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Revista Veja:
o temor como mecanismo conservador
na esfera pública midiatizada
Dennis de Oliveira e Marta Regina
Maia
Introdução
A importância da revista Veja no cenário
nacional pode ser mensurada pelos próprios dados estatísticos
da mesma1:
900.547 de assinantes e 200 mil revistas vendidas em bancas, o que
representa cerca de 10 milhões de leitores, já que
cada edição é lida por mais de uma pessoa.
Ela é a quarta revista de informação mais vendida
no mundo, perdendo somente para as norte-americanas Newsweek,
Time e US News & World Report (SCALZO, 2003:31).
Estes dados, analisados em relação ao Brasil, que
tem pouco hábito de leitura, expressam a capacidade de circulação
e conseqüente influência da revista na sociedade.
A publicação, voltada especialmente
para as classes A e B, movimenta hoje cerca de 2,5% do volume total
da receita de publicidade no Brasil, o que representa mais de 10
mil páginas de anúncios por ano. Mas nem sempre foi
assim. Lançada em 9 de setembro de 1968, próxima a
edição do AI-5 (Ato Institucional nº 5), Veja
enfrentou problemas em seus primeiros anos de funcionamento. Matérias
críticas à Ditadura Militar sofreram forte censura
por parte do governo federal, já que teve cerca de dez mil
linhas de texto cortadas e dois números censurados2.
A saída, no final de 1975, do jornalista Mino Carta da chefia
da revista, o aumento do número de assinantes da revista
e o crescimento da industrialização da comunicação
no país contribuíram para a alteração
de seu rumo editorial, que passou a ter no marketing um dos principais
mecanismos de funcionamento, isto ainda no final da década
de 70.
Atualmente, o volume de publicidade apresentado
pela revista reforça a relação entre consumo
de bens e consumo de informações de um setor da sociedade
identificado como "classe média", que necessita
de certos parâmetros de conhecimento comum com o intuito de
socialização e ainda necessita conhecer as últimas
novidades comerciais para satisfazer a insaciável vontade
de adquirir bens materiais e simbólicos que possam dar sustentação
ao seu modus vivendi. A informação passa a
ser então mais um produto a ser consumido.
O processo de comunicação comporta
três níveis de angulação, denominados
nível massa, grupal e pessoal (MEDINA, 1978:85). Estes atuam
de maneira relacional, com certa predominância conjuntural
de um sobre o outro. O nível massa apresenta-se especialmente
em uma sociedade em fase mais avançada de industrialização
e visa atender aos interesses da população, ou aos
do público-leitor - no caso das publicações
jornalísticas. Já o grupal atende mais diretamente
aos anseios da empresa, desde os seus editoriais, passando pela
definição de pauta, edição e veiculação
de determinados conteúdos. O nível pessoal relaciona-se
aos "grandes nomes" do jornalismo e serve para fidelizar
determinado público aos veículos, não ferindo
os princípios de funcionamento das empresas: "o gênio
individual segue tendências de consumo de massa e não
vai contra o nível-empresa porque senão seria dispensado
daquele jornal". (MEDINA, 1978:89)
Para atender aos interesses de seu público-leitor,
a revista também age sob a égide da angulação
grupal, já que não hesita em realizar verdadeiras
campanhas para atingir a esse fim. Nas eleições presidenciais
de 20023,
por exemplo, ela demonstrou claramente os perigos da eleição
de um presidente operário (no caso, Luís Inácio
Lula da Silva). Um exemplo desta trajetória pode ser o da
edição de 18 de julho de 2002, que traz na capa os
candidatos José Serra e Ciro Gomes, com a imagem de Lula
ao fundo e a seguinte pergunta "Quem vai ser o anti-Lula?",
em uma matéria que tenta mostrar qual dos dois candidatos
têm mais condições de derrotar o operário.
Na edição de 25 de setembro do
mesmo ano, já dando como certa a vitória de Lula,
a pergunta de capa é: "O PT está preparado para
a Presidência?", em que tenta reforçar a divisão
entre as tendências dentro do partido, e praticamente orienta
como deveria ser a alteração de rumo da política
do Partido dos Trabalhadores, já que tal mudança "exige
aprendizado, alteração de paradigmas mentais e a recusa
de toda a agenda ideológica que o PT seguiu desde sua criação,
há pouco mais de vinte anos". A tão propalada
imparcialidade da revista (propagandeada por ela mesma) acaba sendo
derrotada pelas angulações que dá às
suas matérias.
O preconceito em relação ao presidente
recém-eleito torna-se visível na edição
de 30 de outubro de 2002. Ao comentar sobre a esposa do presidente,
o texto estabelece uma relação moral entre a atuação
política e pessoal do presidente: "Do ponto de vista
político, a grande prova de persistência de Lula foi
chegar à Presidência depois de três campanhas
fracassadas. Na vida pessoal, espetacular mesmo foi ganhar o coração
da viuvinha loira, de olhos esverdeados e lábios sedutores.
Antes mesmo de conhecê-la, o então incipiente dirigente
sindical já alimentava pensamentos concupiscentes em relação
a ela, embalado pelas descrições de um motorista de
táxi, cujos serviços costumava usar, que louvava a
beleza da nora, viúva de seu filho recentemente assassinado.
Os destinos se cruzaram quando ela foi buscar um atestado no sindicato,
e ele encontrou a oportunidade de realizar suas fantasias. Grudou
até conquistá-la".
Outro fenômeno importante, que indica
a capacidade de circulação da revista, é a
chamada "durabilidade" (KUCINSKI, 1998:33) da mesma, pois
a sua leitura não se esgota imediatamente à sua edição,
indo para as salas de consultórios médicos e odontológicos,
academias, salões de beleza, bibliotecas, sendo inclusive
muito utilizada para a produção de trabalhos escolares.
As principais matérias da revista expressam,
portanto, a defesa dos interesses dos valores da classe média,
"captando, processando e realimentando os seus temores"
(KUCINSKI, 1998:33). A Veja cumpre, assim, o papel de utilizar os
temores de um segmento social marcado pela instabilidade e medo
- portanto, permeável ao conservadorismo - como uma das marcas
que pontuam o debate na esfera pública midiatizada.
A esfera pública midiatizada
Este trabalho tem como um dos seus pressupostos
a visão que o teórico Jurgen Habermas (1984) tem da
relação esfera pública e mídia. Segundo
ele, a formação de uma esfera pública em que
sujeitos se reúnem livremente para discutir problemas coletivos
é uma das características mais marcantes da sociedade
moderna e responsável por parte significativa das conquistas
políticas democráticas. Graças a isto, formou-se
uma consciência crítica em relação aos
poderes tradicionais, particularmente os valores religiosos.
Um dos sustentáculos desta esfera pública
foi a imprensa. Para Ciro Marcondes Filho (2000), a primeira fase
do jornalismo pode ser considerada como a do "jornalismo da
ilustração", momento em que as atividades jornalísticas
eram realizadas no sentido de defender uma causa (seja ela política
ou estética) e os periódicos atuavam no sentido de
organizar grupos com posições afinadas para uma intervenção
na esfera pública. Observa-se isto nos primórdios
da jornalismo brasileiro: o primeiro jornal brasileiro, o Correio
Brasiliense, fundado em junho de 1808 por iniciativa de Hipólito
da Costa, era produzido em Londres porque o seu objetivo central
era a defender a independência do Brasil. No mesmo ano, em
setembro, a Corte Portuguesa instalada no Rio de Janeiro, lança
o Gazeta do Rio de Janeiro, jornal abertamente oficial com
claro objetivo de ser porta-voz oficial da monarquia lusitana (SODRÉ,
1988).
Este jornalismo da ilustração
permaneceu ainda longos anos no país, mesmo após a
independência. No século XIX, jornais republicanos
e abolicionistas circularam nas principais cidades e seus editores
perseguidos e punidos. Ao lado destes, jornais monarquistas e defensores
da ordem vigente de então disputavam o debate na nascente
esfera pública.
Porém, paralelamente a este processo
de crescente construção do debate público por
meio do jornalismo, a atividade jornalística foi se articulando
paulatinamente de forma comercial. Ciro Marcondes Filho (2000) credita
a passagem desta primeira etapa do jornalismo da ilustração
para o jornalismo mercantilizado à inserção
da publicidade nos meios de comunicação. Ao mesmo
tempo, as tecnologias de comunicação avançam
permitindo um crescimento nas tiragens dos jornais impressos, bem
como o surgimento de outros meios, como o rádio. A busca
de maiores tiragens e o deslocamento do objetivo central do jornalismo
da defesa de uma idéia ou uma "causa" para a reprodução
do capital operou esta transformação radical da atividade.
A iniciativa de lançar um periódico passa a ser guiada
por interesses mercadológicos. O jornalismo transforma-se
em uma atividade empresarial.
Com a expansão do alcance do jornalismo,
a própria esfera pública se expande. É evidente
que os jornais nos seus primórdios tinham baixas tiragens
e alcançavam um pequeno número de pessoas. Por isto,
a esfera pública no seu início era também restrita.
A sua ampliação acompanha a própria evolução
da circulação das informações. Entretanto,
esta ampliação tem uma conseqüência em
termos qualitativos do debate público. Habermas explica este
fenômeno da seguinte maneira:
"Em comparação com a imprensa
da era dita liberal, os meios de comunicação de
massas alcançaram, por um lado, uma extensão e
uma eficácia incomparavelmente superiores e, com isso,
a própria esfera pública se expandiu. Por outro
lado, assim, eles também foram cada vez mais desalojados
desta esfera e reinseridos na esfera, outrora privada, do intercâmbio
de mercadorias; quanto maior se tornou a eficácia jornalístico-publicitária,
tanto mais vulnerável eles se tornaram à pressão
de determinados interesses privados, sejam individuais, sejam
coletivos" (1984:221).
A ampliação da esfera pública
graças ao crescimento da mídia trouxe para esta instância
ações e seus respectivos valores que estavam alojados
em uma esfera privada: as ações de consumo. Como o
jornalismo se expandiu graças à inserção
da publicidade e também à sua transformação
em uma atividade comercial, há uma mudança qualitativa
significativa na esfera pública operada por esta ação
da mídia: a esfera pública foi colonizada pelo consumismo.
Para Francisco Rudiger, a figura do cidadão "foi eclipsada
pelas do consumidor e do contribuinte. A procura do consenso político
pelo livre uso da razão individual teve de retroceder perante
o emprego da mídia a serviço da razão de estado
e a conversão da atividade política em objeto de espetáculo."
(2001:26)
Diante disto, o jornalismo passou a construir
um metadiscurso para legitimar-se como o operador da esfera pública
sem, entretanto, aparentar intervenções qualitativas
na mesma. De participante no debate público, o jornalismo
se propôs a ser o árbitro do debate - e para
tanto, o discurso de sua legitimação incorporou categorias
como neutralidade e imparcialidade, todas fulcradas em uma concepção
positivista de apreensão da realidade. As técnicas
de redação e edição jornalísticas
se consolidam a partir deste deslocamento do papel do jornalismo.
Para Ciro Marcondes Filho (2000), tais técnicas
objetivam enquadrar as informações em mercadorias
padronizadas que entram em circulação na sociedade
mercantil. Marcondes Filho considera que a notícia nada mais
é que um produto da transformação do fato (matéria
bruta) em notícia (mercadoria), operando nesta transformação
mecanismos de manipulação legitimados pelas técnicas
consagradas como universais do jornalismo.
O jornalismo opera com mecanismos constantes
de seleção e combinação. Seleção
na pauta que nada mais é que a escolha dos assuntos
que merecem ser noticiados (e, portanto, repercutidos na esfera
pública), na captação das informações,
por parte do repórter (escolha de fontes, direcionamento
das perguntas, entre outros), na redação na escolha
dos elementos informativos provenientes da captação
que serão inseridos na matéria e os que serão
descartados e na edição, na escolha das matérias
que merecerão destaque e as descartadas. Combinação
na forma de articulação das informações,
definição das editorias, agrupamento dos textos, fotos
e títulos, entre outros. Estes dois processos - seleção
e combinação - constróem sentidos.
Estes mecanismos, por si só, desmentem
o mito da imparcialidade e neutralidade jornalísticas. O
jornalismo é, por sua própria natureza, uma construção
ideológica da realidade. Ao legitimar-se como árbitro
e não como um participante do espaço público,
esta construção ideológica da realidade se
consolida como o referencial do debate público.
Retomando Habermas (1984), percebe-se que o
crescimento desta esfera pública midiatizada dá-se
por uma crescente incorporação de valores de consumo.
É evidente que este jornalismo mercantil, então, constrói
ideologicamente a realidade e impõe esta construção
como referência para o debate a partir dos valores de consumo.
Este controle torna ainda mais intenso quando se percebe uma concentração
crescente da propriedade dos meios de comunicação.
A monopolização da mídia praticamente torna
impossível a pluralidade de idéias e o espaço
público se transforma em um mero espetáculo onde a
grande maioria é apenas assistente.
O lingüista norte-americano Noam Chomsky
(2003), após análise da mídia norte-americana
particularmente nos conflitos internacionais, considera que o jornalismo,
nos atuais moldes, se assemelha a um "aparelho de propaganda".
Para chegar a esta conclusão, Chomsky constatou que há
uma articulação orgânica das empresas de mídia
com de outros segmentos de entretenimento, levando valores estruturantes
próprios da segunda modalidade de discurso para a primeira;
uma confluência de interesses políticos e mercadológicos
que atuam na manipulação da informação
e, como resultante disto, na expressão por parte do jornalismo
dos valores das classes dominantes.
Os efeitos ideológicos desta ação
discursiva do jornalismo atuam no sentido de manter intactos os
alicerces da sociedade de consumo. No caso do Brasil, uma sociedade
marcada por um capitalismo periférico e com brutal concentração
de riquezas, a sociedade de consumo é marcada por um restrito
grupo que tem acesso aos bens de consumo e uma imensa massa destituída
deste acesso. A legitimação desta exclusão
é feita, entre outros meios, por um discurso de legitimação
do privilégio. Tal discurso opera em duplo sentido. Para
os segmentos sociais excluídos o privilégio é
visto como sinônimo da competência e como uma possibilidade
nunca realizada ("sonho"). Já para os segmentos
sociais incluídos um dos mecanismos mais eficazes de controle
é o temor, o medo de perder a condição de integrante
do sistema de consumo, direcionando estes segmentos para uma posição
extremamente conservadora.
Metodologia
Os estudos sobre a influência da mídia
na sociedade tornam-se cada vez mais relevantes na medida em que
se verifica este espaço como um locus privilegiado de representação
da realidade. Outro aspecto que também demonstra a centralidade
da mídia na atualidade são os diversos interesses
do capital nesta mediação fundamental que é
a comunicação.
É o caso da revista Veja, que exerce
uma grande influência na sociedade brasileira e tem se caracterizado
por um jornalismo que, em geral, acaba não cumprindo a própria
visão que defende, que seria a de um jornalismo imparcial,
em detrimento de reportagens repletas de adjetivação
e fontes próximas aos seus próprios interesses, excluindo
inclusive o factual - elemento essencial para a consecução
desta visão.
A análise da revista Veja compreende
então o período de janeiro a maio de 2004, edições
1835 à 1855, totalizando 21 edições. Os critérios
de análise são: o tratamento dado às questões
políticas nacionais publicadas na revista, seja na capa ou
nas páginas internas, especialmente a partir das fontes utilizadas
nas matérias e a lógica de construção
das reportagens.
Esta análise baseou-se especialmente
no que Noam Chomsky (2003) denomina de "filtros de notícias".
Para ele, a matéria-prima das notícias passa por sucessivos
filtros, "resultando apenas o resíduo alvejado e adequado
para divulgação" (2003: 41). Neste caso específico
optou-se por dois filtros que buscam afunilar o resultado final
das reportagens: o filtro das fontes e o filtro ideológico.
Nota-se que algumas fontes tem presença destacada, enquanto
outras fontes são "anônimas", geralmente
um assessor, um funcionário de gabinete, por exemplo, o que
acaba permitindo uma certa liberdade de angulação
da matéria. Já no aspecto ideológico, percebe-se
uma visão extremamente crítica e até oposicionista
ao presidente da república Luís Inácio Lula
da Silva.
Em todas as edições há
referências diretas ou indiretas a atuação do
governo brasileiro, que, neste período, foi contemplado com
quatro capas. A partir da leitura das matérias, seguindo
a lógica dos filtros ideológico e o das fontes, é
possível estabelecer algumas categorias principais de análise,
que serão discutidas a seguir.
Filtro ideológico
É importante ressaltar que na análise
feita por Noam Chomsky (2003), este filtro político-ideológico
é chamado por ele de "anticomunismo". Este termo
foi usado por Chomsky porque ele identifica que se gerou na cultura
política conservadora norte-americana um verdadeiro temor
ao comunismo, como resultado da Guerra Fria. Por isto, Chomsky considera
o "anticomunismo" como a verdadeira religião nacional
norte-americana. No caso brasileiro, optou-se por "traduzir"
este filtro por "ideológico", pois verifica-se
um temor, por parte de setores mais conservadores, da possibilidade
de intervenção um pouco mais radical do Partido dos
Trabalhadores.
a) Despreparo
Muitas matérias tentam demonstrar que o governo está
despreparado para administrar o país. Geralmente desqualificam
discursos e atitudes do presidente e dos ministros, tentando caracterizá-los
como incompetentes, ao atribuir adjetivos como: "impulsivo",
"confuso", "ansioso", "ambíguo",
"infantil", "tresloucado", "espalhafatoso".
A edição de 7 de janeiro, editoria
Brasil, anuncia, de maneira explícita, os desafios de Lula
para 2003, apontando inclusive soluções para algumas
áreas, como a externa, em que demonstra a vulnerabilidade
externa da economia e indica: "O primeiro passo, nesse quesito,
pode ser a recomposição das reservas cambiais do Banco
Central". E a opinião não se restringe a esse
ponto, indo mais além na avaliação da área
social: "No campo social, em que se prometia uma revolução,
o governo fez pouco e mal, a começar pelo vexame inicial
e desenvolvimento lentíssimo do Fome Zero". Estas e
outras frases, que virão na seqüência, servem
para delinear, claramente, a posição da revista sobre
o governo.
Ainda nesta edição, mais uma matéria
ataca o governo. Ao levantar a questão da reforma ministerial,
traça um paralelo com a Anatel, deixando claro que o governo
tenta manter as agências reguladoras sob sua tutela, com o
intuito de utilizá-las como recurso de negociação
política, não poupando adjetivos às alterações
no setor: "É um péssimo sinal segundo o qual,
no governo petista, as agências reguladoras, além de
despertar a ojeriza pública dos governantes, podem também
estar sujeitas à politização, e até,
ao fisiologismo (...) É lamentável, mas a reforma
começou por um órgão que deveria ficar longe
do balcão político".
Na edição de 21 de janeiro, em
matéria referente a atuação do presidente no
Encontro de Monterrey, no México, onde os 34 líderes
das Américas se reuniram por dois dias, a matéria
critica o discurso de Lula, chegando a afirmar que o seu pronunciamento,
"longo demais", não atraiu a atenção
de nenhum dos 33 chefes de Estado e Governo presentes ao evento.
A desqualificação do presidente chega a ser grosseira:
"Nem tudo que parece óbvio à primeira vista,
porém, assim fica depois de um exame mais detido - e o discurso
que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirigiu a seus
colegas é um exemplo disso".
Ainda na linha do despreparo, ao comentar a
atuação do diplomata brasileiro Adhemar Bahadian,
encarregado de negociações técnicas sobre a
Área de Livre Comércio das Américas (Alca),
a revista faz uma matéria, com forte teor analítico,
em que critica a postura do diplomata, avaliando-a como "desastrosa",
bem ao "gosto de suas roupas". E preconiza: "Em diplomacia,
atividade dominada por liturgias e códigos, fazer um acordo
estilístico da gravata com a camisa e medir bem as palavras
são algumas das qualidades sociais esperadas dos diplomatas.
Na semana passada, Adhemar Bahadian mostrou pouco domínio
sobre ambas as características".
Em 18 de fevereiro, a revista, utilizando uma
fotografia destacada de Lula, insere alguns "balões",
com frases que, segundo a própria publicação,
representam uma "retórica oca". A matéria
que ainda tem como gancho a queda de popularidade de Lula (na ocasião,
com 65,3%), chama a atenção para os discursos improvisados
de Lula, mostrando que uma verdadeiro chefe de Estado não
pode utilizar esse recurso e, novamente critica a atuação
do presidente: "Exagera nas frases bombásticas, flerta
com a auto-exaltação - citando pontos de sua biografia
como se fossem exemplos para a humanidade - e, em alguns momentos,
se aproxima da megalomania".
"O Brasil andou para trás",
matéria da edição de 3 de março, publica
dados do IBGE que mostram a retração da economia brasileira
em 2003. A jornalista relaciona o mau resultado com a crise política
vivida pelo governo, apresentando uma foto do ministro Antonio Palocci
com expressão aborrecida. Novamente a crítica contundente
ao governo: "Para qualquer governo, o resultado seria politicamente
ruim. Para um governo que prometeu um espetáculo de crescimento,
é pior".
O título da matéria "É
Partido ou governo?", da edição de 21 de abril,
denota, mais uma vez, a confusão entre matéria e artigo.
A revista afirma que o PT sofre de um defeito congênito. "O
de achar que o partido é um prolongamento do governo e que
o governo é uma extensão da sigla". Em relação
a estrela de sálvias vermelhas nos gramados do Palácio
da Alvorada, a revista faz a seguinte observação:
" A invenção paisagística é exemplo
da confusão partido-governo e, também, da falta de
cerimônia por parte dos atuais ocupantes do palácio
em relação à coisa pública".
A edição de 5 de maio, apresenta,
na linha fina4,
uma crítica mordaz: "Até quando decide com maturidade,
como no caso do salário mínimo, o governo manda mensagens
contraditórias" . Ataca ainda os ministros: "Esse
tipo de comportamento dos ministros também produz desconfiança:
serão eles ases da demagogia ou simplesmente não entenderam
nada do que foi negociado com o FMI?" Além disso usa
mais adjetivos para se referir as atitudes dos ministros: "
Uma penca de ministros, numa afoiteza quase infantil". Outra
matéria - sobre a ida do presidente ao programa do apresentador
"Ratinho" -, mostra o presidente novamente as voltas com
o improviso, agora o foco não é mais o discurso e
sim a atitude: "O fato do petista atropelar sua Secretaria
de Comunicação, sua agenda e sua assessoria de imprensa
para ceder aos seus impulsos, simpatias pessoais e ansiedade para
divulgar 'boas notícias' seria irrelevante se não
fosse por um detalhe: o comportamento do presidente anda causando
graves problemas para o governo". Caracteriza assim o presidente
como uma pessoa impulsiva, que não prevê as conseqüências
de seus atos.
Além de tentar mostrar o despreparo do
governo federal, a revista também demonstra a sua perseguição
ao ministro da Casa Civil José Dirceu, o que acaba por gerar
um verdadeiro jornalismo de campanha. A matéria da edição
de 4 de fevereiro explicita esta posição no próprio
título: "Dirceu em semana de regente", seguido
da linha fina: "O ministro da Casa Civil, José Dirceu,
incorpora, na ausência de Lula, o papel de chefe de governo".
A matéria tenta mostrar que o vice-presidente José
de Alencar teve uma "agenda miúda", bem ao contrário
de José Dirceu, que teria realizado tarefas de um presidente.
Já no primeiro parágrafo a análise bastante
parcial da revista: "Era como se o país, de repente,
tivesse três presidentes ao mesmo tempo, um fora cuidando
da política externa, um presidente em exercício sem
funções relevantes e, por fim, um ministro com prerrogativas
de regente em pleno exercício de suas funções
executivas". Na edição de 3 de março,
o ministro tem direito a chamada na lateral da capa da revista,
com o título: "O ministro continua encolhendo".
A fotomontagem que abre a matéria mostra José Dirceu
literalmente diminuto, sendo observado pelo presidente Lula. A matéria
relata os efeitos da crise que envolve o assessor Waldomiro Diniz,
revelando uma clara tendência a superestimar os prejuízos
causados pela crise à credibilidade do ministro e ao governo,
insistentemente classificado como "paralisado" e "desorientado".
Novamente a análise: "Parece irônico que o ministro
incontrastavelmente mais poderoso do governo tenha protagonizado
uma sucessão de ineditismos desastrosos: é o primeiro
ministro a habitar o centro da primeira crise de primeira grandeza
do governo petista". A campanha fica mais nítida ainda
na edição de 10 de março, em que José
Dirceu é Capa. Em entrevista exclusiva, a manchete "Não
vou sair do governo" pode denotar uma atitude autoritária
do ministro. Entretanto, a leitura da matéria mostra que
esta frase está descontextualizada, pois existe um "mas"
que antecede a resposta. É importante a transcrição
literal: "Veja - Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha
na Terça-feira passada revelou que 67% das pessoas acham
que senhor deveria se afastar do cargo... Dirceu - Mas eu
não vou sair do governo. Eu não tenho nenhuma relação
com esse caso, não tenho nenhuma dúvida em relação
a isso".
b) Crítica moral
Outro elemento utilizado pela revista Veja para atacar o governo
Lula é a questão moral. A idéia de atacar o
governo petista por este flanco deve-se ao fato de que um dos elementos
mais fortes do discurso do Partido dos Trabalhadores é a
ética na política. Esta questão não
é menor, já que o Brasil tem uma tradição
de "privatização" do Estado. A idéia
de res publica (coisa pública) é pouco sedimentada
na cultura política brasileira. O que se verifica é
uma tendência de apropriação privada do aparelho
público. Por isto, os discursos político-ideológicos
alternativos pregam a ética na política e o combate
à corrupção.
A revista Veja tenta, ao criticar o governo
aspecto moral, desconstruir este valor agregado ao PT. Na edição
de 14 de janeiro, por exemplo, a matéria que reporta à
reforma ministerial então em curso no governo, faz uma analogia
a este processo, natural em um regime presidencialista, com o "circo".
"A reforma é como uma onda de espuma e Brasília
tornou-se um circo para representar as nomeações",
conclui a matéria.
O questionamento às indicações
feitas pelo PT misturam tanto uma insinuação de "despreparo"
dos quadros do partido com uma idéia de imoralidade, por
nomear pessoas não por uma "competência técnica"
e sim por afinidade política. "Para abrigar a multidão
de companheiros, o governo fez nomeações pouco técnicas,
criou ministérios desnecessários e fatiou atribuições
que poderiam ou deveriam estar sob comando único". Há
aqui, implícita, uma idéia de oposição
entre competência técnica e compromisso político-partidário,
o que dá uma idéia de que o saber técnico é
neutro. Esta questão será novamente abordada quando
da demissão do presidente da Anatel (Agência Nacional
de Telefonia) Luiz Guilherme Schymura, pessoa indicada pelo presidente
Fernando Henrique Cardoso e explicitamente defensor dos interesses
das corporações que compraram as empresas estatais
de telefonia no processo de privatização ocorrido
no governo do PSDB.
Um assunto que foi muito explorado pela revista
neste aspecto de crítica moral foi o caso de Waldomiro Diniz.
Esta seqüência de matérias foi direcionada para
atingir o ministro José Dirceu. O interessante é que
em nenhum momento foi comprovado o envolvimento do ministro nas
operações ilegais de Diniz. O fato deste ter sido
nomeado como funcionário de confiança por Dirceu já
bastou para a revista insinuar que o ministro petista tinha ligações
com os negócios escusos de Diniz.
A edição de 25 de fevereiro, matéria
"Eleição a qualquer preço", denuncia
que as eleições no Rio Grande do Sul (estado onde
o PT governa há vários mandatos) foram marcadas por
financiamentos escusos da campanha petista, com participação
do esquema de Waldomiro Diniz. Na página 41, a matéria
afirma que "o PT aparece, cada vez mais claramente, como um
partido que utiliza, em campanhas eleitorais, as mesmas práticas
que sempre fez questão de denunciar".
A revista Veja tentou, de todas as maneiras,
dar um ar grandioso a este problema. Tratou-o como uma grande crise
política no governo. Na ausência de informações
que comprovassem esta hipótese, recorreu a metáfora
e aos adjetivos. Frase da matéria "A crise rouba a cena"
na edição de 24 de março, logo após
uma entrevista com José Dirceu: "Por mais que, do ponto
de vista do Planalto, a crise pareça uma marola, ela pode
ainda ter energia política para provocar um tsunami, a onda
gigante que se forma silenciosamente no fundo do mar e, de repente,
irrompe varrendo a costa". Mais adiante, a matéria diz
que "Waldomiro Diniz era um cardeal do governo. Representava
o ministro José Dirceu nas negociações com
o Congresso".
Mas na pressa de defender sua idéia com
base em um "achismo" materializado em adjetivos jogados
sem argumentações consistentes, a revista acaba por
cair em contradição. Esta mesma crise política
que pode provocar um "tsunami" vira uma crise menor na
edição de 31 de março, na matéria intitulada
"Ascensão e queda" que trata da queda da popularidade
do presidente: "O presidente Lula deixou-se engessar por uma
crise menor, Diniz trabalhava com o ministro José Dirceu
na Casa Civil, mas era um funcionário de terceiro escalão
e foi pilhado em uma traficância chinfrim ocorrida há
dois anos". De "cardeal do governo", Diniz virou
um "funcionário de terceiro escalão" no
prazo de uma semana...
Como o caso Diniz não avançou
em mais denúncias, a revista Veja procurou outro para atacar
o governo pelo flanco moral. Na edição de 26 de maio,
a matéria "Quem precisa de inimigos?" fala sobre
o desvio de dinheiro do empresário Mauro Farias Dutra que
seria amigo íntimo do presidente Lula. Não há
nenhum fato que comprove o envolvimento do presidente nas irregularidades
cometidas pelo empresário. A Veja tenta envolver o presidente
mostrando, em fotos, bens do empresário que poderiam ter
sido usufruidos por Lula e insinua que parte deste dinheiro tenha
sido desviado para campanhas do PT.
c) Política externa
A política externa do governo Lula também sofre ataques
duríssimos da revista Veja. O Itamaraty é um dos órgãos
do governo federal em que as diferenças entre o governo atual
e o anterior, do PSDB, são mais visíveis. O governo
Lula optou abertamente em priorizar uma aliança geopolítica
internacional com os países do chamado "Terceiro Mundo"
redirecionando a política externa do governo anterior que
procurava se adequar ao eixo dos países do centro do capitalismo.
Assim, houve um endurecimento nas negociações do governo
com os Estados Unidos na formação da Alca e com a
Europa na rodada comercial da OMC (Organização Mundial
do Comércio). Fiel ao país de origem do seu modelo
de revista - a Time - a Veja critica acidamente os contrapontos
que o governo Lula faz aos Estados Unidos. Ridiculariza as tentativas
do governo de estabelecer esta aliança geopolítica
com a periferia do capitalismo.
Na matéria do dia 7 de janeiro intitulada
"O governo começa agora", uma tentativa de balanço
e perspectivas do governo Lula, em certo momento, é avaliada
a política externa: "no primeiro ano, a diplomacia brasileira
optou por uma linha que produz mais barulho que resultado, em especial
quando prioriza relações com a África e Oriente
Médio e emperra as negociações com a Alca".
Os Estados Unidos da América, de forma
recorrente, é o país apontado como modelo de organização.
Quando da demissão do presidente da Anatel, Luiz Schymura,
a revista Veja lembra que o presidentre Bush demitiu também
o presidente da FCC (a equivalente norte-americana da Anatel), mas
que "pela lei americana, nenhum partido político pode
indicar mais que três dos cinco conselheiros da FCC e no Brasil,
a Anatel possui cinco conselheiros nomeados pelo presidente".
A polêmica medida de fichamento dos turistas
norte-americanos no Brasil, medida tomada como reciprocidade do
tratamento igual realizado pelos Estados Unidos em relação
aos brasileiros, foi extremamente criticada pela revista. Primeiramente,
na edição de 21 de janeiro, a matéria "Terminou
em Samba" diz que "num momento em que os Estados Unidos
precisam mais do que nunca de segurança, o Brasil oferece
razões de sobra para desconfiança - os passaportes
nacionais estão entre os mais falsificados do mundo".
Esta mesma matéria elogia a iniciativa do governo estadual
do Rio de Janeiro de reunir passistas de escolas de samba para "recepcionar"
os turistas norte-americanos no aeroporto para atenuar o "sofrimento"
dos mesmos em passar pelo sistema de fichamento. Não menciona,
em nenhum momento, que esta iniciativa reforça a idéia
de que o Brasil é um dos paraísos do turismo sexual.
Na edição seguinte, o ministro
Celso Amorim é entrevistado. Acaba sendo bombardeado com
perguntas do tipo: "Com que cara o Brasil se apresentará
em Washington se, no caso de uma nova crise financeira, precisar
pedir ajuda ao governo americano?" ou "Qual lógica
em visitar um país como a Líbia de nenhuma importância
estratégica, cujo ditador Muamar Kadafi no ano passado mandou
explodir dois aviões lotados de homens, mulheres e crianças
inocentes?". O Brasil é visto, pela revista Veja, como
um menino que deve ser bem comportado e obedecer aos seus superiores
(EUA) e não andar em más companhias (Líbia).
Dos países do chamado "Terceiro
Mundo", o único que a revista Veja elogia é a
Índia. Na matéria "A Índia que o Brasil
deveria ver" que trata da viagem do presidente a este país
asiático, os argumentos que a revista utiliza para demonstrar
que a Índia deveria ser o modelo a ser seguido pelo Brasil
são: a abertura comercial agressiva no final dos anos 80
(que, segundo a revista, acabou com a situação de
"ostra" que país vivia por ter um controle sobre
os capitais estrangeiros), crescimento econômico de 6% ao
ano, crescimento da classe média, aumento das reservas internacionais,
baixíssima carga tributária (10% do PIB), avaliação
positiva da agência Moody's para investimentos estrangeiros
e o custo barato da mão de obra ("Os PhDs podem ter
a mesma capacidade, o mesmo equipamento e a distância é
uma mera curiosidade geográfica, mas os salários na
Índia chegam a ser apenas um quinto do que é pago
a um colega de mesmo nível nos Estados Unidos"). Os
indicadores sociais desfavoráveis do país asiático
demonstrados no início da matéria não são
levados em consideração nesta avaliação.
Filtro das fontes
Ao analisar a utilização das fontes
na imprensa norte-americana, Noam Chomsky (2003) demonstra que há
uma clara parcialidade da mídia, situação semelhante
a brasileira. Uma análise mais detida sobre as principais
fontes utilizadas no jornalismo produzido pelos grandes meios de
comunicação revela uma repetição constante
dos mesmos entrevistados. Na Veja isto não é diferente;
é possível arrolar os nomes de fontes que são
"cativas" da revista e ainda perceber um agravante: a
utilização acentuada de fontes anônimas ou não
declaradas. Muitas das matérias baseiam-se em informações
de um "assessor", de um "funcionário",
entre outros, o que diminui a credibilidade da revista.
Muitos veículos, com o intuito de tentar
mostrar imparcialidade na cobertura das matérias, utilizam
o que se denomina fonte especializada. Recurso esse que muitas vezes
acaba encobrindo uma determinada visão que o próprio
meio defende, já que o conhecimento não é neutro.
É só escolher um determinado especialista que defenda
uma posição que interessa em determinado contexto
e qualificá-lo como um dos estudiosos mais importantes naquele
assunto. A Veja também utiliza esta estratégia.
A edição de 3 de março
é emblemática em relação a fontes sem
identificação. A matéria trata dos efeitos
da crise que envolve o ex-assessor de José Dirceu, Waldomiro
Diniz. São utilizadas quinze fontes, sendo oito sem identificação:
"amigos mais próximos de Dirceu", "ministro",
"petista de altíssimo coturno", "amigos de
Antonio Palocci e Luiz Dulci", "graduado assessor do palácio
do Planalto", "assessor enfronhado na vida palaciana",
"amigo de José Dirceu" e "político".
O caso Waldomiro Diniz, já analisado
no item "crítica moral", alcançou bastante
espaço nas páginas da revista, que na edição
de 31 de março revela que "a crise política vivida
pelo PT deu à oposição um caráter mais
popular e unido". Divulga a realização de um
jantar, promovido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso,
utilizando muitas fontes sem identificação: "um
dos participantes", "um líder tucano" e um
"parlamentar". A jornalista faz questão de transcrever
uma piada que zomba de uma suposta falta de inteligência do
presidente e do ministro da Casa Civil, José Dirceu.
A edição de 14 de abril questiona
a recusa do governo em autorizar a inspeção da fábrica
de urânio no Rio, levanta suspeitas sobre a compra de equipamentos
no processo de construção desta e ainda chama de "atrapalhadas"
as declarações do ex-ministro de Ciência e Tecnologia
Roberto Amaral. As fontes utilizadas para esta matéria são
um "ex-integrante do primeiro escalão do governo federal,
um técnico da ONU - ambos sem a citação do
nome - além de Anselmo Paschoa, físico nuclear e David
Albright, físico norte-americano e Othon Luiz Pinheiro da
Silva, um dos coordenadores do programa nuclear brasileiro até
1994. Todos contrários a postura do governo, que sequer foi
ouvido pela revista.
Nas matérias analisadas nota-se a presença
de dois entrevistados constantes: Maílson da Nóbrega,
ex-ministro da Fazenda e Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco
Central, a coincidência vai além do fato de ambos terem
trabalhado na administração do ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso, é que ambos são sócios de
uma empresa de consultoria, a Tendências que, inclusive, é
a empresa de consultoria mais citada nas matérias analisadas.
Conclusão
A revista Veja, por ser um produto de uma empresa
de comunicação, necessita defender determinados valores
que dão sustentação à reprodução
do capital. Do ponto de vista partidário, a revista coloca-se
abertamente em oposição ao governo do presidente Lula
e, para expressar este posicionamento, lança mão de
estratégias do discurso jornalístico que vão
da desqualificação dos membros do governo (despreparo,
improviso, impulsividade, entre outros), passando pela questão
moral, tentando desconstruir uma identificação da
ética na política com o PT e questionando opções
políticas do governo federal, particularmente no campo da
política externa. Nota-se, ainda, um estreito alinhamento
com os valores preconizados pelos Estados Unidos, país constantemente
citado como referência positiva em todos os aspectos.
A necessidade de reafirmar seu caráter
de oposição ao governo leva a revista Veja, em diversas
oportunidades, a sequer tomar alguns cuidados específicos
ao fazer jornalístico, como checagem das informações,
equilíbrio e diversificação das fontes, além
da objetividade. Objetividade compreendida não como neutralidade
ou imparcialidade, já que é importante a interpretação
dos fatos, mas como apresenta o jornalista Perseu Abramo:
"O reino da objetividade é a informação,
a notícia, a cobertura, a reportagem, a análise,
assim como o reino da tomada de posição é
a opinião, o comentário, o artigo, o editorial.
É fundamental separar e distinguir informação
de opinião, indicar as diferenças de conteúdo
e forma dos gêneros jornalísticos, e apresentar
toda a produção jornalística ao leitor/telespectador
de forma que ele perceba imediatamente o que é exposição
da realidade e o que é ajuizamento de valor" (2003:
41).
A representação que a revista Veja faz da realidade
tem grande impacto no debate na esfera pública a ponto da
mesma se considerar como a defensora dos interesses da sociedade,
chegando muitas vezes a uma certa arrogância. Isto fica demonstrado
quando a publicação se vê no direito de criticar,
e até mesmo desqualificar determinadas atitudes do governo
e ainda sugerir soluções para determinados problemas
do país. Neste sentido, acaba tendo uma atuação
semelhante a um partido político, como se tivesse um mandato
de representação de setores sociais conservadores.
Perseu Abramo, ao traçar um paralelo entre os partidos e
os órgãos de comunicação, afirma que
estes últimos "oscilam entre se auto-suporem demiurgos
da vontade divina ou mandatários do povo, e confundem o consumo
dos seus produtos ou o índice de tiragem ou a audiência
com o voto popular depositado em urna." (2003: 46)
Bibliografia
ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação
na grande imprensa. São Paulo: Editora Fundação
Perseu Abramo, 2003.
CHOMSKY, Noam e HERMAN, Edward S. A manipulação do
público: Política e poder econômico no uso da
mídia. São Paulo: Futura, 2003.
HABERMAS, Jurgen. A mudança estrutural da esfera pública.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
KUCINSKI, Bernardo. A síndrome da antena parabólica:
ética no jornalismo brasileiro. São Paulo: Editora
Fundação Perseu Abramo, 1998.
MARCONDES FILHO, Ciro. A saga dos cães perdidos. São
Paulo: Hacker Editores, 2000.
MEDINA, Cremilda A. Notícia: um produto à venda: Jornalismo
na sociedade urbana e industrial. São Paulo: Alfa-Omega,
1978.
RUDIGER, Francisco. "A escola de Frankfurt", in: HOHFELDT,
A., MARTINO, L.C., FRANÇA, Vera V. (orgs) Teorias da comunicação:
conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes,
2001
SCALZO, Marília. Jornalismo de revista. São Paulo:
Contexto, 2003.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil.
São Paulo: Martins Fontes, 1988.
Notas bibliográficas
1 - Dados extraídos do site http://vejaonline.abril.com.br,
em 10 de julho de 2003.
2 - Informações publicadas no Jornal do Brasil, em
12 de setembro de 1998, Caderno B, p. 2.
3 - Dados obtidos por intermédio de um trabalho crítico
semanal sobre a revista Veja, realizado pelo jornalista José
Kley Chrispiniano, em newsletters enviadas por correio eletrônico
às pessoas interessadas.
4 - No jargão jornalístico é a linha que vem
logo após o título, com o objetivo de complementar
a informação.
Dennis de OLIVEIRA é professor da Universidade
Metodista de Piracicaba e da Universidade de São Paulo.
Marta Regina MAIA é professora da Universidade Metodista
de Piracicaba
Colaboração: Bárbara Contó
Luz, Fabíola da Silva Cunha e Flávia Marques da Silva,
alunas do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de Piracicaba.
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