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Terra e Cinzas: um conto afegão

Por Marta Maia

"Sabe, pai, a dor é assim,
ela derrete ou escorre pelos olhos,
ou ela se torna afiada
como uma lâmina brotando da boca,
ou então ela se transforma em bomba dentro do peito,
uma bomba que explode num belo dia
e te faz explodir também..."

(Atiq Rahimi)

Das páginas lidas brotam imagens indefinidas, sentimentos angustiantes e uma enorme sensação de impotência. A história assemelha-se aos antigos contos persas. "Às perguntas políticas dos jornalistas, respondo com contos persas", diz Atiq Rahimi, o autor do livro. A poesia mítica encontra na prosa cortante do escritor uma narrativa paradoxalmente contemporânea.

Lançado este ano, o livro Terra e Cinzas traz uma tarja vermelha na capa, que vai além de um mero recurso promocional, pois faz uma apresentação bastante consistente e verdadeira: "Se você puder ler somente um livro do Oriente este ano, que seja este. Um prodígio. Uma criação literária como não se vê há anos. Atiq Rahimi encontrou um tom, um fraseado que deixam o leitor petrificado" - L'Express.

A história de um velho que leva notícias de perdas para seu filho, que trabalha em uma mina, revela uma saga que parece não ter mais fim. Ele está acompanhado pelo neto, que ficou surdo devido às explosões de guerra e que sequer percebe o problema da falta de audição. "A bomba era muito forte. Ela fez tudo se calar. Os tanques roubaram até a voz do meu avô. Meu avô não pode mais falar, ele não pode mais ralhar comigo". Quem assistiu, recentemente, ao filme A Caminho de Kandahar pode fazer um paralelo do que representa estes caminhos, cujas estradas parecem infinitas para àqueles que estão cercados pelas tiranias impostas por nações/etnias que se consideram senhores supremos de um mundo volatizado pelas preferências capitais (no sentido literal do termo).

Anton Thecov diz que é melhor não dizer o suficiente do que dizer demais. Esta máxima vale para o conto de Radhimi, pois o texto é preciso e conciso. É extremamente interessante como o autor consegue contar uma história factual, permeada por um conteúdo tão denso. Aqui vale a pena utilizar uma citação do escritor Ricardo Piglia (O Laboratório do Escritor) sobre esta questão: "O conto se constrói para fazer aparecer artificialmente algo que estava oculto. Reproduz a busca renovada de uma experiência única que nos permita ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta".

A narrativa que tem lugar e espaço no conflito dos anos 80 entre Rússia e Afeganistão consegue traduzir em símbolos universais a experiência da desagregação, da perda de identidade de povos que se vêem destituídos de seus espaços geográficos e sagrados, sofrendo um processo de dessacralização de seus valores mais caros. Não são sequer dignos de restabelecer laços familiares, tudo o que resta são os estilhaços de balas, bombas e vidas.

Sobre o autor

Foto: John Foley/Opale

Atiq Rahimi nasceu em Cabul em 1962, de pai governador de província e mãe professora. Estudou no colégio francês e cursou letras na universidade da capital afegã, trabalhando em seguida como jornalista e freqüentando a cena literária e artística local. Durante a guerra civil no início dos anos 80 deixou o país rumo ao Paquistão, em jornada de oito dias a pé em pleno inverno. Obteve estatuto de refugiado político na França ("que escolhi por causa de Alain Resnais e de seu filme Hiroshima, meu amor"), onde vive desde 1985.

Doutorou-se em comunicação audiovisual na Sorbonne, e atualmente dirige e produz filmes documentários. Apesar de fluente em francês, sua língua literária é o dari, variação do persa falada no noroeste do Afeganistão. Terra e cinzas é sua primeira obra de ficção, à qual virá acrescentar-se em 2002 As mil casas do sonho e do terror.

Rahimi, Atiq. Terra e cinzas: um conto afegão. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.

Sobre Marta Maia