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A
História Oral como recurso metodológico na entrevista
jornalística
Marta
Regina Maia
Resumo
O
propósito deste trabalho é discutir como o jornalista
pode fugir de um certo círculo vicioso dos meios de comunicação,
que, mesmo gerando uma imensa quantidade de informações,
acabam focando estas mesmas informações nos centros
de poder. Ao estabelecer uma relação dialógica
entre entrevistador e entrevistado, ao diversificar as fontes no
processo de captação, ao utilizar como recurso metodológico
a História Oral o profissional pode contribuir para uma visão
mais polissêmica do real.
Palavras-chave
Jornalismo, entrevista, História Oral, metodologia e processos
mediáticos e culturais.
Introdução
Uma das características
típicas da sociedade atual é a velocidade do fluxo
de informações. O advento da Rede Mundial de Computadores
contribuiu decisivamente para que este fluxo pudesse circular de
maneira intensa, embora as múltiplas interpretações
de milhões de acontecimentos em todas as regiões do
mundo ainda fiquem restritas àqueles que têm acesso
a esta tecnologia. No interior desta situação, entre
muitos outros profissionais, encontra-se o jornalista, esse mediador
privilegiado dos tempos (pós) modernos. Se ele é também
um construtor de significados, como fala a pesquisadora Cremilda
Medina (2003, p. 74), é preciso pensar então como
acontece essa constituição de sentidos, qual a contribuição
deste profissional para a circulação das informações
e quais os mecanismos que ele utiliza para a produção
jornalística.
O propósito
deste trabalho é discutir como o jornalista pode fugir de
um certo círculo vicioso dos meios de comunicação,
que, mesmo gerando uma imensa quantidade de informações,
acaba focando estas mesmas informações nos centros
de poder - seja político, social ou cultural - e assim reduz
o espectro de pessoas que alimentam o fazer jornalístico.
Como permitir-se a este exercício de ir ao encontro da fonte,
que, afinal de contas, alimenta cotidianamente este processo. Como
o jornalista pode ser um ouvinte, na época do fim da "comunidade
dos ouvintes", como apresenta Walter Benjamin (1993, p. 205).
Ao discutir
o fim da arte de narrar, Walter Benjamin ressalta o papel que a
imprensa desempenhou neste sentido. "Se a arte da narrativa
é hoje rara, a difusão da informação
é decisivamente responsável por este declínio"
(1993, p. 203), já que a informação necessita
da explicação para que seja aceita, necessita ser
"plausível".
A objetivação
do relato, motivada principalmente pelo advento da imprensa massiva,
reduz a comunicação a um processo de transmissão
de informações a partir dos meios de comunicação
impressos, em um primeiro momento, até chegar aos meios eletrônicos
e digitais, responsáveis pela veiculação de
informações para milhões de pessoas ao redor
do mundo. Para tentar atingir o máximo de pessoas e poder
ser compreensível acabou-se por produzir uma gramática
jornalística1
que, em geral, contribuiu para certas normatizações
que desconhecem o aspecto subjetivo inerente ao sujeito que fala
e também ao sujeito que ouve e reconta.
Nas relações
cotidianas entre repórter e fonte há sempre uma disputa
em jogo. Metáfora que pode ser usada não para rebuscar
o texto, mas para se pensar de maneira axiomática que os
interesses são diversificados, já que envolvem as
idéias dos jornalistas, das fontes, dos editores, dos empresários
do setor, da chamada opinião pública e ainda das crescentes
minorias. Além destes interesses abarcam ainda aspectos subjetivos
da própria produção textual.
A partir das
quatro classificações de entrevista de Edgar Morin2
(1973), é possível refletir a relação
entre repórter e fonte, especialmente quando, na atualidade,
a notícia também transforma-se em uma mercadoria.
Se a base da sociedade é a relação mercantil,
então o que se observa, muitas vezes, é a transposição
desta relação também no processo de transmissão
de informações. A fonte passa a ser vista somente
como uma mera "passadora" de informações,
suficiente para produzir os caracteres necessários de uma
pauta já pré-estabelecida.
Como é
possível, então, sair deste padrão e estabelecer
uma relação sujeito-sujeito com as fontes? A proposta
é tentar fugir da própria armadilha que a sociedade
globalizada propõe ao fazer do futuro a condição
do presente (SOUSA, 2001) e, assim, de certa forma, tenta impedir
que as pessoas vivam o presente de uma maneira mais plena e profícua.
O distanciamento
deste presente, muitas vezes, atrofia o processo de comunicação,
já que as relações não levam em consideração
o momento do encontro, mas sim o caráter utilitário
que este "encontro" reveste-se e os resultados que ele
pode gerar. Mas como toda situação comporta contradições,
é possível recorrer a Edgar Morin que aponta dois
tipos de entrevistas em que é possível estabelecer
uma relação de fato entre entrevistador e entrevistado:
as "neoconfissões" e as "entrevistas-diálogo"
(1973, p. 128-129). Ele argumenta que a entrevista-diálogo
"é uma busca em comum. O entrevistador e o entrevistado
colaboram no sentido de trazer à tona uma verdade que pode
dizer respeito à pessoa do entrevistado ou a um problema".
Pode parecer
redundância chamar uma entrevista de diálogo, entretanto
o que se pode notar em muitos veículos de comunicação
ou é a participação muito acentuada do próprio
entrevistador que muitas vezes acaba tendo mais evidência
do que a fonte ou ainda o depoimento como uma espécie de
referendum de uma situação já pré-estabelecida,
a chamada entrevista-rito. Assim, ao estabelecer dialogias no interior
da produção jornalística, o profissional contribuirá
para mostrar uma visão polissêmica da realidade.
"Partilhar
a visão de mundo do outro, dela extrair a utopia humana e
ampliar a competência técnica e científica na
narrativa solidária não é uma miragem, é
uma possibilidade" (MEDINA, 2003, p. 80). Ao romper com determinados
padrões, o sujeito jornalista cria uma demanda que a própria
sociedade vê-se privada, a de ouvir e ser ouvida. Não
mais o distanciamento objetivo3,
destituído de subjetividade, mas a aproximação
de indivíduos que, independente da partilha ou não
de idéias semelhantes, conseguem estabelecer uma relação
humana, uma "comunicação pessoal". (MORIN,
1973, p. 126)
Ainda baseando-se
em Edgar Morin, é possível pensar em uma situação
mais radical, que são as "neoconfissões".
De acordo com ele, neste caso, o entrevistador se apaga diante do
entrevistado, uma vez que "este não continua na superfície
de si mesmo, mas efetua, deliberadamente ou não, o mergulho
interior" (1973, p. 129). Esta é uma situação
mais difícil de ocorrer já que o sujeito-repórter
- envolvido com o excesso de trabalho, muitas vezes - tem pouco
tempo para ouvir, entretanto, algumas vezes é possível
dilatar este prazo em nome de uma comunicação não
convencional, mais democrática e relacional.
No exercício
jornalístico é possível chegar a "entrevista-diálogo"
e as "neoconfissões" por intermédio de um
procedimento cada vez mais utilizado no interior da História,
e que pode auxiliar a prática profissional que é o
recurso da história oral. Esta metodologia, "emprestada"
da História, pode conseguir abrir novos campos de atuação
para o repórter, que tanto pode ampliar o espaço para
a discussão sobre a arte de entrevistar quanto criar novas
demandas de pautas, permitindo que fontes não convencionais
também sejam ouvidas.
Como o processo
de captação de uma entrevista é bem mais amplo
e envolve outras questões5,
a proposta deste trabalho, portanto, é bastante específica
e pretende somente discutir dois aspectos deste processo: a renovação
das fontes (o que pode levar a novas abordagens) e qual o tipo de
relação que pode se estabelecer entre o entrevistador
e o entrevistado a partir da utilização do recurso
metodológico da História Oral, que, certamente, só
poderá ser usado na produção de matérias
de perfil, àquelas relacionadas a datas históricas,
investigativas e ainda às de visão de mundo. Em todos
os casos da produção jornalística é
preciso que o profissional utilize outros procedimentos complementares
de pesquisa, o que não será objeto de estudo neste
trabalho, tampouco o processo de edição da entrevista,
que envolveria outros aspectos da discussão.
Entrevista
e história oral
Boa parte dos
pressupostos teóricos da relação entre entrevistador
e entrevistado advém do campo das ciências sociais,
entretanto, no campo jornalístico, também é
possível fazer uma pequena revisão bibliográfica
sobre o papel da entrevista no jornalismo. Alguns são paradigmáticos
como o livro de Cremilda Medina: "Entrevista: o diálogo
possível". Com base nas concepções do
filósofo Martin Buber, ela define entrevista como uma "técnica
de interação social, de interpenetração
informativa (...) pode também servir à pluralização
de vozes e à distribuição democrática
da informação" (1995, p. 8). A partir das quatro
classificações de Edgar Morin, Cremilda Medina define
dois grandes grupos: as de espetacularização e as
de compreensão. Os subgêneros da espetacularização
seriam os seguintes Perfis: do pitoresco, do inusitado,
da condenação e o da ironia "intelectualizada".
Já os da compreensão seriam: entrevista
conceitual, entrevista/enquete, entrevista investigativa,
a confrontação-polemização e
o perfil humanizado.
Sem negar a
existência de fatores limitadores ao desempenho do próprio
jornalista que está sujeito aos mecanismos da empresa jornalística,
a autora levanta algumas questões que podem contribuir para
a existência do "Diálogo Possível na comunicação
coletiva"(1995, p. 44). A mesma autora já discutia a
relação narrador-fonte, em outro livro publicado dez
anos antes: "Notícia: um produto à venda".
Neste trabalho, ela também reforça a importância
do diálogo entre repórter e entrevistado.
Outra referência
importante é o livro "A reportagem: teoria e técnica
da entrevista e pesquisa jornalística", de Nilson Lage,
que classifica as entrevistas em quatro tipos: ritual, temática,
testemunhal e em profundidade (2001, p. 74-75). Ele
ainda formula os diversos tipos de circunstâncias que envolvem
as entrevistas como sendo ocasional, confronto, coletiva
e dialogal, sendo esta última a "entrevista
por excelência".
Muitos outros
autores5
ainda discutem o processo de produção jornalística
sem, no entanto, apresentar uma diversidade de elementos que poderia
contribuir para uma discussão mais específica sobre
a relação entre entrevistador e entrevistado.6
Antes de discutir
o uso deste método no jornalismo, é importante realizar
uma breve exposição do desenvolvimento da História
Oral, que é tão antiga quanto a própria História,
já que desde Heródoto (século V a. C.) ela
é praticada. O uso difundido da expressão História
Oral, entretanto, é novo, tanto quanto o gravador; e "tem
implicações radicais para o futuro", garante
Paul Thompson (1992, p. 45). No interior da História, já
há alguns anos, discute-se a necessidade da ampliação
do conceito de documento, que pode ter outras formas de expressão,
como os depoimentos orais. No caso, a partir deste referencial concreto,
os depoentes fazem parte do amplo leque de fontes que os pesquisadores
podem utilizar.
"História
oral" é termo amplo que recobre uma quantidade de
relatos a respeito de fatos não registrados por outro tipo
de documentação, ou cuja documentação
se quer completar. Colhida por meio de entrevistas de variada
forma, ela registra a experiência de um só indivíduo
ou de diversos indivíduos de uma mesma coletividade[...]
Dentro do quadro amplo da história oral, a "história
de vida" constitui uma espécie ao lado de outras formas
de informação também captadas oralmente.
(QUEIROZ, 1991, p. 5-6)
O jornalista,
ao realizar entrevistas com o método da história oral,
poderá descortinar novos campos de investigação,
além de ter acesso a materiais que não são
públicos (THOMPSON, p. 1992), isto, em um país que
não tem uma política pública eficaz de acervo
como o Brasil, pode representar um importante aspecto na diversidade
das informações. Mas é também no conteúdo
que é possível verificar uma alteração
de enfoque surpreendente. O historiador Paul Thompson, ao discutir
a importância da história oral levanta uma questão
que é passível de se correlacionar com a produção
jornalística:
Uma
vez que é da natureza da maior parte dos registros existentes
refletir o ponto de vista da autoridade, não é de
admirar que o julgamento da história tenha, o mais das
vezes, defendido a sabedoria dos poderes existentes. A história
oral, ao contrário, torna possível um julgamento
muito mais imparcial: as testemunhas podem, agora, ser convocadas
também de entre as classes subalternas, os desprivilegiados
e os derrotados. Isso propicia uma reconstrução
mais realista e mais imparcial do passado, uma contestação
ao relato tido como verdadeiro. (1992, p. 26)
A importância
da observação
É válido,
entretanto, abrir um parêntese nesta discussão para
um aspecto que antecede à intervenção do repórter
em seu labor cotidiano, que é a sua capacidade de observação.
Como a entrevista é realizada por um sujeito, torna-se importante
pensar quem é este e quais as influências que recebe
no interior da sociedade.
Edgar Morin,
no livro intitulado Meus Demônios - um exercício
de reflexão de sua produção científica
a partir de sua autobiografia, - demonstra que as idéias
têm uma relação direta com o que ocorre à
sua volta e com as opções político-culturais
de cada um. Ele diz que não há conhecimento "espelho"
do mundo objetivo. "O conhecimento é sempre tradução
e construção. Daí resulta que toda observação
e toda concepção devem incluir o conhecimento do observador
que concebe. Não há conhecimento sem autoconhecimento"
(1997, p. 201). Nesse sentido, é interessante que o jornalista
faça um mergulho interno e tente, pelo menos, perceber quais
os motivos que o levam a seguir este ou aquele caminho.
O jornalista
deverá (re)pensar-se neste processo, pois é importante
que ele reconheça que existe um "outro", que pode
pensar diferente, que pode ter contribuições desafinadas
com o coro do consenso, que pode fugir da visão dualista
do certo e do errado e levantar questões diferentes das que
estão em pauta, mesmo levando-se em consideração
os limites de sua atuação. Se o repórter não
consegue tentar entender quem é o outro neste processo, corre
o risco de tornar-se um ser "asséptico", desprovido
de sua própria humanidade. O que distingue o homem da inteligência
artificial, que tem se tornado uma referência essencial na
sociedade atual é justamente a capacidade de se emocionar
e de estabelecer relações afetivas que podem reconduzir
o sujeito a um estado relacional:
Los
ciudadanos occidentales sufrimos una terrible deformación,
un pavoroso empobrecimiento histórico que nos ha llevado
a un nivel nunca conocido de analfabetismo afectivo... sabemos
sumar, multiplicar y dividir; pero nada sabemos de nuestra vida
afectiva, por lo que seguimos exhibiendo gran torpeza en nuestras
relaciones con los otros, campo en el que cualquiera de las culturas
llamadas exóticas o primitivas nos supera con creces. (RESTREPO,
1994, p. 27).
A sensibilidade
observadora do profissional pode não provocar rupturas nos
megaconglomerados de comunicação, mas pode abrir algumas
brechas nas muitas representações unívocas
que são passadas pelos próprios meios. Um exemplo
de como essa espécie de entorpecimento, muitas vezes, restringe
a visão de mundo pode ser fornecido pelo jornalista José
Castello (1999), ao relatar uma conversa com Clarice Lispector,
em um café carioca, já que levanta uma questão
que deveria intrigar a todos que se preocupam com a produção
jornalística contemporânea.
"Por
que aquele velho é velho?", ela me pergunta de repente.
"Ora, porque deve ter seus setenta anos", respondo,
sempre preso à mania dos fatos, que caracteriza os jornalistas.
Ela ri pela primeira vez. E me corrige: "Você ainda
se preocupa com números. Assim não pode mesmo escrever".
(p. 26)
Mesmo que este
exemplo tenha como referência a questão da produção
literária, é possível correlacioná-lo
à produção jornalística, mesmo porque
as narrativas jornalísticas são produzidas por pessoas
que deveriam ter uma visão mais ampla de sociedade, justamente
pela função de mediadoras da realidade. Mas como ter
uma visão mais ampla de mundo? Pergunta cuja resposta não
pode ser absoluta, já que o ser humano também é
carregado de subjetividade, entretanto se o profissional da área
não conseguir ampliar a sua maneira de pensar o mundo e as
pessoas também enfrentará muitas dificuldades em sua
labuta diária, encontrará mais empecilhos para uma
práxis mais plena. É preciso sair das linhas telefônicas
e da Internet e respirar o ar, mesmo que poluído, das ruas,
ouvir outras vozes, afinal as pessoas têm muito a dizer, basta
terem espaço.7
Limites, fronteiras e possibilidades da História Oral
na entrevista
Ao discutir
a questão dos gêneros jornalísticos, José
Marques de Melo situa a entrevista como um "relato que privilegia
um ou mais protagonistas do acontecer, possibilitando-lhes um contato
direto com a coletividade" (1994, p. 65). Ele ainda classifica
a entrevista na categoria de Jornalismo informativo, juntamente
com a nota, a notícia e a reportagem.
Vale frisar que a entrevista serve como base de boa parte do material
veiculado pelos meios de comunicação e justamente
por alimentar o processo de produção, muitas vezes,
fica a mercê da rotina profissional. Para sair destes liames
inerentes a própria prática é importante sempre
refletir e tentar criar certas demandas que possam auxiliar a romper
com determinadas visões cristalizadas.8
A colaboração
da História Oral na produção jornalística
pode se dar não só no aspecto da recuperação
do passado, mas também na forma da abordagem. É possível
então levantar em quais tipos de entrevistas a utilização
desta metodologia é recomendável. A sistematização
feita por Cremilda Medina pode contribuir para uma melhor compreensão
desta proposta. Ao discutir as entrevistas de compreensão,
que tem como questão essencial o aprofundamento, ela propõe
a entrevista enquête, confrontação/polemização,
conceitual, investigativa, e o perfil humanizado
(1995, p. 38). Destas, é possível usar o método
da História Oral especialmente nas três últimas.
Conceitual.
Neste caso, o repórter está interessado mais em conceitos
do que em comportamentos. Investigativa. Como o nome revela,
ao investigar algum fato/fenômeno, o jornalista precisa, além
dos mecanismos usuais, muitas vezes, de uma determinada fonte (em
off) que tanto forneça pistas quanto confirme certos
aspectos da investigação. Perfil humanizado.
Utilizando as próprias palavras de Cremilda Medina: "esta
é uma entrevista aberta que mergulha no outro para compreender
seus conceitos, valores, comportamentos, histórico de
vida" (1995, p. 18).
Para não
correr o risco da generalização, optou-se por estabelecer
a relação da História Oral com estes três
tipos de entrevistas, entretanto esta metodologia poderá
ser usada mesmo quando a entrevista não tiver um caráter
autônomo na produção jornalística. O
historiador Paul Thompson define três modos pelos quais a
História Oral pode ser construída (1992). A primeira
refere-se a narrativa da história de uma única vida.
No caso da entrevista Conceitual é possível
utilizar esse recurso, mesmo que a preocupação se
situe no campo da especialização, é possível
produzir, por intermédio da história de vida de um
especialista (que necessariamente não precisa ser famoso)
a história de um determinado campo do conhecimento, por exemplo.
E
não é preciso que a narrativa de uma única
vida apresente exatamente uma só biografia individual.
Em casos importantes, ela pode ser utilizada para transmitir a
história de toda uma classe ou comunidade, ou transformar-se
num fio condutor ao redor do qual se reconstrua uma série
extremamente complexa de eventos. (1995, p. 303)
No caso do Perfil
humanizado fica ainda mais evidente a utilização
deste caminho, pois ao traçar o perfil do entrevistado deve-se
levar em consideração uma trajetória de vida,
uma experiência que é singular. O encontro pode representar
um momento de mergulho na existência humana, não um
mero desfilar de descrições cronológicas da
vida de uma pessoa. É importante que o jornalista deixe a
sensibilidade aflorar, já que não há regras
definitivas para uma situação de empatia que, ao ocorrer,
poderá abrir o flanco de muitos entrevistados, sejam famosos
ou anônimos.
O jornalista
José Castello, ao criticar a forma de tratamento dada à
literatura, afirma que esta "é tratada ora como objeto
de exibicionismo intelectual, ora como simples mercadoria (...)
o melhor a fazer é retornar aos bastidores" (1999, p.
8), ao que ele chama de "sombra", espaço sem luz,
ausência. Paradoxalmente, talvez esteja faltando um pouco
de silêncio ao jornalismo. Silêncio justamente afeito
ao indizível, aos meandros inexplicáveis da vida humana,
afinal em uma narrativa humanizada, algumas palavras podem ceder
espaço às sensações (que podem ou não
ser descritas).
O segundo modo
definido por Thompson é a "coletânea de narrativas",
que pode agrupar várias histórias em torno de temas
comuns. A rememoração de datas históricas,
por exemplo, pode ser complementada pelos relatos orais de pessoas
que vivenciaram determinadas situações. Tanto pode
ser usado na entrevista conceitual como na investigativa,
afinal muitas questões poderão ser descortinadas a
partir de determinados depoimentos. Outro historiador, Alistair
Thomson (1997), ao realizar um trabalho de História Oral
com antigos sobreviventes australianos da Primeira Guerra Mundial,
levantou o véu da hipocrisia que existia na sociedade australiana,
que venerava os antigos combatentes como sendo grandes heróis,
quando na verdade eles também passaram por situações
de medo e de fuga que até o momento de publicação
do trabalho de pesquisa ainda não havia sido objeto de discussão
no interior da sociedade. Por se tratar de trabalho mais complexo,
é preciso que o jornalista (ou um grupo de jornalistas),
nesse caso, tenha um amplo domínio das técnicas da
história oral, mas se isto não for possível,
o profissional da área também poderá recorrer
aos centros de pesquisa de história oral que já têm
muitas pesquisas realizadas e que podem contribuir para a indicação
tanto de novas fontes como para novas versões de fatos históricos
tidos como definitivos.
A terceira forma
levantada por Paul Thompson é a da análise cruzada:
"a evidência oral é tratada como fonte de informações
a partir da qual se organiza um texto expositivo" (1999, p.
304). Um pouco mais difícil de ser concretizada nos parâmetros
dos meios convencionais de comunicação, poderá
ser um pouco mais utilizada na produção de livros-reportagem,
por exemplo9.
Todas essas
formas não desconsideram, em absoluto, a importância
dos registros escritos, mas sempre com a preocupação
de que "nenhum documento é inocente" (LE GOFF,
1984, p. 221) e justamente por causa disso não tem uma sustentação
autônoma no processo histórico, ou seja, não
pode ser considerado o "porta-voz" do acontecimento, representando
somente mais um elemento para a composição do cenário
histórico Um dos limites da História Oral seriam os
falsos testemunhos, entretanto no processo de captação
o jornalista estará sempre sujeito a este problema, por isso
a checagem das informações deve ser um procedimento
constante. Qualquer análise mais cuidadosa deverá
sempre levar em consideração que tanto o documento
escrito quanto o depoimento oral não são conclusivos
nem totalmente verdadeiros, pois deve-se ter em mente que há
condicionantes políticos, ideológicos e culturais
permeando as informações coletadas.
Considerações
finais
Repórter
e fonte: um encontro possível. A História Oral pode
contribuir por dois aspectos que lhe são essenciais e não
muito praticados pelo jornalismo contemporâneo: dar voz aos
anônimos10
e dar espaço para fatos singulares, não espetaculares.
Para conseguir atingir estes dois aspectos o jornalista deve ter
respeito e tolerância ao realizar a entrevista.
A proposta aqui
levantada não pretende ser completa, muito menos definitiva
- mesmo porque precisa haver o imbricamento entre a pauta e a própria
captação -, representa somente algumas sugestões
que, entre outras, precisam ser cada vez mais discutidas no ambiente
dos cursos de jornalismo e também pelos profissionais da
área. As pressões econômicas, políticas
e culturais, entre outras, não podem servir de pretexto para
o "enquadramento" da profissão às regras
dos Manuais de Redação. É sabido que o jornalista
não é um ser autônomo no contexto da comunicação,
entretanto, mesmo com as dificuldades inerentes ao processo há
vários exemplos de entrevistas veiculadas, atualmente, que
contribuem para uma produção mais diversificada, o
que seria interessante é a ampliação destas
experiências.
A formação
dos jornalistas (tanto na academia quanto no ambiente das redações)
também deve ser objeto de constante discussão, já
que propostas mais arrojadas só podem ser colocadas em prática
por profissionais versáteis, conectados não só
com o conhecimento técnico, sistematizado, mas também
com as experiências de vida. A pesquisadora Maria Aparecida
Baccega ao discutir a construção do campo da comunicação
estabelece uma relação entre o discurso da história,
da literatura e do jornalismo, que evidencia a importância
do papel de mediador do jornalista na contemporaneidade.
O
sujeito comunicador trabalha com o cotidiano, tal qual o escritor.
Também ele terá de ter sensibilidade para desvelar
o aspecto cambiante da palavra, 'assumindo, desse modo, seu papel
de mudança'. Mas, para assumir esse papel de mudança,
tem que ter sentido da totalidade, tem que conhecer o passado,
tem que saber elaborar/reelaborar essas duas realidades conjuntamente,
dialeticamente. E isso o difere do escritor e do historiador.
Se o primeiro trabalha com o cotidiano, do presente ou do passado,
a partir do qual cria seu universo e nele faz circular seus personagens
e, se o segundo trabalha com o passado, reelaborando-o cientificamente
a partir do presente, ao comunicador competem as duas operações
conjuntamente. Sem dúvida, a exigência é maior.
(1998, p. 61)
Esta exigência
torna-se ainda mais complexa ao se pensar que o material jornalístico
produzido hoje também servirá como referência
para futuros pesquisadores. Se o legado para o futuro se pautar
somente pelas fontes oficiais, recorrentes, a realidade não
poderá ser vista de maneira mais rica, diversificada. É
preciso que o jornalista tenha disposição para escutar.
"Quem não consegue parar de falar, nem resistir à
tentação de discordar do informante, ou de lhe impor
suas próprias idéias, irá obter informações
que, ou são inúteis, ou positivamente enganosas".
(THOMPSON, 1992, p. 254,). Ser mais despojado, ao mesmo tempo possuir
um repertório cultural capaz de aliar a técnica, a
estética e a ética em sua prática é
um desafio, difícil, mas possível de ser atingido
por aqueles que não estão conformados com a própria
realidade.
Notas bibliográficas
(1) Não me refiro aqui as contribuições
de Philip Meyer, entre outros, que tem contribuições
importantes no sentido da precisão jornalística, mas
sim aos cadernos de normas e redação de alguns veículos
que tentam uma padronização de procedimentos que,
muitas vezes, entorpecem a criatividade tanto do processo de captação
quanto da produção textual e edição
das matérias.
(2) Edgar Morin define quatro tipos de entrevistas:
entrevista-rito, entrevista-anedótica, entrevista-diálogo
e as neoconfissões.
(3) Como afirma Felipe Pena (2005) a objetividade
não pode ser definida em oposição a subjetividade,
ao contrário, ela representa um método que pode assegurar
um rigor científico ao se reportar a realidade.
(4) Neste trabalho, o termo entrevista é
utilizado em um sentido mais autônomo da produção
jornalística, já que o termo entrevista também
pode usado para a checagem de certas informações,
bem como para alimentar determinadas matérias com declarações
de entrevistados.
(5) Importante registrar os livros de Mário
L. Erbolato, José Marques de Melo, Luiz Beltrão e
Juarez Bahia. Ver as referências completas destes autores
na Bibliografia deste trabalho.
(6) Um trabalho escrito por Joëlle Rouchou
levanta algumas questões, de um modo mais geral, que evidenciam
a proximidade entre a história oral e a técnica de
entrevista (Ver Referências Bibliográficas). Em minha
tese de doutorado, intitulada "Quadros radiofônicos:
memórias da comunidade radiouvinte paulistana (1930-1950)",
também utilizo o recurso da história oral e da entrevista
- por intermédio da pesquisa de recepção -
com o objetivo de recuperar o ambiente radiofônico da época,
inclusive do radiojornalismo.
(7) A fim de produzir uma reportagem sobre
os anônimos que utilizam o Metrô paulistano cotidianamente,
fiquei cerca de 10 dias, alternados, fazendo caminhadas entre a
estação Jabaquara e as ruas que circundam a região,
tanto geográfica quanto culturalmente acabei indo parar em
lugares inimagináveis (pelo menos para mim). O resultado
dessa reportagem pode ser conferido no livro organizado por Cremilda
Medina (1999).
(8) Vale ressaltar que a metodologia da História
Oral pode ser utilizada pelos meios impressos, radiofônicos,
televisivos e digitais (massivos ou não) e, ainda, pelas
mídias radicais, comunitárias ou alternativas.
(9) Edvaldo Pereira Lima (1993) apresenta
relevante trabalho sobre a ampliação do jornalismo
por intermédio dos livros-reportagem.
(10) Este é um dos aspectos da História
Oral, que, por outro lado, também pode ser usada para estudos
de determinadas instituições e/ou grupos sociais como
empresários, militares, entre outros.
Referências
Bibliográficas
BACCEGA,
Maria Aparecida. Comunicação e linguagem: Discursos
e ciência. São Paulo: Moderna, 1998.
BAHIA, Juarez .Jornal, História e Técnica.
São Paulo: Ática, 1990
BELTRÃO, Luiz. A imprensa informativa. São
Paulo: Folco Masucci, 1969.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política:
ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas,
vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1993.
CASTELLO, José. Inventário das sombras. Rio
de Janeiro: Record, 1999.
ERBOLATO, Mário L. Técnicas de codificação
em jornalismo: redação, captação e edição
do jornal diário. Petrópolis: Vozes, 1984.
LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista
e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001.
LE GOFF, Jacques. "História". In ENCICLOPEDIA
EINAUDI. Rio de Janeiro, 1984.
LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o Livro-reportagem
como extensão do jornalismo e da literatura. Campinas, São
Paulo: Editora da UNICAMP, 1993.
MAIA, Marta Regina. Quadros radiofônicos: memórias
da comuidade radiouvinte paulistana (1930-1950). 2003. Tese (Doutorado
em Comunicação) Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo, São Paulo.
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