. Somente respeitando os artistas e sua arte
é que teremos um novo identificador para a nossa cultura
e uma moeda internacional de troca. Acredito que o Brasil mereça
um olhar mais sério sobre esta arte que produz, abrindo o
leque de artistas destacados, e recebendo os novos de maneira digna.
Precisamos pensar no mercado brasileiro de arte produzida aqui.
Senão, a boa arte irá embora também.
B. R. De acordo com o release
no seu site, você mantém uma posição
também política enquanto artista, uma vez que é
filiado ao SINAPESP e ao Comitê Nacional. Como funcionam essas
entidades no campo das artes? Em geral, qual é o índice
de participação dos artistas?
Roberto: Sou filiado ao SINAPESP
- Sindicato dos Artistas Plásticos do Estado de São
Paulo, que por sua vez é vinculado ao Comitê Nacional
Brasileiro da AIAP/UNESCO, Associação Internacional
de Artes Plásticas. O artista imagina sempre que estas entidades
possam chegar a fazer algo com e para a classe. Imaginamos chegar
a poder ter, um dia, talvez, um fundo como o americano para apoio
ao artista. Mas tudo isto, me parece, está bem longe de acontecer
aqui. É importante que se tenha uma entidade representativa,
porque aqui no Brasil as caminhadas são feitas isoladamente
ou em pequenos grupos dominantes. No meu caso, a caminhada é
continuamente solitária. Acredito, por exemplo, que a AUTVIS
- Associação Brasileira dos Direitos de Autores Visuais
(www.autvis.com.br), tenha
muita coisa a oferecer, diferentemente de um sindicato, mas tão
presente e diretamente ligada à defesa do direito do autor,
internacionalmente, já que o artista também vive dificuldades
em ter/manter estruturas que o atendam em tantas áreas vinculadas
à documentação, orientação, literatura
legal, comercialização, utilização de
imagem. A presença da AUTVIS, hoje, é um grande presente
aos criadores de artes visuais.
B. R. Embora o cidadão
comum não perceba, a arte está presente em seu cotidiano.
De que forma você acha que a "arte elitizada", que
fica restrita a uma determinada fatia da sociedade, pode ser disseminada
a um público maior?
Roberto: Você tem toda
a razão quando diz que a arte está presente no cotidiano.
Precisamos de orientação a respeito delas. Sem formar
especificamente a cultura de arte nas escolas, dificilmente você
irá desenvolver a curiosidade, o olhar para o belo e o estético,
ou inocular no observador algo que lhe arranque da mesmice e do
comum. Afinal, quantas obras estão aqui e ali, e nenhuma
explicação. Quantas pessoas passam diariamente por
ruas, tendo contato com obras, monumentos, esculturas, e nunca pararam
para observar aquilo. Isto faz parte da educação.
Quando me pergunta sobre a arte elitizada, tem que ser mostrada
também. Explicada como toda e qualquer arte, afinal uma minoria
poderia falar sobre ela. Talvez assim consigamos desenvolver um
mercado mais sério. Quanto à divulgação:
eventos! Isto a propaganda me ensinou. Como artista, sinto que a
grande divisão entre arte e povo está na divulgação
e na educação. Temos que ensinar crianças a
valorizarem a arte, aprender a pensar em investimento, não
existe outra maneira. Convencer as pessoas a conhecerem e visitarem
normalmente as galerias, elas nunca estão nos roteiros culturais
quando não apresentam exposições específicas.
Acredito nas mostras, acredito nos centros de cultura, acredito
na divulgação. E, novamente lembro: o artista não
consegue pagar ou fazer tudo sozinho, sem apoio de empresas que
podem destinar um volume de verba que lhes trará mais que
o retorno imaginado. Isto eu posso afirmar, sejam livros, catálogos,
exposições, divulgação do trabalho do
artista, de editoras realmente interessadas, que busquem ajudar
o criador, até os admirados e respeitados patrocinadores.
Tendo mais boas idéias? Coloquem para funcionar!
B.
R. Qual foi o fator principal que o levou à
pintura?
Roberto: A coragem. A pintura
é um talento inato. Algumas coisas você sabe que sabe.
Muitas vezes leva anos fora do seu caminho, tentando sobreviver.
Não faz nada mais que isso, porque de fato não sobra
tempo. Fui à pintura por ter sido ela a constante em toda
a minha vida. Novamente entramos no assunto cultural. Me lembro
a história de duas crianças conversando e uma delas
pergunta à outra: "- O que faz seu pai? O amigo responde:
- Desenha, pinta... Volta ao interlocutor: - E ele não trabalha?"
B. R. Você já
trabalhou ou tentou trabalhar com outras técnicas, assim
como outros materiais e tendências como escultura e outros?
Roberto: Uso acrílico.
Foi uma opção, e acabo aplicando alguma coisa de colagem.
Algum pó de mármore e outros materiais, dependendo
do momento. Até fôrma de mousse já utilizei
porque ficava ali, me olhando... Experimentei, sem a devida determinação,
alguma coisa em escultura. Hoje penso mais seriamente em produzir
gravuras. Este mercado é muito respeitado internacionalmente.
O trabalho em papel, em geral, tem um bom resultado comercial no
exterior.
B. R. Em geral, você
utiliza bastante cor nas suas telas, qual ou quais os artistas que
exerceram maior influência na sua arte e porque a preferência
por natureza, especialmente as frutas (melancias, peras, cajus,
etc.).
Roberto: As cores são
quase que um patrimônio nacional, coisa do Brasil! O que vemos
que vão mudando são as luzes. Acredito que a cor pura
começa aqui. A maneira de utilizar essas cores é que
causa o grande evento, porque são a representação
do olhar. Para mim isto é a saída para o meu trabalho.
É do olhar que surgem a necessidade da reprodução,
à minha maneira, de toda essa exuberância iluminada
que este país lindo nos oferece. E foram estas cores que
levaram tantos admiradores para a minha arte, e também perceber
no público estrangeiro, que visita minhas exposições,
a reação quando está em contato com essas cores
fortes. Os artistas que se emocionam são muitos. E onde gosto
de viver bons momentos, é com Matisse, Cézanne, Picasso...
Não abriria mão de nenhum grande pintor, em detrimento
de outro.
B.
R. De que forma a pintura exerce influência
no seu trabalho cotidiano (nesse caso, a publicidade)?
Roberto:
A Pintura é o meu trabalho, ela pode influenciar
muito outros trabalhos que porventura eu desenvolva. Enfim, quando
você opta pela pintura, nota que tem um problema a resolver.
Muitos pintores têm que trabalhar em atividades que sustentem
as fases ruins da pintura. Será bom pegar algum projeto para
as horas mais calmas. Claro, há que ter cuidado: a publicidade
é absorvente e vai tentar se impor como um bom provedor.
Quero continuar na pintura, e tentar, sim, buscar na publicidade
a patrocinadora, de fato, da minha obra, conseguindo apoiadores
bons, patrocinadores para que eu consiga concretizar algumas exposições
para as quais fui convidado e ainda não consegui realizar:
na Europa, por exemplo.
B. R. No seu site,
há cartas e bilhetes de crianças fazendo menções
à sua obra. Como se deu esse contato? Você tem preocupação
especial em apresentar seus quadros às crianças? Como
é isso?
Roberto: Primeiro gostaria de
lembrar que 99% das crianças que me presenteiam com seus
desenhos, eu nunca vi. O contato nasceu da visita delas às
minhas exposições. Naturalmente estas crianças
vão às tardes, com seus pais, aos quais só
tenho a agradecer: Desenvolvem uma nova consciência cultural
desde muito cedo em seus filhos, algo raro e muito necessário
desde a infância. Estas obras que me presenteiam são
feitas no livro de ouro das minhas exposições, redesenhando
o que observam na minha pintura, fazendo comentários com
suas letras ainda em formação, e sempre tendo um posicionamento
muito interessante, firme, determinado e autêntico. Ali tenho
a expressão mais pura e crítica. O resultado tem sido
bom, e a crítica também, pelo que leio. Novamente
percebo que as crianças se interessam muito por esta minha
arte, pelas cores, elementos pictóricos... Quando cheguei
nos Estados Unidos, em Washington, as crianças, com meus
catálogos nas mãos faziam pinturas de melancias, flores
e me presenteavam. Outras me ofereciam um tag para a porta do hotel,
com estrelas e letras com meu nome, uma gentileza, uma alegria,
e novos amigos que se aproximaram pela arte.
Eram momentos
muito agradáveis aqueles em que pude observar a atitude das
crianças com relação àquelas imagens
que estavam ali à sua frente (Neste caso, crianças
com no máximo cinco anos). Com tão boa recepção
por parte dessas crianças, e atento ao projeto de inclusão,
uma campanha constante de muitas instituições assistenciais
no Brasil, resolvi, agora em maio, na exposição que
fiz no Clube Paineiras do Morumby, em São Paulo, convidar
18 alunos da Oficina de Arte da APAE de São Paulo, com seus
desenhos de observação (retrato do amigo), desenvolvido
sob a orientação da Professora Jô Mognon. Um
trabalho belíssimo que fez muito sucesso. Essa aproximação
vem acontecendo naturalmente, e me fez voltar ainda mais atenção
a tudo o que essas crianças vêm dizendo.
B.
R. Poderia explicar melhor seu projeto de Arte Aberta?
Como funciona e de que forma este projeto contribui para democratização
das artes plásticas?
Roberto: Esta foi a maneira
que encontrei para desenvolver uma obra esteticamente bonita, com
grande extensão horizontal, trabalhando com cores que se
harmonizam ou tensionam, em 11 pêras, um signo que gosto muito
de pintar. Dessa forma, as onze podem ser apresentadas ou comercializadas
juntas ou separadas, e, assim, tornam-se uma obra aberta, na qual
mais de um colecionador tem parte de uma mesma obra, em que cada
pêra tem o seu número. A intenção é
movimentar o mercado, criar um evento, fazer uma aproximação
entre colecionadores, gerar uma crítica, e também
criar uma intimidade maior entre o público e a minha obra.
Afinal o projeto de obra aberta chama-se "As 11 pêras.
Onde estão as outras 10?". Hoje estas pêras já
estão em alguns locais do Brasil, e amanhã poderão
estar também no exterior. Tento acompanhar suas andanças.
A democratização pode se dar no fato das pessoas com
a obra, conhecerem sua história. Sinceramente espero que,
em momento oportuno, alguém tente aproximar estas peças
todas, e fazer uma apresentação completa desta obra
aberta.
Para
conhecer mais sobre o trabalho de Roberto Rossi, visite o site:
www.robertorossi.com
e www.betorossi.com
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