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Estação
Jabaquara
Caminhantes além das linhas
Marta
Maia
Somos
a utopia realizada, bem ou mal,
em face do utilitarismo mercenário e mecânico do Norte.
Somos a Caravela que ancorou no paraíso
ou da desgraça da selva...
O que precisamos é nos identificar
e consolidar nossos perdidos contornos
psíquicos morais e históricos.
(Oswald de Andrade)
Nas ruas da
cidade multidões apressadas deslizam pelo duro asfalto da
enegrecida paisagem. Pegam ônibus amarelos, brancos, pretos,
vermelhos de raiva e pardos de poluição. Enfrentam
esta terra de frente e encontram a sua história nas esquinas,
nos becos, nos barracos, nas casas, nos arranha-céus, nos
escritórios, nos estádios, nas praças, nos
cinemas, nas idéias. Na cidade prometida o "progresso"
não é para todos, mas todos querem alcançá-lo.
Este painel multifacetado revela a vida vivida de uma gente que
é povo, mas tem rosto, tem individualidade e tem história.
A heterogeneidade
de São Paulo é componente essencial de sua trajetória
e de sua existência. Os traços deixados pelos índios,
colonizadores, escravos, imigrantes e mais recentemente pelos milhões
de migrantes, formam um quadro surreal de uma complexa realidade,
que comporta a dor e a deliciosa esperança em sua antropofagia
futurística. "Que somos nós, forçadamente,
iniludivelmente, senão futuristas - povo de mil origens,
arribado em mil barcos, com desastres e ânsias?"1.
Esta interpretação oswaldiana do início do
século continua imanente na cidade dos dias de hoje e representa
uma visão multifocal dessa terra mãe que olha por
seus filhos.
Somos a
utopia realizada, bem ou mal,
em face do utilitarismo mercenário e mecânico do
Norte.
Somos a Caravela que ancorou no paraíso
ou da desgraça da selva...
O que precisamos é nos identificar
e consolidar nossos perdidos contornos
psíquicos, morais e históricos.
(Oswald de Andrade)
E pensando na
frenética edificação dessa megalópole
é que toneladas de cimento, de aço, e de paciência
são despejadas cotidianamente em seu seio. Afinal, como se
locomover em uma cidade que não pára de crescer? Pessoas
guiadas pelo ritmo dessa cidade, locomovendo-se em direção
ao seu destino. Torna-se cada vez mais difícil transitar
pelas ruas, seja sob rodas ou a pé; o asfalto irradiando
calor, os olhos impossibilitados de verem o sol coberto por uma
espessa camada cinza. Pessoas procuram locomoção,
atiram-se para debaixo da terra, em busca de um atalho. Seguindo
o exemplo de alguns animais, o homem cava buracos para poder arejar
o caminho de todo dia. Como na natureza, estes espaços comportam
uma diversidade infinita de seres.
Nasce um arrojado
meio de condução, embaixo do asfalto, absorvendo estes
corpos frenéticos. São tantas as paradas que é
preciso descer em uma estação e fazer dela um ponto
de partida para a construção desta história
paulistana. A escolha recai sobre o ponto final da linha norte-sul
- Jabaquara - que revela fragmentos desse rico universo social,
cujas mentes laboriosas planejam, sonham, sentem, esperam. É
incrível a biodiversidade do local, são muitas humanas
espécies que transitam pelos túneis da estação.
Como a cobertura é muito ampla, é preciso ainda fazer
um ajuste no foco das lentes que buscam captar esse retrato. A imagem
que surge é a da mulher. Ela que, seguindo o exemplo de seu
habitat, procura estar sempre em transformação, já
não trabalha somente em casa, mas vai à luta para
suprir necessidades econômicas e também conquistar
o seu espaço em um restrito mercado de trabalho.
Maria, Vanessa,
Vera, Cleonice e Hercília já devem ter-se esbarrado
algumas vezes na estação Jabaquara do Metrô
de São Paulo. Elas, assim como muitas outras, possuem vários
aspectos em comum, embora nem se conheçam. Todas elas, além
de freqüentarem os trens do Metrô, também encontram-se
ligadas pela ancestralidade da mulher mãe generosa que sai
de casa com o intuito de prover a si e ao próximo.
Os motivos que
as desafiam a buscar novos horizontes podem ser vários: a
realização profissional, a necessidade de contribuir
para a manutenção da família ou ainda a vontade
de participar de um universo mais amplo do que as fechadas paredes
de suas moradas. No entanto, embora estas mulheres possam aproximar-se
por intermédio destas perspectivas, elas carregam histórias
de vida que expressam a heterogeneidade de típicas moradoras
de uma cidade intempestiva, embora acolhedora. "A retomada
da esperança aqui se dá, apesar da poluição
que tolhe o Sol"2.
As ruas
da pequena São Paulo de 1900
enchiam-se de fios e postes...
...A cidade tomou um aspecto de revolução.
Todos se locomoviam, procuravam ver. E os mais afoitos
queriam até ir à temeridade de entrar no bonde,
andar de bonde elétrico!
(Oswald de Andrade)
Jabaquara, do
tupi-guarani Yab-a-Quar-a (rocha e buraco), foi constituindo-se
a partir da passagem dos bandeirantes em sua busca de ouro e índios.
Somente com a transferência do Matadouro Municipal, em 1886,
para esta região, é que os "ares do progresso"
sopraram forte, pois era necessário manter uma relação
comercial com o centro, o que levou à criação
de uma linha de trem a vapor. O sistema de transporte vai evoluindo
e em 1930 o bonde começa a andar nos trilhos e o céu
passa a ser usado, em 1940, com a inauguração do Aeroporto
de Congonhas. Finalmente, em 1974, chega o Metrô, conduzindo
pelos sucos abertos no subterrâneo; este é o momento
em que a zona sul paulistana sofre uma reorientação
urbana: "Em 1975, a Vila Mariana registrou não apenas
o maior crescimento imobiliário de sua história, como
o maior crescimento de São Paulo. As novas construções,
quase sempre prédios, foram 29% mais numerosas que no ano
anterior... O comércio, por sua vez, também apresentou
um grande crescimento"3.
Parece
coração de mãe; acolhe todo mundo. Assim Maria
Aparecida dos Santos, 46 anos, define São Paulo. Ela veio
para cá com apenas 9 anos e hoje divide sua "casinha",
situada na favela de Americanópolis, com mais 10 pessoas,
entre filhos, genro, netos e marido. Este contingente familiar é
um pequeno recorte da Zona sul, que comporta 930 favelas, com o
maior número de habitantes da cidade - 30% da população
paulista vive nesta região.
Trabalhando
há dois anos no Terminal do Jabaquara, ela conta que não
se cansa de limpar os escritórios utilizando os acessórios
adequados, pois a gente sempre deve usar botas na época
de lavação, usar a luva azul para o banheiro e a verde
para lavar as pias. E usar a esperança para falar de sua
vida e de sua família: sempre cheia de problemas,
mas com muita disposição para enfrentar as dificuldades
do dia-a-dia.
Maria divide
sua história com muitas outras mulheres que vivem sua rotina
diária entre o trabalho formal e as atividades domésticas.
No momento eu tenho a ajuda da minha filha casada que está
morando comigo, mas é sempre eu que faço o serviço
de casa. Eu estou fazendo alguma coisa o tempo todo e estou sempre
preocupada, acho que é por isso que tenho problemas de pressão.
São muitas pessoas pra cuidar. Maria, assumindo o mesmo sentimento
da cidade que recebe ininterruptamente pessoas de todos os tipos,
abre um largo sorriso de satisfação ao falar de sua
gente.
Às
vezes vou a pé para casa, pois se as crianças pedem
um pacote de bolacha ou um doce eu não consigo recusar o
pedido. Não, não compro com dinheiro, uso mesmo os
passes que ganho todo mês. Eles servem de dinheiro para a
compra de um gosto. A distância não inibe a generosidade
de Dona Maria que nestes dias tem que andar quase uma hora para
chegar em casa.
Mas ela não
caminha sozinha. Esta situação estende-se a muitas
pessoas que passam todos os dias na Avenida Engenheiro Armando Arruda
Pereira - próxima da estação. É possível
flagrar uma verdadeira procissão ao cair da tarde. São
homens e mulheres que só conseguem o suficiente para "tomar
o Metrô", abstendo-se de usar o Terminal Metropolitano
de Integração. Em grupos ou sozinhos, estes caminhantes
tentam driblar a crise usando os pés como veículo.
Do Jabaquara para a Vila do Encontro, Cidade Vargas, Americanópolis,
Vila Facchini, Jardim Miriam e até a divisa de Diadema, o
itinerário, que pode chegar a 6 Km, é percorrido seguindo
esta imensa avenida, ocupada, no corredor central, pelo sistema
de integração dos trolebus. Uma das portas de entrada
e de saída para o ABCD.
Cleonice Del
Buone, 47 anos, é mais uma destas pessoas que enfrentam corajosamente
a topografia do Jabaquara, com suas subidas e descidas, até
o descanso diário. Bom, não no caso dela, afinal ela
é mulher: eu chego em casa e já vou preparar
a comida para o dia seguinte, além de cuidar das roupas e
da limpeza da casa. Com dois filhos e um marido aposentado, ela
teve que voltar a trabalhar após 25 anos de vida doméstica.
O desemprego
e a deterioração da renda familiar têm levado
um número maior de mulheres a ingressar no mercado de trabalho.
Os dados também revelam que o aumento crescente da participação
feminina neste mercado é resultado de uma maior participação
das mulheres na faixa de 25 a 40 anos ou mais, diferente da situação
masculina, que teve uma queda das taxas nos últimos anos.
O problema é que as mulheres ganham menos do que os homens
e sofrem mais com a recente tendência à precarização
do trabalho.
Antes
eu ficava só em casa, cuidando dos filhos, do marido, eu
não tinha muito contato com as pessoas. Agora eu tenho amigos
no trabalho e minha vida mudou muito porque antes eu só ficava
esperando o marido chegar do serviço. Eu acho que quando
a mulher trabalha, ela se desenvolve mais do que quando fica só
em casa; pode comprar suas coisas, não precisa depender dos
filhos, do marido. Agora eu recebo o meu pagamento e isso é
muito bom. E eu digo mais: tem os dois lados, o dinheiro e o contato
com as pessoas. Cleonice, embora tenha trabalhado na juventude,
seguiu o modelo familiar vigente permanecendo 25 anos como dona
de casa. Saiu para trabalhar e acabou descobrindo uma nova maneira
de viver.
Acabou encontrando
emprego em uma área em que é mestre-cuca: na cozinha.
Há nove meses ela acorda as 5h30, toma o trem do Metrô
por volta das 6h, vai até a Estação Sé
e inicia a sua jornada diária como ajudante de cozinha em
uma doceria. Sua história com o Jabaquara começou
aos 14 anos, pois com esta idade, ela que nasceu e foi criada na
Vila Ré, veio morar e trabalhar como empregada doméstica.
Ficou neste emprego até os 21, quando casou-se e iniciou
a vida "do lar".
Como antiga
moradora do bairro, ela relembra o tempo em que tinha que pegar
ônibus. Ele demorava muito, já o Metrô
facilita a vida de todo mundo, pois é um meio de transporte
mais rápido do que os ônibus. Eu não tenho nem
palavras para analisar a chegada do Metrô. É só
reparar quando tem greve dos metroviários, a cidade fica
um transtorno.
A linha norte-sul,
a primeira da rede básica do Metrô, quando entrou em
operação, em 1974, trouxe consigo uma nova arquitetura
para a região. Outros projetos foram sendo implementados
e a intervenção pública chega, nesta região,
em 1976, por intermédio do Projeto CURA - Comunidades Urbanas
de Recuperação Acelerada, uma parceria entre o BNH
e a prefeitura municipal, que implementa obras de infra-estrutura
na região, como saneamento básico, pavimentações,
canalização de córregos e superestrutura como
a edificação de um Pronto Socorro, Posto de Bombeiros,
Terminal de Ônibus, além da criação do
Centro Cultural Jabaquara. O bairro vai mudando como conta um antigo
morador:
Quando
eu cheguei no bairro só tinha passarinhos, depois chegou
o progresso, começou a botar luz, ônibus, água
e começou a entrar a malandragem também. Aqui modificou
tudo, né?, chegou o metrô, veio a desapropriação,
terras vazias, acabaram as indústrias... com essas mudanças
diminuiu o movimento do bar... vieram pessoas novas... as pessoas
pobres não puderam mais ficar aqui... antes eu atendia mais
operários, havia indústrias que foram desapropriadas...
hoje não tem mais operários, só bancários,
funcionários públicos, e esses não gastam nada...
hoje não tem pedreiro não, essas obras são
todas feitas com máquinas... Naturalmente nestes tempos agora
não está dando quase nem mais pras iscas. Tá
um fracasso que a gente até desanima4.
Uma obra desta
envergadura só pode desencadear uma grande renovação
urbana, ocasionada principalmente pelas desapropriações.
Um exemplo é próprio Pátio de estacionamento
e oficinas do Jabaquara que ocupa uma área de 260 mil metros
quadrados. É a cidade crescendo e lançando sua pobreza
para a periferia.
São
Paulo! Comoção de minha vida...
Os amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro.
Luz e bruma...
Forno e inverno morno...
...São Paulo! Comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!
...São Paulo é um palco de bailados russos.
Sarabandam a tísica, a ambição, as invejas,
os crimes
e também as apoteoses da ilusão...
(Oswald de Andrade)
Sarabandam também
por aqui engenheiros, técnicos, mestre-de-obras e alguns
políticos que avistam nas construções o alicerce
de suas plataformas e ações. São obras e mais
obras. A criação do Terminal Intermunicipal do Jabaquara,
em 1977, também está inserida neste contexto. Foi
facilitada pela existência de uma Estação do
Metrô, pela proximidade com a Rodovia dos Imigrantes e pela
necessidade de aliviar os terminais rodoviários João
Caetano e Glicério, que antes faziam a rota para a baixada.
A inauguração do TIJ elevou o movimento de usuários
do sistema metroviário, que já no primeiro ano de
funcionamento elevou a estação Jabaquara para a terceira
de maior movimento da rede.
A procura pelo
lazer mais barato salta aos olhos de quem permanece por alguns minutos
neste Terminal. Bolsas, sacolas, malas expectativas, algazarras
e até pranchas de surf ocupam o local, em especial
nos finais de semana e feriados prolongados. Entretanto, se este
olhar conseguir enxergar um pouco além será possível
ver que a relação com a baixada santista revela intenções
que vão além do lazer. Nos momentos de pico do horário
comercial é gente de todo tipo, raça, crença
e jeito de ser. Buscam na metrópole a esperança de
dias melhores, já que a crise impele-os à busca de
novas saídas.
Hercília
Damasceno da Silva, 51 anos, moradora da cidade de Santos há
sete anos, é mais uma arrojada personagem deste cenário
paulista que tenta arrancar, desta terra, um pouco de sustentação
para sua família. O seu ritual assemelha-se ao de muitas
mulheres que circulam pelo Terminal. Toda semana ela vem fazer compras
em São Paulo para depois revender os mais variados produtos
em uma barraca próxima do canal 6 da praia santista.
Querer é
poder. Ela baseia-se neste "surrado" ditado popular para
construir sua vida, pois mesmo sendo filha adotiva do estado, já
que nasceu em Londrina, no Paraná, aos 12 anos conheceu a
capital e foi ficando. Aqui casou-se, com 19 anos, sempre acalentando
o sonho de morar em Santos. Eu e meu marido somos dois aventureiros,
embora pensando sempre no futuro, afinal temos quatro filhos. E
tanto fizeram que conseguiram, após muito tempo, morar na
terra sonhada.
O problema é
que somente o emprego como instrumentadora cirúrgica na Casa
de Saúde não resolve as dificuldades financeiras de
Dona Hercília. As histórias se encontram, assim como
Cleonice, o marido é aposentado e os rendimentos precisam
ser ampliados. Daí a barraca em sociedade com o filho. A
existência de uma estação do Metrô facilita
sua vida: Acho o Terminal muito prático. Chego de
Santos em 55 minutos, pego o metrô até o Brás,
às vezes vou até a 25 de março, aí volto
rapidinho, sem precisar carregar muitas sacolas pela cidade. É
excelente.
As sacolas cheias
são carregadas com dificuldades por braços que sofreram
um acidente recentemente. Fui atropelada por uma moto e um
de meus pulsos ficou bem complicado e acabei ficando com problemas,
mas assim mesmo não parei de trabalhar; não posso
me dar a esse luxo. Também prefiro vir sozinha, pois homem
não tem paciência para pesquisar preços e pechinchar.
Talvez essa
seja uma das características marcantes da mulher que tem
buscado na participação autônoma de vendas uma
fonte de renda significativa para a sobrevivência familiar.
Neste caso, Dona Hercília enfrenta uma tripla jornada de
trabalho, confirmando os dados de que mesmo trabalhando mais horas
que os homens, as mulheres não conseguem atingir o mesmo
patamar salarial. Na média, enquanto o homem ganha R$ 995,00,
a mulher recebe somente R$ 585,00, segundo dados do Seade (Fundação
do Sistema Estadual de Análise de Dados) e do DIEESE (Departamento
Intersindical de Estatísticas Sócio-econômicas).
Assim como há
pessoas que vêm à metrópole para comprar, outras
vêm para vender, vender mão-de-obra. É o caso
de Vanessa Eburneo Rodrigues, 21 anos, freqüentadora assídua
do Terminal do Jabaquara. Ela é um exemplo de que a juventude
não está por fora desta narrativa, construída
a partir das histórias de vida dos habitantes desta paulistânia
polifônica. Enfermeira formada em 1997 pela UniSantos (Universidade
Católica de Santos), reside em Cubatão, mas está
sempre subindo a serra. Estou procurando emprego. Tenho vindo
direto pra Sampa; fazendo provas, entregando currículos e
batalhando alguma vaga. Já procurei na baixada, mas está
difícil. O negócio é subir e tentar arrumar
alguma coisa por aqui mesmo, não se pode desistir, tem que
procurar.
A vontade de
Vanessa é conseguir um ou mais empregos em São Paulo
e poder morar em um lugar onde, segundo ela, as oportunidades são
maiores pra tudo: amizade, emprego e lazer. A reclamação
fica por conta da demora entre os ônibus que vão a
Cubatão; de uma em uma hora. A cena sempre se repete, basta
chegar cinco minutos atrasada e aí são 55 minutos
de espera sentada em um dos muitos bancos espalhados pelo saguão
de espera. Enquanto o ônibus não vem, quem chega são
as palavras que começam a dar sentido para fatos ocorridos,
reflexões ou simplesmente histórias ocorridas em sua
volta.
Eu gosto
de escrever para registrar a minha vida e as coisas que acontecem
em torno de mim. Eu já anoto tudo faz cinco anos e sempre
que posso vou até a minha agenda-diário para relembrar
o passado. Eu acho que um dia esse meu hábito ainda vai me
ajudar muito. É uma pena que tenha destruído algumas
folhas há alguns meses, pois meu namorado era muito ciumento
e não queria saber do meu passado. Como fui burra! Agora
nem estou mais com ele. Mas foi bom acontecer, pois não vou
mais deixar ninguém se meter em minha vida e em meus escritos.
A emancipação
feminina traz muitas histórias correlatas a essa, mas vale
frisar que a mulher mais jovem tem tentado buscar sua qualificação
e sua independência. Isto pode ser notado até em sua
capacidade de locomoção. Há algumas décadas
não seria possível encontrar tão facilmente
uma jovem saindo de sua casa para ir procurar emprego ou até
mesmo para passear, afinal Vanessa viaja sozinha desde os 16 anos
de idade.
Como nem só
de números vive o ser humano, Vanessa deixa de lado a sua
preocupação com o desemprego e faz uma digressão:
o mundo é tão grande e a gente nem percebe,
pois às vezes penso que conheço tanta gente, mas quando
fico aqui esperando o ônibus e olho para o rosto de todo mundo,
eu penso "pôxa, não conheço ninguém!".
O que eu acho legal do Terminal é que a gente vê cada
coisa diferente e fica observando e sorrindo e até sofrendo
junto. São brigas de casais, namorados carinhosos, encontros
de parentes. Já fiquei emocionada várias vezes, afinal
o sentimento de outras pessoas mexe com a gente. Calor solidário
de ser humano que reconhece o seu próximo, de mulher que
deixa fluir suas emoções, de gente que se encontra
com o outro.
Segundo a Organização
Internacional do Trabalho, mais de 45% da população
feminina mundial (entre 15 e 64 anos) é hoje economicamente
ativa. Entretanto se as mulheres ampliam sua participação
neste mercado, elas também sentem o aumento da taxa do desemprego.
"Como conseqüência do aumento da participação
e do fraco ritmo de ampliação da ocupação,
elevou-se a taxa de desemprego feminina na Região Metropolitana
de São Paulo. Em 1997, 18,3% da População Economicamente
Ativa feminina encontrava-se nesta situação. Este
patamar é o mais elevado desde o início dos anos 90"5.
A
plenitude cafeeira e pastoril de nosso
Estado se destende ao hinterland que foge
num último galopar de índios e de feras!
A cada investida vitoriosa, os novos
bandeirantes são a reencarnação
estupenda da luta, a magnífica,
a eterna ressurreição simbólica da força!
(Oswald de Andrade)
Somente nos
seiscentos é que a região do Jabaquara começou
a receber sitiantes e fazendeiros que construiriam, nestas paragens,
suas propriedades rurais. A inexistência do cal e a dificuldade
de se encontrar pedra obrigaram o paulista a construir casas de
barro ou de terra e a técnica escolhida foi a da taipa de
pilão, que é como foi construída, em 1719,
a casa sede - existente até hoje - do Sítio da Ressaca.
Esta construção, tombada pelo patrimônio histórico,
é uma das poucas imagens que sobrou deste período,
afinal toda a paisagem da zona sul sofreu um grande processo de
transformação. Dentro deste contexto de mudanças
é edificado, no interior deste Sítio, o Centro Cultural
do Jabaquara.
E é neste
chão que a última personagem deste enredo polissêmico
entra com seus pés descalços. A professora de dança
afro-primitiva, Vera Cristina de Oliveira, 27 anos, recupera a sua
cultura negra e a sua ancestralidade africana. Todas as semanas
ela contagia suas pequenas alunas que vão recebendo, com
muita intensidade, um pouco da história de um povo que está
entranhado na história brasileira.
A idéia
é trabalhar o corpo e a mente, em um mesmo ritmo.
Em primeiro lugar eu ajudo às crianças a ter uma conscientização
corporal, pois elas têm que estar bem com o corpo. Não
adianta sair daqui sentindo dores na coluna, então eu vou
passando algumas informações, através de uma
linguagem simples. É importante tomar muito cuidado com o
corpo porque a dança afro é muito forte, então
eu faço muitos exercícios de aquecimento antes de
começarmos os ensaios e vou mostrando os possíveis
problemas que uma falta de consciência corporal pode trazer.
Como a dança
afro trabalha com elementos da natureza, representados pelos orixás,
o aspecto subjetivo adquire uma dimensão essencial nessa
atividade. As crianças, que hoje estão muito
afastadas do contato direto com água, com os animais, com
as plantas, às vezes têm dificuldades de se perceberem,
por exemplo, como uma árvore, daí a minha responsabilidade
em ir buscando exemplos do cotidiano para, aos poucos, recuperar
o universo lúdico tão próprio da criança.
Esse ritual já vem sendo desenvolvido há três
anos no denominado Centro Cultural Jabaquara, que atualmente abriga
uma biblioteca infanto-juvenil e de adulto e o Acervo da Memória
e do Viver Afro-brasileiro.
Vera conversa
bastante com suas alunas - brancas e negras - sobre o preconceito
racial e a discriminação, sempre tentando mostrar
que não deve haver diferenças entre elas. "Nessa
dinâmica social de definições e redefinições,
é imprescindível o conhecimento da matriz africana
presente tanto na cultura material como nos valores brasileiros,
que por razões da ideologia da democracia racial tem sido
mantida invisível ou camuflada"7.
O carinho também
faz parte da didática desta arte-educadora, que está
constantemente demonstrando para as crianças a importância
do respeito entre os seres humanos. A gente trabalha com
muito amor... eu me preocupo muito com a vida delas, se elas almoçaram,
se estão bem na escola. Muitas crianças que nunca
tinham tido um contato mais direto com a cultura afro pôde
perceber que esta tem sua presença no cotidiano, seja através
do samba, da própria natureza, enfim de uma forma ou de outra
elas acabam se identificando com esta cultura.
Esta incansável
dançarina por opção, pois é graduada
em Análise de Sistemas, participa de inúmeros projetos
e, de domingo a domingo, percorre vários bairros da cidade,
contando, cantando e dançando a história do povo negro.
Para conseguir dar conta de tantas andanças ela faz coro
ao grande número de pessoas apreciadoras da rapidez e da
eficiência destes trens que, ainda que restritamente, cortam
a região central da cidade. O Metrô facilita
bastante o acesso para muitos lugares; tem dia que eu o acabo pegando
mais de quatro vezes, de qualquer forma eu uso diariamente para
ir de um lugar para outro.
Vera integra
um pequeno contingente de mulheres que, apesar das inúmeras
barreiras, conseguiram ocupar um espaço socialmente importante,
mesmo que sem muito retorno financeiro. Os dados revelam que para
atingir o mesmo nível salarial dos homens, as mulheres têm
que estudar mais. Com o mesmo grau de instrução, as
mulheres obtêm rendimentos inferiores aos dos companheiros
de sexo masculino e não conseguem atingir índices
semelhantes de participação nos diversos ramos de
atividades. Um exemplo: das 16 milhões de assalariadas no
país, cerca de 4,8 milhões são trabalhadoras
domésticas, representando quase 30% do trabalho assalariado.
Este dado, entre outros, retrata uma situação extremamente
desfavorável para o sexo feminino.
As histórias
aqui registradas não têm fim, seguem o seu curso da
maneira mais natural possível, engendrando outras e mais
outras, num horizonte largo, infinito. São mulheres, homens
e crianças vivenciando suas histórias, suas dores,
seus amores. Como se as feridas abertas encontrassem sempre um ungüento
milagroso que pudesse estancar - mesmo que parcialmente - as chagas
de uma gente que segue em frente, navegando nas ondas turbulentas
desta "paulicéia desvairada".
Participantes
da construção do espaço urbano, as mulheres
que protagonizaram este enredo, seguem a vida delineando a cidade
do futuro. Maria Aparecida trabalha no Metrô, mas utiliza
mesmo são seus pés para delinear o seu trajeto, Cleonice
locomove-se pelas ruas do Jabaquara, pelas viagens diárias
nos trens e pelas possibilidades que o novo emprego vem lhe proporcionando.
Hercília e Vanessa convivem com um sobe e desce ininterrupto
entre a capital e o litoral.
E Vera Cristina
de Oliveira, dançarina, educadora e mulher, despede-se desta
história, esperançosa de que o seu som possa espalhar
fortes vibrações por toda a cidade: Nesse trajeto
todo eu percebo que as várias modalidades artísticas
podem ajudar muito as pessoas, pois elas acabam ficando muito felizes.
Eu tenho uma felicidade interna muito grande e eu percebi que posso
passar o melhor de mim para as pessoas. Descobri um mundo prazeroso,
através de um caminho simples e benéfico. A convivência
com as crianças foi fundamental para a decisão de
seguir este caminho. E este estado latente de felicidade em que
me encontro cada vez mais reforça a minha idéia de
que a arte faz com que a vida das pessoas mude.
Nos trilhos,
nos trens, nas ruas, nos pés, nas cabeças, nos corações,
a evidência de um universo que tem muito a dizer, basta ter
espaço.
Notas
Bibliográficas
(1)
Andrade, Oswald, "Reforma Literária", Jornal do
Comércio, 19/5/1921, em Mário da Silva Brito, História
do Modernismo Brasileiro, p. 201.
(2) Medina, Cremilda (org.), Nau dos Desejos, p. 273.
(3) Jornal São Paulo Zona Sul, Zona Sul tem sua
própria História, p. 3.
(4) Entrevista realizada em 1979, com Alberto, dono do Bar
e Café Nossa Senhora das Graças, in Revista Espaço
& Debates nº 2, p. 49.
(5) SP MULHERES em dados, boletim da Fundação
Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), p. 2.
(6) A taipa de pilão constitui-se em uma constante
na arquitetura paulista. Devido a facilidade de erosão do
solo, as casas eram construídas de barro ou de terra, sempre
em plataformas livres das enchentes ou das chuvas.
(7) Silva, Dilma de Melo, Continente da Arte, p. 107,
in Medina Cremilda (org.), São Paulo de Perfil nº 16.
Bibliografia
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Marília Gomes dos Reis. Política de desenvolvimento
na esfera do lazer cultural: estudo de caso do Centro Cultural do
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BATISTUZZO, Adriana R. C. e Pacheco, Regina S. V. M. "O
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Encontro, in Revista Espaço & Debates nº 2, 1981.
BRITO, Mário da Silva. História do modernismo
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Brasileira, 1978.
ELEUTÉRIO, Maria de Lourdes. Oswald: Itinerário
de um Homem sem Profissão. Campinas: Editora da UNICAMP,
1989.
Jornal Diário Popular, "Jabaquara muda com o progresso",
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Jornal O Estado de S. Paulo, "Metrô e novo túnel
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Jornal São Paulo Zona Sul, "Como nasceu o bairro
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________, "Zona Sul tem sua própria História",
de 24 a 30/1/92.
MEDINA, Cremilda (org.). Axé. São Paulo:
CJE/ECA/USP,1996.
________.
Nau dos desejos. São Paulo: CJE/ECA/USP, 1994.
SALGADO, Ivone. Histórico do Sítio da Ressaca.
São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, s/d.
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