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Se o jornalista é um construtor de significados,
como fala a pesquisadora Cremilda Medina (MEDINA, 2003, p. 74),
é preciso pensar então como acontece essa constituição
de sentidos. Para Maria Aparecida Baccega o discurso do comunicador
deve se banhar constantemente da história e da literatura
(sem deixar de afirmar que a comunicação e o jornalismo
constituem um campo específico do conhecimento), sendo que
"o discurso literário contém, portanto, não
os acontecimentos 'efetivamente' vividos, mas o campo das possibilidades
humanas, a partir de uma realidade histórica: tanto a atual,
na qual o escritor, inclusive, está inserido, como, a partir
da atual, a visão das possibilidades humanas do passado.
E é desse modo que a literatura possibilita ao homem uma
reflexão sobre a realidade, um passo no caminho do conhecimento
científico. Os discursos literários desenham o 'mapa
da existência', e não o mapa da sociedade". (BACCEGA,
1998, p. 50)
O jornalista que domina o campo literário dispõe
de uma importante ferramenta estética para a produção
textual mais criativa e sensível, contribuindo para a alteração
do quadro atual da chamada grande imprensa, que, seguindo a lógica
de mercado, padroniza seus textos em detrimento de produções
mais arrojadas e criativas.
Nas palavras de Cremilda Medina: "Um mediador-autor constrói
uma narrativa contemporânea que ultrapassa a função
disciplinada nas sociedades industriais e pós-industriais.
Justamente autor, porque a identidade lhe dá o diferencial.
Por sua vez, a marca de autor denuncia a identidade cultural: aquele
autor só poderia surgir daquele grupo humano que se expressa
numa textualidade registrada - a literatura - e numa textualidade
da rua, do cotidiano, que atinge a dignidade e grandeza da oratura.
O estudioso que pavimenta a estrada profissional ou epistemológica
como um ser solidário ao seu tempo inspira-se constantemente
na literatura (lato sensu, o gesto da arte) e na oratura polifônica,
a das diferenças culturais". (MEDINA, 2003, p. 76)
A própria história do jornalismo brasileiro confunde-se
com o literatura, como afirma Nelson Werneck Sodré: "Os
homens de letras buscavam encontrar no jornal o que não encontravam
no livro: notoriedade, em primeiro lugar; um pouco de dinheiro,
se possível (...) Félix Pacheco esclareceu, com exatidão:
'Toda a melhor literatura brasileira dos últimos trinta e
cinco anos fez escala pela imprensa'" (SODRÉ, 1977,
p. 334). Se isso ocorria no final do século XIX, a partir
do início do século XX, entretanto, a imprensa passa
por mudanças, como a necessidade de reportar a realidade
em seus diversos aspectos e com isso (e a própria criação
da Associação Brasileira de Letras) jornalismo e literatura
tendem a se separar, sem, contudo, deixar de manter relações
que perduram até os dias atuais.
O chamado New Journalism, "movimento" consagrado na década
de 60 nos EUA e que tem em Tom Wolfe uma de suas maiores expressões,
conseguiu realizar esta união, possibilitando avanços
estéticos à produção jornalística
que poderia então utilizar determinados recursos do campo
literário, ao mesmo tempo que também permitiria ao
profissional ampliar sua forma de captação da reportagem:
"o New Journalism resgataria, para esta última metade
do século [XX], a tradição do jornalismo literário
e conduzi-lo-ia a uma cirurgia plástica renovadora sem precedentes"
(LIMA, 1993, p. 146). O espaço que a confluência jornalismo-literatura
vai ocupar no Brasil, passa a ser, atualmente, o livro-reportagem,
de acordo com Edivaldo Pereira Lima (LIMA, 1993, p. 141).
Bibliografia básica sobre o assunto:
BACCEGA, Maria Aparecida. Comunicação
e linguagem: discursos e ciência. São Paulo: Moderna,
1998.
CASTRO, Gustavo de e GALENO, Alex (orgs). Jornalismo e literatura:
a sedição da palavra. São Paulo: Escrituras,
2002.
FAERMAN, Marcos. In DANTAS, Audálio (org.). Repórteres.
São Paulo: Editora SENAC, 1998.
HERSEY, John. Hiroshima. São Paulo: Companhia das
Letras, 2002.
LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro-reportagem
como extensão do jornalismo e da literatura. Campinas,SP:
Editora da Unicamp, 1993.
MEDINA, Cremilda. "Mito e visão de mundo",
in MEDINA, Cremilda, A arte de tecer o presente: narrativa e cotidiano,
São Paulo: Summus, 2003.
_______________. Jornalismo e literatura: fronteiras e intersecções,
in Cadernos de Jornalismo e Editoração, vol. 2, nº
25, Comarte, São Paulo, 1990.
MITCHELL, Joseph. O Segredo de Joe Gould. São Paulo:
Companhia das Letras, 2003.
RESENDE, Fernando. Textuações: ficção
e fato no novo jornalismo de Tom Wolfe. São Paulo: Annablume/Fapesp,
2002.
SILVEIRA, Joel. A milésima segunda noite da Avenida Paulista.
São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no
Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições do
Graal, 1977.
TALESE, Gay. A mulher do próximo. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002.
___________. Fama e anonimato. São Paulo: Companhia
das Letras, 2004.
___________. O reino e o poder. São Paulo: Companhia
das Letras, 2000.
WOLFE, Tom. A fogueira das vaidades. 10ª ed. Rio de
Janeiro: Editora Rocco, 1987.
___________. The new journalism. Nova York: Harper &
Row, 1973.
Textos de referência:
O
poeta do cotidiano (veiculado no site Barão em Revista,
em abril de2001)
Esta reportagem-ensaio tenta traçar um perfil do cronista
paulistano Lourenço Diaféria, a partir de recursos
que extrapolam a captação convencional.
Estação
Jabaquara: Caminhantes além das linhas
Esta reportagem-ensaio estabelece uma relação entre
os subterrâneos caminhos da cidade de São Paulo e os
apressados anônimos que circulam por estas paragens.
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