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O
BRASIL DÁ SAMBA?
(Os Sambistas e a invenção do
samba como "coisa nossa")
Por
Adalberto Paranhos
"O
samba, a prontidão e outras bossas,
São nossas coisas, são coisas nossas!"
Noel Rosa
Num
distante junho de 1980, o jornal inglês The Guardian
deu a conhecer o resultado de uma pesquisa de opinião pública
realizada pelo Departamento de Estudos Latino-Americanos da Universidade
de Essex. Tendo como tema-alvo as particularidades que notabilizariam
internacionalmente os países da América Latina, as
respostas oferecidas pelos pesquisados continham, à primeira
vista, no mínimo uma surpresa. Solicitados a indicar três
coisas que poderiam ser associadas ao Brasil, eles vasculharam a
memória e, com uma freqüência bastante significativa,
fizeram com que ressurgisse como símbolo nacional ninguém
menos que Carmen Miranda. Como se sabe, a "brazilian bomb-shell",
como foi chamada nos Estados Unidos, correu mundo, a bordo dos filmes
de Hollywood, especialmente nos anos 40, na condição
de "embaixatriz do samba". Passados cerca de 30 anos,
a lembrança dela não se apagou, figurando em nono
lugar nas referências do público britânico.
Não
por mera coincidência, Rio de Janeiro, samba e carnaval despontaram
em quarto, sétimo e oitavo lugares, respectivamente. Alguém
questionará a existência de uma estreitíssima
relação entre esses três elementos?1
Somados à fama desfrutada por Carmen Miranda, todos esses
fatores remetem, numa palavra, ao processo de fabricação
social do Brasil como "terra do samba", imagem que perdura
até os dias de hoje, atravessando os tempos apesar de todos
os contratempos no terreno da música popular brasileira.
Denominador
comum da propalada identidade cultural brasileira no segmento da
música, o samba urbano teve que enfrentar um longo e acidentado
percurso até deixar de ser um artefato cultural marginal
e receber as honras da sua consagração como símbolo
nacional. Essa história, cujo ponto de partida pode ser recuado
até a virada dos séculos XIX e XX, foi toda ela permeada
por idas e vindas, marchas e contramarchas, descrevendo, dialeticamente,
uma trajetória irregular que desconhece qualquer traçado
uniforme ou linear.
Os
caminhos trilhados pelo samba estão conectados ao contexto
mais geral do desenvolvimento industrial capitalista. Embora me
dispense de examinar, aqui, em detalhes as transformações
que estavam em andamento, registro, de passagem, algumas mudanças
fundamentais que levaram o samba - mesmo sem perder contato com
suas raízes negras - a incorporar outras atitudes e outros
tons. Enquanto música popular industrializada, sua expansão
girou, como não poderia deixar de ser, na órbita do
crescimento da indústria de entretenimento ou, como queira,
da indústria cultural. Para tanto jogaram um papel decisivo
a própria urbanização e a diversificação
social experimentada pelo Brasil nas primeiras décadas deste
século.
Interligada
a essas transformações, a música popular, convertida
em produto comercial de consumo massivo, revelará a sua face
de mercadoria. Pelo menos quatro fatores básicos, a meu ver,
convergirão no sentido de favorecer esse processo que atingirá
em cheio o samba: a) originariamente, bem cultural socializado,
isto é, de produção e fruição
coletiva, com propósitos lúdicos e/ou religiosos,
o samba alcança também o estágio de produção
e apropriação individualizada com fins comerciais;
b) ancorada nos processos elétricos de gravação,
a indústria fonográfica avança tecnologicamente
em grande escala e conquista progressivamente consumidores de setores
médios e de altas rendas; c) o autoproclamado "rádio
educativo" cede passagem, num curto lapso de tempo, ao rádio
comercial, que adquire o status de principal plataforma de
lançamento da música popular, deixando em segundo
plano os picadeiros dos circos e os palcos do teatro de revista;
d) a produção e divulgação do samba,
num primeiro momento praticamente restrita às classes populares
e a uma população predominantemente negra ou mulata,
passa a ser igualmente assumida por compositores e intérpretes
brancos de classe média, com mais fácil acesso ao
mundo do rádio e do disco.
Não
constitui novidade alguma falar sobre a conversão de "símbolos
étnicos" em "símbolos nacionais", inclusive
no caso do samba2.
Uma extensa bibliografia já se ocupou do assunto e não
pretendo repisar, a todo momento, fatos e argumentos ao alcance
de todos. O que me proponho fazer nesta comunicação
consiste simplesmente em destacar apenas mais um ângulo de
visão do mesmo tema, por entender que, em geral, ele não
foi suficientemente explorado. Por outras palavras, sem pretensões
a um trabalho de caráter musicológico, me disponho
a tomar como ponto de referência um aspecto particular:
o discurso musical de compositores e intérpretes da música
popular brasileira industrializada entre o final dos anos 20 e 1945,
período que cobre desde o surgimento do "samba carioca"
até sua consolidação como expressão
musical de "brasilidade".
Buscarei,
por conseqüência, privilegiar os registros sonoros -
a produção fonográfica - como corpo documental.
Por intermédio das gravações da época,
trata-se de evidenciar como, no campo de forças que se delineia
na área da produção musical, o samba vai sendo
inventado como elemento básico da singularidade cultural
brasileira por obra dos próprios sambistas.
Obviamente
não se deve ignorar a presença em cena de outros sujeitos
sociais engajados nesse movimento de fabricação/invenção
dessa tradição. No entanto, irei me concentrar no
papel desempenhado pelos produtores/divulgadores do samba como protagonistas
de uma história cujo enredo não foi tão-somente
ditado pela ação das elites e/ou do Estado.
À
medida que o Estado entra em campo para empreender uma operação
simultânea de institucionalização e/ou ressignificação
do samba - notadamente a partir do "Estado Novo" -, ele
atuará seletivamente na perspectiva de aproximar o samba
dos seus projetos político-ideológicos e de apartá-lo
daquilo que era tido e havido como dissonante frente ao ideário
do Governo Vargas. Esbarrando em limitações de espaço,
não poderei, neste trabalho, avançar na análise
da ação estatal. Quero, desde já, entretanto,
deixar registrado que este texto está em sintonia com as
críticas que, não é de hoje, se vem formulando
às tendências historiográficas que erigem o
Estado como "o grande sujeito" ou o sujeito demiúrgico
que faz a história, relegando os demais atores à condição
de meros coadjuvantes, quando não de massa carente de voz
própria3.
Gostaria
de enfatizar que a ação estatal - que não é
única nem uniforme - aparece em meio a tensões permanentes
que marcaram esse processo de legitimação do samba.
Tensões presentes seja na trincheira da produção
musical brasileira, seja no interior das classes dominantes e elites
intelectuais, seja entre integrantes do próprio aparelho
de Estado. Tensões, aliás, que se estenderão
inclusive às relações entre a música
popular e o "Estado Novo", que alimentou um dia a ilusão
da criação do coro da unanimidade nacional.
I.
SALVE O PRAZER: O SAMBA COMO PRODUTO NACIONAL
Nos últimos anos da década de 20, um terremoto de
efeito prolongado abalou, de alto a baixo, a música popular
brasileira. Seu epicentro foi o bairro de Estácio de Sá,
encravado entre o Morro de São Carlos e o Mangue, nas proximidades
do centro do Rio de Janeiro. Reduto de gente pobre, com grande contingente
de pretos e mulatos, era um prato cheio para as associações
que normalmente se estabelecem entre "classes pobres"
e "classes perigosas"4.
Como
lembra Tinhorão, "em seus botequins reuniam-se os representantes
da massa flutuante da população, que, figurando como
excedente de mão-de-obra num quadro econômico-social
acanhado, dedicava-se a biscates, ao jogo e à exploração
de mulheres da região do Mangue"5
. Daí viverem cercados de especial atenção
por parte da polícia. Berço do novo samba urbano,
o Estácio não terá, todavia, exclusividade
no seu desenvolvimento. Quase simultaneamente, o "samba carioca",
nascido na cidade, irá galgar as encostas dos morros e se
alastrar pela periferia afora, a ponto de, com o tempo, ser identificado
como "samba de morro".
Até
impor-se como tal e, mais ainda, como ícone nacional, uma
batalha, ora estridente, ora surda, teve que ser travada. Estava-se
diante daquilo que Roger Chartier caracteriza como "lutas de
representações"6.
Tornava-se necessário remover resistências até
no próprio campo de produção do samba, das
gravadoras e dos hábitos musicais dos maestros.
Para
alguns, o novo samba urbano em gestação representaria,
na verdade, uma deturpação do samba. Sinhô,
Donga e outros mais cerravam fileiras contra a modalidade de samba
à la Estácio & cia. Figuras proeminentes da primeira
geração de "fundadores" do samba urbano
baiano-carioca, eles não se conformavam com o estilo que
ganhava mais e mais adeptos. Em vez da sua feição
amaxixada, emergia um samba que, sem deixar de ser batucado, adquiria
uma característica de música mais "marchada",
como decorrência da aceleração rítmica,
considerada mais apropriada para os desfiles de carnaval.
Para
quem fora educado na tradição do samba amaxixado -
a chula raiada ou samba raiado ou, tanto faz, o samba de partido-alto
-, os "modernistas" estavam indo longe demais7.
Em tempos de expansão da indústria fonográfica
e da mercadoria disco, outras mudanças se processavam, contribuindo
para maior adequação da música gravada às
novas realidades. Com o samba do Estácio ocorria, por exemplo,
a valorização da(s) segunda(s) parte(s) das composições
enquanto música e letra. Em lugar da improvisão costumeira
das rodas de samba de partido-alto - calcado numa célula-mãe,
o estribilho, com base no qual corriam soltos os versos improvisados
- tinha-se agora seqüências pré-estabelecidas,
com unidade temática e possibilidade de se encaixar tudo
no tempo médio das gravações de 78 rpm, algo
ao redor de três minutos.
Por
algum tempo nem as gravadoras nem os maestros conseguiram apreender
muito bem o significado dessa ebulição na área
do samba. Para provar isso basta um exercício comparativo
que ponha frente a frente quatro gravações de sambas
típicos da safra do Estácio. De um lado, Novo Amor
(de Ismael Silva), com Mário Reis e acompanhamento da Orquestra
Pan-American, regida pelo russo Simon Bountman, de 1929, e Se
Você Jurar (de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco
Alves), com Mário Reis e Orquestra Copacabana, de 1930. De
outro, Adeus (de Ismael Silva, Noel Rosa e Francisco Alves),
com Jonjoca e Castro Barbosa, acompanhados pelo Grupo da Guarda
Velha, de 1932, e Agora É Cinza (de Bide e Marçal),
com Mário Reis e Diabos do Céu, de 19338.
No primeiro caso, a combinação rítmico-sonora
é marcada por uma orquestração amaxixada, que
pouco tinha a ver com a concepção que inspirara os
compositores do Estácio. Essa constatação nos
adverte quanto aos nexos existentes entre percepção
e experiência, ou ainda quanto à historicidade da percepção.
Não sendo a partitura um fato em si, dotado de sentido unívoco,
o próprio olhar e/ou a própria leitura é interpretação.
Por isso, nessa linha de raciocínio, Gombrich ressalta o
peso dos "hábitos conceituais" ou de uma schemata,
a partir dos quais "pedir um olhar (ou um ouvir, acrescento
eu) inocente é pedir o impossível"9.
Rompendo
com os músicos que ficavam reféns de uma lógica
tradicional, Pixinguinha, regente e orquestrador, líder do
Grupo da Guarda Velha e dos Diabos do Céu, ajustava seus
passos e seus compassos à situação musical
emergente. Não é à toa que acabou por ser enaltecido
como o inventor da linguagem orquestral brasileira. Ele que dera
um salto que o projetou à frente de si mesmo, como se percebe
ao ouvi-lo, anos antes (1929), conduzindo, à moda antiga,
a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, no registro do samba
de sua autoria, Gavião Calçudo, interpretado
por Patrício Teixeira.
Debaixo
daquilo que agora parecia ser cinza do passado, ainda ardia fogo
em plenos anos 30. Caninha, que devia seu apelido à condição
de ex-vendedor de roletes de cana, um dos pioneiros do samba, também
tinha suas razões para manifestar inconformismo. O autor
do famoso samba carnavalesco Esta Nega Qué Me Dá,
de grande sucesso em 1921, se aliava a Visconde de Bicoíba
(pseudônimo de Horácio Dantas) para protestar em É
Batucada, pela voz de Moreira da Silva: "samba de morro/
não é samba/ é batucada/ (...) cá na
cidade/ a história é diferente/ só tira samba/
malandro que tem patente". Ao insistir em apartar morro
e cidade, samba e batucada, essa composição - vencedora,
em 1933, do primeiro concurso oficial de músicas carnavalescas
do Rio de Janeiro - tomava rumo oposto à evolução
dos acontecimentos.
Vinculados
nas suas origens a práticas lúdicas e religiosas de
escravos e seus descendentes, o batuque e, mais explicitamente,
a batucada já estavam intimamente associados ao samba e à
malandragem. Como cantava de novo Moreira da Silva em Confissão
de Malandro (de Gilberto Martins), também de 1933:
O samba,
confissão de um malandro/ Que neste mundo vive sempre
a sonhar/ É o eterno companheiro da orgia/ Das batucadas
e das noites de luar/ (...) Samba de morro com batuque de pandeiro/
Tu és a alma deste Rio de Janeiro/ Quem te conhece desta
vida tudo esquece/ És o consolo do malandro que padece10.
Quando se examinam
os registros fonográficos, o que se constata é que
o samba - originalmente ligado à idéia de festa regada
a música - começa a ganhar corpo como gênero
específico a partir da primeira metade da década de
10. Depois de conhecer um incremento significativo nos anos 20,
tanto sob a rubrica de "samba" como de "samba carnavalesco",
se torna hegemônico na década de 30, na área
da produção musical brasileira. Quanto à denominação
de batuque ou batucada, ela aparecerá com alguma freqüência
ao longo de todo o período pesquisado11.
Seja como for, aparadas as arestas, um sentido de equivalência
irmanava agora samba e batucada, como no clássico Alegria
(de Assis Valente e Durval Maia), com Orlando Silva, gravação
na qual Pixinguinha, com seus Diabos do Céu, faz com que
os instrumentos de sopro se integrem admiravelmente à cozinha
rítmica:
Alegria/
Pra cantar a batucada/ As morenas vão sambar/ Quem canta
tem alegria/ Minha gente/ Era triste, amargurada/ Inventou a
batucada/ Pra deixar de padecer/ Salve o prazer!/ Salve o prazer!
Sim, trazidos
para o mesmo campo semântico, feitos sinônimos, samba
e batucada se darão as mãos em inúmeras composições.
É o que se vê em Noel Rosa, por exemplo, em Quando
o Samba Acabou, Quem Dá Mais e principalmente em Feitio
de Oração ("batuque é privilégio/
ninguém aprende samba no colégio"), na qual o
acompanhamento da Orquestra Copacabana se mostra à altura
dessa obra-prima, com particular destaque para a marcação
da bateria. É o que acontece igualmente em Ao Voltar do
Samba (de Sinval Silva) ou na modelar Em Cima da Hora
(de Russo do Pandeiro e Walfrido Silva), que, flagrando instantâneos
comuns naqueles tempos, conjuga mais uma vez samba, batucada, lua
e orgia. E, se alguém julgar necessário, o argumento
mais categórico pode ser buscado não numa letra de
música, mas num discurso nu de palavras: no criativo arranjo
do maestro Fon-Fon (Otaviano Romero Monteiro), elaborado na década
seguinte (1941), para o "samba-exaltação"
Isto Aqui O Que É (de Ari Barroso), cantado com o
peito estufado por Moraes Neto. Para além das modulações
melódico-harmônicas da orquestra - uma marca registrada
de Pixinguinha nestes trópicos -, o que se ouve na seção
de pancadaria é samba/ batucada da pesada.
Na sua corrida
para afirmar-se como produto nacional, era preciso saltar outros
obstáculos dispostos pelo caminho. Ao privilegiar, aqui,
a área da produção musical, chamo a atenção
para a necessidade do samba incorporar outros grupos e classes sociais,
promovendo um deslocamento relativo de suas fronteiras raciais e
sociais. Esse avanço em direção a outros territórios
encontra a sua figuração simbólica mais acabada
nas relações Estácio-Vila Isabel e na parceria
Ismael Silva-Noel Rosa.
Estácio
de Sá, centro populsor do "samba carioca", do "samba
de carnaval" ou do "samba de morro", era, como já
vimos, bairro de gente simples. Nele as práticas musicais
das classes populares contavam com o talento de pessoas que se projetariam
na história da música popular brasileira, como Ismael
Silva, Bide (Alcebíades Barcelos) e Armando Marçal.
Esbanjando engenho e arte, eles confeccionavam freqüentemente
seus próprios instrumentos de percussão, uma forma
de tentar contornar crônicos problemas financeiros (consta,
por sinal, que Bide foi o inventor do surdo de marcação
utilizado nas escolas de samba, feito de couro de cabrito ou de
gato que por vezes se comia aqui ou ali...). Ao compor, em 1936,
música e letra da belíssima O X do Problema,
Noel Rosa simplesmente se rendia aos encantos do samba do Estácio,
que admirava de há muito. E exprimia a atração
que parcela ponderável das classes médias sentia pelo
novo tipo de samba que viera à tona a partir da segunda metade
dos anos 20.
Ainda na passagem
das décadas de 20 e 30, integrantes do Bando de Tangarás
tinham lá seus pudores em mexer com "esse negócio
de música" e se meter com "gente do rádio".
Tamanho preconceito de setores significativos das classes médias
e das elites, em relação ao samba e cantores profissionais
de rádio, levaria - para me fixar num único exemplo
- o filho de um executivo de indústria, o tangará
Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, a adotar o pseudônimo
de João de Barro ou mesmo de Funarius Rufus, nome pelo qual
é conhecido o pássaro joão-de-barro no jargão
científico.
Noel Rosa, no
entanto, lançaria uma ponte entre bairros e segmentos sociais
diversos, e transitaria muito à vontade entre os bambas do
Estácio. "Poeta da Vila", ele reconhecia como ninguém
o Feitiço da Vila Isabel, nos versos com os quais
deu voz à sofisticada melodia de Vadico:
Quem
nasce lá na Vila/ Nem sequer vacila/ Ao abraçar
o samba/ Que faz dançar os galhos do arvoredo/ E faz
a lua nascer mais cedo/ (...) Eu sei tudo que faço/ Sei
por onde passo/ Paixão não me aniquila/ Mas tenho
que dizer:/ Modéstia à parte/ Meus senhores, eu
sou da Vila!
A Vila Isabel
do final da década de 20 e início dos anos 30 transpirava
musicalidade. A tal ponto que o compositor e radialista Haroldo
Barbosa costumava, muitos anos mais tarde, compará-la à
Ipanema da década de 60 . "Point" do agito cultural,
a Vila, bairro de classe média, legou à história
da música e do rádio no Brasil nomes da envergadura
de Almirante, João de Barro, Francisco Alves, Nássara,
Cristóvão de Alencar, Orestes Barbosa, Antonio Almeida,
Ciro de Sousa, J. Cascata, os irmãos Evaldo Rui e Haroldo
Barbosa, Barbosa Jr. etc., mais "agregados" como Lamartine
Babo e as amizades "estranhas" de Noel, recrutadas entre
"gente do morro"13.
Mas não
se pense que a Vila cultivasse pretensões hegemônicas
relativas à apropriação do samba, apesar de
sua contribuição para o refinamento da canção
popular no Brasil. O que se evidencia nas palavras de Noel Rosa
é que o samba carioca não pertence ao Estácio
ou à Vila Isabel. Ele é produto do Rio de Janeiro,
como está dito, com todas as letras, em Palpite Infeliz,
com Araci de Almeida, composição que fez parte da
polêmica musical travada entre Noel e Wilson Batista:
Quem
é você que não sabe o que diz/ Meu Deus
do céu, que palpite infeliz!/ Salve Estácio, Salgueiro,
Mangueira/ Oswaldo Cruz e Matriz/ Que sempre souberam muito
bem/ Que a Vila não quer abafar ninguém/ Só
quer mostrar que faz samba também/ (...) A Vila é
uma cidade independente/ Que tira samba mas não quer
tirar patente/ Pra que ligar a quem não sabe/ Aonde tem
o seu nariz?/ Quem é você que não sabe o
que diz?14
Como que pondo
fim, musicalmente, a qualquer discussão envolvendo a oposição
morro x cidade, o mesmo Noel, figura central na definição
das feições do samba urbano carioca, dissera, de forma
categórica, dois anos antes (1933), em Feitio de Oração
(dele e Vadico), que "o samba na realidade/ não vem
do morro nem lá da cidade/ e quem suportar uma paixão/
sentirá que o samba então/ nasce do coração"15
. E outros compositores de alguma maneira fariam coro com ele. Benedito
Lacerda e Herivelto Martins, via interpretação despojada
de Alzirinha Camargo, frisavam em Ritmo do Coração
(de 1936), que "o samba é paixão/ o samba
tem o mesmo/ ritmo do coração". Ari Barroso,
pela voz de Sílvio Caldas, emendaria em Morena Boca de
Ouro (de 1941), um primor de combinação percussiva
entre rítmo, melodia e letra: "meu coração
é um pandeiro/ marcando o compasso de um samba feiticeiro".
Diferentemente,
porém, dos compositores de sua origem social, Noel Rosa revelava
um apego às coisas e às pessoas do subúrbio
e do morro que, também sob esse aspecto, o transformava num
tipo excepcional, cruzando e intercruzando mundos distintos, numa
palavra, aproximando-os como autêntico "mediador cultural"16.
Francisco Alves tinha um faro extraordinário para garimpar
novidades e talentos onde quer que eles surgissem, para, em seguida,
produzir discos de sucesso. Noel ia muito além: de modo mimético,
se integrava aos "sambistas de morro", como atestam as
suas parcerias com Canuto (do Salgueiro), Cartola e Gradim (da Mangueira),
Ernani Silva, o Sete (do subúrbio de Ramos), Bide e Ismael
Silva (do Estácio), sem falar no exímio ritmista Puruca,
em Antenor Gargalhada e outros mais17.
Não é por si só emblemático que o ex-estudante
de Medicina e boêmio Noel Rosa tivesse justamente em Ismael
Silva o parceiro com quem mais músicas compôs? Justo
ele, que era um negro pouco afeito ao trabalho, que vivia de biscates,
trapaças de jogo, e que, imbuído do orgulho de criador
artístico de respeito, proclamava em O Que Será
de Mim, uma espécie de auto-retrato:
Se eu
precisar algum dia/ De ir pro batente/ Não sei o que
será/ Pois vivo na malandragem/ E vida melhor não
há/ (...) Deixa falar quem quiser/ Deixa quem quiser
falar/ O trabalho não é bom/ Ninguém pode
duvidar/ Oi, trabalhar só obrigado/ Por gosto ninguém
vai lá.
A vida e a obra
de Noel Rosa fornecem um testemunho eloqüente do movimento
de "transregionalização"18
do "samba carioca". Nascido, por assim dizer, numa determinada
"região" do Rio de Janeiro, ele migra, num processo
dinâmico de permanente recriação, para outras
"regiões". Simultaneamente, conduzido pelas ondas
do rádio, ele se transporta para outras regiões do
país, que elevarão o "samba carioca" à
condição de "samba nacional", embora não
se excluam outras pronúncias ou outras dicções
do samba19.
Esse reconhecimento
surgiria na linguagem musical dos sambistas. "O samba já
foi proclamado/ sinfonia nacional", enfatizavam, em 1936,
por meio de Carmen Miranda, os compositores Custódio Mesquita
e Mário Lago, em Sambista da Cinelândia. Enquanto
isso, o piano de Custódio Mesquita, com sua habitual elegância,
aderia, em breves passagens, à marcação rítmica
da batucada20.
Aparentemente estavam derrotados os preconceitos mencionados, dois
anos atrás, por Maércio de Azevedo e Francisco Matoso
em Abandona o Preconceito, com o Bando da Lua. Afinal, em
1935, numa gravação em que música, letra e
acompanhamento do conjunto regional estão estreitamente ajustadas,
Carmen Miranda cantava em Se Gostares de Batuque (cuja autoria
se atribui a Kid Pepe):
Oi, se
gostares de um batuque/ Tem batuque que é produto nacional/
Sobe o morro e vai ao samba/ E lá verás que gente
bamba/ Está sambando no terreiro/ Pois tudo aquilo é
bem brasileiro.
E isso com direito,
no final da gravação, a um provocativo e escrachado
yeah!
II.
YES, NÓS TEMOS SAMBA: O NACIONALISMO MUSICAL
Yes, nós temos samba. E o samba se converteria na principal
peça da artilharia musical brasileira na batalha desencadeada
contra as "más influências" culturais norte-americanas,
que, no front da música popular, seriam encarnadas
acima de tudo pelo fox-trot.
Se
para uns era perfeitamente admissível que o sambista e o
compositor de fox habitassem uma mesma pessoa, para outros essa
dualidade era intragável. Se de ambos os lados se podia recolher
manifestações de afirmação do samba
como símbolo musical da identidade nacional, os usos de um
ritmo de procedência estrangeira os dividiam, mesmo quando
pudessem até atuar como parceiros, como foi o caso, por exemplo,
de Noel Rosa e Custódio Mesquita.
Ao
se examinar a discografia brasileira em 78 rpm, verifica-se que
há elementos suficientemente expressivos da penetração
do fox-trot desde a segunda metade da década de 10. A influência
de gêneros musicais norte-americanos, com o fox à frente,
se acentuou nos anos 20. É a época da constituição
de diversas jazz-bands, dentre as quais a do Batalhão Naval
do Rio de Janeiro21.
Nos anos 30, quando o fox-trot rodava pelo mundo com inegável
sucesso, sua presença continuou a crescer, notadamente na
primeira metade da década, para, depois, voltar a estar em
grande evidência até, a grosso modo, o término
da segunda guerra mundial.
Durante
esses aproximadamente 30 anos do fox-trot em terras brasileiras,
as etiquetas dos discos aqui gravados farão menção
a uma gama imensa de foxes: fox-canção, fox-cançoneta,
fox-cowboy, fox-marcha, fox-sertanejo e ... fox-samba. E se ouvirão
foxes nacionais e estrangeiros, no original ou em versões
(em compensação, também serão registrados
fado-samba, guarânia-samba, mazurca-samba, samba-rumba, samba-tango
e ... samba-fox, sem contar samba-boogie e samba-swing).
Armado esse cenário, pode-se então compreender por
que, já em 1930, num samba amaxixado de Randoval Montenegro,
Carmen Miranda descarregava a ira do setor nacionalista contra o
fox-trot, esse intruso, e espalhava aos quatro cantos que Eu
Gosto da Minha Terra:
Sou brasileira,
reparem/ No meu olhar, que ele diz/ E o meu sabor denuncia/
Que eu sou filha deste país/ Sou brasileira, tenho feitiço/
Gosto do samba, nasci pra isso/ O fox-trot não se compara/
Com o nosso samba, que é coisa rara.
E
por aí ia esse precursor do "samba-exaltação",
a transbordar de felicidade com as belezas naturais do Brasil. Sem
ser dado a compartilhar de qualquer ufanismo tolo - supondo-se,
é claro, a possibilidade de existir ufanismo que não
seja tolo -, Noel Rosa era um dos que compactuavam, no entanto,
com as restrições feitas ao modismo do fox-trot. Na
verdade, com freqüência ele torcia o nariz diante do
que lhe parecesse "americanizado", da mesma maneira como
achava deplorável ver brasileiros cantando em outras línguas.
Por ser, também nessa discussão, uma figura da maior
importância na cena musical brasileira, vale a pena nos determos
um tanto mais nas implicações do seu nacionalismo,
algo que recendia a um nacionalismo popular.
Nas
palavras dos seus melhores biógrafos, "os estrangeirismos
simplesmente não combinam com seu jeito de ser. São
chiquês de grã-finos e intelectuais enfatuados, pura
moda, mania de exibição". Sob a óptica
de Noel, o Brasil está "aqui perto, na cidade do interior,
no morro, no bairro, na esquina. Ou mesmo no botequim, na gafieira,
na pensão de mulheres, no carnaval, na roda de jogo, nos
lugares enfim onde todos os brasileiros se igualam. Seu nacionalismo
tem esse sentido. De gostar das 'coisas nossas'. De preferir o samba
ao fox-trot"22.
Tudo
isso está sintetizado de forma magistral por Noel Rosa numa
composição de 1933, Não Tem Tradução,
na qual música e letra se integram à perfeição
num corpo só:
O cinema
falado/ É o grande culpado/ Da transformação/
Dessa gente que sente/ Que um barracão/ Prende mais que
um xadrês/ Lá no morro, se eu fizer uma falseta/
A Risoleta/ Desiste logo do francês e do inglês//
A gíria que o nosso morro criou/ Bem cedo a cidade aceitou
e usou/ Mais tarde o malandro deixou de sambar/ Dando pinote/
E só querendo dançar o fox-trot!// Essa gente
hoje em dia/ Que tem a mania/ Da exibição/ Não
se lembra que o samba/ Não tem tradução/
No idioma francês/ Tudo aquilo que o malandro pronuncia/
Com voz macia/ É brasileiro, já passou de português//
Amor, lá no morro, é amor pra chuchu/ As rimas
do samba não são "I love you"/ Esse
negócio de "alô", "alô, boy"/
"Alô, Johnny"/ Só pode ser conversa de
telefone.
Música-plataforma,
por assim dizer, Não Tem Tradução entrava
em linha de sintonia com Macunaíma, personagem gerado pelo
modernista Mário de Andrade, que já percebera e procurava
apre(e)nder as "duas línguas da terra, o brasileiro
falado e o português escrito"23.
Como se sabe, a preocupação básica de Mário
de Andrade, no caso, se nutria do desejo de captar a fala que nasce
do Brasil popular, do "Brasil brasileiro", como que a
saborear o coco que o coqueiro dá. Nessa perspectiva, a sintaxe
é submetida a um processo de abrasileiramento em busca de
uma "língua brasileira". E essa sintaxe, musicalmente
falando, para Noel era o samba24.
Seria,
de fato, o cinema falado o grande vilão apontado por Noel
Rosa? Exageros à parte, era indiscutível que, ao desembarcar
no Brasil em 1929 - trazendo consigo o idioma inglês e os
musicais norte-americanos -, ele contribuiria poderosamente para
originar uns tantos modismos. Do cultivo da aparência física
ao vestuário, passando pela incorporação de
expressões inglesas à linguagem cotidiana, seu raio
de influência foi amplo. E Noel estava a postos para satirizar
certas situações que precipitavam no ridículo
os cultores dessas ondas, como o fez no samba-choro Tarzan (O
Filho do Alfaiate). Aqui seu alvo são os jovens de famílias
de "boa cepa", que, querendo ombrear-se ao musculoso Tarzan
do cinema, muitas vezes corriam ao alfaiate para rechear de algodão
as ombreiras dos paletós...
Mas
o deboche, de certo fundo nacionalista, não era obra apenas
de Noel Rosa. Lamartine Babo, autor de classe média, aberto
a todo tipo de música, não era, logo se vê,
exatamente um nacionalista. Nem por isso, entretanto, deixou de
elaborar, em 1931, uma obra-prima do non-sense, o fox-charge
Canção Para Inglês Ver:
Morguet
Five Underwood/ I shell/ No bonde Silva Manuel/ Manuel/ Manuel/
I love you/ To have steven Via-Catumbi/ Independence lá
do Paraguai/ Studebaker... Jaceguai!/ Yes, my glass/ Salada
de alface/ (...) Elixir de inhame/ Reclame de andaime/ Mon Paris
je t'aime/ Sorvete de creme.../ (...) Isto parece uma canção
do Oeste/ Coisas horríveis lá do Far West.
Nacionalista
assumido era, sim, Assis Valente, mulato de origem humilde, que
dividia seu tempo entre a arte de fazer prótese dentária
e a arte de compor. Numa marcha de 1932, Good-Bye, ele aconselhava:
"good-bye, boy, good-bye, boy/ deixa a mania do inglês/
fica tão feio pra você/ moreno frajola/ que nunca freqüentou/
as aulas da escola". Aliás, já na sua estréia
em disco, com Tem Francesa no Morro, ele confiava a Araci
Cortes, estrela cintilante do teatro de revista nas décadas
de 20 e 30, a missão de mostrar, com muita graça,
que samba e "morrô" (ou seria "morraux"?)
não rimavam com França: "vian/ petite francesa/
dancê/ le classique/ em cime de mesa". Alguns anos
mais tarde, em Oui... Oui..., Floriano Pinho tornaria a bater
na mesma tecla: "as francesas sambando/ eu fiquei a sorrir/
marcação de bailado/ à moda chic de Paris!/
(...) no Brasil o samba é patenteado/ e nós, os brasileiros,
somos diplomados".
As
conseqüências da chegada do cinema falado ao Brasil não
se resumiam, contudo, à área dos costumes. Ela provocou,
no início dos anos 30, desemprego em massa de instrumentistas,
até então habitualmente convocados para trabalhar
nas salas de projeção ou nas salas de espera dos cinemas.
O número de músicos atirados ao "completo abandono"
era calculado em cerca de 30.000 por todo o país. Daí
uma manifestação de protesto por parte da "classe
musical" do Rio de Janeiro, que, recebida em palácio,
passou às mãos de Getúlio Vargas um documento
no qual, entre outras coisas, se reivindicavam: a) "a obrigatoriedade
da inclusão de dois terços de música brasileira
em todo e qualquer programa das casas de diversões";
b) "obrigatoriedade de conservação de orquestras
típicas nacionais nos salões de espera ou nos salões
de exibição, quando aqueles não existirem"25.
Essa
iniciativa de cunho protecionista combinava com a proposta de constituição
de uma Orquestra Típica Brasileira. Defendida em 1933 por
Orestes Barbosa e bancada por Mário Reis, a idéia
que os animava era a de fazer frente às jazz-bands, estrangeiras
ou nacionais, formadas sob inspiração do figurino
norte-americano, bem como às "orquestras típicas
argentinas". Isso propiciou até uma experiência
natimorta, por falta do esperado amparo oficial: sob a liderança
de Pixinguinha, ocorreu uma única apresentação
da Orquestra Típica Brasileira, cujo precedente tinha sido
a formação, em 1928, da Orquestra Típica Pixinguinha-Donga.
Por essas e outras, em 1935, Noel Rosa lamentava a inexistência
no Brasil de uma "orquestra típica" como as dos
Estados Unidos e Argentina.
O
panorama musical brasileiro da época era, obviamente, um
campo de forças, com suas disputas e concorrências.
O samba, hegemônico, não reinava sozinho, como também
é óbvio26.
A verificação dos gêneros musicais veiculados
no mundo dos discos indicava, em segundo lugar, a freqüência
de gravação de marchas (por sinal, era muito comum
a dobradinha samba-marcha, figurando em cada um dos lados das gravações
em 78 rpm, especialmente nos meses que antecediam o carnaval). Mas
se gravavam em grande quantidade "canções",
valsas (estas, quase exclusivamente de autores nacionais, em escala
bem maior que o fox), músicas "sertanejas" ou "regionais"
(agrupando muitos gêneros ou subgêneros). Sem o mesmo
peso quantitativo de antes, o choro era outra modalidade sempre
presente, inclusive sob a nova designação de samba-choro.
Já o samba-canção, que despontara enquanto
rubrica musical em 1928, ainda contava com um número de registros
relativamente reduzido27.
O
fado, o tango e o fox-trot eram, sem dúvida, os gêneros
"estrangeiros" mais em voga nos anos 30, no Brasil. Até
meados da década o fado tinha aqui considerável ressonância.
Orestes Barbosa, misto de jornalista, compositor e boêmio,
nacionalista até a medula, nunca escondeu sua particular
aversão aos estrangeiros. E crivava de críticas os
portugueses, que a seu ver eram sinônimo de atraso de vida.
Ele tapava os ouvidos diante de um fado e partia logo para a esculhambação:
"o fado é um arroto! O fado só fala de miséria.
Em cadelas de rua. Em bacalhau. Em catres de hospital. É
sempre a mesma lamúria: 'Minha mãe, minha mãe,
minha mãe...' Rimando com tambãe"28.
Sua impressão sobre o tango, com coisas tipo Por Vos Yo
Me Rompo Todo (Por Ti Eu Me Rasgo Todo, na versão
gravada por Orlando Silva), certamente não era muito diferente.
A
maior influência, entretanto, continuava a ser exercida pelos
foxes, nacionais ou estrangeiros (incluindo-se versões de
João de Barro, Alberto Ribeiro, Lamartine Babo e... Orestes
Barbosa, muitas delas de filmes musicais norte-americanos). O versionista-mor
do momento era Osvaldo Santiago, posto ocupado por Haroldo Barbosa
na década de 4029.
Até o encarniçado nacionalista Orestes Barbosa se
tornou co-autor de fox-canções e de fox-trots, em
parceria com o maestro J. Tomás. Chegarão ao ponto
de compor um "fox-samba", Flor do Asfalto, em 1931.
Nesse campo, todavia, ninguém excedeu musicalmente em qualidade
Custódio Mesquita, com impecáveis composições
em que dava mostras da assimilação criativa de procedimentos
musicais norte-americanos, tais como em Nada Além
(dele e Mário Lago) e Mulher (dele e Sadi Cabral).
Nesse
cenário, de novo se pode recorrer a Noel Rosa como uma espécie
de modelo-ideal weberiano da trincheira do samba. O exame da sua
obra é um atestado eloqüente disso. Desço aos
detalhes, aqui. Num esforço de recuperação
meticuloso, João Máximo e Carlos Didier arrolaram
259 canções de Noel, entre as que foram gravadas (em
vida ou postumamente), não gravadas e/ou das quais se teve
conhecimento de sua existência (mesmo quando melodia e/ou
letra se perderam) por informações várias.
Limitei-me apenas ao trabalho de quantificá-las para que
o perfil musical do autor pudesse emergir mais claramente.
A
imensa maioria de suas composições é constituída
por sambas, 164 ao todo, dos quais, na prática, se se considerar
a existência de diversas parcerias fictícias, cerca
de metade é tão-somente dele (música e letra).
Em segundo lugar aparecem as marchas, 31 no total, 23 delas em regime
de parceria. Todos os demais gêneros têm uma presença
pouco significativa no conjunto da produção de Noel.
Sozinho ele compôs a sério não mais do que uma
valsa e uma "canção", dentre as 7 valsas
e as 6 canções que integram seu repertório,
sendo 4 valsas e 4 "canções" meras paródias,
além de uma valsa e uma "canção"
feitas nos moldes de opereta ou com fim humorístico. A pouca
ou quase nenhuma importância desses dois gêneros para
Noel vale como um indicador do seu entranhado e moderno anti-romantismo.
4
emboladas, 3 marchas-rancho, 3 sambas-canções30,
3 sambas-choros, 2 choros, 2 canções sertanejas e
uma toada completam sua obra, ao lado de 20 peças não
identificadas e 3 musicadas postumamente. E quanto aos gêneros
"estrangeiros"? Tango, rumba e fox-trot têm também
o seu lugar, mas um lugar gritantemente menor na obra desse parodista
notável que jamais compôs sozinho qualquer fox-trot,
rumba ou tango. Os dois tangos em que Noel figura como co-autor
são paródias; a única rumba se reveste de feição
nitidamente teatral, para os devidos fins. Dos 7 fox-trots a que
associou seu nome, 3 assumem a forma de paródia, um é
parte de uma opereta e outro atende a finalidades teatrais. O nacionalismo
musical de Noel fala, portanto, através da análise
da sua produção.
Em
sua curta vida, interrompida por complicações pulmonares
aos 26 anos, nada mais do que um fox-trot com letra sua (música
do irmão Hélio Rosa, aliás, coisa de irmão
pra irmão) chegou ao disco: Você Só... Mente.
Estátua da Paciência, com música do regente
de orquestra de teatro de revista Jerônimo Cabral, teria que
amargar mais de 50 anos de esquecimento até ser gravada pela
primeira vez.
Gozador
de marca maior, Noel foi autor de operetas, "óperas
bufas cariocas" ou "revistas radiofônicas".
Parodista implacável, ele parodiou a si próprio com
a mesma facilidade com que seus traços o caricaturizaram,
ele que, "sem queixo", fazia a alegria dos caricaturistas.
Num período em que a febre dos musicais norte-americanos
arrastava multidões aos cinemas, ele não respeitou
sequer Irving Berlin. Cheek to Cheek, música ao som
da qual Fred Astaire e Ginger Rogers contracenavam em Picolino,
virou nada mais nada menos do que um reles Vagolino de Cassino
(não gravada).
O
procedimento parodístico sublinha a diferença, quando
não institui a inversão. Afasta-se radicalmente da
paráfrase, que atua como recurso argumentativo de reforço
e de celebração da identidade. No caso, a ação
de Noel novamente o aproxima de um dos elementos críticos
utilizados pelos poetas modernistas, o poema-piada, em meio à
reavaliação que fizeram, na década de 20, da
cultura brasileira. Como salienta Affonso Romano de Sant'Anna, "da
mesma maneira que é possível estabelecer um paralelo
entre a paródia - como efeito cáustico e crítico
em Noel Rosa - e a paródia em Oswald de Andrade, Murilo Mendes
e Carlos Drumond de Andrade, talvez seja possível aproximar
a paráfrase - como endosso e cópia - tal como aparece
através do ufanismo de poetas como Cassiano Ricardo e Guilherme
de Almeida, e o ufanismo de Ari Barroso na década de 30 e
40 sob os auspícios da ditadura de Getúlio Vargas"31.
O
nacionalismo popular de Noel não se permite arrebatamentos
ou derramamentos grandiloqüentes. O Brasil lhe deu régua
e compasso para desenhar o "Brasil de tanga", o Brasil
da "prontidão". De olhos voltados para o corpo-a-corpo
do dia-a-dia, seu mundo é habitado pela mulher, pelo pandeiro,
batuque, violão, prestamista e vigarista, como em Coisas
Nossas, que ele canta com sua voz pequena e em tom coloquial:
"malandro que não bebe/ que não come, que
não abandona o samba/ pois o samba mata a fome/ (...) e o
bonde que parece uma carroça/ coisa nossa, muito nossa!"
Noel
Rosa, Ari Barroso, João de Barro, Alberto Ribeiro e muitos
outros mais, quaisquer que fossem as diferenças que os separassem,
tinham em comum traços nacionalistas, mais ou menos pronunciados,
e, mais do que isso, erigiam o samba como produto nacional. Com
a marchinha Yes! Nós Temos Bananas..., sucesso carnavalesco
de 1938 em diante, João de Barro e Alberto Ribeiro faziam
uma réplica a um fox-trot que deu volta ao mundo, Yes!
We Have No Bananas, de Frank Silver e Irving Cohn. Isso equivalia
a um brado nacionalista, de quem se sabia subdesenvolvido, sim,
mas achava, ainda assim, razões para se orgulhar de seu país:
"yes! nós temos banana/ banana pra dar e vender/
banana, menina/ tem vitamina/ banana engorda e faz crescer".
E, musicalmente, quem ia para o trono, no Brasil, era, de fato,
o samba, como cantava Almirante em Touradas em Madri, da
mesma dupla que se celebrizou com suas marchas:
Eu conheci
uma espanhola/ Natural da Catalunha/ Queria que eu tocasse castanhola/
E pegasse o touro à unha/ Caramba/ Caracoles/ Sou do
samba/ Não me amoles/ Pro Brasil eu vou fugir/ Isso é
conversa mole/ Para boi dormir32.
III.
ESSA GENTE BRONZEADA: O SAMBA E A MESTIÇAGEM
A escalada do samba para obter seu lugar ao sol na galeria dos símbolos
nacionais o levou a percorrer territórios minados. Sofrendo
nos primeiros tempos com as investidas policiais, que não
poupavam a malandragem e a capoeiragem, ele foi achincalhado como
"coisa de negros e de vadios". O violão, companheiro
das horas certas e incertas, foi desqualificado como "instrumento
de capadócios"33.
O
reconhecimento de que o samba era negro de nascença provinha
inclusive de compositores e intérpretes brancos que não
viam nisso, necessariamente, algo de negativo. Como no amaxixado
O Nego no Samba (de Ari Barroso, Luiz Peixoto e Marques Porto),
com Camen Miranda, que zombava, em 1929, da falta de jeito dos brancos
ao cairem no remelexo do samba:
Samba
de nego/ Quebra os quadri/ Samba de nego/ Tem parati/ (...)
Num samba, branco se escangaia/ Num samba, nego bom de saia/
Num samba, branco não tem jeito, meu bem/ Num samba,
nego nasce feito.
Coisa
de nego que envolve negaça (sedução, provocação,
requebro) e parati (cachaça) para festejar o momento lúdico,
eis, em suma, o retrato falado do samba. Poucos anos mais tarde,
porém, já não seria este o desenho que outros
compositores fariam dele.
Na
realidade, o samba - no seu fazer-se e refazer-se permanente - ia
incorporando outra tez e outro tom, quer dizer, outras dicções
e tonalidades, imerso num processo simultâneo de relativo
"embranquecimento" e "empretecimento" dos grupos
e classes sociais que lidavam com ele. Sua prática o conduzia
rumo a direções opostas e complementares, tecendo
a dialética da unidade dos contrários, tão
bem expressa nas contraditórias trocas culturais realizadas
entre as classes populares e as classes médias. Abria-se,
assim, caminho para a entronização do samba como ícone
cultural de toda a nação e não apenas desse
ou daquele segmento étnico. Testemunha ocular e ativo participante
dessa história da nacionalização do samba,
Orestes Barbosa prestava o seu depoimento em Verde e Amarelo,
calcado em música de J. Tomás, apontando, em 1932,
sinais de um novo tempo:
Vocês
quando falam em samba/ Trazem a mulata na frente/ Mas há
muito branco e bamba/ Que no samba é renitente/ Não
me falem mal do samba/ Pois a verdade eu revelo/ O samba não
é preto/ O samba não é branco/ O samba
é brasileiro/ É verde e amarelo.
Para
acentuar o clima nacionalista, essa gravação é
entrecortada por acordes do hino nacional. E mais: nos versos seguintes
("nesta terra de palmeiras/ onde canta o sabiá/ as almas
das brasileiras/ são da flor do resedá"), há
uma citação de "Canção do exílio",
de Gonçalves Dias, poeta romântico repetidamente parodiado
pelos modernistas. Nada aí é casual: o arremate recorda
a coloração amarela da flor do resedá.
O
Brasil parecia se encher de cores, a julgar ainda pela denominação
de alguns grupos musicais. Entre fins dos anos 20 e princípio
dos 30, estava em ação o Grupo Verde e Amarelo, liderado
pelo compositor e cantor Paraguassu, cujo interesse se direcionava
para as "coisas brasileiras". Temperando o café
com leite, entre março de 1934 e dezembro de 1939, a Dupla
Preto e Branco (respectivamente, Francisco Sena, depois Nilo Chagas,
e Herivelto Martins) emplacou diversos sucessos. Para culminar,
de 1937 em diante, a Dupla Verde e Amarelo (com Wilson Batista e
Erasmo Silva) coloca no mercado seus primeiros discos. Tudo isso
parecia ser sintoma de alguma coisa.
Sintoma
da mestiçagem que passou a ser cantada como nunca se viu
por estas terras. Sua trilogia pode ser buscada, por exemplo, na
seqüência das marchas compostas por um dos maiores nomes
dos carnavais brasileiros, o branco Lamartine Babo, originário
da classe média. Em O Teu Cabelo Não Nega (dele
e Irmãos Valença), de 1931, a mulata é reverenciada.
No ano seguinte ela cede seu lugar à Linda Morena. Em 1933
ele cantará Dá Cá o Pé... Loura
(dele e Alcir Pires Vermelho). Em poucas palavras, o que se tematizava
musicalmente não era senão o caráter "misto",
"multirracial" da sociedade brasileira. A miscigenação,
ora execrada, ora exaltada, permanecia no centro de debates intelectuais
que punham à mostra como a questão da identidade nacional
se ligava umbilicalmente à temática racial. Nesse
contexto é que o antropólogo Gilberto Freyre celebrará
a miscigenação brasileira como a simbiose de negros,
índios e brancos com final supostamente feliz na história
do Brasil34.
Simbiose
que será retratada em outra marcha de Lamartine Babo, Hino
do Carnaval Brasileiro, na qual ele apresenta a síntese
de suas três composições anteriores e joga com
outros símbolos nacionais: "salve a morena!/ a cor
morena do Brasil fagueiro/ (...) salve a loirinha!/ dos olhos verdes,
cor das nossas matas/ salve a mulata!/ cor do café, a nossa
grande produção".
Outros
compositores consagrarão, indistintamente, as loiras e as
morenas, como Jaime Brito e Manezinho Araújo em Lalá
e Lelé, com Luiz Barbosa. Cantor cheio de bossa, criador
do samba de breque, Luiz Barbosa batucava aqui na copa de seu chapéu
de palha - "instrumento de percussão" patenteado
por ele - para homenagear, alegremente, a loira Lalá e a
morena Lelé, "duas garotas do desacato",
que "quando caem no samba (...) provocam até cenas
de pugilato".
O
leque da miscigenação na música popular se
abre por inteiro, todavia, noutra marcha, É do Barulho
(de Assis Valente e Zequinha Reis). Nela são referidas expressamente
as morenas, loiras, mulatas e crioulas. E se diz, em alto e bom
som: "sou pacificador/ não quero brigar/ por causa
de cor/ (...) todas elas são rainhas/ de igual valor".
O Bando da Lua canta essa música harmonizando vozes da mesma
maneira como idealmente se harmonizam cores e raças no Brasil.
Esse
policromatismo, base sobre a qual se erigiu o mito da democracia
racial brasileira, consistia, igualmente, num dos pontos de partida
de reflexões político-sociais de pensadores ideologicamente
comprometidos com a ditadura estado-novista. Cassiano Ricardo não
se cansava de enaltecer o "berreiro cromático"
ou o "escândalo" de cores chamado Brasil. Nacionalista
de corte autoritário, à moda dos ideólogos
de Estado35,
ele, ao reescrever a história do Brasil, enfatizava, entre
outras coisas: "parece que Deus derramou tinta por tudo".
Da exaltação à natureza à exaltação
da fábula das três raças (índios, negros
e brancos) era um passo: "todas as cores raciais na paisagem
humana"36.
Mas
nem tudo era consonância quando a questão dizia respeito
à raça e ao samba. Vozes dissonantes também
se faziam ouvir, quebrando a aparente harmonia estabelecida. No
palco de disputas montado em torno dos destinos da música
popular, não faltaram ataques de fundo racista. O "samba
de morro", por exemplo, ficou sob a alça de mira de
articulistas inconformados com a propagação dessa
"coisa de negros". Um deles, Almeida Azevedo, pegava pesado
contra esse tipo de samba ao escrever, em março de 1935,
na revista A Voz do Rádio. Qualificava-o de "maltrapilho,
sujo, malcheiroso", incriminando-o como o "irmão
vagabundo" do samba "que não quer limpar-se nem
a cacete". Daí conclamar os responsáveis pelas
emissoras de rádio: "o rádio pode, se o quiser,
higienizar o que por aí anda com o rótulo de coisas
nossas a desmoralizar a nossa cultura e bom gosto"37.
Isso
representaria, aos olhos desses críticos "refinados",
um desacato aos nossos padrões de "civilidade".
Desacatar, aliás, era um verbo muito conjugado por sambistas
ao fazerem alusão a mulatas do desacato, a sambas que desacatavam,
no sentido de "botar pra quebrar". Nessas circunstâncias
é que, na esteira do sucesso que Carmen Miranda começava
a alcançar nos Estados Unidos, foi detonada, em meados de
1939 - por intermédio dos jornais A Noite e O Jornal -,
uma polêmica que tinha como contendores Pedro Calmon e José
Lins do Rego. Um, historiador, outro, romancista, ambos preocupados
com o samba.
José
Lins não deixava por menos ao desferir suas críticas
àquele filho dileto das classes dominantes baianas: "O
sr. Pedro é contra o samba. (...) quer que se extinga de
nossa vida essa coisa vil e negra que é a música brasileira".
Pedro Calmon se defendia, deixando vir à tona seus pressupostos
racistas: "Denunciei não o samba, porém o batuque
e onomatopéias que lembram, ao luar da fazenda, o perfil
sombrio da senzala". Nada poderia haver de pior para a imagem
do país: "lá fora nos tomarão como pretos
da Guiné ou hotentotes de camisa listrada. (...) Em vez de
parecer o que chegamos a ser - um povo de culta e ambiciosa civilização
(...)"38.
Na
verdade, tal debate se vinculava, pelo menos em parte, a outra discussão
que, volta e meia, sacudia a música popular ao longo dos
anos 30. Entrava, então, em pauta a "higienização"
ou o "saneamento" do samba. Vale relembrar, de passagem,
o episódio sobre a composição Lenço
no Pescoço, de 1933, cantada malandramente por Sílvio
Caldas. Seu autor, o mulato Wilson Batista, dava os primeiros passos
como compositor, ele que se converteria num dos mais destacados
personagens da história do samba. Semi-alfabetizado, sem
jamais haver se fixado num trabalho regular, habitante dos cabarés
da Lapa, preso diversas vezes, constantemente às voltas com
"más companhias", Wilson Batista dizia, em Lenço
no Pescoço: "provoco e desafio/ eu tenho orgulho/
em ser tão vadio". E advertia: "sei que
eles falam/ deste meu proceder/ eu vejo quem trabalha/ andar no
miserê".
Nessa
música ele se referia a um determinado tipo de malandro39
em tom de glorificação: "meu chapéu
de lado/tamanco arrastando/ lenço no pescoço/ navalha
no bolso/ eu passo gingando". A reação foi
imediata. Orestes Barbosa, na sua pioneira coluna de rádio
no jornal A Hora, estrilou: "num momento em que se faz
a higiene poética do samba, a nova produção
de Sílvio Caldas, pregando o crime por música, não
tem perdão"40.
E tanto não teve perdão entre os guardiães
dos bons costumes que a comissão de censura da Confederação
Brasileira de Radiodifusão vetou sua irradiação.
Até
Noel Rosa irritou-se com Lenço no Pescoço,
compondo e divulgando em programas de rádio a réplica
Rapaz Folgado, ainda em 1933. No que foi apoiado por Almirante,
que via na sua atitute a procura da "regeneração
dos temas poéticos da música popular"41.
Essa interpretação fez escola, sendo repetida por
estudiosos da música popular, que parecem ter descoberto,
de uma hora para outra - em aberta contradição com
toda a obra anterior e posterior do poeta da Vila - um Noel Rosa
subitamente travestido de agente moralizador/civilizador do samba42.
Seria
esse, de fato, o significado dos versos de Noel, ao recomendar:
"compra sapato e gravata/ joga fora essa navalha/ que te
atrapalha/ com chapéu do lado deste rata/ da polícia
quero que escapes (...) proponho ao povo civilizado/ não
te chamar de malandro/ e sim de rapaz folgado"? Independentemente
dos problemas pessoais/afetivos que permeavam as relações
entre Wilson Batista e Noel (eles foram assinalados por João
Máximo e Carlos Didier), o que Rapaz Folgado põe
em questão, a meu ver, é a falta de malandragem do
alegado malandro ao escancarar a sua condição de "malandro"
e atrair sobre si o "olhar de doberman" da lei, esquecido
do ditado popular segundo o qual "o bom cabrito não
berra". Em outras palavras, dentro dos códigos da malandragem,
a arte da dissimulação é ponto de honra, e
por isso mesmo não é inteligente oferecer-se como
caça ao caçador. Coisa que, de resto, Noel sabia muito
bem, como fica evidente tanto em Escola de Malandro, de 1932
("a escola do malandro/ é fingir que sabe amar/ (...)
fingindo é que se leva vantagem/ isso, sim, é que
é malandragem/ quá, quá, quá, quá..."),
quanto em Se a Sorte Me Ajudar, de 1934:
Se a
sorte me ajudar/ Eu vou te abandonar/ Vou mudar de profissão/
Porque a palavra malandragem/ Só nos trouxe desvantagem/
E você não vai dizer que não// Quem faz
seus versos/ E no morro faz visagem/ Leva sempre desvantagem/
Dorme sempre no distrito/ Entretanto quem é rico/ E faz
samba na avenida/ Quando abusa da bebida/ Todo mundo acha bonito43.
Polêmica
Wilson Batista x Noel Rosa à parte, o debate musical sobre
as raízes negras do samba e suas projeções
prosseguia. Outro defensor do saneamento musical do Brasil era Joubert
de Carvalho. Filho de fazendeiro, médico, socialmente muito
bem relacionado, ele era um apreciador de músicas eruditas.
Pouco chegado ao samba, seu forte eram as composições
românticas, "músicas para uso interno". Numa
década de inequívoco domínio do samba como
gênero musical, Joubert de Carvalho propunha um deslocamento
do eixo sobre o qual se apoiava a música popular brasileira
e, em descompasso com os adeptos da miscigenação,
clamava pela valorização da raça branca. Em
Sai da Toca, Brasil!, de 1938, ele afirmava que senzala,
macumba, o bater o pé no chão, tudo isso pertencia
ao passado: "a dança agora é no salão".
Urgia, para elevar o Brasil ao foro de civilidade, trocar a favela
pelo arranha-céu. E proclamava: "Brasil das avenidas/
da praia de Copacabana e do asfalto/ a tua gente branca e forte/
ninguém cantou ainda bem alto". Em tempo: Sai
da Toca, Brasil! era uma rumba...
A
resposta não se fez por esperar. Vestindo a carapuça,
Nelson Petersen, integrante do Bando Carioca, replicou num diapasão
francamente nacionalista. Em Quem Condena a Batucada ele
ia direto e reto ao assunto: "quem condena a batucada/ dessa
gente bronzeada/ não é brasileiro/ e nada mais bonito
é/ que um corpo de mulher/ a sambar no terreiro".
Era uma quimera, no seu entender, alguém pensar em pôr
fim ao samba e à malandragem. O samba que, frisava Nelson
Petersen, "nasceu num cruel barracão" e
"foi educado sambando no chão/ com a gente de cor"44.
Por
um tempo as resistências ainda vão estalar, aqui ou
ali. Serão todas elas, no entanto, insuficientes para barrar
a consagração do samba como símbolo nacional
e ícone da mestiçagem. Com tudo o que Carmen Miranda
possa ter de expressão caricatural, típica de um "exotismo
apimentado" (basta mencionar a salada de frutas que transportava
sobre a cabeça, a sua imagem mais difundida no exterior),
ela não deixou de encarnar o "paradigma mestiço".
Como sublinha Hermano Vianna, "branca européia, Carmen
Miranda não via nenhuma contradição em se vestir
de baiana (usando a roupa 'típica' das negras da Bahia),
ou em cantar ou dançar samba (música de origem negro-africana)"45.
Nesse
contexto, afinal, "chegou a hora/ dessa gente bronzeada/
mostrar seu valor", como disse Assis Valente na esfusiante
Brasil Pandeiro. Os ganhos advindos da nacionalização
do samba não foram, contudo, divididos na sua justa proporção.
Os cantores brancos de classe média com certeza estavam entre
os que mais tiraram proveito do fato do samba se encontrar na crista
do sucesso. Multiplicavam-se as queixas de compositores das classes
populares em relação à dificuldade de acesso
às gravadoras, que acumularam lucros e mais lucros com a
exploração do trabalho alheio. Criadores do nível
de Bide e Marçal, de origem negra, se profissionalizaram,
quer em rádios quer em gravadoras, figurando como simples
acompanhantes, eles, os bambas, transformados em pano de fundo enquanto
ritmistas. Por sua vez, os proprietários das emissoras de
rádio apelaram até para o lock-out a fim de
manter no mais baixo patamar possível a remuneração
por conta de direitos autorais46.
Enfim, nada de novo sob o sol. Na sociedade de classes a acumulação
do capital se dá, em regra, exatamente assim.
IV.
MULATO FILHO DE BAIANA E GENTE RICA DE COPACABANA: O SAMBA DE TODAS
AS CLASSES
Mesmo com a desigualdade que imperava na hora da distribuição
dos lucros gerados pelos negócios montados em torno da mercadoria
samba, este, em termos gerais, será comumente convertido
em ponto de atração e de encontro das mais diferentes
classes sociais. Um Brasil, digamos, pluriclassista se agrupa e
se concilia ao redor do samba. Moda que se espraia, sua mobilidade
social abarca amplos segmentos, como já atestava Josué
de Barros numa composição de 1929, o choro Se o
Samba é Moda (provavelmente a primeira gravação
de Carmen Miranda):
O samba
era/ Original dança dos pobres/ E, no entanto, hoje/
Vive nos salões mais nobres/ (...) Ainda há quem
diga/ Que o samba não tem valor/ Mas lá se encontra/
O deputado e o senador.
Novos
cenários acolhiam o samba entre fins dos anos 20 e o começo
da década de 30. E eles não passaram despercebidos
a observadores atentos da cena musical, como Pixinguinha e Cícero
de Almeida (Baiano). Na interpretação despojada de
Patrício Teixeira, o partido-alto Samba de Fato (que
era, de fato, um samba-choro), de 1932, registrava:
Samba
de partido-alto/ Só vai cabrocha/ Que samba de fato (estribilho)//
Só vai mulato filho de baiana/ E a gente rica de Copacabana/
Dotô formado de ané de oro/ Branca cheirosa de cabelo
louro, olé.
Apesar
de reconhecer que "no samba nego tem patente" e,
mais, que no samba sem cachaça "a boca fica com um
gosto mau/ de cabo velho de colher de pau", celebra-se
o congraçamento social promovido por esse ritmo que se nacionaliza.
É como se, do subúrbio à cidade, ninguém
permanecesse alheio à sua pulsação, fruindo
o Sabor do Samba, que dá nome a uma composição,
de 1935, assinada por Kid Pepe e Germano Augusto:
Peço
licença pra dizer/ Que hoje em dia/ O samba lá
no morro/ Também tem sua valia/ Eu fui a um samba/ Na
alta sociedade/ Vendo sambista de smoking/ Eu me senti à
vontade.
Se
nesses exemplos de conciliação social via samba, os
sambistas festejam, em última análise, o reconhecimento
por outras camadas sociais da importância da sua criação,
haverá casos, no campo da produção musical,
em que se procurará deliberadamente, de forma programática,
a harmonização das classes sociais. É o caso
do compositor e regente da área erudita, Heitor Villa-Lobos,
empenhado em puxar o coro da unidade nacional.
Defensor,
ao lado de outros músicos modernistas, de uma proposta musical
nacionalista, sob a capa protetora do Estado, ele concebia o canto
coral como arma de combate ao individualismo. Na sua visão,
a música deveria exteriorizar a conciliação
das classes sociais, funcionando como uma alavanca para a integração
social e política sob a batuta estatal. Daí o peso
que atribuía à prática do canto orfeônico:
ao entoarem, irmanados, as composições de celebração
à disciplina e ao civismo, seus integrantes fariam juras
de eterno amor à pátria. Pátria que, ainda
segundo Villa-Lobos, necessitava do trabalho disciplinado e uma
atmosfera de ordem para decolar rumo ao desenvolvimento47.
Essas
concepções, como é sabido, se conectavam a
um movimento de grande amplitude que trazia à superfície
a crise internacional do liberalismo no quadro da sociedade de massas
e do agravamento das lutas de classe. Vislumbrado como antídoto
eficaz, o corporativismo nacionalista ganhava seguidores mundo afora,
quaisquer que fossem os seus matizes ideológicos. Estava
na ordem-do-dia o combate sem tréguas à luta de classes
como meio de impedir o avanço da "barbárie comunista".
E para tanto, como ressaltava em 1937 o filósofo político
brasileiro Francisco Campos, sabia-se a que recorrer, pois só
"o corporativismo interrompe o processo de decomposição
do mundo capitalista previsto por Marx como resultante da anarquia
liberal"48.
Enquanto
isso, sem maiores preocupações com as questões
políticas que agitavam o mundo, os sambistas iam, na prática,
ao som da batucada, aproximando as classes sociais. Até no
plano estritamente sonoro tal fato podia ser percebido ao longo
do tempo, com os rearranjos feitos, por exemplo, na composição
da família instrumental do samba. Ao falar do conjunto Gente
do Morro - um grupo regional cujas gravações vão
de 1930 a 1934 e cujo nome, a julgar pela procedência de seus
componentes fixos, era mais uma espécie de fachada comercial
-, Tinhorão chama a atenção para a simbiose
musical que ele representava: "o que o conjunto Gente do Morro
faria - e isso era de fato novidade - era realizar a fusão
dos velhos grupos de choro à base de flauta, violão
e cavaquinho, com a percussão dos sambas populares herdeiros
dos improvisos das rodas de batucada, com base em estribilhos marcados
por palmas. Sob o nome logo popularizado de conjunto regional, o
que tais grupos vinham a realizar (o próprio líder
do Gente do Morro à frente, com seu depois famoso Conjunto
de Benedito Lacerda) era o casamento da tradição do
choro da pequena classe média com o samba das classes baixas"49.
A
adesão da classe média ao samba, em meio à
sua recriação incessante, contará com exemplos
notáveis. Sem me referir novamente a Noel Rosa, podem ser
lembrados os bacharéis em Direito Ari Barroso e Mário
Lago, o médico homeopata Alberto Ribeiro, além de
Custódio Mesquita, moço de "boa família",
regente diplomado pela Escola Nacional de Música, e muitos
outros mais. No nível estilístico, uma evidência
a mais pode ser colhida na aparição, em 1928, de um
gênero ou subgênero musical - o samba-canção
- que buscava maior apuro melódico e que terá como
marco Ai, Ioiô, de Henrique Vogeler. Lançada
com sucesso, a partir de 1929, sob 4 títulos diferentes e,
na falta de uma, ostentando 3 letras, sua versão definitiva
- com o título de Iaiá - surgiria em março
desse ano, com uma dicção interpretativa um tanto
quanto operística de Araci Cortes, escorada por um acompanhamento
da Orquestra Parlophon com acento amaxixado.
O
samba-canção - estilo particularmente adequado ao
período de entre-carnavais, fazendo parte do conjunto das
então denominadas "músicas de-meio-de-ano"
- de início deslancharia junto a compositores que sabiam
ler música (caso, aliás, de Ari Barroso e Custódio
Mesquita), alguns inclusive com formação erudita.
Posteriormente, num movimento de sentido contrário ao do
samba, stricto sensu, ele expandirá seu alcance em
direção às classes populares. Historicamente,
Cartola e Nelson Cavaquinho são exemplos marcantes desses
intercâmbios culturais, testemunhados por Roberto Martins
e Waldemar Silva em Favela, de 1936, ao cantarem a "favela
dos sonhos de amor e do samba-canção".
As
relações entretidas entre a classe média e
a "gente do povo" estão flagradas em diversas composições.
Não foram Vadico e Noel Rosa, dois compositores provenientes
das camadas médias da sociedade, que, em Feitiço da
Vila, já afirmavam que "lá em Vila Isabel/
quem é bacharel/ não tem medo de bamba"?
Três anos depois, em 1937, com sua veia satírica saltada,
Assis Valente produziria mais uma de suas brilhantes crônicas/críticas
musicais de costumes. Na berlinda um acontecimento que se integrara
à vida cotidiana: a escapada de doutores de classe média,
fantasiados de malandros, que se entregavam ao reinado da folia
nos dias de carnaval. Camisa Listada, apesar da rejeição
que sofreu da parte de diretores das gravadoras, acabou sendo gravada
por Carmen Miranda ante a insistência de Assis valente e obteria
enorme sucesso. Mais ainda: com esse samba-choro se registrou uma
das mais memoráveis interpretações da "pequena
notável", encarnando, aqui, a graça em pessoa:
Vestiu
uma camisa listada e saiu por aí/ Em vez de tomar chá
com torrada/ Ele bebeu parati/ Levava o canivete no cinto/ E
um pandeiro na mão/ E sorria quando o povo dizia/ Sossega
leão, sossega leão// Tirou o anel de doutor/ Para
não dar o que falar/ E saiu dizendo/ Eu quero mamar/
Mamãe, eu quero mamar.
Esse
estado de coisas, é lógico, só jogava a favor
da nacionalização do samba, na medida em que apagava
as linhas demarcatórias que pudessem subsistir, dificultando
o livre tráfego do samba pela sociedade. E sem isso dificilmente
o samba passaria a ser percebido como "coisa nossa". Afinal,
como demonstrou com bastante argúcia Hermano Vianna, múltiplos
sujeitos sociais intervirão nesse processo, dentre os quais
se deve mencionar "negros, ciganos, baianos, cariocas, intelectuais,
políticos, folcloristas, compositores eruditos, franceses,
milionários, poetas". Vem daí que "o samba
não se transformou em música nacional através
dos esforços de um grupo social ou étnico específico,
atuando dentro de um território específico".
Da mesma forma, complementa Hermano Vianna, "nunca existiu
um samba pronto, 'autêntico', depois transformado em música
nacional. O samba, como estilo musical, vai sendo criado concomitantemente
à sua nacionalização"50.
Nada
disso, porém, significa dizer que tivesse se evaporado, como
que por efeito de um passe de mágica, todo e qualquer ressentimento
de classe ou a percepção da discriminação
social/racial. As contradições inerentes a uma sociedade
calcada nas desigualdades compunham, obviamente, o dia-a-dia dos
sambistas. E Assis Valente, por exemplo, não engolia aquilo
que afetava, em especial, as pessoas simples. Assim, em Isso
Não se Atura, de 1935, depois de, sintomaticamente, atirar
farpas visando ao pessoal do Café Nice, ele atacava a questão
da desigualdade social ou do tratamento diferenciado dispensado
pela polícia. Determinadas manifestações dos
sambistas populares, "a polícia não consente/
aparece o tintureiro (carro de polícia, camburão)/
e seu guarda leva a gente", denunciava o autor. Por outro
lado, completava, "eu já fui numa macumba/ que no
fim o pau comeu/ mas foi entre gente fina/ e a polícia não
prendeu".
Vestígios
de que, mesmo com a nacionalização do samba em marcha,
ainda se guardava, nos setores populares, uma certa distância
em relação a "penetras" de outras classes,
são captados também em Você Nasceu pra Ser
Grã-Fina. Nessa composição Laurindo de
Almeida zomba de uma madame que queria aprender samba, sem voz,
sem ritmo, nem nada que a credenciasse a tanto: "se compenetre/
que o samba é alta bossa/ e é pra nego de choça/
que não fala o inglês". Na mesma linha, na
outra face desse disco de 1939, o mesmo autor retratava um Mulato
Antimetropolitano "que não gosta da cidade",
"dispensa o cinema/ e neres (nada) de fox-trot/ é
do samba-canção/ (...) e hoje ele vive no morro/ onde
há samba pra cachorro/ e o povo é mais igual".
Embora
esses exemplos deixem claro que o discurso musical dos sambistas
não atingira um grau de uniformidade plena, não há,
contudo, como descartar que o tom preponderante apontava para uma
relativa comunhão de classes em volta do samba. Quanto a
isso, torno a insistir num ponto que me parece crucial. O samba,
ao extrapolar os territórios e os grupos sociais de onde
se originou, era motivo de orgulho para os sambistas. Numa palavra,
ele atuava como fator de afirmação social e identificação
sócio-cultural de grupos e classes sociais normalmente marginalizados
na esfera da circulação dos bens simbólicos.
Eles assistiam, com justa satisfação, à transformação,
seja lá como for, da obra brotada do seu talento em símbolo
de "brasilidade".
Custódio
Mesquita soube interpretar como poucos esse sentimento que tomava
conta dos construtores do samba em geral, aqui incluída a
parcela das classes médias que ele próprio exprimia.
Sua composição Doutor em Samba, de 1933, é
por si só eloqüente, não fora ainda a interpretação
do mestre do canto-falado, Mário Reis, bem como a participação
primorosa dos Diabos do Céu no acompanhamento:
Sou doutor
em samba/ Quero ter o meu anel/ Tenho esse direito/ Como qualquer
bacharel// Vou cantar a vida inteira/ Para meu samba vencer/
É a causa brasileira/ Que eu quero defender// Só
o samba me interessa/ E me traz animação/ Quero
o meu anel depressa/ Pra seguir a profissão.
O
protético Assis Valente, outro doutor não-doutor,
manifestava igualmente o sentimento de superioridade dos sambistas
na arte de criar música popular. Os termos eram praticamente
equivalentes. No clássico Minha Embaixada Chegou,
de 1934, ele recordava que "não tem doutores na favela/
mas na favela tem doutores/ o professor se chama bamba/ medicina
na macumba/ cirurgia lá é samba"51.
Paralelamente,
do próprio solo do samba floresceriam mediadores políticos
e culturais, dentre os quais Paulo da Portela talvez seja o mais
emblemático. Homem de fácil acesso junto à
imprensa, constantemente em contato com as autoridades, funcionou
como traço de união entre grupos e classes sociais
distintos, contribuindo, à sua maneira, para a maior aceitação
do samba. Como frisa Sérgio Cabral, "a sua luta consistia
em tirar as escolas (de samba) da marginalidade e que não
fossem mais olhadas como antro de malandros e desordeiros"52.
Nesse particular certamente haveria um amplo campo de entendimento
entre o mundo do samba e o "grand-monde". E o Estado brasileiro
não tinha por que não aplaudir iniciativas do gênero.
Do
mesmo modo, soavam, em mais de um sentido, como música, aos
ouvidos das classes dominantes e dos governantes, palavras como
as do ex-capoeirista Heitor dos Prazeres em favor da regeneração
do malandro53.
É "doloroso", "vergonhoso",
"não é negócio ser malandro",
pregava ele em Vou Ver Se Posso, enquanto expressava a confiança
de que, com trabalho, tudo mudaria. Como quem se demite da malandragem,
anunciava em 1934: "eu vou deixar esta vida de vadio/ ser
malandro hoje é malhar em ferro frio". E ainda estávamos
um tanto quanto distantes da cruzada antimalandragem promovida pelo
"Estado Novo", quando, em nome da unidade nacional, todos
foram convocados, para dizer o mínimo, a engrossar as fileiras
do exército da produção em prol do "progresso
nacional".
V.
OS SAMBAS DA MINHA TERRA: CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS
O(s) território(s) do(s) samba(s) permanecerão em
aberto, dotado(s) de fronteiras móveis, nele(s) tendo lugar
sempre novos "rounds" das "lutas de representações".
Basta lembrar que, no momento em que a Bossa Nova, a partir do final
dos anos 50, avança o sinal e dilata o universo do samba,
inúmeras foram as reações de indignação
das forças sociais esteticamente mais conservadoras, deflagrando-se
um debate musical em escala jamais vista neste país54.
No
período em que me detive nesta comunicação,
a vigência do "Estado Novo" e a relação
especial que ele estabeleceu com a música popular constituem
tema do maior interesse para a análise dos canais institucionais
de comunicação que se criaram entre as agências
estatais e a produção/difusão do samba. Deliberadamente,
no entanto, pus de lado o enfrentamento dessa questão. Primeiro
porque, premido por razões de espaço, não teria
como desenvolver o assunto nas diferentes perspectivas que ele requer.
E também porque pretendo fazê-lo na continuação
deste trabalho. Para abrandar, ao menos parcialmente, a frustração
sentida por não poder, aqui, ir além de uns tantos
limites, contento-me em apontar, muito por alto, sem maiores preocupações
de natureza documental, alguns aspectos do processo de nacionalização
do samba que ficam pendentes de aprofundamento.
O
Estado, desde meados dos anos 30, já começava a emitir
claros sinais de aproximação com a área da
música popular. A oficialização do desfile
de carnaval pela Prefeitura do Distrito Federal, em 1935, é
um indicador disso. Com a instauração do "Estado
Novo", o ditador Getúlio Vargas, em pessoa, passou a
manter, de tempos em tempos, contato direto com os "cartazes"
da música popular brasileira. Realizaram-se apresentações
públicas de artistas nacionais em eventos muito badalados,
como o Dia da Música Popular e a Noite da Música Popular.
O Teatro Municipal, na presença do alto escalão do
Governo Federal, abriu suas portas ao samba. Cantores renomados
chegaram inclusive a integrar a comitiva presidencial em viagem
a países latino-americanos.
Simultaneamente,
transmissões radiofônicas oficiais, destinadas ao público
estrangeiro, se incumbiam de levar o samba, identificado como produto
genuinamente brasileiro, a outros pontos do planeta. Um desses programas
foi irradiado para a Alemanha nazista diretamente do terreiro da
Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Por
outro lado, estava em curso a ardilosa política de boa vizinhança
do governo norte-americano, que favorecia, até certo ponto,
as trocas culturais entre as nações latino-americanas
e o "grande irmão do norte", o que, de uma forma
ou de outra, resultou em alguma abertura de mercado para o samba
e um punhado de sambistas.
O
samba, que já chegara igualmente aos cassinos e às
telas de cinema, conhecerá, então, sob o "Estado
Novo", o momento de consolidação da sua afirmação
como símbolo musical nacional. Despido, pelo menos na versão
oficial, dos "pecados de origem", que o mantinham afastado
dos "lugares respeitáveis", ele ganhava terreno.
Não por acaso, este será o período do florescimento
de uma grande safra de sambas cívicos, os chamados "sambas-exaltação",
dentre os quais sobressairá Aquarela do Brasil, de
Ari Barroso, como exemplo mais bem acabado. Essa composição
exalava o espírito oficial da época, mesmo sem conter,
é bom que se diga, qualquer referência ao regime estado-novista.
Com
um ar grandiloqüente, próprio de quem transporta para
o campo da música popular a "estética monumental",
essa fornada de "sambas-exaltação" recorrerá
a clichês do ufanismo tupiniquim. Da exaltação
à natureza se passará, sem nenhuma dificuldade aparente,
à exaltação mais ou menos explícita
da vida política brasileira (subentenda-se, do regime político
vigente). Tal é o caso de Brasil! (de Benedito Lacerda
e Aldo Cabral) ou ainda de Brasil, Usina do Mundo (de João
de Barro e Alcir Pires Vermelho), samba que nos exibe trabalhadores
cantando felizes, cúmplices ou, mais do que isso, parceiros
dos novos tempos simbolizados pelo "Estado Novo"55.
O
"nacionalismo espontâneo" originário de compositores
de extração popular e/ou de classe média, que
se orgulhavam da sua condição de criadores do samba,
era, portanto, ressignificado, em sintonia com a política
cultural estado-novista. Ao mesmo tempo, os temas da mestiçagem
e da conciliação de classes eram retrabalhados pelos
ideólogos do regime, tendo em vista o enaltecimento da "democracia
racial" e da "democracia social" supostamente existentes
no país.
Nem
tudo, porém, acontecia ao sabor dos desejos dos governantes
ou dos defensores do "Estado Novo". O DIP (Departamento
de Imprensa e Propaganda) procurava, seja através de políticas
de aliciamento, seja através da mão de ferro da censura,
coagir compositores renitentes a abandonarem a temática da
malandragem nos seus sambas. Daí decorreu, basicamente, o
aparecimento de um número apreciável de sambas de
exaltação ao trabalho, de autoria até de malandros
escolados, como Wilson Batista (o caso mais notório é
o de Bonde de São Januário, sucesso do carnaval
de 1941). Entretanto, nem com os meios draconianos a seu dispor,
o "Estado Novo" logrou silenciar e/ou cooptar por completo
os compositores. Multiplicaram-se às dezenas as composições
que, de uma ou de outra maneira, driblavam o poder censório
da ditadura56.
Uma obra exemplar, nesse sentido, é Recenseamento,
de Assis Valente, que, parecendo reproduzir o discurso do "Brasil
grande e trabalhador", desmonta com sutileza os argumentos
oficiais, salpicando de ironia a fala da mulher que responde ao
funcionário público que a interpela.
Sob
esse prisma pode-se dizer que, na verdade, são muitos os
sambas da minha terra, mesmo sob a ditadura estado-novista. Em momento
algum se conseguiu alcançar um tal nível de uniformidade
na produção do samba que calasse as divergências,
inclusive as estilísticas. Aliás, nem sequer no interior
do aparelho de Estado se corporificou um pensamento único,
monolítico, acerca do significado do samba. As contradições
e conflitos típicos das lutas de representações
afloraram aí também.
Na
falta de um projeto cultural hegemônico57,
diferentes propostas de disciplinarização das manifestações
artísticas de origem popular terminaram por emergir. Pondo
à mostra seu ranço profundamente elitista, um grupo
de intelectuais ligados ao aparelho de Estado deu vazão à
sua repulsa ao samba em artigos publicados na revista Cultura
Política58.
Nivelando-o a expressões artísticas primitivas, ao
desregramento da sensualidade, à batucada da ralé
do morro, eles o elegeram como objeto de uma campanha movida por
propósitos "educativos" e "civilizadores".
Tratava-se não de abatê-lo - objetivo que reconheciam
ser impossível - mas, sim, de domá-lo.
As
disputas iriam se acirrar na própria área da produção
do(s) samba(s). De novo a mobilidade de fronteiras do samba se evidenciava.
E ele começava, aos poucos, a enveredar, uma vez mais, por
territórios inexplorados, como prelúdio de outros
tempos que estariam por vir, cenas dos próximos capítulos
que desembocariam na Bossa Nova. Sob a rubrica de samba-swing -
que por si mesma anunciava a presença e a assimilação
de elementos musicais norte-americanos - um compositor como Janet
de Almeida trazia o futuro para o presente59.
Pesadelo (dele e Leo Vilar), gravado em 1943 pelos Anjos
do Inferno, é rico em dissonâncias e recortes harmônicos
pouco usuais no Brasil. Daí ao samba Boogie-Woogie na
Favela (de Denis Brean, pseudônimo de Augusto Duarte Ribeiro),
de 1945, havia um curto caminho a ser vencido. Apesar da reação
que, em honra às tradições nacionais, insistia
em se manifestar através de Boogie-Woogie Não é
Samba (de Hélio Sindô).
Acima
das disputas, pairando sobre as suas diferentes pronúncias,
o samba seguia sua(s) trilha(s), já consolidado como símbolo
da nacionalidade. O samba, expressão cultural plural, era
glorificado como portador da nossa singularidade musical. E ele
soava como algo tão natural, tão entranhadamente brasileiro,
que, em 1940, Dorival Caymi, já proclamara em Samba da
Minha Terra: "quem não gosta de samba/ bom sujeito
não é/ é ruim da cabeça/ ou doente do
pé".
Notas
bibliográficas:
(1)
Para saciar a curiosidade de uns e outros, informo que em primeiro
lugar apareceu o café, em terceiro, o futebol, e, em sexto,
Pelé. V. "British public opinion and Latin America",
em The Guardian, Londres, 15/jun/1980.
(2)
V., a propósito, Peter Fry, "Feijoada e soul food",
em Ensaios de Opinião, nº 2+2, Rio de Janeiro,
Inúbia, 1977, Muniz Sodré, Samba: O Dono do Corpo,
Rio de Janeiro, Codecri, 1979, e Ruben George Oliven, "A elaboração
de símbolos nacionais na cultura brasileira", em Revista
de Antropologia, nº 26, São Paulo, USP, 1983.
(3)
V., a propósito, Eder Sader e Maria Célia Paoli,
"Sobre 'classes populares' no pensamento sociológico
brasileiro (Notas de leitura sobre acontecimentos recentes)",
em Ruth Cardoso (org.), A Aventura Antropológica (Teoria
e pesquisa), Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986.
(4)
A construção histórica do conceito de "classes
perigosas", aplicado à realidade brasileira, e a sua
equivalência prática às "classes populares",
como estratégia de dominação de classes, é
sumariada por Sidney Chalhoub em Cidade Febril (Cortiços
e epidemias na corte imperial), São Paulo, Companhia das
Letras, 1996, ps. 19/29.
(5)
José Ramos Tinhorão, "Com pandeiro, cuíca,
surdo e tamborim", fascículo Samba de Terreiro e
de Enredo, História da Música Popular Brasileira
(HMPB), São Paulo, Abril Cultural, 1983, p. 5.
(6)
Noutro
contexto, esse autor observa que a "investigação
sobre as representações supõe-nas como estando
sempre colocadas num campo de concorrências e de competições
cujos desafios se enunciam em termos de poder e de dominação".
Roger Chartier, A História Cultural (Entre práticas
e representações), Rio de Janeiro, Difel/Bertrand
Brasil, 1988, p. 17.
(7)
Sobre a crítica de Sinhô e Donga aos "modernismos"
no samba, v. Sérgio Cabral, "Falando de samba e de bambas",
fasc. Bide, Marçal & Paulo da Portela, HMPB, ob.
cit., 1984.
(8)
Dados mais completos sobre essas e todas as demais gravações
mencionadas são encontrados - inclusive com uma atualização
discográfica - no final deste texto. Esclareça-se
que o cantor Francisco Alves era, sem dúvida, o mais notório
"comprositor" do mercado, transformando as criações
alheias literalmente em moeda corrente.
(9)
E.H. Gombrich, Arte e Ilusão (Um estudo da psicologia
da representação pictórica), São Paulo,
Martins Fontes, 3ª ed., 1995, p. 316.
(10)
A relação visceral que uniu, historicamente, o
samba à malandragem está exposta em diversos trabalhos.
V., dentre outros, Gilberto Vasconcellos e Matinas Suzuki Jr., "A
malandragem e a formação da música popular
brasileira", em Boris Fausto (dir.), História Geral
da Civilização Brasileira-III - O Brasil Republicano
(Economia e Cultura - 1930/1964), São Paulo, Difel, 1984,
e Maria Angela Borges Salvadori, Capoeiras e Malandros: Pedaços
de uma Sonora Tradição Popular (1890-1950), Campinas,
Unicamp, dissertação de mestrado, 1990, esp. cap.
III.
(11)
A designação da batucada enquanto gênero
musical será expressiva especialmente na primeira metade
dos anos 40, com certeza para desagrado dos que, à época,
continuavam sustentando a necessidade da "regeneração
social" do samba. Para essas e outras observações
dessa natureza, foi extremamente importante a análise do
material coligido por Alcino Santos, Gracio Barbalho, Jairo Severino
e M.A. de Azevedo (Nirez), em Discografia Brasileira 78 rpm
- 1902-1964, Rio de Janeiro, Funarte, 1982, vols. 1, 2 e 3.
(12)
Cf. Sérgio Cabral, No Tempo de Almirante (Uma
história do Rádio e da MPB), Francisco Alves, Rio
de Janeiro, 1990, p. 41.
(13)
Para um mapeamento musical da Vila Isabel da época, v.
João Máximo e Carlos Didier, Noel Rosa (Uma
biografia), Brasília, Linha Gráfica/UnB, 1990, cap.
XV.
(14)
Palpite Infeliz foi a resposta que se seguiu a Conversa
Fiada. Nesta composição, que permaneceu muito
tempo inédita em disco, Wilson Batista batia duro em Feitiço
da Vila, de Noel.
(15)
É interessante atentar para o fato de que Noel, moço
"lá da cidade", se coloca, aqui, numa posição
de distanciamento em relação à cidade.
(16)
Tomo emprestado de Vovelle o conceito de "mediador cultural",
por ele utilizado ao se referir aos desafios que perpassam as relações
entre "cultura de elite" e "cultura popular".
Sobre os "intermediários culturais", v. Michel
Vovelle, Ideologias e Mentalidades, São Paulo, Brasiliense,
2ª ed., 1991, ps. 207-224.
(17)
Sobre sua inusitada experiência vivida, circulando por
morros e subúrbios, v. J. Máximo e C. Didier, ob.
cit., cap. XVI.
(18)
V., a propósito, Marcos A. da Silva, "A História
e seus limites", em História & Perspectivas, nº
6, Uberlândia, Universidade Federal de Uberlândia, jan-jun/1992.
Preocupado em capturar experiências vividas, o autor trabalha
com o conceito de "transregional" para superar limites
tradicionais da História Regional, que a confinam a espaços
previamente demarcados com base em divisões de caráter
institucional ou político-administrativo.
(19)
Inflexões diferenciadas estão presentes inclusive
no "samba carioca", que também não pode
ser encarado como uma fôrma que uniformiza todos os seus produtos.
Não admitir isso seria ignorar que o samba comporta várias
vertentes.
(20)
As tensões entre cidade e morro persistiam, todavia.
Em Sambista da Cinelândia se conclamava o sambista
de morro a descer até a cidade e se anunciava o fim da oposição
entre eles. Já em Cabaré no Morro, de 1937,
com a mesma Carmen Miranda, o compositor branco Herivelto Martins
fala de uma personagem nascida no morro, criada na orgia e que rompe
com a malandragem, ao se dar conta de que "essa gente não
tem civilização.
(21)
Para uma visão mais detalhada sobre o advento da música
americana no Brasil, v. José Ramos Tinhorão, História
Social da Música Popular Brasileira, Lisboa, Caminho,
1990, ps. 195/203.
(22)
J. Máximo e C. Didier, ob. cit., p. 242.
(23)
Mário de Andrade, Macunaíma, São
Paulo, Círculo do Livro, s/d (ed. orig.: 1928).
(24)
Modernismo e música popular se comunicavam inclusive
por vias oblíquas. Como já foi muito bem salientado,
em contraposição à "estética monumental",
presente na materialização do projeto musical modernista
através de Villa-Lobos, "a música popular passa
a se reger pela pauta da simplicidade. Quanto a este aspecto,
os músicos populares, ainda que de maneira intuitiva, se
mostram mais próximos do modernismo literário de Oswald
de Andrade, Mário de Andrade e de Manuel Bandeira, do que
Villa-Lobos, a maior expressão do modernismo musical".
Santuza Cambraia Naves Ribeiro, "Modéstia à parte,
meus senhores, eu sou da Vila!: a cidade fragmentada de Noel Rosa",
em Estudos Históricos, vol. 8, nº 16, Rio de
Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1995, ps.
253 e 254.
(25)
A transcrição, na íntegra, desse documento
aparece em Sérgio Cabral, Pixinguinha (Vida e obra),
Rio de Janeiro, Lumiar, 1997 (2ª ed.), ps. 138 e 139, de onde
foram extraídas as citações acima.
(26)
O
samba era líder não apenas em número de gravações
como em aceitação popular. Quanto aos sucessos desse
período, v. Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, A Canção
no Tempo (85 anos de músicas brasileiras. Vol. 1: 1901-1957),
São Paulo, 34, 1997, 3ª pte. (1929/1945).
(27)
É preciso ressaltar, no entanto, que os registros encontrados
nas etiquetas dos discos acabam, de alguma forma, por subestimar
o peso do samba-canção no conjunto da produção
fonográfica nacional. Em primeiro lugar, porque são
por vezes bastante tênues as linhas divisórias entre
o samba e o samba-canção; este, na realidade, configura
uma das vertentes do samba (lembremo-nos de que, ainda sem o andamento
mais lento de gravações posteriores que a transformaram
em samba-canção, Feitio de Oração
é, originalmente, classificada como samba). Em segundo lugar,
porque havia uma certa tendência em rotular como "samba"
até aquilo que era mais propriamente samba-canção
(basta ouvir, dentre muitos exemplos disponíveis, Juramento
Falso: da composição de J. Cascata e Leonel Azevedo
à interpretação de Orlando Silva e ao acompanhamento
da Orquestra Victor Brasileira, dirigida por Radamés Gnatalli,
tudo sugere o seu enquadramento como samba-canção.
Do disco, porém, consta a identificação como
"samba").
(28)
Citado por J. Máximo e C. Didier, ob. cit., p. 244.
(29)
Na primeira metade dos anos 40 a brasileira Leny Eversong (nascida
Hilda Campos Soares da Silva) começará a gravar como
crooner de Anthony Sergi (Totó) e sua Orquestra Colúmbia
ou em discos-solo, e se sucederão igualmente as gravações
de The Midnighters, grupo instrumental liderado por Zacarias, cujo
crooner era Nilo Sérgio, que desenvolveria sua carreira-solo
em disco a partir de 1945. Ambos cantavam em inglês, fosse
"fox-trot" ou simplesmente "fox". Data dessa
época ainda a gravação do que se poderia chamar
de "fox-símiles", caso de canções
musicalmente bem elaboradas de José Maria de Abreu, como
o fox-canção Brigamos Outra Vez (com acompanhamento
de Fon-Fon e sua Orquestra, criando uma sonoridade à la
EUA, ao promover o feliz casamento entre o naipe de instrumentos
de sopro e de cordas) e o fox Eu, Você e Mais Ninguém
(com acompanhamento ao piano de Carolina Cardoso de Menezes e seu
Quarteto, numa demonstração de pleno domínio
da linguagem musical norte-americana).
(30)
Mais uma vez, há, aqui, uma subestimação
do samba-canção pelas razões já expostas.
A propósito, mantive-me fiel ao quadro de canções
de Noel Rosa que J. Máximo e C. Didier apresentam nas ps.
497/516 de seu livro. Passei, deliberadamente, por cima de pequenas
incorreções (estatisticamente insignificantes), tais
como o enquadramento de Último Desejo como "samba",
quando, na verdade, o que se lê no disco original é
"samba-canção", por sinal classificação
mais de acordo com o estilo dessa composição.
(31)
V. Affonso Romano de Sant'Anna, Música Popular e Moderna
Poesia Brasileira, Petrópolis, Vozes, 3ª ed., 1986,
esp. itens "As origens do samba, Noel Rosa e o modernismo"
e "Ufanismo de Ari Barroso e o verde-amarelismo de Cassiano
Ricardo" (citação da p. 179).
(32)
A primeira parte da composição evoca, sintomaticamente,
Peri e Ceci, personagens saídos da literatura romântica
do século passado, que exaltava os índios como fatores
essenciais de sensibilização patriótica: "eu
fui às touradas em Madri/ pa-ra-ra-tchim-bum-bum-bum/ pa-ra-ra-tchim-bum-bum/
e quase não volto mais aqui-i-i/ pra ver Peri-i-i/ beijar
Ceci".
(33)
Importa destacar, entretanto, que, lado a lado com a repressão,
havia também a valorização e/ou assimilação
de manifestações culturais das classes populares por
uma parcela de membros das elites intelectuais e das classes dominantes.
Este é, por sinal, o fio condutor do livro no qual Hermano
Vianna mostra por que "a transformação do samba
em música nacional não foi um acontecimento repentino,
indo da repressão à louvação em menos
de uma década, mas sim o coroamento de uma tradição
secular de contatos (...) entre vários grupos sociais na
tentativa de inventar a identidade e a cultura popular brasileiras".
Hermano Vianna, O Mistério do Samba, Rio de Janeiro,
Jorge Zahar, UFRJ, 2ª ed., 1995, p. 34.
(34)
V. Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala, Rio de
Janeiro, José Olympio, 1933. Ao passar em revista o debate
sobre o assunto, Lilia Schwarcz ressalta que no Brasil, "sobretudo
a partir do final dos anos 20, os modelos raciais de análise
começam a passar por uma severa crítica, à
semelhança do que já acontecera em outros contextos
intelectuais". E lembra o importante papel desempenhado pela
escola culturalista norte-americana, principalmente por Franz Boas,
na implosão dos equívocos do determinismo racial.
Lilia Katri Moritz Schwarcz, "Complexo de Zé Carioca
(Notas sobre uma identidade mestiça e malandra)", em
Revista Brasileira de Ciências Sociais, nº 29,
São Paulo, Associação Nacional de Pós-Graduação
e Pesquisa em Ciências Sociais, out/1995, p. 54.
(35)
Para uma análise sobre a "ideologia de Estado"
em movimento, à época do "Estado Novo",
v. Adalberto Paranhos, "O coro da unanimidade nacional: o culto
ao 'Estado Novo'", em Revista de Sociologia e Política,
nº 9, Curitiba, Universidade Federal do Paraná, 1997.
(36)
Cassiano Ricardo, Marcha para Oeste, Rio de Janeiro,
José Olympio, 1940, ps. 501 e 500.
(37)
Citado por Sérgio Cabral, A MPB na Era do Rádio,
São Paulo, Moderna, 1996, p. 55.
(38)
Idem, p. 71. Essa polêmica é reproduzida nas ps.
70/72.
(39)
Que não se pense que malandro, naquele momento, tinha
um sentido unívoco. Pelo contrário, é possível
capturar - seja entre os contemporâneos daquela década
fundamental no processo de criação do samba, seja
nas interpretações posteriores dos analistas - variadas
e contraditórias acepções acerca do que era
ser malandro. Quanto a estes, v., por exemplo, José Ramos
Tinhorão, Música Popular - Do Gramofone ao Rádio
e TV, São Paulo, Ática, 1981, ps. 128/134, J.
Máximo e C. Didier, ob. cit., esp. ps. 289/295, M.A.B. Salvadori,
ob. cit., esp. ps. 189/192, e G. Vasconcellos e M. Suzuki, ob. cit.,
esp. ps. 511/514 e 520/523.
(40)
Citado por S. Cabral, A MPB na Era do Rádio, ob.
cit., p. 42.
(41)
Almirante, No Tempo de Noel Rosa, Rio de Janeiro, Francisco
Alves, 2ª ed., 1977, p. 146. Sobre os desdobramentos da polêmica
entre Wilson Batista e Noel Rosa, v. J. Máximo e C. Didier,
ob. cit., ps. 291/292, 371/372 e 421/422, ou ainda S. Cabral, A
MPB na Era do Rádio, ob. cit., ps. 42/46.
(42)
Para a crítica a essas interpretações consideradas
simplistas, bem como a versão pessoal de João Máximo
e Carlos Didier sobre a inesperada reação de Noel,
v. ob. cit., ps. 291/292.
(43)
Em certos casos, para dançar à vontade, era preciso
também dançar conforme a música. Recordo, a
propósito, que o bloco Deixa Falar, do Estácio, se
transformou formalmente em escola de samba, em 1928, para, com sua
legalização, gozar de uns tantos direitos e afastar
do caminho dos sambistas a perseguição policial. Do
mesmo modo, Paulo da Portela (um hábil negociador) e outros
mais foram constrangidos, em 1934, a aceitar a "sugestão"
policial para a alteração do nome da Escola de Samba
Vai como Pode, que passou a denominar-se, pomposamente, Grêmio
Recreativo Escola de Samba Portela. V. Sérgio Cabral, As
Escolas de Samba do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Lumiar,
1996, ps. 41 e 95.
(44)
Embora composta, ao que tudo indica, um ano antes, A Vida É
um Samba (de Ivani Ribeiro e Sônia Carvalho), já criticava
aos que continuavam agarrados a velhos preconceitos: "samba,
tu és um grito de orgulho de uma raça/ (...) lá
na cidade/ a sociedade por vaidade/ não samba o samba/ com
vergonha de sambar/ e dança a rumba/ que é produto
estrangeiro/ mas o samba é brasileiro/ e o povo deve sambar".
(45)
Hermano Vianna, ob. cit., p. 130.
(46)
Sobre a greve que tirou do ar, em junho de 1933, as cinco emissoras
cariocas, v. S. Cabral, A MPB na Era do Rádio, ps.
41 e 42.
(47)
V., a propósito, José Miguel Wisnik, "Getúlio
da Paixão Cearense (Villa-Lobos e o Estado Novo)", em
Enio Squeff e José Miguel Wisnik, O Nacional e o Popular
na Cultura Brasileira - Música, São Paulo, Brasiliense,
2ª ed., 1983, esp. ps. 178/190, e Arnaldo Daraya Contier, Brasil
Novo. Música, Nação e Modernidade: Os Anos
20 e 30, São Paulo, USP, tese de livre-docência,
1988, esp. cap. III.
(48)
Francisco Campos, O Estado Nacional (Sua estrutura -
seu conteúdo ideológico), Rio de Janeiro, José
Olympio, 1940, p. 62.
(49)
José Ramos Tinhorão, História Social
da Música Popular Brasileira, ob. cit., p. 234.
(50)
Hermano Vianna, ob. cit., p. 151.
(51)
Nos belos versos dessa música, o craque Assis Valente
retomava o sentido lúdico da prática do samba/batucada:
"vem vadiar no meu cordão/ cai na folia, meu amor/
vem esquecer tua tristeza/ mentindo a natureza/ sorrindo a tua dor".
(52)
Sérgio Cabral, "Falando de samba e de bambas",
ob. cit., p. 2.
(53)
A temática da regeneração/abandono da malandragem
aparecia, sob formas variadas, também em outras composições.
V., por exemplo, Tenho Prazer (de Ataulfo Alves), de 1933.
(54)
Isso é discutido por mim em Adalberto Paranhos, "Novas
bossas e velhos argumentos (Tradição e contemporaneidade
na MPB)", em História & Perspectivas, nº
3, Uberlândia, Universidade Federal de Uberlândia, jul-dez/1990.
(55)
Os trabalhadores figuravam nos cálculos governamentais
como peças da estratégia que objetivava reduzir o
impacto das lutas de classe e subordiná-los aos projetos
de desenvolvimento capitalista em vigor. V., a propósito,
Adalberto Paranhos, O Roubo da Fala: Origens da Ideologia do
Trabalhismo no Brasil, Campinas, Unicamp, dissertação
de mestrado, 1996.
(56)
Este é, por sinal, o tema do trabalho a que venho me
dedicando atualmente.
(57)
V., a propósito, A.D. Contier, ob. cit., esp. ps. 300/312.
(58)
Cultura
Política, editada pelo DIP entre 1941 e 1945, acolhia
sistematicamente em suas seções artigos sobre música
e radiodifusão.
(59)
Está longe de ser mera coincidência sua "redescoberta",
várias décadas depois, exatamente pela figura-símbolo
da Bossa Nova, João Gilberto, que regravará músicas
como Pra Que Discutir com Madame. Nessa composição
de 1945, Janet de Almeida e Haroldo Barbosa ainda se vêem
obrigados a responder, com bom-humor, às críticas
azedas endereçadas aos sambistas por Mag (que atendia pelo
nome de Magdala da Gama Oliveira), crítica de rádio
do "Diário de Notícias". Ao resumirem as
idéias de Mag, os autores pareciam nos conduzir de volta
ao passado, nos colocando novamente em contato com preconceitos
arraigados: "madame diz que a raça não melhora/
que a vida piora por causa do samba/ madame diz que o samba tem
pecado/ que o samba, coitado, devia acabar/ madame diz que o samba
tem cachaça/ mistura de raça, mistura de cor/ madame
diz que o samba democrata/ é música barata/ sem nenhum
valor".
DISCOGRAFIA
CITADA
A discografia
listada inclui as gravações originais das composições
citadas, seguidas da indicação, tanto quanto foi possível
ao autor, de seu relançamento em CDs e Lps ou, excepcionalmente,
de regravações. Abreviaturas utilizadas: g.: gravação;
l.: lançamento; rel.: relançamento; reg.: regravação.
As demais abreviaturas estão anotadas ao longo desta discografia.
- Abandona
o Preconceito
(Maércio de Azevedo e Francisco Matoso), Bando da Lua,
g.: 25/10/34, l.: mar/35, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "Samba
da Minha Terra", Revivendo, s/d.
- Adeus
(Ismael Silva, Noel Rosa e Francisco Alves), Jonjoca e Castro
Barbosa, g.: 12/04/32, l.: mai/32, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "Noel
Rosa: Coisas Nossas", Revivendo, s/d.
- Agora
É Cinza (Bide e Marçal), Mário Reis,
g.: 25/10/33, l.: dez/33, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "Os Grandes
Sambas da História" (GSH), nº 3, Globo/BMG, 1997.
- Ai,
Ioiô (Iaiá) (Henrique Vogeler, Luiz Peixoto
e Marques Porto), Araci Cortes, l.: mar/29, 78 rpm, Parlophon.
Rel.: caixa (cx.) "Apoteose do Samba", vol. 1, CD nº
1, Emi, 1997.
- Alegria
(Assis Valente e Durval Maia), Orlando Silva, g.: 26/07/37,
l.: dez/37, 78 rpm, Victor. Rel.: (cx.) "O Cantor das Multidões",
CD nº 2, RCA/BMG, 1995.
- Ao
Voltar do Samba (Sinval Silva), Carmen Miranda, g.: 26/03/34,
l.: ago/34, 78 rpm, Victor. Rel.: cx. "Carmen Miranda"
(C.M.), CD nº 3, RCA/BMG, 1998.
- Aquarela
do Brasil (Ari Barroso), Francisco Alves, g.: 18/08/39, l.:
out/39, 78 rpm, Odeon. Rel.: cx. "Apoteose do Samba",
vol. I, CD nº 2, Emi, 1997.
- Bonde
de São Januário, O (Ataulfo Alves e Wilson Batista),
Ciro Monteiro, g.: 18/10/40, l.: dez/40, 78 rpm, Victor. Rel.:
CD "GSH", nº 10, Globo/BMG, 1997.
- Boogie-Woogie
na Favela (Denis Brean), Ciro Monteiro, g.: 03/05/45, l.:
jul/45, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "Sambistas de Fato",
Revivendo, s/d.
- Boogie-Woogie
Não É Samba (Hélio Sindô), Hélio
Sindô, g.: 10/05/45, l.: jun/46, 78 rpm, Continental.
- Brasil!
(Benedito Lacerda e Aldo Cabral), Francisco Alves e Dalva de Oliveira,
g.: 16/08/39, l.: set/39, 78 rpm, Colúmbia. Rel.: LP "Os
Rouxinóis", Revivendo, s/d.
- Brasil,
Usina do Mundo (João de Barro e Alcir Pires Vermelho),
Déo, l.: set/1942, 78 rpm, Colúmbia. Reg.: Rogério
Duprat, LP "Brasil com 'S'", Emi, 1974.
- Brigamos
Outra Vez (José Maria de Abreu e Jair Amorin), Orlando
Silva, g.: 24/07/45, l.: set/45, 78 rpm, Odeon. Rel.: LP "Poema
Imortal", Revivendo, 1989.
- Cabaré
no Morro (Herivelto Martins), Carmen Miranda, g.: 20/07/37,
l.: set/37, 78 rpm, Odeon. Rel.: cx. "C.M.", CD nº
3, Emi, 1996.
- Camisa
Listada (Assis Valente), Carmen Miranda, g.: 20/09/37, l.:
nov/37, 78 rpm, Odeon. Rel.: cx. "C.M.", CD nº
3, Emi, 1996.
- Canção
para Inglês Ver (Lamartine Babo), Lamartine Babo, g.:
1931, 78 rpm, Odeon. Reg.: Joel e Gaúcho, LP de 1962; rel.:
fascículo (fasc.) "Lamartine Babo", História
da Música Popular Brasileira (HMPB), Abril Cultural, 1982.
- Coisas
Nossas (Noel Rosa), Noel Rosa, l.: mar/32, 78 rpm, Colúmbia.
Rel.: CD "Noel Rosa: Coisas Nossas", Revivendo, s/d.
Confissão de Malandro (Gilberto Martins), Moreira da Silva,
g.: 20/06/33, l.: jul/34, 78 rpm, Victor. Rel.: LP "Quem
É o Tal?", Revivendo, 1989.
- Conversa
Fiada (Wilson Batista), Roberto Paiva, LP "Polêmica",
Odeon, 1956.
- Dá
Cá o Pé... Loura (Lamartine Babo e Alcir Pires
Vermelho), Lamartine Babo, g.: 10/11/33, l.: jan/34, 78 rpm, Victor.
Rel.: CD "O Carnaval de Lamartine Babo - Sua História,
Sua Glória", vol. 13, Revivendo, s/d.
- Doutor
em Samba (Custódio Mesquita), Mário Reis, g.:
06/11/33, l.: dez/33, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "GSH",
nº 4, Globo/BMG, 1997.
- É
Batucada (Caninha e Visconde de Bicoíba), Moreira da
Silva, l.: mar/33, 78 rpm, Colúmbia. Rel.: CD "GSH",
nº 6, Globo/BMG, 1997.
- É
do Barulho (Assis Valente e Zequinha Reis), Bando da Lua,
g.: 23/01/35, l.: mar/35, 78 rpm, Victor. Rel.: LP "Cadê
Vira-Mundo", Revivendo, 1989.
- Em
Cima da Hora (Russo do Pandeiro e Walfrido Silva), João
Petra de Barros, g.: 23/11/39, l.: jan/40, 78 rpm, Victor. Rel.:
LP "Tenho Prazer", Revivendo, 1989.
- Escola
de Malandro (Noel Rosa, Ismael Silva e Orlando Luiz Machado),
Noel Rosa e Ismael Silva, g.: 15/09/32, l.: 1932, 78 rpm, Odeon.
- Estátua
da Paciência (Jerônimo Cabral e Noel Rosa), Conjunto
Coisas Nossas, LP de 1983, Eldorado. Rel.: CD "Noel Rosa
Inédito e Desconhecido", Eldorado, s/d.
- Eu
Gosto da Minha Terra (Randoval Montenegro), Carmen Miranda,
g.: 06/08/30, l.: dez/30, 78 rpm, Victor. Rel.: cx. "C.M.",
CD nº 1, RCA/BMG, 1998.
- Eu,
Você e Mais Ninguém (José Maria de Abreu
e Saint-Clair Sena), Francisco Alves, g.: 02/04/42, l.: mai/42,
78 rpm, Odeon. Rel.: LP "Quando a Saudade Vier", Revivendo,
1990.
- Favela
(Roberto Martins e Waldemar Silva), Francisco Alves, g.: 20/04/36,
l.: jun/36, 78 rpm, Victor. Rel.: cx. "O Rei da Voz",
CD nº 3, RCA/BMG, 1997.
- Feitiço
da Vila (Vadico e Noel Rosa), João Petra de Barros,
g.: 22/10/34, l.: dez/34, 78 rpm, Odeon. Reg.: Ivan Lins e Nana
Caymmi, "Vivanoel Lins - Tributo a Noel Rosa", CD nº
2, Velas, 1997.
- Feitio
de Oração (Vadico e Noel Rosa), Francisco Alves
e Castro Barbosa, g.: 07/07/33, l.: ago/33, 78 rpm, Odeon. Rel.:
CD "Noel Rosa: Feitiço da Vila", Revivendo, s/d.
- Flor
do Asfalto (J. Tomás e Orestes Barbosa), Castro Barbosa,
g.: 30/10/31, l.: dez/31, 78 rpm, Victor.
- Gavião
Calçudo (Pixinguinha), Patrício Teixeira, l.:
mar/29, 78 rpm, Parlophon. Rel.: CD "Quando o Samba Acabou",
Revivendo, s/d.
- Good-bye
(Assis Valente), Carmen Miranda, g.: 29/11/32, l.: jan/33, 78
rpm, Victor. Rel.: cx. "C.M.", CD nº 1, RCA/BMG,
1998.
Hino do Carnaval Brasileiro (Lamartine Babo), Almirante, g.: 08/12/38,
l.: jan/39, 78 rpm, Odeon. Rel.: fasc. "Lamartine Babo",
HMPB, Abril Cultural, 1982.
- Isso
Não Se Atura (Assis Valente), Carmen Miranda, g.: 26/06/35,
l.: jul/35, 78 rpm, Odeon. Rel.: cx. "C.M.", CD nº
1, Emi, 1996.
- Isto
Aqui O Que é (Ari Barroso), Moraes Neto, g.: 04/12/41,
l.: fev/42, 78 rpm, Odeon. Rel.: LP "Quando a Saudade Vier",
Revivendo, 1990.
- Juramento
Falso (J. Cascata e Leonel Azevedo), Orlando Silva, g.: 15/03/37,
l.: mar/37, 78 rpm, Victor. Rel.: cx. "O Cantor das Multidões",
CD nº 1, RCA/BMG, 1995.
- Lalá
e Lelé (Jaime Brito e Manezinho Araújo), Luiz
Barbosa, g.: 20/04/37, l.: jun/37, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "Gosto
que Me Enrosco", Revivendo, s/d.
- Lenço
no Pescoço (Wilson Batista), Sílvio Caldas,
g.: 18/07/33, l.: out/33, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "GSH",
nº 10, Globo/BMG, 1997.
- Linda
Morena (Lamartine Babo), Mário Reis e Lamartine Babo,
g.: 26/12/32, l.: fev/33, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "O Carnaval
de Lamartine Babo - Sua História, Sua Glória",
vol. 13, Revivendo, s/d.
- Minha
Embaixada Chegou (Assis Valente), Carmen Miranda, g.: 28/09/34,
l.: nov/34, 78 rpm, Victor. Rel.: cx. "C.M.", CD nº
3, RCA/BMG, 1998.
- Morena
Boca de Ouro (Ari Barroso), Sílvio Caldas, g.: 04/07/41,
l.: set/41, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "GSH", nº
11, Globo/BMG, 1997.
- Mulato
Antimetropolitano (Laurindo de Almeida), Carmen Miranda, g.:
05/04/39, l.: nov/39, 78 rpm, Odeon. Rel.: cx. "C.M.",
CD nº 5, Emi, 1996.
- Mulher
(Custódio Mesquita e Sadi Cabral), Sílvio Caldas,
g.: 24/01/40, l.: mar/40, 78 rpm, Victor. Rel.: fasc. "Custódio
Mesquita", Nova História da Música Popular
Brasileira (NHMPB), Abril Cultural, 1977.
- Nada
Além (Custódio Mesquita e Mário Lago),
Orlando Silva, g.: 11/05/38, l.: jul/38, 78 rpm, Victor. Rel.:
cx. "O Cantor das Multidões", CD nº 2, RCA/BMG,
1995.
- Não
Tem Tradução (Noel Rosa), Francisco Alves, g.:
23/08/33, l.: set/33, 78 rpm, Odeon. Reg.: João Nogueira,
CD "Songbook Noel", Lumiar, 1991.
- Nego
no Samba, O (Ari Barroso, Luiz Peixoto e Marques Porto), Carmen
Miranda, g.: 14/12/29, l.: mai/30, 78 rpm, Victor. Rel.: cx. "C.M.",
CD nº 1, RCA/BMG, 1998.
- Novo
Amor (Ismael Silva), Mário Reis, g.: 27/02/29, l.:
abr/29, 78 rpm, Odeon. Rel.: CD "Gosto que Me Enrosco",
Revivendo, s/d.
Oui... Oui... (Floriano Pinho), Sônia Carvalho, g.: provavelmente
1937, 78 rpm, Colúmbia. Rel.: LP "Jóias da
Nossa Música", Revivendo, 1988.
- Palpite
Infeliz (Noel Rosa), Araci de Almeida, g.: 17/12/35, l.: jan/36,
78 rpm, Victor. Rel.: fasc. "Noel Rosa", HMPB, Abril
Cultural, 1970.
- Pesadelo
(Janet de Almeida e Léo Vilar), Anjos do Inferno, g.: 25/03/43,
l.: abr/43, 78 rpm, Colúmbia. Rel.: LP "Anjos do Inferno",
Revivendo, 1988.
- Por
Ti Eu Me Rasgo Todo (Francisco Canaro, versão de Oswaldo
Santiago), Orlando Silva, g.: 24/07/39, l.: out/39, 78 rpm, Victor.
- Pra
Que Discutir com Madame? (Janet de Almeida e Haroldo Barbosa),
Janet de Almeida, l.: out/45, 78 rpm, Continental. Reg.: João
Gilberto, CD "Live at the 19th Montreux Jazz Festival",
g.: 18/07/85, WB, 1991.
- Quando
o Samba Acabou (Noel Rosa), Mário Reis, g.: 11/04/33,
l.: mai/33, 78 rpm, Odeon. Rel.: CD "Quando o Samba Acabou",
Revivendo, s/d.
- Que
Será de Mim, O (Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco
Alves), Francisco Alves e Mário Reis, g.: 28/02/31, l.:
abr/31, 78 rpm, Odeon. Rel.: CD "GSH", nº 18, 1998.
- Quem
Condena a Batucada (Nelson Petersen), Carmen Miranda, g.:
01/08/38, l.: set/38, 78 rpm, Odeon. Rel.: cx. "C.M.",
CD nº 4, Emi, 1996.
- Quem
Dá Mais? (Noel Rosa), Noel Rosa, g.: 02/07/32, l.:
1933, 78 rpm, Odeon. Rel.: CD "Noel Rosa: Feitiço
da Vila", Revivendo, s/d.
Rapaz Folgado (Noel Rosa), Araci de Almeida, g.: 28/04/38,
l.: out/38, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "Noel Rosa", Revivendo,
s/d.
Recenseamento (Assis Valente), Carmen Miranda, g.: 27/09/40, l.:
dez/40, 78 rpm, Odeon. Rel.: cx. "C.M.", CD nº
5, Emi, 1996.
- Ritmo
do Coração (Benedito Lacerda e Herivelto Martins),
Alzirinha Camargo, g.: 15/10/36, l.: nov/36, 78 rpm, Odeon. Rel.:
LP "Nós Somos as Cantoras do Rádio...",
Revivendo, 1990.
- Sabor
do Samba (Kid Pepe e Germano Agusto), Patrício Teixeira,
g.: 23/10/34, l.: jul/35, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "Quando
o Samba Acabou", Revivendo, s/d.
- Sai
da Toca, Brasil! (Joubert de Carvalho), Carmen Miranda, g.:
08/03/38, l.: jun/38, 78 rpm, Odeon. Rel.: cx. "C.M.",
CD nº 4, Emi, 1996.
- Samba
da Minha Terra (Dorival Caymmi) Bando da Lua, g.: 19/10/40,
l.: nov/40, 78 rpm, Colúmbia. Rel.: CD "Samba da Minha
Terra", Revivendo, s/d.
- Samba
de Fato (Pixinguinha e Baiano), Patrício Teixeira,
g.: 06/07/32, l.: ago/32, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "GSH",
nº 6, Globo/BMG, 1997.
- Sambista
da Cinelândia (Custódio Mesquita e Mário
Lago), Carmen Miranda, g.: 14/05/36, l.: ago/36, 78 rpm, Odeon.
Rel.: cx. "C.M.", CD nº 2, Emi, 1996.
- Se
a Sorte Me Ajudar (Noel Rosa e Germano Augusto), Aurora Miranda
e João Petra de Barros, g.: 08/05/34, l.: jun/34, 78 rpm,
Odeon.
- Se
Gostares de Batuque (Kid Pepe), Carmen Miranda, g.: 09/07/35,
l.: ago/35, 78 rpm, Odeon. Rel.: cx. "C.M.", CD nº
1, Emi, 1996.
- Se
o Samba É Moda (Josué de Barros), Carmen Miranda,
g.: 2º sem/29, l.: jan/30, 78 rpm, Brunswick. Rel.: LP "Cartão
de Visitas", Revivendo, s/d.
- Se
Você Jurar (Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco
Alves), Francisco Alves e Mário Reis, g.: 05/12/30, l.:
jan/31, 78 rpm, Odeon. Rel.: fasc. "Ismael Silva", HMPB,
Abril Cultural, 1983.
- Tarzan
(O Filho do Alfaiate) (Vadico e Noel Rosa), Almirante, g.:
04/08/36, l.: set/36, 78 rpm, Victor. CD "Noel Rosa: Coisas
Nossas", Revivendo, s/d.
- Tem
Francesa no Morro (Assis Valente), Araci Cortes, g.: 1932,
78 rpm, Colúmbia. Reg.: Araci Cortes e Rosa de Ouro, CD
"Rosa de Ouro", g.: 1967, Emi, 1993.
- Tenho
Prazer (Ataulfo Alves), Carlos Galhardo, g.: 01/06/33, ago/36,
78 rpm, Victor. Rel.: LP "Tenho Prazer", Revivendo,
1989.
- Teu
Cabelo Não Nega, O (Irmãos Valença e
Lamartine Babo), Castro Barbosa, g.: 21/12/31, l.: jan/32, 78
rpm, Victor. Rel.: fasc. "Lamartine Babo", HMPB, Abril
Cultural, 1982.
- Touradas
em Madri (João de Barro e Alberto Ribeiro), Almirante,
g.: 28/11/37, l.: jan/38, 78 rpm, Odeon. Rel.: fasc. "João
de Barro e Alberto Ribeiro", NHMPB, Abril Cultural, 1977.
- Último
Desejo (Noel Rosa) Araci de Almeida, g.: 01/07/37, l.: mar/38,
78 rpm, Victor. Rel.: CD "Noel Rosa", Revivendo, s/d.
Verde e Amarelo (J. Tomás e Orestes Barbosa), Araci Cortes,
l.: jun/32, 78 rpm, Colúmbia. Rel.: LP "Grandes Cantoras",
Revivendo, s/d.
- Vida
É um Samba, A (Ivani Ribeiro e Sônia Carvalho),
Sônia Carvalho, l.: provavelmente 1937, 78 rpm, Colúmbia.
Rel.: LP "Jóias da Nossa Música", Revivendo,
1988.
- Você
Nasceu pra Ser Grã-Fina (Laurindo de Almeida), Carmen
Miranda, g.: 05/04/39, l.: nov/39, 78 rpm, Odeon. Rel.: cx. "C.M.",
CD nº 5, Emi, 1996.
- Você
Só... Mente (Hélio Rosa e Noel Rosa), Francisco
Alves e Aurora Miranda, g.: 05/07/33, l.: ago/33, Odeon. Reg.:
Grupo Rumo, LP "Rumo aos Antigos" (independente), 1982.
- Vou
Ver Se Posso (Heitor dos Prazeres), Mário Reis, g.:
11/05/34, l.: ago/34, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "GSH",
nº 20, Globo/BMG, 1998.
- X
do Problema, O (Noel Rosa), Araci de Almeida, g.: 09/09/36,
l.: out/36, 78 rpm, Victor. Rel.: CD "Noel Rosa", Revivendo,
s/d.
- Yes!
Nós Temos Bananas... (João de Barro e Alberto
Ribeiro), Almirante, g.: 04/11/37, l.: jan/38, 78 rpm, Odeon.
Reg.: Caetano Veloso, LP de 1967, Philips; rel.: fasc. "João
de Barro e Alberto Ribeiro", NHMPB, Abril Cultural, 1977.
Comunicação
apresentada na mesa-redonda "Samba: História e Crítica",
durante o II Congreso Latinoamericano del IASPM (International Association
for the Study of Popular Music), realizado em Santiago de Chile,
entre 24 e 27 de março de 1997. Este texto integra o livro
Música Popular en América Latina, publicado em Santiago
do Chile, em 1999, por Rodrigo Torres editor.
Adalberto
Paranhos é professor do Departamento
de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia,
mestre em Ciência-Política pela Unicamp, doutorando
em História Social na PUC-SP e autor do livro Dialética
da Dominação. Publicou diversos textos em coletâneas
e revistas especializadas, dentre os quais o ensaio Novas Bossas
e Velhos Argumentos: Tradição e Contemporaneidade
na MPB.
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