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VOZES
DISSONANTES SOB
UM REGIME DE ORDEM-UNIDA
(Música e Trabalho no "Estado Novo")
Por
Adalberto Paranhos
"O
cadáver/ Do indigente
É evidente/ Que morreu
E no entanto/ Ele se move
Como prova/ O Galileu
(O
Malandro No 2, de Chico Buarque)*
O
Estado brasileiro, particularmente no pós-30, roubou a cena
histórica, sendo convertido, numa arraigada tradição
intelectual, no grande sujeito da nossa história. É
como se o foco de luz do pensamento nacional se projetasse em direção
a esse protagonista sem igual, condenando os demais atores sociais
a se recolher à função de coadjuvantes. Quanto
aos trabalhadores e à massa da população, restaria
resignar-se ante a condição de meros figurantes, engrossando
as fileiras do coro. Não era este o espaço reservado
na tragédia grega aos escravos, às mulheres, às
crianças, aos velhos, aos mendigos e aos inválidos
de uma maneira geral?1
No caso da tradição
brasileira à qual me refiro, o que surpreende, à primeira
vista, é que seu leito seja suficientemente amplo para acolher
contribuições de procedências as mais distintas,
surgidas à direita e à esquerda do espectro político-ideológico
nacional2.
A luminosidade do Estado, nesse viés analítico, ofusca
a presença de outros sujeitos sociais. A platéia sobe
ao palco - quando sobe - sem rosto próprio ou desfigurada.
Com freqüência
a história se repete quando se abordam as relações
entre o "Estado Novo", o trabalhismo getulista e as classes
trabalhadoras. O cerco do silêncio que se montou em torno
das práticas e discursos que destoavam das normas instituídas
levou muita gente, por muito tempo, a acreditar no triunfo de um
pretenso "coro da unanimidade nacional" sob aquele regime
de ordem-unida3.
No limite, seria como se a sociedade brasileira não passasse
de simples câmara de eco da fala estatal, que, para impor-se,
contou com o uso, à larga, de um sem-número de meios
de coerção e de produção de consenso.
O cenário
musical brasileiro não poderia, evidentemente, fugir à
regra. A julgar por boa parte dos escritos sobre o período
estado-novista, os compositores populares teriam sido devidamente
enquadrados nos novos códigos de comportamento, pondo de
lado o tradicional elogio à malandragem. Numa palavra, eles
teriam se deixado capturar na rede do culto ao trabalho.4
Trafegando na
contramão dessa corrente analítica, este texto procura
levantar uma parte do véu que encobre manifestações
que desafinam o "coro dos contentes" durante o "Estado
Novo". Escorada na ação do DIP (Departamento
de Imprensa e Propaganda), a ditadura estado-novista buscou a instauração
de um certo tipo de sociedade disciplinar, simultaneamente à
fabricação de um determinado perfil identitário
do trabalhador brasileiro, dócil à dominação
capitalista. Sua ação, via ideologia do trabalhismo,
esteve longe, porém, de alcançar a unanimidade pretendida.
Quando não nos prendemos à superfície dos fatos,
que inflaciona as aparências, e nos lançamos à
investigação concreta da produção fonográfica
do período, a situação muda de figura. Apesar
da férrea censura do DIP, evidenciam-se, então, as
"lutas de representações" que giram ao redor
do trabalho e do trabalhador.
Se, de um lado,
há um número elevado de composições
e compositores populares afinados com o regime estado-novista e
a valorização do trabalho, de outro despontam, como
uma espécie de discurso alternativo, canções
(sambas, em sua maioria) que traçam linhas de fuga em relação
à "palavra estatal". Neste caso, pelo menos até
1943/44, não nos deparamos, é óbvio, com a
contestação aberta aos princípios ideológicos
oficiais. Nem por isso deixam de circular socialmente imagens e
concepções que põem em movimento outros valores.
Essa constatação equivale a um atestado de que, ao
intervir discursivamente nas questões ligadas ao mundo do
trabalho, a área da música popular não se reduziu
a mera caixa de ressonância do discurso hegemônico.
A partir daí ficam, no mínimo, abaladas umas tantas
crenças generalizadas que ainda perduram acerca das relações
Estado/música popular sob o "Estado Novo".
Afasto-me, portanto,
do campo dos consensos idealizados para pisar o chão que
é próprio do mundo capitalista, marcado por conflitos
que o atingem de ponta a ponta. Tal como frisou Chartier, esta
investigação sobre as representações
supõe-nas como estando sempre colocadas num campo de concorrências
e de competições cujos desafios se enunciam em termos
de poder e de dominação.5
O "lado
B" da história
A cruzada antimalandragem,
desencadeada pelo DIP de 1940 em diante, objetivou interromper a
relação visceral que uniu, historicamente, o samba
à malandragem. Essa ofensiva se conectava, aliás,
a reações existentes no próprio front
da música popular brasileira ao longo dos anos 30. Nele se
fariam ouvir vários defensores da "higienização
poética do samba" ou do "saneamento e regeneração
temática" das composições populares.6
Com a entrada
em ação do DIP, de fato apertaram-se os nós
da camisa-de-força imposta aos compositores. Estes foram,
por assim dizer, sitiados pelas forças conservadoras à
frente do Governo Vargas: seja prodigalizando favores, seja por
intermédio da repressão e/ou censura, tentou-se, a
qualquer custo, atraí-los para o terreno do oficialismo.
Adentramos os domínios da paráfrase. Esta, como foi
o caso dos sambas-exaltação, atua, fundamentalmente,
como recurso argumentativo de reforço e celebração
da identidade. Distingue-se, por conseqüência, de forma
radical, da paródia, já que o procedimento parodístico
sublinha a diferença, quando não institui a inversão.
Aparentemente,
o esforço governamental foi bem-sucedido. Uma das mais destacadas
estudiosas do período chega ao ponto de assegurar que o
DIP tinha um controle absoluto sobre tudo o que se relacionava à
musica popular7,
bloqueando todos os espaços por onde pudesse se insinuar
um contradiscurso. As coisas terão se passado, efetivamente,
assim? Depois de ouvir centenas e centenas de gravações
originais de discos 78 rpm lançados entre 1940/1945, concluí
que essas afirmações taxativas sobre o monopólio
do poder estatal precisam ser revistas. Trata-se de dar ouvidos
ao "lado B" da história do "Estado Novo".
Sem pretender
negar a adesão espontânea, forçada ou interessada
de muitos compositores populares à cantilena estado-novista,
o que se percebe, em dezenas de registros fonográficos do
período, é que, apesar dos pesares, o coro dos diferentes
jamais deixou de se manifestar, de modo mais ou menos sutil, conforme
as circunstâncias.
Sutileza é
o que não falta, por exemplo, na gravação de
Onde o Céu Azul É Mais Azul8,
um samba-exaltação que canta o meu Brasil grande
e tão feliz, onde se trabalha muito pra sonhar depois.
Até aí nada de mais. O que impressiona, nela, acima
de tudo, é a possibilidade da utilização da
linguagem sonora como metalinguagem. Sem que eu queira esgotar,
aqui, toda a gama de significados do arranjo do maestro Radamés
Gnattali, destaco que ele parece desenhar um notável contraponto
crítico ao teor nacionalista/ufanista da mensagem literal
da composição. A introdução, na conjugação
de metais, contrabaixo e bateria, soa às big bands norte-americanas.
E por aí vai o arranjo cuja sonoridade, com a harmonização
à base de um naipe de metais, nos transporta, em outros momentos,
para um contexto rítmico-timbrístico de a1ém-Brasil,
principalmente no final da execução, configurando
como que um approach pré-tropicalista.
Logo se vê
que, no trabalho com registros musicais, é necessário
não nos tornarmos reféns da literalidade da obra musical.
O que eu desejo enfatizar é que, a meu ver, não basta
nos atermos às letras das músicas. Antes, é
indispensável nos darmos conta de que elas não têm
existência autônoma na criação musical.
Tanto que é preciso atentar inclusive para o discurso musical
pronunciado de maneira não-literal, ou seja, como um discurso
nu de palavras que pode, até, entrar em choque com a expressão
literal imediata de uma composição.9
Num outro caso,
O Amor Regenera o Malandro10
nos serve como mais um exemplo.
Nesse samba, como em muitos outros da época, se diz que
sou de
opinião
de que todo malandro
tem que se regenerar
se compenetrar
que todo mundo deve ter
o seu trabalho para o amor merecer
A primeira impressão,
entretanto, se desfaz ao acompanharmos a performance dos intérpretes,
Joel e Gaúcho, no fecho da segunda estrofe:
Regenerado
ele pensa no amor
mas pra merecer carinho
tem que ser trabalhador (que horror!)
O uso do breque
a duas vozes - breque que, geralmente, é anunciador de distanciamento
crítico - põe por terra todo o blablabá estado-novista
que parecia haver contagiado a gravação.
Mais uma vez,
cabe aqui um aparte de natureza metodológica. Convém
ficar alerta para o fato de que uma composição não
existe simplesmente no plano abstrato. Importa é o seu fazer-se,
a formatação que recebe ao ser interpretada/reinterpretada.
Nessa perspectiva, entendo que interpretar é também
compor, porque quem interpreta decompõe e recompõe
uma composição, podendo investi-la de sentidos não
imaginados ou mesmo deliberadamente não pretendidos pelo
seu autor. Disso decorre que não é suficiente tomar
abstratamente uma composição, resumida à peça
fria da letra ou da partitura. Sua realização sonora,
do arranjo à interpretação vocal, tudo é
portador de sentidos.
É o que
se verifica em O Amor Regenera o Malandro. Malandramente,
a interpretação de Joel e Gaúcho é toda
ela sincopada. E eles quebram a aparente harmonia estabelecida na
letra, que, na certa, passou pelo crivo da censura, subvertendo
seu conteúdo original. Comportamento, por sinal, tipicamente
malandro, como ressaltam Gilberto Vasconcellos e Matinas Suzuki
Jr.: há a aparente aceitação das regras instituídas
como estratégia de sobrevivência.11
O verbo malandrar
era conjugado em atos por muitos outros personagens da música
popular brasileira. Alguns deles habitavam o mundo do compositor
Assis Valente, mulato de origem humilde, que dividia seu tempo entre
a arte de fazer prótese dentária e a arte de compor.
Recenseamento12
ilustra, à perfeição, os dribles aplicados
na censura.
Cronista musical
do cotidiano, Assis Valente se aproveita de um assunto que figurava
na ordem do dia, o censo de 1940. Narra a subida ao morro do bisbilhoteiro
agente recenseador que quis tirar a limpo toda a vida de um casal
não casado e, entre outras coisas, perguntou se meu moreno
era decente/ e se era do batente/ ou era da folia. Diante dessa
interpelação, a mulher, que se declara obediente
a tudo que é da lei, foi logo respondendo:
O meu moreno
é brasileiro
é fuzileiro
e é quem sai com a bandeira
do seu batalhão ...
A nossa casa não tem nada de grandeza
mas vivemos na pobreza13
sem dever tostão
Tem um pandeiro, tem cuíca e um tamborim
um reco-reco, um cavaquinho
e um violão
O arremate é
digno do mestre Assis Valente:
Fiquei
pensando
e comecei a descrever
tudo, tudo de valor
que meu Brasil me deu ...
Um céu azul, um Pão de Açúcar sem
farelo
um pano verde-amarelo
Tudo isso é meu!
Tem feriado que pra mim vale fortuna...
Eis uma obra
que, parecendo reproduzir o discurso dominante do "Brasil grande
e trabalhador" dos apologistas do "Estado Novo",
desmonta com perspicácia os argumentos oficiais, salpicando
de ironia a fala da mulher que responde ao funcionário que
a entrevista. Seu "moreno", ao que tudo indica, estava
longe de poder ser catalogado entre os "trabalhadores do Brasil",
porta-bandeira, isso sim, de escola de samba. No barraco em que
eles moravam, faltava tudo - imagem que contrasta com a do "Brasil
novo" vomitada pela propaganda governamental. Tudo, em termos:
só não faltavam os apetrechos reclamados pelo samba.
Afinal de contas, o que o "Estado Novo" lhes dera?
No entanto,
a mulher, à primeira vista, era toda felicidade. Ora, como
já vimos, dentro dos códigos da malandragem fingir
é fundamental, ou por outra, a arte da dissimulação
é ponto de honra. Por isso mesmo, não é sinal
de inteligência oferecer-se como caça ao caçador.
Noel Rosa e Ismael Silva, que entendiam do riscado, já não
haviam advertido, em Escola de Malandro, que fingindo
é que se leva vantagem/ isso, sim, é que é
malandragem?14
Nessas circunstâncias, Assis Valente mostra, com habilidade,
como discurso e contradiscurso podem se entrecruzar, extraindo daí
um resultado que se choca com a pregação do Governo
Vargas. Detalhe que não é desprovido de maior significação:
Recenseamento é um samba-choro e o acompanhamento
cria uma atmosfera musical típica das gafieiras...15
Houve, porém,
quem foi direto e reto ao mundo das agruras do trabalhador. Sem
maquiar o seu dia-a-dia, Ciro de Souza, sambista de Vila Isabel,
descreve a Vida Apertada16
de um estivador:
Meu Deus,
que vida apertada
trabalho, não tenho nada
vivo num martírio sem igual
A vida não tem encanto
para quem padece tanto
desse jeito eu acabo mal
E ele prossegue,
na segunda parte:
Ser pobre
não é defeito
mas é infelicidade
nem sequer tenho direito
de gozar a mocidade
Saio tarde do trabalho
chego em casa semimorto
pois enfrento uma estiva
todo dia lá no 2
no cais do porto
(Tadinho de mim: breque).
Estamos, aqui,
como em muitas composições da época, muito
longe da assimilação dos princípios trabalhistas
de enaltecimento do trabalho17.
Tudo se opõe à visão do reino dos céus
que teria baixado à terra pelas mãos de Getúlio
Vargas. Nada remete à grandeza e grandiloqüência
que o regime exalava. Até nos aspectos estritamente musicais
é possível atentar para isso. O acompanhamento, ao
contrário dos adornos orquestrais que vestiam os sambas-exaltação,
é confiado a um conjunto regional. Ele é todo balançado,
entrecortado por breques, desde o seu início, com um breque
ao piano. O tom mais coloquial do cantor Ciro Monteiro se diferencia,
claramente, do estilo de interpretação mais empostado
de um Francisco Alves, como, por exemplo, em Onde o Céu
Azul É Mais Azul.
Sob esse prisma,
como já salientou Santuza Cambraia Naves, modernismo e música
popular se davam as mãos, mesmo que por vias transversas.
Nela impera, intuitivamente, a estética da simplicidade
- que a aproxima do modernismo literário de Oswald de Andrade,
de Mário de Andrade e Manuel Bandeira -, em contraposição
à estética da monumentalidade que recheia o
projeto musical modernista de um Villa-Lobos.18
Mais ainda.
Se, no rastro da Semana de Arte Moderna, associarmos o modernismo,
entre outras características, ao esforço por tematizar
aspectos da vida moderna, implicando a valorização
do prosaico da vida e da descrição do cotidiano real19,
estreitam-se, sem dúvida, as suas relações
com a música popular brasileira. E, realisticamente, Vida
Apertada elabora uma rima de pé quebrado: trabalho, nessa
canção, rima com martírio e miserê.
Realismo e sonho
caminham juntos, por outro lado, no samba-de-breque Acertei no
Milhar19,
de Wilson Batista, compositor que jamais revelou a menor inclinação
pelo trabalho regular. Qual o primeiro pensamento que ocorre ao
personagem da música que tira a sorte grande? Etelvina,
minha filha!/ Acertei no milhar/ ganhei 500 contos, não vou
mais trabalhar. A partir daí ele começa a fazer
planos mirabolantes, inclusive de comprar um avião azul/
para percorrer a América do Sul. Mas de repente, não
mais que de repente, soou o despertador e Etelvina me chamou:
está na hora do batente/ (...) Foi um sonho, minha gente.21
Escoou-se o
momento do sonho e a realidade cobrava os seus direitos. A moral
da história atropela as formulações habituais
que justificam a dominação social e as desigualdades
de classe: como regra geral, a ascensão social pela via do
trabalho não passa de uma quimera.
Muros de
lamentação
Uma enxurrada
de críticas à malandragem atingia em cheio as trincheiras
da música popular brasileira durante o "Estado Novo".
A "boêmia improdutiva" estava na berlinda. Não
era sem quê nem por quê: a própria Constituição,
a "polaca", classificava o não-trabalho como ato
anti-social, no seu artigo 139. Mesmo assim, de maneira enviesada
que fosse, tipos que viviam mais ou menos à margem do trabalho
continuavam a aparecer em muitas composições.
É impressionante
o número de canções que viram muros de lamentação
de mulheres insatisfeitas com seus parceiros sanguessugas. Compostas,
normalmente, por homens e cantadas por mulheres, tais músicas,
apesar da dubiedade de interpretações que possam sugerir,
não deixavam de retratar a sobrevivência de figuras
masculinas que voltavam as costas ao trabalho.
Não
Admito22,
com Aurora Miranda, é um desses casos. Enfezada, a personagem
feminina desse samba não estava para muita prosa: (...) não
acredito/ que você tenha coragem/ de usar malandragem/ pra
meu dinheiro tomar. E dispara, a seguir, sua sentença
de condenação:
Se quiser
vá trabalhar, oi
vá pedir emprego na pedreira
que eu não estou disposta
a viver dessa maneira
Você quer levar a vida
tocando viola de papo pro ar
e eu me mato no trabalho
pra você gozar
Outra mulher
bate na mesma tecla em Inimigo do Batente23,
samba interpretado por Dircinha Batista. Assinada por Wilson Batista
e Germano Augusto (malandro cujas façanhas se tornaram famosas,
por se apoderar, com muita astúcia ou na marra, de composições
alheias), essa música coloca em cena as queixas expostas
por uma lavadeira, cansada de ficar no lesco-lesco, me acabando:
Eu já
não posso mais
a minha vida não é brincadeira
É, estou me desmilingüindo
igual a sabão na mão da lavadeira
De novo estamos
frente a frente com um "artista" chegado às artes
& manhas:
Ele diz
que é poeta
Ele tem muita bossa
e compôs um samba e quer abafar (é de amargar!)
Não posso mais, em nome da forra
vou desguiar
Paciência,
afinal, tem limite:
Se eu lhe
arranjo trabalho
ele vai de manhã, de tarde pede a conta
Eu já estou cansada de dar
murro em faca de ponta
Ele disse pra mim
que está esperando ser presidente
tira patente do sindicato
dos inimigos do batente
Para além
daquilo que, nessa composição, quase fala por si só,
há um aspecto que não pode passar despercebido. Apela-se
para o uso recorrente de gírias, nascidas do linguajar da
gente simples, como que atestando a maior proximidade de certos
gêneros de música popular com o brasileiro falado
do que com o português escrito24.
É como se estivéssemos anos-luz distantes de composições
contemporâneas, como os sambas-exaltação, com
seu carro-chefe, Aquarela do Brasil25,
dominado pelo tom oficialista, grandiloqüente e pelo culto
a expressões empoladas, ao celebrar o mulato inzoneiro
e a merencória luz da lua.
Poderia multiplicar
à vontade os exemplos de tipos malandros que despontam, aqui
e ali, em composições lançadas entre 1940 e
1945, sob o reinado do DIP. Já Que Está Deixa Ficar,
de Assis Valente, com os Anjos do Inferno, Não Vou Pra
Casa, de Antonio Almeida e Roberto Ribeiro, com Joel e Gaúcho,
Quem Gostar de Mim, de Dunga, com Ciro Monteiro, Batatas
Fritas, de Ciro de Souza e Augusto Garcez, com Aurora Miranda,
e Fez Bobagem, de Assis Valente, com Araci de Almeida, são
apenas mais alguns. Limito-me, agora, a atacar a questão
pelo avesso.
Que não
se pense nas relações de gênero estabelecidas
na música popular brasileira tão-somente sob a ótica
da vitimização das mulheres, se bem que as já
mencionadas não fossem umas "pobres coitadas" que
preferissem "padecer no paraíso". Essa seria uma
imagem unilateral, desfocada. Quando ajustamos as lentes para enxergar
melhor, por meio das canções, a realidade social em
movimento, a visão que recolhemos nos mostra também
mulheres quebrando algumas cadeias dos padrões de comportamentos
instituídos.26
Aliás,
é interessante constatar que a música popular foi
e é um campo propício à expressão -
dissimulada ou real, pouco importa analisar aqui - da fragilidade
do "sexo forte". As lamúrias, as queixas, as dores
de corno encontraram nela, de fato, um solo fértil. Oh!
Seu Oscar27,
embora gravada no segundo semestre de 1939, ilustra bem o que digo.
Com um adendo precioso: mais do que um estrondoso sucesso do carnaval
de 1940, foi a composição vencedora do concurso de
sambas carnavalescos então promovido pelo DIP, no Rio de
Janeiro.
E o que nos
diz esse samba? Seu Oscar, cansado do trabalho, chega em
casa e a vizinha lhe entrega um bilhete deixado pela mulher dele.
E o bilhete assim dizia:/ "não posso mais/ eu quero
é viver na orgia!" Ele, diante do fato consumado,
se desmancha em lamentações, inconsolável,
na segunda parte da canção:
Fiz tudo
para ver seu bem-estar
até no cais do porto eu fui parar
martirizando o meu corpo noite e dia
mas tudo em vão, ela é da orgia
Essa mulher
e muitas outras que caíam na folia, com uma vida relativamente
liberada das amarras convencionais, não eram, em hipótese
alguma, compatíveis com a imagem idealizada pelo ministro
do Trabalho Marcondes Filho, ao exaltar a senhora do lar proletário28.
Muito menos se afinavam com o misto de mulher ideal e real concebida
pelo jurista Cesarino Jr., de acordo com as tradições
virtuosas das matronas brasileiras29.
Essas mulheres "do barulho", "do balacobaco",
infelicitavam a vida dos seus parceiros: trocavam, com facilidade,
as prendas domésticas pela gandaia, como se vê em Madalena,
de Bide e Marçal, com os Anjos do Inferno, e os levavam à
suprema irritação, como se nota em Acabou a Sopa,
de Geraldo Pereira e Augusto Garcez, com Ciro Monteiro.
Detalhe relevante
que sugere uma relativa ressignificação da mensagem
musicada quando da gravação de Oh! Seu Oscar:
a expressão orgia é repetida nove vezes; os versos
finais da primeira parte da música (Não posso mais/
eu quero é viver na orgia) são reiterados nada
menos que sete vezes e assumem, sem dúvida, a condição
de versos-chave da composição, servindo igualmente
como desfecho da gravação. E mais: com certeza foram
os versos que, no calor do carnaval, mais empolgaram os foliões.
Paralelamente,
vale outro registro. O homem, no seu desconsolo, insiste em afirmar
que até no cais do porto eu fui parar/ martirizando o
meu corpo noite e dia. De novo, o trabalho, em completo descompasso
com a ideologia do trabalhismo, é encarado e vivido como
martírio, como sacrifício, um duro fardo a ser suportado30.
Cabe, aqui,
uma última palavra sobre outras temáticas de que se
ocuparão os compositores populares entre 1940-1945, em particular
a guerra e o racionamento (de água, farinha, trigo, gasolina).
Por meio de críticas indiretas, o que se observa é
que, às vezes, elas funcionaram como mote para que se exprimisse
a insatisfação com o rumo que tomavam as coisas.
Por fim, se
nos desprendermos da análise que privilegia as letras das
canções, estaremos aptos para perceber que, no terreno
mais especificamente musical, emitiam-se sinais sugestivos. Aponto
dois exemplos. Por essa época, temos o grande pique criativo
de Geraldo Pereira, com seu samba sincopado - que já foi
identificado à tradução musical do andar malandro
-, posteriormente redescoberto por João Gilberto, em plena
fase bossa-novista.
Nesse período,
o "samba" e a "batucada", como "gêneros
musicais" assim rotulados nos selos dos discos, serão
trazidos para o mesmo campo semântico, feitos sinônimos,
eles que se confundirão em inúmeras composições/gravações.
Batucada, por sinal, ganhará corpo, formalmente, como um
gênero muito expressivo na primeira metade dos anos 40 (jamais
se gravaram tantas composições sob essa rubrica quanto
naquela época31),
para total desagrado de uma parcela de intelectuais estado-novistas
que sustentavam a necessidade de se promover um movimento, sem tréguas,
a favor da "regeneração social do samba"32.
Essa cruzada,
impulsionada por propósitos "educativos" e 'civilizadores",
se propunha livrar o samba de tudo que cheirasse a manifestações
primitivas, a desregramentos da sensualidade e a batucada da ralé
do morro. O samba era, pois, um inimigo a ser domado e, mais que
isso, atraído para o campo de influência oficial. Já
se vê que nem tudo correu às mil maravilhas, tal como
imaginado por esses defensores da ditadura estado-novista.
Notas
bibliográficas:
*
BUARQUE, Chico. Ópera do Malandro: comédia musical.
São Paulo: Cultura, 1978, p. 191-192.
- A alusão
à tragédia grega como metáfora de uma determinada
forma de discurso heróico sobre a política é
sugerida por NUN, José. A Rebelião do Coro. Desvios,
São Paulo, no 02, ago, p. 104 e 105, 1983.
- Para uma
crítica mais específica a essas concepções,
v. CHAUI, Marilena. Apontamentos para uma Crítica da Ação
Integralista Brasileira. In: CHAUI, Marilena e FRANCO, Maria Sylvia
Carvalho. Ideologia e Mobilização Popular.
Rio de Janeiro: Cedec/Paz e Terra, 1978, esp. itens I e III.
- A negação
desse ponto de vista perpassa toda a argumentação
de PAOLI, Maria Célia. Os Trabalhadores Urbanos na Fala
dos Outros. Tempo, Espaço e Classe na História Operária
Brasileira. In: LOPES, José Sérgio Leite (coord.).
Cultura & Identidade Operária: aspectos da cultura
da classe trabalhadora. São Paulo-Rio de Janeiro: Marco
Zero/UFRJ, 1987, esp. p. 87/90, e Trabalhadores e Cidadania: experiência
do mundo público na história do Brasil moderno.
Estudos Avançados, São Paulo, vol. 03, no
07, USP, set/dez, 1989, esp. p. 57/65. V. ainda PARANHOS, Adalberto.
O Roubo da Fala: origens da ideologia do trabalhismo no
Brasil. São Paulo: Boitempo, 1999, esp. Tempo e contratempo,
consonância e dissonância.
- É
o que garante, por exemplo, PEDRO, Antonio. Samba da Legitimidade.
1980. 157 p. Dissertação (Mestrado) - Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de
São Paulo (USP), São Paulo, 1980 (v., esp., cap.
II).
- CHARTIER,
Roger. A História Cultural: entre práticas
e representações. Lisboa-Rio de Janeiro: Difel/Bertrand
Brasil, 1990, p. 17.
- V., a respeito,
PARANHOS, Adalberto. O Brasil Dá Samba?: os sambistas e
a invenção do samba como 'coisa nossa'. In: Música
Popular en América Latina. Santiago de Chile: Rodrigo
Torres, ed., 1999, esp. item III.
- GOMES, Ângela
Maria de Castro. A Construção do Homem Novo: o trabalhador
brasileiro. In: OLIVEIRA, Lúcia Lippi, VELLOSO, Mônica
Pimenta e GOMES, Ângela Maria de Castro. Estado Novo:
ideologia e poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 159.
- Onde o
Céu Azul É Mais Azul (João de Barro,
Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho), Francisco Alves. 78 rpm,
Colúmbia, gravação (g.): 7/11/40, lançamento
(l.): dez/40, relançamento (r.): álbum duplo (LPs)
O Ciclo de Vargas: uma visão através da música
popular, Fundação Roberto Marinho, 1983, e CD A
Velha Guarda, Warner/BMG, s/d (1998).
- Essas e outras
reflexões de caráter metodológico sobre a
relação entre música e história estão
desenvolvidas em PARANHOS, Adalberto. Sons de Sins e de Nãos:
A Linguagem Musical e a Produção de Sentidos. Projeto
História. São Paulo, no 20, Educ/FAPESP/FINEP,
p. 221-226, abr, 2000.
- O Amor
Regenera o Malandro (Sebastião Figueiredo), Joel e
Gaúcho. 78 rpm, Colúmbia, g.: 20/3/40, l.: abr/40,
r.: LP Foi uma Pedra que Rolou, Revivendo, s/d.
- Cf. VASCONCELLOS,
Gilberto e SUZUKI JR., Matinas. A Malandragem e a Formação
da Música Popular Brasileira. In: FAUSTO, Boris (dir.).
História Geral da Civilização Brasileira
- III - O Brasil republicano (Economia e cultura -- 1930/1964).
São Paulo: Difel, 1984, p. 520.
- Recenseamento
(Assis Valente), Carmen Miranda. 78 rpm, Odeon, g.: 27/9/40,
l.: dez/40, r.: caixa de discos Carmen Miranda, Emi, CD
no 05, 1996.
- Ou "nós
vivemos na fartura", como canta Ademilde Fonseca, para
acentuar o efeito de ironia contido em Recenseamento, no
LP À La Miranda, Odeon, 1958, r.: fascículo/LP
Assis Valente da História da Música Popular
Brasileira, São Paulo, Abril Cultural, 1982.
- Escola
de Malandro
(Orlando Luiz Machado), Noel Rosa e Ismael Silva. 78 rpm, Odeon.
g.: 15/9/32, l.: 1932, r.: caixa de discos Noel Pela Primeira
Vez, Funarte/Velas/Universal, vol. 03, CD no 05, 2000. Sabe-se
que o "autor", no caso, de compositor só levou
a fama, pois a música é de autoria da dupla Noel
e Ismael.
- Por essas
e outras não concordo com a interpretação
do pesquisador musical Ary Vasconcelos, que identifica em Recenseamento
uma manifestação patriótica de Assis Valente,
em que pese eu admitir que ele era um nacionalista assumido, mas
não à moda estado-novista.V. fascículo/LP
Assis Valente, op. cit., p. 2.
- Vida Apertada
(Ciro de Souza), Ciro Monteiro, 78 rpm, Victor, g.: 11/9/40,
l.: nov/40, r.: LP A Bossa de Sempre, Moto Discos, 1986.
- Sobre isso,
v. PARANHOS, Adalberto. O Roubo da Fala, op. cit., esp.
cap. A sinfonia do trabalho.
- V. NAVES,
Santuza Cambraia. O Violão Azul: modernismo e música
popular. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio
Vargas, 1998, esp. p. 66/141. Acrescente-se que a simplicidade
acompanhava também o processo de produção
e/ou utilização de vários instrumentos musicais:
o surdo, feito de couro de cabrito ou de gato, a caixa de fósforos
ou o chapéu de palha, convertidos em artefatos de percussão.
- SANT'ANNA,
Affonso Romano de. Música Popular e Moderna Poesia Brasileira.
3a. ed. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 131.
- Acertei
no Milhar (Wilson Batista e Geraldo Pereira), Moreira da Silva.
78 rpm, Odeon, g.: 4/4/40, l.: ago/40. Sabidamente, Geraldo Pereira
apenas emprestou seu nome à composição, toda
ela de autoria de seu "parceiro".
- Para uma
análise pormenorizada e sagaz dessa composição,
v. MATOS, Claudia. Acertei no Milhar: samba e malandragem
no tempo de Getúlio. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 114-118.
- Não
Admito (Ciro de Souza e Augusto Garcez), Aurora Miranda. 78
rpm, Victor, g.: 19/1/40, l.: mai/40, r.: Os Grandes Sambas
da História, Globo-BMG, CD no 14, 1997.
- Inimigo
do Batente (Wilson Batista e Germano Augusto), Dircinha Batista.
78 rpm, Odeon, g.: 5/10/39, l.: mai/40, r.: LP Cantoras da
Época de Ouro, Revivendo, 1988.
- Mário
de Andrade se refere desse jeito às duas línguas
da terra. ANDRADE, Mário de. Macunaíma:
o herói sem nenhum caráter. São Paulo: Círculo
do Livro, s/d (ed. orig.: 1928), p. 115.
- Aquarela
do Brasil (Ari Barroso), Francisco Alves. 78 rpm, Odeon, g.
18/8/39, l.: out/39, r.: caixa de CDs Apoteose ao Samba,
Emi-Odeon, vol. 01, CD no 02, 1997.
- V., a propósito,
OLIVEN, Ruben George. A Mulher Faz e Desfaz o Homem. Ciência
Hoje. Rio de Janeiro, vol. 02, no 376, SBPC, 1987.
- Oh! Seu
Oscar
(Ataulfo Alves e Wilson Batista), Ciro Monteiro. 78 rpm, Victor,
g.: 12/9/39, l.: nov/39, r.: Os Grandes Sambas da História,
op. cit., CD no 10. Sintomaticamente, seu título inicial
era Ela É, É da Orgia.
- V. a palestra
A Senhora do Lar Proletário, irradiada em 1942 na "Hora
do Brasil". MARCONDES FILHO. Trabalhadores do Brasil!
Rio de Janeiro: Revista Judiciária, 1943, p. 51-55.
- CESARINO
JR., A.F. A Família como Objeto do Direito Social. Boletim
do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.
Rio de Janeiro, no 99, Imprensa Nacional, nov, 1942.
- V., a respeito,
SALVADORI, Maria Angela Borges. Capoeiras e Malandros: Pedaços
de uma Sonora Tradição Popular (1890-1950).
350 p. Dissertação (Mestrado) - Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
Campinas, 1990 (esp. cap. III).
- Consultar
SANTOS, Alcino, BARBALHO, Gracio, SEVERIANO, Jairo e AZEVEDO,
M.A. de (Nirez). Discografia Brasileira 78 rpm. Rio de
Janeiro: Funarte, 1982 (vol. 02: p. 127-140, 239-266, 273 274,
367-386; vol. 03: p. 1-77, 147-184, 289-330).
- Sobre o assunto,
é bastante esclarecedora a seção de música
da revista Cultura Política, publicada pelo DIP entre 1941
e 1945. V. VICENTE, Eduardo. Música Popular e Produção
Intelectual nos Anos 40. Cadernos de Sociologia, Campinas,
no 02, Unicamp, p. 157-172, jul/dez, 1996.
Artigo
orginalmente publicado na Revista ArtCultura (Revista do NEHAC -
Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da
Cultura). Universidade Federal de Uberlândia - Nº 4 -
Vol 4 - 2002.
Adalberto
Paranhos é professor do Departamento de Ciências Sociais
da Universidade Federal de Uberlândia, mestre em Ciência-Política
pela Unicamp, doutorando em História Social na PUC-SP e autor
do livro Dialética da Dominação. Publicou diversos
textos em coletâneas e revistas especializadas, dentre os
quais o ensaio Novas Bossas e Velhos Argumentos: Tradição
e Contemporaneidade na MPB.
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