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Abusar do jornalismo
Felipe Rodrigues
Você acabou de chegar de mais um dia de
trabalho. Sentou em sua poltrona confortável e ligou a TV
em um programa policial. Imagens trepidantes transmitem um tiroteio
fantástico entre policiais e bandidos. O apresentador clama
por pena de morte àqueles criminosos capazes de atirar até
mesmo com a presença de televisões. Um absurdo,
você pensa.

Enquanto isso, o jornal ao seu lado noticia
a morte de uma quadrilha em poucas linhas. A reportagem sugere que
os criminosos possam ser drogados e justifica a morte de dez pessoas
como rotina policial. Assim que deve ser, você
volta a pensar.
Logo após, você levanta e vai jantar.
Ai que fome!.
A você, um desafio: ler Abusado
e permanecer com convicções inabaláveis. O
universo apresentado por Caco Barcellos na obra desmistifica paradigmas
e quebra diversos estereótipos construídos pela imprensa
acerca da realidade das periferias brasileiras. Experiência
única entre jornalista, fontes e leitores.
Juliano VP é o protagonista da saga que
conta os bastidores da formação de uma quadrilha do
Comando Vermelho na favela carioca de Santa Marta, alvo de poder
dos traficantes na década de 80 e cenário da ação
descrita no livro. A partir dos relatos de adolescência de
Juliano VP, Caco apresenta as ações dos criminosos,
policiais e civis do morro, transformados em personagens de um universo
fantasticamente real, com histórias de guerra, morte, fugas,
traições e prisões. Caco assume a posição
de repórter e privilegia o relato dos seus entrevistados,
em uma estrutura romanceada que dá vigor aos fatos verídicos
tratados nas páginas do livro. A profundidade com que o jornalista
trata o tema permite ao leitor observar diversas distorções
apresentadas pela mídia ao cobrir a violência em periferias.
Bandido bom é bandido morto.
Motivações, angústias, medos e desejos dos
criminosos são relatados em histórias de vida capazes
de revelar a humanidade de cada personagem do livro. Gestos cotidianos
capazes de serem reconhecidos pelos leitores. Os detalhes da personalidade
dos criminosos foram retratados com o objetivo de tentar uma compreensão
da essência de cada fonte da obra. O relato de Caco humaniza
o personagem com um olhar diferenciado, que tenta entender a complexidade
dos atos de alguém envolvido no tráfico. Juliano VP
e amigos ganham a dimensão humana necessária para
a compreensão das diferentes atitudes tomadas durante os
fatos. Há uma busca em contextualizar os acontecimentos,
com os antecedentes que possam apontar indícios da personalidade
de cada criminoso. Não há a estereotipia habitual
da mídia, preocupada em demarcar, tal qual um campo de guerra,
zonas de mocinhos e bandidos.
Favela é lugar de desocupado.
Os mutirões de construção relatados por Caco
mostram a força de vontade e cidadania de um povo ansioso
por mudanças que não chegariam nas eternas promessas
ouvidas por políticos de quatro em quatro anos. Esforços
e conquistas de moradores que lutaram e trabalharam por água,
luz aos barracos do morro de Santa Marta. Ao mesmo tempo, Caco mostra
o descasco do Poder Público com as periferias, noticiadas
apenas quando há algum aspecto sensacional em alguma guerra
do tráfico. Péssimas condições de higiene,
pobreza e até mesmo a desesperança de moradores que
vêem no tráfico um meio de vida que possa amenizar
toda a desigualdade sentida em relação ao asfalto,
palco soberano da vida civilizada.
Coitado dos policiais. Policial
e bandido: lado certo e errado. No livro de Caco, a realidade mostra
a presença de policiais corruptos que não se contentam
com salários baixos e se aventuram a ganhar propinas em tráficos.
Nada que a mídia divulgue. Há bandidos vítimas
de perseguições pessoais. A falta de bons salários
faz com que alguns policiais procurem formas alternativas de ganhar
dinheiro. Como o convívio com o tráfico é diário,
muitos tentam se beneficiar de alguma maneira da prática
da malandragem. Com isso, algumas brigas pessoais acabam justificando
caçadas contra o crime organizado e tratamento agressivos
dado a refugiados da polícia. Torturas, extermínios
e morte de inocentes são práticas recorrentes da polícia
ao se relacionar com o tráfico. Policiais não são
os heróis. Tampouco são apenas vilões, que
perseguem os heróicos favelados injustiçados.
São mais uma engrenagem dessa complexa máquina que
rege o tráfico no país, que envolve policiais, bandidos
e até o Poder Público.
Três pequenos indícios de que os
muros estão erguidos. A classe média se protege das
periferias através de um discurso que prima pelo medo do
outro, marginalizado. Reflexo dessa situação,
a mídia é o arquiteto eletrônico que justifica
a demarcação das fronteiras, a delimitação
do espaço de cada segmento social. E protege os muros.
O livro de Caco perfura essas demarcações.
Apresenta o inimigo. E embaralha as cartas marcadas
pela mídia convencional em um novo jogo, capaz de apresentar
reviravoltas. O velho bom jornalismo, que nos faz aprender com o
outro, cumpre a função social de explicar
os fenômenos e relacionar as diferentes forças atuantes
em cada acontecimento. O tráfico nas periferias é
um assunto de interesse público. Não pode ser apresentado
de maneira espetacular como iniciativa de moleques interessados
em enriquecer sem trabalho.Caco Barcellos abusa das possibilidades
do jornalismo e consegue retratar com riqueza de detalhes a vida
nos morros cariocas, sem deturpar a realidade de um universo rico
de elementos e personagens.
A você, que aceitar o desafio, boa leitura.
Felipe Rodrigues é jornalista formado pela
Unimep. Atualmente leciona cursos na área gráfica
em Rio das Pedras. Aluno especial da disciplina Globalização
e Percepções Espaço-Temporais no Campo Jornalístico,
da Escola de Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo. Participa ainda do Grupo de Pesquisa Processos
Mediáticos e Culturais.
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