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As artes plásticas como espaço de criatividade

Não há limites para o campo artístico. O trabalho da artista plástica Sílvia Matos segue essa máxima há muitos anos. Com uma formação que passa pela área acadêmica, tendo feito parte da primeira turma do curso de Artes Plásticas da Unicamp, além do aprendizado junto a artistas-educadores, Sílvia atualmente faz de seu "Ateliê de Criatividade", um espaço de experimentação no distrito de Barão Geraldo, em Campinas.


Máscara - Auto retrato

Com um trabalho influenciado pelos concretos e neo-concretos, a artista utiliza diversos suportes para a produção de seus trabalhos, como o vídeo, a fotografia, o computador, além de tecnologias avançadas como fibra óptica, por exemplo.

Sua preocupação com a formação de novos artistas também assume papel importante em sua atuação, já que em seu Ateliê mais de 100 "alunos" tiveram a oportunidade de aprender e sobretudo, experimentar novos caminhos no campo das artes plásticas. Prova de que a produção artística é fundamental, já que "o conceito de artista como um ser iluminado, fora de seu tempo não me convence, pois, para mim, o artista é aquele que trabalha, que produz".

Nesta entrevista exclusiva, ela critica a falta de espaços para a difusão cultural dos artistas campineiros, fala ainda de suas experiências artísticas, das leituras de alguns de seus receptores sobre suas obras, suas exposições e ainda sobre a subjetividade da produção artística.

Barão em Revista: Você, em 1988, lançou o livro "ARTISTAS educadores de Campinas e suas obras: retratos por Sílvia Matos". O que mudou de 1988 até os dias atuais?

Sílvia Matos: Nessa época, não havia nada publicado sobre a Arte em Campinas. Eu selecionei 20 artistas plásticos, começando pelo Hércules Florence, que foi o primeiro que se poderia chamar de artista-educador, porque, desde aquele tempo, o artista sobrevivia dando aula, realidade que se mantém até hoje. Então, ele era fotógrafo, mas dava aula de pintura, porque era artista também. É o primeiro de que se tem registro, pois entre ele e o começo do século XX não há ligação. Na verdade, os grandes fazendeiros traziam pintores famosos para pintar as madames, dar aulas, etc. e quem fazia os retratos na cidade eram os fotógrafos. Quando comecei a descobrir o fio, escolhi os artistas, aliás, por isso os chamo de "artistas-educadores". Eles que tiveram alunos que também foram ser artistas e professores. Bom, então eu conduzi minha pesquisa até chegar à criação do Instituto de Artes da Unicamp. E essa tradição continua, pois eu mesma fui aluna de vários deles. Inclusive, quando estava desenvolvendo esta pesquisa eu visitei o ateliê de todos eles, fazendo o retrato de cada um destes 20 artistas de Campinas, que foram escolhidos por terem influenciado várias gerações de outros artistas.

B. R. Qual a diferença entre um arte-educador e um artista-educador?

Sílvia: Um arte-educador pode lecionar, por exemplo, mas necessariamente ele não é um artista, que é aquele que é atuante. Eu estou trabalhando, atuando, me renovando, independente de vender ou não vender. O conceito de artista como um ser iluminado, fora de seu tempo não me convence, pois, para mim, o artista é aquele que trabalha, que produz. Não faço aqui nenhuma distinção de valor, nenhum é melhor que o outro, simplesmente vivem situações diferentes.

B. R. Qual sua avaliação as artes plásticas em Campinas?

Sílvia: Eu acho que o campo artístico está em fase de crescimento. Entretanto, como há pouca divulgação, as pessoas ficam um pouco reclusas. Há muitos artistas trabalhando, mas não há muita difusão cultural. Eu acho que Campinas é ingrata com os artistas locais, pois há vários exemplos de pessoas daqui que só conseguem expressão em outras partes do país. Falta reconhecimento pela cultura da cidade. É uma cidade contraditória, pois, ao mesmo tempo que é culta, não aproveita a sua própria produção. Poderia citar vários nomes, especialmente de artistas mulheres que estão em pleno processo produtivo, como Del Pilar Salum, Samanta Moreira, Cecília Stellini, Ana Maria Almeida, entre outras. Acho ainda que há poucos espaços públicos para exposições, o que dificulta ainda mais a circulação artística. Em 2003, a cidade finalmente deu um bom catálogo ao Egas Francisco e ao Thomaz Perina, dois artistas importantes, um bom catálogo, junto com a exposição, o que eu considero extremamente relevante. Aliás, acho que muitos outros poderiam contar com esse tipo de de divulgação.

B. R. E qual o papel de Barão Geraldo neste quadro? Como o seu ateliê está inserido e tem contribuído para este contexto?

Sílvia: Aqui tem bastante gente produzindo. Tem muito artista, mas também tem muita gente que pinta por passatempo, que é outra coisa, sem qualquer menosprezo por esta situação. No meu ateliê, que existe há 13 anos, creio que já passaram mais de 100 pessoas. Além disso, algumas alunas já estão seguindo carreira. Por isso que eu digo: Essa rede está sempre crescendo. Tem uma que está em Angra dos Reis/RJ. Aqui comigo, tem várias que foram minhas alunas e estão atuantes. Nesse sentido, eu acho que eu tive sorte, gente boa que está aí. Tenho ajudado alunos que prestam vestibular na Unicamp, como uma aluna que, está agora com 18 anos e trabalha com moda. Começou ainda criança e atualmente expõe e vende bem.

B. R. Como se deu o processo de pesquisa com fibras ópticas em instalações e performances? Do início (1987) até agora, o que as pesquisas avançaram?

Sílvia: Na época, eu pintava quadros, mas eu tinha vontade de tirar um pouquinho do quadro para fora. Eu queria uma pintura que não ficasse na parede. Eu já fazia escultura, mas não era a mesma coisa, eu queria a pintura no espaço. Aí o meu filho, que fazia física, disse: você precisa conhecer a holografia. Mas aí não dava por causa dos aparatos. Um amigo dele sugeriu a fibra óptica e eu comecei a pesquisar. Fui na ABCXTAL, eles me deram o material e eu comecei a trabalhar. Nesse começo, me lembro que um grupo de artistas, dos bons, fez uma exposição em São Paulo. Achei que havia "dançado" porque eu estava aqui no início das pesquisas e eles já haviam inaugurado uma exposição com a fibra óptica. Quando visitei a exposição, vi que não tinha nada a ver com aquilo que eu estava buscando. Nesse trabalho, cada um aplicou a fibra óptica naquilo que estava fazendo. Então, eles não foram trabalhar a fibra como elemento central. A não ser um, que colocou a fibra numa caixa com uma luz dentro, mas ele não conseguiu vedar a caixa por completo. No meu caso, eu fechei a fibra óptica dentro da resina e pintei de preto. Dessa forma, a luz passa apenas pelo tubo. Coloquei também espelhos para multiplicar a luz. Com a fibra óptica, montei uma roupa para um performer e instalações, geralmente feitas em ambientes totalmente escurecidos onde só se via a luz da fibra. Na Argentina, os fios da fibra óptica pareciam "rios de rubi". Então, para mim, isso já era uma forma de desenho no espaço.

B. R. De acordo com as técnicas que você já utilizou, incluindo elementos de nova tecnologia como a fibra óptica e o computador, como você se autodefiniria?

Sílvia: Como artista plástica, porque, atualmente, o artista plástico mexe com tudo, tem que procurar materiais diferentes. Você bola um negócio e aí você vai atrás para ver quem é que faz... Interessante que a gente encontra pessoas bem simpáticas que nos ajudam. Nesse caso, tem que ter criatividade. Eu, por exemplo, que gosto de trabalhar com peças grandes, tenho de procurar uma maneira mais prática de transportar, senão teria de chamar um caminhão para carregar. Então, eu comecei a utilizar coisas que eu possa enrolar, dobrar. Tem até uma artista americana que veio dar uma oficina da Unicamp, que participa de um grupo que tinha como proposta realizar exposições com materiais que coubessem numa caixa de determinadas proporções. Quer dizer, tem que usar a criatividade. E é nisso que a arte ajuda. Tem uma artista que diz que eu sou "mestre das gambiarras". A gente tem que ir se ajeitando, não é mesmo?

B. R. Qual ou quais artistas você mais gosta (no Brasil ou no exterior) e quais são suas principais influências?

Sílvia: Sempre gostei do Turner. O meu trabalho é influenciado pelos concretos e neo-concretos. O construtivismo. Inclusive o Carlos Alberto Fajardo, importante artista contemporâneo, que costuma vir ao meu ateliê para discutir arte contemporânea. O meu trabalho não tem a ver com o dele, mas seguimos linhas parecidas. Na Unicamp, o professor Marco Do Vale também seguia essa linha. Foi por onde eu busquei o lado contemporâneo. Eu tive a formação clássica e a contemporânea. Isso me dá uma segurança incrível, porque eu posso fazer o que eu quero e quando quero, não por impossibilidade, mas por escolha.

B. R. O que você busca expressar através de sua Arte?

Sílvia: Eu não sei dizer. Porque eu não tenho uma concepção de expressar alguma coisa. No caso das pesquisas, eu vou fazendo, testando e depois que estiver pronto, eu vou começando a entender, é a posteriori. Quanto está pronto, eu analiso. Tem alguma coisa, mas é implícita, por exemplo em as "caixas de gritos mudos", se for ver, tem a ver com esse mundo conturbado, são gritos mudos, está tudo fechado dentro das caixinhas, ninguém ouve. Os "invólucros", por outro lado, não traz uma expressão, é mais a coisa plástica, por assim dizer. Por mais que alguns artistas digam que seus trabalhos não trazem nada subjetivo, na verdade tem, mesmo que eles não queiram.

B. R. E as leituras feitas por espectadores a partir de um trabalho seu? Como você percebe?

Sílvia: Tem um caso bem peculiar que é o da fibra óptica. Porque ele representa muito. Tem a música eletroacústica, o espectador fica no escuro, e o escuro mexe com as pessoas. A luz da fibra óptica é muito suave e encanta. Interessante que o trabalho é uma coisa contemporânea, mas quando você entra lá dentro, o ambiente remete o espectador lá para o tempo das cavernas. É uma coisa nova, então isso mexe com as pessoas. Eu encontrei uma moça num ônibus uma vez que tinha visto a minha performance. Ela tinha perdido recentemente o irmão gêmeo e aquilo trouxe a ela uma paz incrível. Para ela, o ator parecia um gigante, por exemplo. Outro caso, ocorrido no Rio de Janeiro, foi o de um artista que "assistiu" meu trabalho e me garantiu que o mesmo lhe deu uma força muito grande, já que ele havia descoberto que era soropositivo e pôde pensar em outras forças, subjetivas, que poderiam lhe trazer esperanças.

B. R. Fale sobre sua última exposição (Desenho com Linguagem Autônoma) e sobre a exposição no MACC.

Sílvia: A gente formou um grupo há algum tempo. Eu ofereci uma oficina a algumas integrantes deste grupo. Aí fizemos pesquisas juntas e produzimos alguns trabalhos respectivos às pesquisas de cada uma, que são a Alice Grou, a Beth Schneider, a Lalau Mayrink e a Olívia Niemeyer. O que trabalhamos em comum foi a autonomia da linha sem se nos importarmos onde esta se formava ou se situava; se permanente ou provisória, agregada à pintura e a fotografia ou independente. O projeto do MACC é constituído de cinco artistas mulheres com tema livre. Foi um convite do coordenador do Museu. Eu ainda estou em fase de produção, já que a exposição irá ocorrer no mês de agosto. Para o mês de setembro também está prevista uma exposição na galeria da Unicamp.

Para conhecer mais sobre a obra de Sílvia Matos, acesse: www.silviamatos.art.br.

Ateliê de Criatividade
Rua Aristides Lobo, 1016 - Barão Geraldo. Campinas/SP