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Identificações
e estratégias nas relações
étnicas na telenovela "Da Cor do Pecado"1
Dennis
de Oliveira2
e
Maria Ângela Pavan3
Resumo
Este artigo
faz uma análise das estratégias dos personagens da
telenovela Da cor do pecado, transmitida pela Rede Globo
de Televisão no horário das 19h00, no primeiro semestre
de 2004, particularmente no tocante às relações
étnicas. Para este estudo, utilizou-se os referenciais da
corrente conhecida como "Estudos Culturais" (ou Escola
de Birmingham) , em especial o teórico jamaicano Stuart Hall.
Com base nestes referenciais teóricos e uma análise
empírica de cenas da telenovela que demonstram conflitos
nas relações inter-étnicas, traçou-se
um quadro de referências existentes na trama a respeito de
estratégias apontadas como positivas e negativas no enfrentamento
do preconceito racial.
Palavras
chave: Processos Mediáticos e Culturais; Telenovela e
Relações Étnicas; Mídia e racismo; Contra-hegemonia
e comunicação; Minorias.
1. Introdução
A novela Da
cor do pecado, escrita por João Emanuel Carneiro com
supervisão de Silvio de Abreu e direção geral
de Denise Saraceni, foi ao ar na Rede Globo de Televisão
no primeiro semestre de 2004. A trama central da telenovela centra-se
na personagem Preta (Taís Araújo), uma moça
negra maranhense, que tem um romance com Paco (Reinaldo Gianecchini),
relação da qual nasceu um filho de nome Raí
(Sérgio Malheiros). Entretanto, Paco era namorado de Bárbara
(Giovanna Antonelli), uma moça rica e egoísta, que
fica inconformada de ser trocada por uma mulher negra e pobre do
Maranhão. O namorado é a única forma de salvá-la
da decadência, pois sua família está falida.
A novela, basicamente, conta a trajetória de dois irmãos
Paco e Apolo (Reynaldo Gianecchini) gêmeos que desconhecem
a existência um do outro. De um lado está Paco, que
é um botânico dedicado à profissão, que
por opção, vive uma vida pacata de classe média
no Rio de Janeiro e não concorda com a forma pela qual seu
pai, Afonso Lambertini (Lima Duarte), construiu seu império.
Apolo vive com a mãe e irmãos, mas os gêmeos
se cruzam e uma tragédia leva a vida de Apolo e Paco volta
para viver no lugar do irmão depois de oito anos do acidente.
Neste tempo se afasta de Preta (que agora tem um filho seu) e começa
uma eterna desconfiança na relação com ela.
Sabemos como será o final da história, eles viverão
felizes e os maus serão desmascarados. Até esta história
siderar para o que os olhos possam ver o que deseja, muitas palavras
nas sombras que segregam os afrodescentes teremos que ouvir.
Este artigo
faz uma análise das relações raciais existentes
na novela a partir de alguns diálogos selecionados. A justificativa
para a realização desta análise dá-se
pelo fato desta novela ter despertado uma série de posicionamentos
a respeito da forma como ela trata as relações raciais.
Estes posicionamentos foram diversos. Variaram desde uma visão
positiva justificada pelo fato de ser a primeira telenovela global
em que uma atriz negra é a protagonista da história
(Taís Araújo), passando pelo fato de que a personagem
representada por esta atriz é vítima de racismo, praticado
pelo núcleo "antagonista" da história (representado
pelos personagens Bárbara (Giovanna Antonelli) e Afonso (Lima
Duarte).
Os que partilham
desta visão consideram que o fato da maior emissora do país
colocar uma atriz negra como a personagem principal da história
e, mais, como a heroína (que, tudo indica, terá um
final feliz com seu "par romântico", o personagem
Paco, representado por Gianechinni) é uma primeira vitória
da luta do movimento negro em conquistar espaços na mídia,
uma bandeira antiga dos que consideram que há uma invisibilidade
do afrodescendente brasileiro reforçado pelos estereótipos
brancos midiatizados.
A atriz principal,
Taís Araújo, em entrevista à Revista Raça,
declarou que:
"Xica
da Silva foi um marco importante (nesta novela, Taís Araújo
fez o seu primeiro papel principal, como filha de Zezé
Mota) Mas uma negra estrelando uma novela da Globo, a primeira
rede de tevê do país e a terceira do mundo, significa
tudo de bom. Vejo como um degrau importante para o fim do preconceito
racial. Uma empresa de comunicação e formadora de
opinião está avalizando a nossa luta."4
A mesma edição
da revista Raça Brasil celebra o espaço conquistado
pelo negro na mídia brasileira. Na reportagem intitulada
O Descobrimento do Brasil, assinada pela jornalista Joyce
Ribeiro, a chamada afirma: "Até bem pouco tempo,
quando se ligava a televisão, ou abria-se uma revista, tínhamos
a impressão de que estávamos em algum país
da Europa. Hoje, a realidade já é outra".5
Segundo a reportagem,
a presença maior do negro na mídia deve-se a uma percepção
de que há um segmento afrodescendente com potencial consumidor.
A já conhecida pesquisa realizada pelo Instituto Grottera
realizada no final dos anos 80 que indica que há uma classe
média negra composta por cerca de 8 milhões de pessoas
que movimenta 50 bilhões de reais por ano e renda mensal
superior a 2.300 reais. Estes afrodescendentes, segundo a mesma
pesquisa, tem sonhos de consumo iguais aos da classe média
branca (grifos nossos), com uma diferença: sete em cada
dez negros sentem-se induzidos a comprar produtos que tenham protagonistas
negros em sua propaganda. A telenovela Da cor do pecado é
um indicador desta identificação racial: a audiência
dela fica em torno de 42 pontos no Ibope, e as pesquisas qualitativas
demonstram que existe uma parcela majoritária de afrodescendentes
nesta audiência em função do protagonismo de
Taís Araújo e a existência de um núcleo
de personagens negros na trama central da ficção6.
Outro artigo
no jornal "Agora" mostra que a novela está batendo
uma média de 41 pontos de audiência e que no dia cinco
de maio quando o casal Paco e Preta se beijaram num encontro a audiência
bateu 49 pontos. A matéria diz que a relação
inter-racial está agradando o público.7
Há também o questionamento de Joel Zito Araújo,
que até 1997 monitorou a participação de negros
na TV em 174 novelas exibidas entre 1964 até 1997 pela TV
Globo e antiga TV Tupi. Araújo diz que continua monitorando
a TV e afirma que a situação melhorou um pouco, mas
ainda está longe de ser ideal, "Em termos numéricos,
quase nada mudou. A participação dos negros fica abaixo
dos 10% do elenco, mesmo em "Da cor do Pecado".8
Porém, pretendemos neste artigo, não desconsiderando
a importância do espaço conquistado pelos negros na
mídia como esta telenovela pode demonstrar, levantar outras
questões importantes para que a mera ocupação
do espaço não seja vista como o suficiente para considerarmos
que os mecanismos de preconceito racial estejam em declínio
na mídia. Ao colocar negros e brancos em situações
relacionais de conflito, é importante fazer uma leitura acurada
de como a telenovela constrói as minitramas e os diálogos,
onde se desenvolvem estas situações relacionais, quais
perspectivas são apontadas para a solução de
tais conflitos. Estas questões são importantes, porque
consideramos que os produtos midiáticos, longe de apontar
saídas únicas e irrefutáveis, apresentam um
conjunto de interpelações e possibilidades de assujeitamentos9,
evidentemente apontando conseqüências distintas para
cada uma destas possibilidades.
Os questionamentos
apresentados pelos movimentos negros a respeito da novela "Da
cor do pecado" direcionaram para o nome da novela (que relembra
a idéia de que o negro é a cor do pecado, a mulher
negra é a tentação) reforçada na música-tema
de Bororo: - "Esse corpo moreno/cheiroso, gostoso/ que você
tem/ é um corpo delgado/ da cor do pecado/ que faz tão
bem" na música real que não é tocada na
apresentação da novela a letra da música diz
- "E quando você me responde / umas coisas com graça/
a vergonha se esconde/ porque se revela a maldade da raça".
Só a música tema seria um importante elemento a ser
ressaltado pelos estudos culturais.
O pesquisador
canadense van Dijk diz que precisamos levar em consideração
os discursos sociais, diálogos socializantes pois estes discursos
"desempenham um papel central tanto na produção
quanto na reprodução do preconceito e do racismo".
Dijk esclarece que esse discurso atua nos níveis micro e
macro, assim como nos registros de interação e da
cognição.10
Dois artigos
do jornalista e pesquisador Paulo J. Rafael11
no site Observatório da Imprensa suscitou este debate. Rafael
refuta a idéia de que a Rede Globo estava abrindo mais espaço
para os afrodescendentes em função de colocar no papel
principal uma atriz negra. Segundo ele, esta "concessão"
da Globo teve um preço - o reforço da idéia
da mulher negra como "amante", como a "tentação".
Tanto é que, na seqüência desta polêmica,
organizações de mulheres negras protocolaram uma carta
de protesto à Rede Globo, expondo estes pontos de vista.
Stuart Hall comenta que o modernismo gosta da diferença e
do exótico.
Este debate
a respeito da telenovela tem grande importância porque transcende
de uma situação reivindicatória de ocupação
do espaço para a discussão sobre como ocupar este
espaço. É fato que a pressão do movimento contra
o racismo e o próprio reconhecimento das instituições
da existência do racismo contribuiu para que a quase invisibilidade
do negro na mídia fosse reduzida. O maior capital da mídia
é a sua credibilidade, ela se propõe a ser um simulacro
do espaço societário. Por isto, mudanças em
valores e pressões de determinados segmentos sociais tem
reflexos nos imaginários construídos no espaço
midiático - é o que explica a Globo ter colocado o
núcleo de atores negros no centro da trama desta telenovela.
Entretanto,
conforme se depreende da visão de Gramsci a respeito de cultura
como espaço de conflitos, os conflitos das visões
múltiplas sobre as relações raciais estão
presentes na esfera midiática. Assim, ocupar os lugares na
esfera midiática hegemônica não é o suficiente.
Para isso Hall propõe uma estratégia ao movimento
negro, ele pede para que a cultura popular negra busque sua singularidade
constantemente. Para isso coloca algumas questões: - Quem
sou? -De onde venho? Estas questões fortalecem a estratégia
futura de reconhecimento como bem coloca Muniz Sodré.
"Contornar
esse desdobramento violento do mal-estar individualista, que é
o racismo, implica engendrar lugares de trânsito (ético-políticos)
entre as singularidades. Na prática, isto significa levar
indivíduos e instituições a assumirem ou
incorporarem o princípio da diversidade humana como uma
anterioridade simbólica (e não como mera conseqüência)
para os desenvolvimentos jurídicos, políticos e
econômicos que possam intervir na espinhosa questão
da diferença e da desigualdade entre os homens".12
Segundo Stuart
Hall a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo,
através de processos inconscientes, e não algo inato.
Existe sempre algo "imaginário" ou fantasiado sobre
sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre
"em processo", sempre "sendo formada".13
Em vez de falarmos da identidade como uma coisa acabada, deveríamos
falar de identificação, e vê-la como um processo
em andamento. E acrescenta que a identidade surge não tanto
da plenitude da identidade que já está dentro de nós
como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é
"preenchida" a partir de nosso exterior, pelas formas
através das quais nós imaginamos ser vistos por outros.
Se a novela continua a construir o estereotipo do negro visto pelo
mainstream, estaremos não construindo uma identidade,
mas aceitando as equivocadas formas de olhar sobre a negritude.
2. Marcos
teóricos
A análise
das relações raciais na novela Da Cor do Pecado
foi feita com base nos pressupostos teóricos da corrente
chamada Estudos Culturais (Escola de Birmigham). Os Estudos Culturais
propõem uma análise das instâncias produtoras
de bens simbólicos e dos mecanismos de circulação
dos mesmos com base nas discussões sobre identidades e mediações
culturais. Para esta análise, utilizamos particularmente
as discussões de Stuart Hall14
e a hipótese do Cenário de Representação
Política (CR-P), conceito proposto pelo grupo de Mídia
e Política da Universidade de Brasília.
Segundo Venício
Lima, a hipótese do CR-P referencia-se no conceito gramsciano
de hegemonia que, segundo ele,
"Além
de situar-se dentro da tradição marxista em contraste
claro com o estruturalismo e com o funcionalismo - implícitos
ou explícitos como paradigmas dominantes nas abordagens
que utilizam os conceitos de imaginário social ou cultura
política - deles também se diferencia ao insistir
em relacionar a totalidade do processo social com distribuições
específicas de poder e influência. Isto significa
que numa sociedade de classes há sobretudo desigualdade
de classes, vale dizer, domínio e subordinação
dentro do processo social total. Desta forma, temos obrigatoriamente
que acrescentar ao conceito de hegemonia o conceito de contra-hegemonia
ou hegemonia alternativa."15
O conceito de
hegemonia implica na visão de que o campo da cultura é
um espaço de conflitos, onde diversas possibilidades de interpelações
atuam. Ao avocar para si o espaço dos conflitos político-ideológicos,
a mídia se transforma no palco central das representações
políticas. Assim, a visão que temos dos produtos mediáticos
é que eles apresentam estas várias possibilidades
interpelativas. Entretanto, uma - ou um conjunto delas - se sobressai,
se apresenta como a hegemônica. Em uma obra ficcional, como
telenovela, cuja narrativa se referencia nas lógicas antitéticas
bem/mal, certo/errado, mocinho/bandido, herói/vilão,
a hegemonia se apresenta dentro do campo das referências tidas
como positivas ou que são vencedoras nas minitramas. A hegemonia
é, então, associada a idéia de vencedora
- e seus processos apresentados como eficientes em função
do resultado final obtido.
Dentro deste
campo midiático, a telenovela tem um papel de grande relevância.
Segundo Mauro Porto,
"No Brasil,
poucos fenômenos sociais se caracterizam por um êxito
tão marcante junto à população e um
simultâneo descaso junto aos cientistas políticos
como as telenovelas. Milhões de brasileiros assistem diariamente
à novela das oito, o gênero de programação
de maior sucesso e audiência."16
Agregamos a
estas discussões conceituais referentes à relação
entre telenovela e política às discussões de
cotidiano feitas por Michel de Certeau. Isto porque, conforme defende
Stuart Hall, o movimento anti-racista - assim como o movimento feminista
- teve o papel importante de transcender a discussão política
da dimensão pública para a o espaço do cotidiano.
A telenovela, ao mesmo tempo que se trata do principal fenômeno
social e elemento central na construção do cenário
de representação política, também articula
esta dimensão política ao cotidiano, pois trata-se
de uma história ficcional centrada em tramas do cotidiano
das personagens. As identificações/projeções
que o público constrói a partir das personagens/valores
apresentados pelas telenovelas implica na absorção
de modelos de comportamentos políticos e posturas em relação
aos conflitos propostos pelas telenovelas. No caso das relações
raciais, a telenovela, longe de negar a existência do racismo,
apresenta diversos modelos de comportamento - que implica em formas
de absorção, enfrentamento e transcendência.
Cuidar do momento
presente nos remete as considerações de Bergson quando
afirma:
"Nada
é menos que o momento presente, se você entender
por isso esse limite indivisível que separa o passado do
futuro. Quando pensamos esse presente como devendo ser, ele ainda
não é; e, quando o pensamos como existindo, ele
já passou".17
3. Procedimentos
metodológicos e análise
Para a realização
deste trabalho, foram analisados os capítulos da telenovela
no período de 19 a 23 de abril de 2004. A preocupação
principal desta análise centrou-se nas cenas que se referem
direta ou indiretamente às relações entre alguns
personagens brancos e negros da trama.
Com base nestas
análises, construímos uma caracterização
das personagens e suas estratégias adotadas nas relações
inter-raciais. Desta forma, percebemos que a telenovela apresenta
ao público uma gama de possibilidades de interpelações
no campo racial e, conseqüentemente, formas distintas de assujeitamento.
O silêncio
que está contido no tema da novela implica algum sentido
que incomoda todos os ouvidos que estiverem no mínimo abertos.
É um retorno ao mundo da hostilidade que a "alta cultura
européia" demonstrava no tratamento as diferente etnias
(cultura essa representada na novela pela personagem vilã
Bárbara - Giovanna Antonelli) e a aceitação
da pós-modernidade para com o sabor exótico, diferente,
como diz Stuart Hall "não há nada que o pós
modernismo global mais adore do que um certo tipo de diferença:
um toque de etnicidade, um "sabor"do exótico e,
como dizemos em inglês, a bit of the other (expressão
que no Reino Unido possui não só uma conotação
étnica, como também sexual)."18
Mas o autor da novela - João Emanuel Carneiro - diz que não
quer em hipótese nenhuma polemizar sobre a negritude.
A personagem
principal, Preta, enfrenta manifestações explícitas
de preconceito de Afonso e Bárbara, um preconceito velado
na desconfiança e no inconformismo de Pacco, e se conflita
com Dodô. Este último é o único personagem
negro que assume abertamente um discurso de identidade negra (cabelo
trançado, quer gravar um disco de música negra, usa
o argumento racial para tentar convencer o filho de Preta de que
ele é seu pai _ "você é da nossa cor",
diz ele em cena 3 do 1º bloco do dia 19 de abril e enfrenta
o núcleo branco racista reafirmando sua negritude. É
o único personagem do núcleo negro que vai abertamente
para o confronto ( de 20/04/04 - Cena 2).
Contrariamente,
Preta se porta como vítima. No período analisado,
quando há a desconfiança de Afonso de que Raí
não é o seu neto, chora copiosamente, quase que implora
para que o pai de Paco acredite nela. Demonstra-se abertamente impotente
diante da "armação" que fazem para ela.
No núcleo branco, tem a confiança de Germana que,
apesar da posição de Afonso, acredita na sua história
e afirma que ela "é a maior vítima de toda esta
história". Porém, o conselho que ela dá
a Preta é dar tempo ao tempo - isto é, a passividade,
o não confronto, aguardar que as coisas vão se acertar.
No núcleo negro, ainda há o personagem Felipe, que
representa o negro bem comportado, "incolor", tolerado
pelo racista Afonso que até quer que ele se afaste de Preta,
depois da briga que teve com a ex-namorada do seu filho. Felipe
atua como um protetor da vítima Preta, consola-a, proíbe-a
de ir ao encontro de Dodô (sugestão pontualmente feita
por ela, num único indício de saída da sua
passividade diante da situação), mas se incomoda com
a possibilidade do filho de sua namorada ser de Dodô, ao invés
do branco Paco. Felipe embora fique a espera do olhar de Preta,
é o segundo na empresa do Afonso e também está
em segundo plano no coração de Preta.
Paco, o ex-namorado
de Preta, que sumiu em função de ter desconfiado da
sua ex-namorada Preta, demonstra em diversos momentos um certo inconformismo
por ter sido preterido. Embora lembre com carinho da sua ex-namorada,
não se conforma em pensar na possibilidade de ter sido traído
por ela.
Já Bárbara
é o arquétipo da vilã. Concentra todas as más
qualidades. A armação, a conspiração,
parece ser uma constante nas estratégias dos seus atos. A
vingança é o único sentimento que a move. Despeja
as manifestações preconceituosas e racistas mais vis.
Contrariamente a Afonso, também um racista, mas que deixa
transparecer uma certa dose de tolerância - ou com a subalternidade
de Felipe, seu empregado, ou "civilizado" pelo amor para
com seu neto, Bárbara não deixa nenhuma margem para
isto.
Dentro deste
quadro de personagens, o que temos como estratégias e movimentos
é:
Primeiro:
Preta, embora a heroína da história, ainda atua como
o elemento perturbador da ordem familiar branca. Perturba o namoro
de Paco e Bárbara, cria tensões na família
de Paco, cria tensões na cabeça de Paco após
o sumiço deste e manbtém uma relação
com Felipe mesmo deixando claro sua preferência por Paco.
Segundo:
Ainda Preta. O seu movimento nas relações raciais
é o da passividade. Se porta como vítima, frágil,
que necessita de apoio, proteção, dó. O tipo
físico da atriz - menina, bonita - reforça esta imagem.
Neste sentido, Preta aponta para uma relação racial
de fragilidade de um dos pólos que necessita de uma
ação paternalista. Além disso, tem uma
perspectiva de relação estável com um branco
(Paco), familiar com brancos (Afonso e família) e de amores
pontuais com negros (Dodô e Felipe).
Terceiro:
Dodô é o personagem do confronto. Sua imagem é
um discurso racial, reforçado ainda mais pelas suas falas.
É criminalizado pelo racista Afonso ("gentalha, um tipo
de quinta categoria" - 20/04/04 - 4º bloco, cena 4), articula-se
com o núcleo vilão, se coloca como mercenário
e é rejeitado pelos outros do núcleo negro (Preta,
Felipe e Raí). É punido com a morte ao rebelar-se
da sua subalternidade à vilã Bárbara.
Quarto:
Afonso é o racista que "tem jeito" pois demonstra
tolerar um negro "incolor" (Felipe), mas mesmo assim o
coloca em segundo lugar na empresa. Afonso também não
esconde seu amor pelo neto, filho de Preta. É o tipo que
pode migrar de uma postura abertamente racista para a de "racismo
cordial", ou mitigado.
Quinto: Paco
é o que só demonstra tolerância racial na relação
com Preta (indício de que a novela aponta para que o "amor"
vence tudo). O preconceito velado na sua mente se expressa com o
inconformismo de ter perdido Preta - em outras palavras,
pelo fato da mulher negra ter assumido uma condição
ativa na relação com ele. Em outras palavras, o indício
é de uma relação inter-racial onde a mulher
negra seria subordinada.
Sexto: Felipe,
como o negro bem sucedido, é aceito por Afonso, protege paternalmente
Preta e não se incomoda com os indícios da relação
anterior (e do amor explícito) de Preta com Paco (branco),
mas se incomoda com a lembrança da uma relação
mais antiga (e sem perspectiva aparente de retomada) dela com Dodô
(negro). Felipe representa, assim, a idéia da saída
individual e liberal do preconceito, articulada com uma postura
protetora e paternal com um irmão frágil (Preta).
É o movimento de busca de combate ao racismo via liberal-paternalismo.
Ao mesmo tempo, Felipe aceita ser subalterno em dois momentos importantes
de sua vida: aceita ser subalterno na empresa que trabalha,
aceita ser subalterno no coração da mulher
que ama (Preta). Tanto na empresa, como no coração
de Preta, os primeiros são brancos. A sua posição
de negro bem sucedido aparece como resultado de ser bem
comportado (isto é, não entrar em confronto com
os seus antagonistas brancos). Felipe também compartilha
do combate ao personagem negro do confronto, Dodô.
Sétimo:
Bárbara é o protótipo do racismo mais exacerbado.
A crítica a esta postura está na sua postura de vilã
tradicional, reunindo todos os sentimentos mais desprezíveis
como a inveja, a conspiração, o abuso do poder econômico
(neste caso, a diferença com Afonso fica evidenciada na cena
do capítulo do dia 20/04/04 no terceiro bloco, cena 1 - em
que o pai de Paco conversa com Felipe e diz: "Eu poderia exigir,
porque você é meu funcionário, mas vou apenas
pedir para se afastar de Preta"), entre outros.
Oitavo: Germana
é a protótipo do branco "bonzinho", liberal,
paternalista que se move por valores morais cristãos
e não ético-políticos. Considera Preta vítima
de uma armação e não vítima do racismo.
Não rompe com Afonso quando este demonstra em seus discursos
uma postura abertamente preconceituosa - acha que ele tem jeito
de se curar. Não propõe a Preta uma postura de afirmação,
mas de passividade, esperando o tempo resolver.
Nono: O
menino Raí, também é apresentado como vítima
de toda esta trama, mas é ao mesmo tempo querido por todos
- exceto por Bárbara, a vilã mor. A sua condição
de ser negro e querido por todos o coloca como o elemento "civilizador"
de todas as relações - é a causa da proteção
de Felipe e Germana para com Preta, é o elemento que mitiga
o racismo de Afonso e é apontado por Germana como quem pode
"dobrar" a raiva de Afonso. Raí representa a idéia
do amor como elemento civilizatório. Mas Raí
aparece em todos os blocos do dia 21/04 e 22/04 com o discurso do
desenraizado, deslocado, sempre pede a mãe Preta que o leve
de volta para o Maranhão, onde tudo é melhor e diferente.
A partir deste
quadro, podemos enumerar as possibilidades de relações
raciais (interpelações) e as conseqüências
das projeções/identificações colocadas
pela trama:
a-) assumir
a identidade racial negra e partir para a confrontação:
desqualificação da imagem, punição com
a morte, isolamento entre os demais negros = idéia de vilão.
b-) postura
abertamente racista, de segregação e abuso do poder:
desvalorização moral da imagem, vitórias pontuais,
mas perspectivas de derrota = idéia de vilão.
c-) postura
de passividade, vitimização: heroína da
história, agregação de solidariedade de outros.
d-) postura
de preconceito velado com possibilidades de abertura: personagem
móvel, possibilidade de mudança, sentimentos explícitos,
tolerância.
e-) postura
de solidariedade, paternal: daltonismo e mestiçagem (acima
das clivagens raciais), reforço de normas morais pretensamente
universais - ponto de equilíbrio da vida.
As posturas
descritas nos itens a e b que apontam para uma caracterização
de um confronto aberto nas relações raciais são
criminalizadas na trama. Estas interpelações direcionam
para um assujeitamento criminalizado e com perspectivas de punições
e derrotas.
Já as
posturas dos itens c, d, e não são puníveis
e são apontadas como perspectivas corretas de enfrentamento
das relações inter-raciais. Para os afrodescendentes,
a telenovela interpela de forma positiva a postura passiva, de auto-vitimização,
de busca de saídas individuais e tentativa de convencimento
via aspectos morais dos antagonistas brancos. Para os brancos, a
telenovela aponta para uma postura paternalista ou de compaixão.
Conclusão:
Hall19
mostra que estamos vivendo uma época chamada de globalização
composta pela compressão do espaço e do tempo e isso
pode provocar o retorno de certas nuances políticas que já
foram descartadas há muito tempo. Hall também diz
que esta globalização é um sinônimo de
distanciamento, e quando se refere a este distanciamento, coloca
como resultado a homogeneização cultural exposta e
as identidades em declínio. Entretanto, o declínio
das identidades, segundo o mesmo Hall, decorre de uma visão
clássica de que tais identidades são fechadas
e autóctones, desconsiderando - ou considerando como
a sua morte - as modulações de tais processos na história.
É evidente
que, atualmente, os discursos midiáticos têm profundos
impactos nestas narrativas, deixando mais frágil qualquer
possibilidade de se considerar as identidades como estruturas fechadas.
Assim, a transcendência que Hall faz do conceito de identidades
para identificações é fundamental para
a compreensão deste estudo. A análise da telenovela
nos mostra que há um processo de negociações/conflitos
de identificações étnicas.
Este texto não
tem a intenção de polemizar, apenas não se
propõe silenciar, vamos olhar, ver, perceber, ouvir a mensagem
da TV, mas também não podemos permitir já que
sabemos que não somos meros receptores. Consumimos juntos
as mensagens da televisão mas elas não param sem nenhuma
conseqüência, todas as imagens e sons produzem uma circularidade
de sentidos que são necessários serem expostos. Fazemos
parte desta aldeia e através das redes que nos interligam
necessitamos falar para poder existir.20
A novela Da
cor do pecado sugere que na cor branca há também
"o mau", pois são personagens com o caráter
deformado. Os personagens negros - com exceção de
um deles - são íntegros, sérios e bons. Com
parentes, companheiros e bons amigos. Mas isso nos cheira suspeito,
porque a novela parece uma armadilha quando repete sem cessar as
mesmas frases de desvalorização da cultura e identidade
negra. Em todos os capítulos observados, elas se repetem
em todos os blocos e cenas.
Também
não se pode negar que a personagem Preta reforçou,
no público, a idéia da possibilidade de existência
de uma beleza negra. A atriz Taís Araújo virou
um "ídolo nacional", aparecendo em revistas, é
a capa do CD da trilha sonora da novela. É inegável
que a sua presença ostensiva na mídia contribui para,
no mínimo, questionar o padrão estético de
beleza branca. O nome da personagem - Preta - é um
marco. Segundo Taís Araújo,
"A Preta
é aceita também pelas crianças. Fico feliz
de ver menininhas loirinhas de olhos azuis passando por mim na
rua gritando: 'Preta, Preta, você é linda!' Quem
sabe a gente não vai criando uma geração
de crianças bacanas que podem olhar um negro e admirá-lo.
Na minha infância, eu só tinha a Xuxa para admirar
por falta de uma referência negra na tevê."21
A
importância desta fala da atriz, bem como das conclusões
tiradas da análise dos personagens da telenovela nos conflitos
inter-raciais nos aponta para uma questão fundamental: a
de que a mídia, como componente do campo da cultura, é
um espaço de conflitos, onde processos ininterruptos de confrontação/negociação
dão a sua mobilidade dialética. A pressão social
e política dos movimentos de combate ao racismo forçou
o campo da cultura a considerar as demandas sociais dos afrodescendentes,
entre eles, o questionamento a uma totalidade branco-européia
no espaço midiático.
Este questionamento
avançou também para uma repulsa a comportamentos racistas
explícitos e abertamente segregacionistas - daí o
discurso da telenovela condenar a postura da personagem Bárbara.
Assim, num primeiro momento, o fato de uma atriz negra ganhar visibilidade
e uma personagem branca abertamente racista ser a vilã da
história (é sintomático o fato desta personagem
ser representada pela atriz Giovana Antonelli que nunca fez papel
de vilã em telenovelas da Globo e é uma típica
representante do padrão estético de beleza branca)
pode apontar para uma mudança na ideologia explícita
na telenovela global favorável às demandas dos movimentos
anti-racistas.
Há esta
modulação, porém com um preço a pagar:
o reforço da idéia de que a superação
dos conflitos raciais dá-se unicamente pela via da negociação
e que o problema do racismo se resume a comportamentos desviantes
e não são fruto de questões estruturais, particularmente
das relações de classe. No campo dos vilões,
há uma composição policlassista e multi-racial
entre Bárbara e Dodô, com clara supremacia de classe
e raça de Bárbara; e no campo dos heróis,
também há esta composição policlassista
e multi-racial, cujo elemento intermediário é Felipe,
o mesmo que aceita ser subalterno dos brancos na vida profissional
e na vida amorosa. Podemos concluir que Felipe é o protótipo
de identidade étnica que o discurso da telenovela quer mostrar
como o mais adeqüado. Esta é a negociação
estabelecida: a visibilidade de Preta em troca do modelo Felipe
de comportamento ideal nas relações raciais.
Notas bibliográficas:
(1) Trabalho apresentado ao NP13 - Comunicação
e Cultura das Minorias do IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa
da Intercom
(2) Doutor em Ciências da Comunicação
pela ECA/USP, coordenador do curso de Jornalismo da Universidade
Metodista de Piracicaba e professor da Escola de Comunicações
e Artes da USP e da Universidade Anhembi Morumbi. Líder do
Grupo de Pesquisa "Processos Mediáticos e Culturais"
E-mail: dennisoliveira@uol.com.br
(3) Doutora em Multimeios pela Unicamp, professora da Faculdade
de Comunicação da Universidade Metodista de Piracicaba.
Membro do Grupo de Pesquisa "Processos Mediáticos e
Culturais" E-mail: angelalenotti@hotmail.com
(4) Revista RAÇA BRASIL n. 73, abril de 2004, p.20
(5) idem, p. 80
(6) idem, p. 81 e seguintes
(7) Agora. Casal inter-racial da novela das sete da Globo
é aprovado pelo público. Ciro Bonilho e Mary Pérsia
- 12/05/2004 - 10h 20.
(8) Da cor do Pecado ainda peca com negros, entrevista com
Joel Zito Araújo, www1.folha.uol.com.Br/folha/ilustrada
- em 13/05/2004.
(9) Utilizamos os conceitos de interpelações
e assujeitamentos como definidores dos mecanismos atuantes dos aparelhos
ideológicos do Estado, conforme proposição
teórica de Louis Althusser. Ver a este respeito a obra ALTHUSSER,
Louis. Sobre a reprodução. Petrópolis, Vozes,
1998. O conceito de "assujeitamento" também está
presente na Escola Francesa de Análise de Discurso, conforme
afirma Eni ORLANDI, Discurso e Leitura. Campinas: Unicamp, 2000
(10) DIJK, Teun A van. Cognição, discurso e
interação, Contexto. 1992 apud Muniz Sodré
(....) p. 242
(11) Racismo no horário nobre e No mundo da ficção
hipócrita da Globo, artigos de Paulo J. Rafael - jornalista
e professor em Ciências Políticas e Administração
Pública pela American World Univ. of Iowa, EUA. www.observatoriodaimprensa.com.br
- 22/05/2004.
(12) SODRÉ, Muniz. (...) Rejeição da
Alteridade. P. 264.
(13) HALL, Stuart. A identidade cultural
na pós modernidade. RJ: DP&A ed, 2001.p.38
(14) Os principais autores da Escola de Birmigham são
Raymond Williamns, Stuart Hall e John Thompson. Optamos pela utilização
dos estudos de Stuart Hall porque este dedicou-se parte dos seus
estudos à discussão das relações raciais.
(15) LIMA, Venício. CR-P: novos aspectos teóricos
e implicações para a análise política.
In: Revista Comunicação e Política. Vol. 1,
n. 3 Rio de Janeiro: Cebela, 1995, p.96
(16) PORTO, Mauro. Telenovelas e política: o CR-P
da eleição presidencial de 1994 in: Revista Comunicação
e Política. Vol. 1, n. 3 (abr;jun 95) Rio de Janeiro: Cebela,
1995, p. 56
(17) BERGSON. Henri. Matéria e Memória. SP:
Martins Fontes, 1990.
(18) HALL, Stuart. Da diáspora. Belo Horizonte: Editora
da UFMG, 2003, p. 337
(19) HALL, Stuart. A identidade cultural na pós modernidade.
S. Paulo: LPM
(20) MAFFESOLI, Michel - palestra em 16/09/2002 intitulada
"A Falência das ideologias e as novas formas de política"
em São Paulo na Universidade Cásper Libero.
(21) "Vim ao mundo para ser feliz", Entrevista
concedida por Taís Araújo à Marie Claire, maio
de 2004, p. 84.
Referências
bibliográficas:
Livros:
ALTHUSSER,
Louis. Sobre a reprodução. Petrópolis: Vozes,
1998.
BERGSON, Henri. Matéria e Memória. SP: Martins
Fontes, 1990.
CERTEAU, Michel. Artes de Fazer - A invenção
do Cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994.
FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas: uma arqueologia
das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
HALL, Stuart. Da Diáspora : identidade e Mediações
Culturais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.
_________. A identidade cultural na pós modernidade.Rio de
Janeiro: DP&A Editora, 2001
LIMA, Venício A. de. Mídia - teoria e política.
São Paulo: Ed. Perseu Abramo, 2001.
____________. CR-P: novos aspectos teóricos e implicações
para a análise política. In: Revista Comunicação
e Política. Vol. 1, n. 3 Rio de Janeiro: Cebela, 1995
PORTO, Mauro. Telenovelas e política: o CR-P da eleição
presidencial de 1994 in: Revista Comunicação e Política.
Vol. 1, n. 3 (abr;jun 95) Rio de Janeiro: Cebela, 1995, p. 56
SODRÉ, Muniz. Claros e Escuros -identidade, povo e
mídia no Brasil. Petrópolis, RJ: . Vozes. 2003.
Revistas:
Revista Raça Brasil n.73, abril 2004Revista
Marie Claire, maio/2004
Sites:
RAFAEL, Paulo J. "Racismo no horário nobre" e "No
mundo da ficção hipócrita da Globo" disponível
no site www.observatoriodaimprensa.com.br
- 22/05/2004 às 19h00
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