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A
Terra Sonâmbula de Mia Couto
O
que faz andar a estrada?
É o sonho. Enquanto a gente sonhar
A estrada permanecerá viva.
É para isso que servem os caminhos,
Para nos fazerem parentes do futuro
Mia
Couto
Por
Marta Maia
A guerra (leia-se
massacre) dos EUA contra o Iraque acendeu em mim uma vontade de
reler o que considero um clássico. Após a leitura,
a vontade foi a de compartilhar com aqueles que não aceitam
simplesmente o aqui e agora e sonham-atuam com-por dias melhores
para o nosso planeta. O nome do livro é Terra Sonâmbula,
do escritor moçambicano Mia Couto (Nova Fronteira). Talvez
a denominação "clássico" possa parecer
estranha a alguns, mas lembrei-me de outra recente leitura: Por
que ler os clássicos, de Ítalo Calvino (Companhia
das Letras). No primeiro texto deste livro, Calvino nos brinda com
uma bem traçada discussão sobre o que é um
clássico e, após diversas definições
que não podem ser resumidas e que, portanto, devem ser lidas
na fonte, o autor apresenta uma definição que contribui
para estabelecer uma conexão ideal com esta resenha: "É
clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à
posição de barulho de fundo, mas, ao mesmo tempo,
não prescindir desse barulho de fundo". (p.15)

Mia Couto, mesmo
sendo filho de portugueses, apresenta, em sua produção
literária, a oratura das ruas e das vilas por onde sempre
percorreu colhendo histórias e mais histórias de um
povo que sofreu as tristezas de uma guerra civil. A viagem mítica
que a prosa de Mia Couto nos proporciona causa redemoinhos de sensações,
com lufadas de uma sintaxe própria dos grandes nomes, proporcionando
uma dimensão mítica de reencontro com um mundo anterior
a nossa própria existência.
Vale lembrar
ainda que o escritor/poeta recentemente percorreu muitos endereços
eletrônicos por causa da "Carta ao Presidente Bush",
bastante fundamentada, que circulou na Internet, endereçada
ao presidente Bush quando da guerra contra o Iraque. A carta encontra-se
no endereço: www.secrel.com.br/jpoesia/mia.html#carta.
Antes, portanto,
de falar sobre o livro, é preciso que se faça uma
digressão (mesmo sem ser uma adepta deste tipo de interrupção,
acho que, às vezes, ela se faz necessária). Uma questão
central propiciada por esse tipo de leitura advém do universo
simbólico e mitológico. O ser humano necessita de
referências simbólicas como uma espécie de garantia
de sua própria sobrevivência neste mundo. Ele precisa
de modelos, de determinados arquétipos que o auxiliem a compreender
e a explicar certos fatores inconscientes e profundos que movem
suas ações no plano real. A presença deste
universo no cotidiano não pode ser mensurada, mas pode ser
observada com o intuito de extrapolar um padrão racional
de análise.
Podemos
desde já imaginar a hipótese de que é graças
a essa defasagem que atua em todos os níveis (individual,
social, político etc.) que se introduzem os diversos
enredos oníricos pelos quais se exprime o imaginário
[...] O fantástico e a ficção não
possuem outro sentido senão organizar um espaço
vital, tornando o cotidiano aceitável [...] Trata-se
de um discurso paralelo ao discurso político, científico,
racional, e que, através dos rumores, dos mexericos,
dos fantasmas, traduz a angústia coletiva do tempo que
passa.1
De qualquer
forma não se pode ter uma leitura unívoca do mito,
afinal ele é reconstruído a todo momento. O mito e
a mitologia não devem ser pensados somente no sentido grego
do termo2,
mas como encontros de narrativas de outras civilizações
que conseguem manter um diálogo devido justamente a certas
intersecções que permitem reconhecer pontos comuns
em relatos advindos das mais variadas regiões: "Memória,
oralidade, tradição: são essas as condições
de existência e sobrevivência do mito"3.
Se o paradigma da certeza exclui a possibilidade do mito, já
uma visão polissêmica do real incorpora-o inclusive
como uma necessidade inerente ao ser humano, que vive situações
internas e externas carregadas de simbologias, que vivencia conflitos
entre os seus limites e os limites da natureza. O real comporta
muito mais que regras e valores previamente definidos.
Hoje
não é mais possível alijar o conflito dos
diferentes e as identidades culturais, nem tampouco desqualificar
as linguagens que transcendem uma sociedade dada. A arte, a
religiosidade, o mito muito ao contrário de representarem
a alienação do real concreto, expressam uma comunhão
profunda e universalizante com a realidade simbólica
do humano.4
Se os mitos
existem na sociedade é porque conseguem dar respostas a uma
demanda coletiva5,
que não encontra explicações plausíveis
e satisfatórias no terreno da racionalidade e busca uma relação
entre o concreto e o imaginário.
Voltemos então
ao livro de Mia Couto. O autor, trabalhando com narrativas entrecruzadas,
conta a história de um velho e de um menino que perambulam
entre os escombros da guerra, aparentemente sem muitas perspectivas.
O encontro com os cadernos escritos por Kindzu, entrelaça
o enredo de maneira única e permite uma espécie de
religare do ser humano.
Ao mostrar os
destroços materiais causados pela guerra, o escritor revela
também a devastação que esta impinge às
pessoas: "A guerra é uma cobra que usa os nossos
próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora
em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos,
de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da
vida. Nós estávamos cegos". (p.19)
Outra faceta
desta obra mítica é a de posicionar-se politicamente.
Talvez para tristeza de muitos ortodoxos que, na prática,
utilizam um processo de decantação da política
e a poética, subtraindo, desse processo, o aspecto subjetivo
que envolve o nosso cotidiano. O autor exemplifica que a viagem
infinda ao misterioso não precisa permanecer somente nesta
esfera, estabelecendo uma ligação da mesma com as
práticas nefandas de alguns governantes que contribuem para
levar o mundo a esta desgraça interminável, afinal
"as palavras de um dirigente devem encostar com a sua prática".
(p.207)
Guerra, sonhos,
devaneios, história, memória, terra, tristezas, esperanças
aparecem durante toda a narrativa de uma maneira em que o sentido
da vida não pode ser pensado de uma maneira uníca,
mas sim de uma forma plural e solidária. Por último,
as palavras sábias de um feiticeiro-personagem do livro:
"Chorais pelos dias de hoje? Pois saibam que os dias que
virão serão ainda piores. Foi por isso que fizeram
esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o presente
parisse monstros no lugar das esperanças. Não mais
procureis vossos familiares que saíram para outras terras
em busca da paz. Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão.
Vós vos convertêsteis em bichos, sem família,
sem nação. Porque esta guerra não foi feita
para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro
de vós"... Mas, ao final de tanta desgraça,
"surgirão os doces acordes de uma canção...
Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz
profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz
nos dará a força de um novo princípio e, ao
escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas
e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingênuo
entusiasmo dos namorados. Tudo isso se fará se formos capazes
de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos morrer
como gente que já não somos. Deixai que morra o animal
em que esta guerra nos converteu". Deixai que a gente aprenda
a aprender, tudo de novo.
Referências
bibliográficas:
1
Michel MAFFESOLI, A conquista do presente., p. 67.
2
Jean-Pierre
VERNANT, O universo, os deuses e os homens, p. 11.
3
Ibid.,
p. 12.
4
Cremilda MEDINA, "Narrativas do humano ser", p.196, in
Planeta inquieto: Direito ao século XXI, Cremilda MEDINA
e Milton GRECO (org), (Novo Pacto da Ciência; 6), 1998.
5
Jesús
MARTÍN-BARBERO, Dos meios as mediações, p.
83.
Autobiografia
"Nasci
na Beira em 1955, sou filho de uma família de emigrantes
portugueses que chegaram a Moçambique no princípio
dessa década de 50. O meu pai era jornalista e era poeta.
Ele publicou cinco ou seis títulos em Moçambique,
uma poesia pouco íntima, mas também dois dos livros
foram livros que tentaram ser livros de preocupação
social, em relação ao conflito da situação
existente em Moçambique. Mas eram livros em que a consciência
política era mais antifascista, liberal, democrática,
mas não questionando ainda a questão colonial. A família
do meu pai é gente que enriqueceu um pouco no período
da guerra, com garagens, e tinham portanto negócios ligados
a automóveis. Eram do Porto.
O meu pai foi
para África porque acho que ele queria seguir a carreira
jornalística e não havia muita hipótese de
emprego nessa altura em Portugal, penso que foi por isso. Mas havia
também uma sensação de que eles precisavam
de mais espaço, precisavam de começar uma coisa nova.
A minha mãe vem duma aldeia de Trás-os-Montes, não
tem história porque ela não conheceu a mãe
nem o pai. A mãe morreu no parto duma próxima irmã.
Ela ficou órfã, abandonada, depois foi acolhida por
um padre que se apresentou como sendo tio delas. Então até
o nome dela foi rescrito, foi inventado para ela não ter
uma ligação com a sua mãe - uma "senhora
do pecado". Penso que ela queria muito sair dali quando era
nova, o meu pai passou... "distraído", ela agarrou-o
e foram para o Porto. Depois foram de Portugal para Moçambique
e nascemos nós, três irmãos, eu sou o do meio.
Fernando Amado, dois anos mais velho, e o mais novo, que tem uma
diferença de sete anos de mim, chama-se Armando Jorge. [...]
O meu pai, com um grupo de alguns portugueses que tinham sido deportados
de Portugal por motivos políticos, formaram associações
do tipo cineclubes, centros culturais onde se faziam debates de
certas coisas. O meu pai trabalhava em três jornais, o Notícias
da Beira, o Diário de Moçambique
e o Notícias, de Lourenço Marques.
[...] A Beira
era uma cidade muito conflituosa porque a fronteira entre os brancos
e os negros era uma fronteira muito misturada, muito "atravessada".
E eu recordo-me - toda a minha infância é uma infância
de viver no meio de negros, brincar, com eles, os meus amigos, as
pessoas que eu posso referenciar da minha infância, com a
excepção dos meus irmãos e mais alguns, todo
o resto é uma infância toda vivida ali.
[...] Vivemos
em quase todas as partes da Beira. O meu pai mudava constantemente
de bairro. Mas era constante essa mistura. Porque a Beira é
uma cidade conquistada ao pântano. Então, à
medida que era possível secar uma região e construir
casa de cimento isso fazia-se. Mas estavam lá as casas dos
negros locais. Então, sempre do outro lado da rua havia africanos
com casa de caniço. Não tanto esta arquitectura arrumada,
de urbanização feita com plano, como aconteceu em
Lourenço Marques. Vivi muito nessas zonas suburbanas, periféricas.
[...] Os brancos
da Beira eram profundamente racistas. Quando eu saí da Beira
para Lourenço Marques, em 1971, parecia-me que estava noutro
país, porque na Beira havia quase apartheid em certas coisas.
Não podiam entrar negros nos autocarros, só no banco
de trás... Enfim, era muito agressivo. No Carnaval os filhos
dos brancos vinham com paus e correntes bater nos negros... Recordo-me
duma história: eu tinha um senhor que me dava explicações
de matemática, privadas, e ele era pai dum coronel que tinha
feito um massacre em que tinham sido mortos 125 ou 130 camponeses.
E ele tinha fotografias do massacre dentro de casa, como uma glória!
Eu só andei uma semana naquelas explicações.
Nós chamávamos-lhe o "Bengalão",
porque ele tinha uma bengala grande, e quando começava a
sessão de estudo ele mandava sair as mulheres - as meninas
- e ficava só com rapazes, e dizia: "Cuidado, porque
o pretinho está-nos a ouvir, é preciso impedir isso.
Na escola eu tenho que baixar as notas dos negros para eles nunca
ficarem à vossa frente, vocês têm que me ajudar
nesta luta..." - e aquilo era uma coisa que para mim soava
horrível.
[...] Eu guardo
na minha infância, assim, uma coisa muito esbatida, um ponto
de referência, as histórias que me eram contadas, dos
velhos que moravam perto, vizinhos do outro lado da rua, de um outro
mundo, e eu recordo esse mundo encantado até algumas histórias,
sobretudo como eles me deixaram uma marca. Os meus dois irmãos
também escreviam, com 16, 17 anos, e o meu irmão Carlos
mais cedo, até. O meu pai tinha muito esta coisa que eu era
o filho que lhe ia continuar a veia. [...] em 83, publiquei o meu
primeiro livro. Como uma espécie de contestação
contra o domínio absoluto da poesia militante, panfletária.
Para se ser revolucionário era preciso falar de marxismo,
nos operários, e eu resolvi fazer um livro de poesia íntima,
intimista, lírico. E o Orlando Mendes, que faleceu agora,
fez-me um prefácio bonito, explicando que era uma coisa "nova",
no sentido de que se pode fazer uma poesia de vanguarda sem se falar
muito em política. O livro esgotou-se rapidamente, não
é o mérito daquele livro, quase todos eles se esgotavam.
Influências?
Do Craveirinha, sim, um pouco do Craveirinha. Mas eu apaixonei-me
mais pela linha dos brasileiros, pelo João Cabral de Melo
Neto, pelo Carlos Drummond de Andrade. Quando comecei a descobrir
o mundo da poesia pensava que os brasileiros tinham valores maiores.
Talvez fosse uma resistência minha. Achava que havia uma certa
injustiça praticada no relevo que se dava aos poetas portugueses
em relação aos brasileiros, quando estes tinham superado
os próprios portugueses. Sim, mas também tive a influência
de alguns poetas portugueses, como Sofia de Mello Breyner, o Eugénio
de Andrade, o Fernando Pessoa."
Mia
Couto, in PATRICK CHABAL, "Vozes Moçambicanas"
Fonte da autobiografia: www.terravista.pt/bilene/4040/home.htm
COUTO,
Mia. Terra Sonâmbula. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 1995
Sobre
Marta Maia
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