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"Alguma
coisa está fora da ordem"
Resenha do livro A identidade cultural
na pós modernidade de Stuart Hall
Stuart Hall
é um dos maiores expoentes da corrente conhecida como Escola
de Birmigham, ou "estudos culturais", conjunto de
pensadores britânicos contemporâneos que, a partir de
uma leitura do filósofo marxista Antonio Gramsci, fazem uma
radiografia dos processos culturais contemporâneos, tendo
como pano de fundo as mudanças societárias impostas
pelo processo de globalização e a chamada cultura
pós-moderna. Hall foi diretor do Centro de Estudos Culturais
Contemporâneos da Universidade de Birmigham entre 1970 e 1979
e faz parte do corpo de fundadores deste importante instituto.
Este pequeno
livro coloca os principais pontos do que os teóricos dos
estudos culturais britânicos apontam como centrais para se
pensar as relações sócio-culturais na era pós-moderna.
O principal ponto de partida de Hall é a crise da noção
de identidade e de sujeito constituída na modernidade - a
idéia de um sujeito centrado, unificado e definido em termos
de locus sócio-cultural se evanesce. Segundo Hall,
"uma mudança estrutural está fragmentando e deslocando
as identidades culturais de classe, sexualidade, etnia, raça
e nacionalidade - se antes, estas identidades eram sólidas
localizações nas quais os indivíduos se encaixavam
socialmente, hoje elas se encontram com fronteiras menos definidas
que provocam no indivíduo uma crise de identidade".
O sujeito do
Iluminismo, segundo Hall, "estava baseado numa concepção
de pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado,
dotado das capacidades de razão, consciência e ação"
(p. 10). Esta certeza, típica do período iluminista,
na verdade não passa de uma construção discursiva
que se legitima pela emergência e centralidade da ação
política nos Estados-Nação. Assim, as identidades
se articulam a partir do pertencimento a nações que
subordinam as demais possibilidades de construção
de subjetividades.
O processo conhecido
como globalização traz como novidade um enfraquecimento
do espaço do Estado-Nação como locus
privilegiado da construção destas identidades. E o
que se percebe hoje, é um desvelamento das limitações
que esta concepção centrada de identidade construída
pelo Iluminismo não se sustenta sem a centralidade da instituição
Nação. "As nações líderes
da Europa são nações de sangue misto: a França
é, ao mesmo tempo, céltica, ibérica e germânica;
a Alemanha é germânica, céltica e eslava; a
Itália é o país onde gauleses, etruscos, pelagianos
e gregos para não mencionar outros, se intersectam numa mistura
indecifrável..." (p. 64). Por esta razão, Hall
define que os conceitos de identidade são, na verdade, construções
discursivas que só se legitimam a partir do momento que os
contextos culturais assim o permitem.
O atual contexto
cultural da pós-modernidade aponta para conseqüências
contraditórias, segundo Hall. Primeiro, percebe-se uma desintegração
das identidades nacionais pela tendência da homogeinização
cultural da globalização; segundo, há
um reforço das identidades nacionais e outras locais e particularistas
em virtude da resistência ao processo de globalização
e, como síntese deste choque, uma terceira conseqüência:
as identidades nacionais estão em declínio mas
novas identidades - híbridas - estão tomando o seu
lugar.
Com estas afirmações,
Hall nos dá pistas interessantes e inovadoras para compreender
o atual contexto cultural. Distanciando-se tanto daqueles que consideram
a inevitabilidade de uma total homogeneização cultural
imposta pela globalização e também dos que
defendem uma resistência simplesmente retornando ao discurso
da identidade nacional do Iluminismo, o autor aponta que este choque
dialético possibilita a construção de novas
sínteses e perspectivas culturais que demandam desafios teóricos
mais complexos para a sua compreensão mais global.
HALL,
Stuart. A identidade cultural na pós modernidade.
Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
Dennis
de Oliveira é
Doutor em Ciências da Comunicação pela USP,
coordenador do curso de graduação em Jornalismo da
Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep).
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