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Comunicação
de Massa e poder político: O atual discurso da Rede Globo
revelando seu empenho por uma nova imagem
Márcia
Fantinatti
Neste ensaio,
partindo da afirmação - nunca antes tão propalada
- de que as telenovelas incorporaram temas da realidade, examinamos
alguns aspectos que a empresa que as produz, a Rede Globo de Televisão,
tem feito questão de ressaltar sobre os principais itens
de sua programação. Juntamente com as definições
que têm dado para as suas novelas - e, segundo pensamos, de
modo articulado numa mesma fórmula - evidenciam-se pontos
do atual discurso da emissora a respeito de sua relação
com instituições, governos e movimentos sociais, nas
diferentes conjunturas.
Nos últimos
tempos, a Globo ampliou e deu visibilidade ao estudo e arquivo de
memória sobre si. Lançou um Dicionário, para
contar a história de suas produções; multiplicou
os especiais dedicados a sua "memória"; tornou
mais demarcados os 'aniversários' de cada item da programação,
tudo aproveitado para dar destaque a seus méritos e enfatizar
a prestação de serviços à cidadania:
encorpou-se a auto-propaganda. Vemos esse conjunto, que inclui outras
iniciativas, como parte de uma ampla estratégia de formação
de uma nova imagem.
Dentre os elementos
mais presentes no discurso recente, destacam-se os que convergem
para os seguintes pontos de argumentação: 1) A Globo
não recebeu favores de governos, nem foi criada com apoio
dos militares; 2) A Globo não omitiu ou manipulou fatos,
nem dispensou tratamento desigual a políticos e partidos,
conforme as conveniências do momento; 3) As novelas da Globo
não alienam, ao contrário, remetem à realidade.
Ao defender sua imagem pública, a direção da
Globo age em diferentes frentes, e parece ter consciência
das principais críticas que lhe cabem, dos ataques que acumulou
ao longo dos anos, ao consolidar-se como a principal rede de TV
do país: no que se refere às formas de implantação
(ligada aos militares, ao grupo Time-Life e seu capital estrangeiro)
e ao conteúdo da programação (caracterizada
pela omissão, pela auto-censura, pela distorção
e manipulação dos fatos e da realidade, pelo excesso
de fantasia e pelo conteúdo conformista que predominava na
programação que levava ao ar).
Antes de entrarmos
no exame detido desses pontos, levantamos hipóteses explicativas
para a promoção de mudanças (reais e ou de
imagem perante o público).
A partir dos
anos 90, a televisão no mundo todo se transforma. Na América
Latina, isso se reflete nas telenovelas, que passam a incorporar
mais abertamente questões sociais; entretanto, destacam-se
especificidades, características locais: dentre as motivações
da Globo para promover mudanças (ou ao menos, propagandeá-lo),
destaca-se a relação com os outros canais de televisão,
que na virada dos anos 80/90 se modifica em função
do acirramento da luta por audiência.
Em 1979, três
em cada quatro moradias sintonizavam a Globo; vinte anos depois,
em 1999, esse número cai, embora mantendo-se ainda elevado:
metade dos lares brasileiros se mantinham ligados na emissora. O
Jornal Nacional detinha 75% da audiência nacional em 1979
e passa a 53% em 1999 (1). A partir de 1992, a audiência do
chamado 'horário nobre' da Globo passa a decrescer velozmente.
Para o noticiário, a audiência caiu vertiginosamente
e em 1997, representava apenas pouco mais que a metade das médias
obtidas no final da década anterior, em 1989.
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Evolução
das médias de audiência do Jornal Nacional
Período 1989 - 1997 (*) dados do Ibope.
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1989
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1992
|
1995
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1997
|
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59
pontos
|
51
pontos
|
42
pontos
|
35
pontos
|
A queda brusca
de audiência do telejornal pode ser interpretada como 'deslegitimação
do emitente' (Eco & Fabri 1978); superado pela preferência
do público por informações dadas por emissoras
concorrentes, seja pela qualidade das mesmas ou pelo simples descrédito
despertado.
Em maio de 1990,
o SBT - fora da disputa de audiência das novelas, travada
então entre Globo e Rede Manchete - decidiu experimentar
a concorrência direta entre seu telejornal e o da Rede Globo,
levando ao ar o TJ Brasil, apresentado pelo, à época
prestigiado jornalista Boris Casoy, no mesmo horário do JN.
Apostando em credibilidade, Sílvio Santos, afirmava:
"Estou
sentindo, através de conversas com formadores de opinião,
que o nosso TJ Brasil tem mais credibilidade que o Jornal Nacional
e, como acredito que o público das classes A e B chega
em casa depois das 7 e meia, acho que o certo é passar
o nosso telejornal para as 8 horas" (Sílvio Santos,
cf. 'Tiroteio no vídeo' in: Veja, 09/05/1990).
O JN continuou
liderando a audiência, mas, de tempos em tempos, tendo novas
baixas. Em 2000 e em 2001, pelo sucesso, ainda que descontínuo
e momentâneo, de programas do SBT, respectivamente: 'Ratinho'
e 'A Casa dos Artistas'.
No que toca
diretamente às novelas, no período final da década
de 80 até meados da de 90, também não foram
mantidos os índices recordes da Globo, embora tenham se mantido
na liderança. 'Roque Santeiro' (1985), um dos marcos
de audiência na década de 80 na Globo, obteve já
na semana de estréia 67% da audiência nacional; no
primeiro mês de exibição, alcançou os
72%, saltando no segundo para 75%. Mantendo média geral de
74%, rondou, em alguns momentos, o patamar recorde de 80% da audiência,
somando 60 milhões de espectadores, segundo o Ibope (2).
Fato incômodo para a Globo virá em 1990, quando a novela
'Pantanal', escrita por Benedito Ruy Barbosa para a Manchete,
atingiu audiência comparável à de novelas globais.
No ano seguinte, foi a vez do SBT incomodar. A Globo, que já
obtivera audiência média na faixa de 70% nos anos 70,
de 60% na década de 80, iniciara mal o ano de 1991 com os
50% de 'Meu Bem, Meu Mal' e consegue apenas 41% com 'O
Dono do Mundo', de Gilberto Braga, que estreou na mesma data
em que o SBT levava ao ar 'Carrossel'. Indo ao ar às
20h, a novela mexicana 'Carrossel', da Televisa, exibida
no Brasil pelo SBT em 1991, mexeu tanto com a audiência do
JN, quanto da novela das oito na Globo. Três semanas antes
da estréia de 'Carrossel', o SBT tinha 6% da audiência
no horário, contra 54% do JN. Com 'Carrossel', o público
do SBT atingiu 21 pontos no Ibope, enquanto a Globo caía
para 41. Embora a novela exibida pelo SBT tenha ficado muito abaixo
dos índices da Globo, é certo que a produção
mexicana fez a líder perder pontos (3).
Somadas as preocupações
da emissora de recuperar sua posição de larga liderança
na preferência do público - e considerando a instalação
e expansão de novas tecnologias, tais como canais por assinatura
(UHF ou a cabo), que pulverizaram as audiências em diversas
partes do mundo -, também no campo da conjuntura política
se encontram fortíssimas motivações para os
processos de mudanças, que se referem sobretudo à
imagem da Globo, desencadeados a partir dos anos 90. É preciso
referirmo-nos à atuação dessa Rede nas eleições
presidenciais de 1989, e seu particular apoio ao candidato Fernando
Collor de Mello, afastado do cargo menos de dois anos depois de
eleito, por uma Comissão Parlamentar de Inquérito,
que apurou denúncias de corrupção envolvendo
seu governo. A Globo havia atuado velada, porém ativamente
em favor daquela candidatura, vinculando excessivamente sua imagem
à do político. Grandes atos públicos realizaram-se
pelo país, em 1992, pedindo o impeachment do presidente,
num amplo movimento popular. Mesmo sem afetá-la no plano
prático (não foi envolvida no processo parlamentar
que afastou o presidente), pode-se afirmar que os danos à
imagem do político "respingaram" na da maior emissora
de TV do país.
Reportagem de
1993 da TV inglesa, Channel 4, compara Roberto Marinho (dono das
Organizações Globo) ao fictício magnata das
comunicações criado por Orson Welles em "Citzen
Kane". O título antecipa as conclusões: "Muito
além do cidadão Kane". O poder das organizações
Globo teria superado a ficção, em que um magnata controlava
e manipulava a política, de modo direto e quase sem limites.
Abordando as manipulações da emissora brasileira,
aponta as formas utilizadas pela Globo, nas eleições
de 1990, para promover Fernando Collor, e o esforço para
depreciar o candidato de esquerda - chegando ao ponto de antecipar
a derrota deste, no telejornal, às vésperas do pleito
(4).
A Globo, então,
passa a empreender uma 'batalha' para afirmar-se como politicamente
autônoma e confiável na tarefa de informar sobre a
realidade do país; visando à recuperação
da imagem de credibilidade junto ao público e patrocinadores.
Ela teria tido que reorganizar sua forma de se apresentar, para
manter-se protegida de desmoralização e descrédito.
Daí o apelo a 'mais realidade' que se reflete nas telenovelas
nos anos 90, como tendência internacional sobre o gênero,
tal como em outros países da América Latina, mas também
como parte de uma nova ordem geral na Globo, que atinge toda a programação.
Foram diversas as modificações, da substituição
de apresentadores de telejornais por jornalistas, demissões
de altos funcionários da editoria jornalística. A
dupla que durante décadas apresentou o Jornal Nacional -
Cid Moreira e Sérgio Chapelin - cedeu lugar a jornalistas.
Até o visual mudou de modo a conferir mais credibilidade.
O noticiário - que teve papel decisivo e indisfarçável
na ajuda dada pela Globo para eleger Collor - passou a ser retransmitido
de ambiente de redação de jornal como cenário
(cuja função parece ser a de reconstituir a atmosfera
de produção de reportagens jornalísticas, com
elementos referenciais que lhe são correspondentes no imaginário
de nossa época, em que operadores de microcomputador, funcionários
falam ao telefone etc. são vistos simultaneamente à
apresentação das notícias).
As modificações
atingiram também o seu item de maior audiência, as
novelas. E respondem à necessidade de adaptação
aos novos tempos (não ditatoriais) e, simultaneamente, de
melhoria da imagem (após o episódio Collor).
A despeito do
aparente adesismo de setores da grande imprensa (com a chegada do
PT à Presidência da República), especificamente
sobre a Globo, é necessário enfatizar que esta já
vinha adotando medidas no sentido de mudar sua imagem, há
pelo menos 10 anos. A fala de um dos proprietários da Globo,
em 1994, é esclarecedora dos novos rumos que ela deveria
adotar:
"Precisamos
garantir que nosso jornalismo, nossa programação,
nossas ações comerciais e administrativas jamais
sejam influenciadas por interesses pessoais, amizade ou motivações
não transparentes." (5)
Independentemente
de examinar o cumprimento da premissa, importa destacar esse processo
de modificação da imagem - que é parte da guerra
permanente por audiência e por patrocínios.
A Globo não
recebeu favores de governos, nem foi criada com apoio dos militares?
A Globo se projeta
como uma estrutura de poder que não se pode subestimar; já
em 1985, era a quarta maior rede de televisão comercial do
mundo (superada apenas pelas norte-americanas CBS, ABC e NBC), e
a maior em volume de produção (80%), cobria 98% do
território brasileiro através de suas estações
e afiliadas, detendo quase metade da verba publicitária,
e também se consolidara como exportadora (Mattos, 1990:9).
Dados recentes confirmam as fabulosas dimensões:
"Hoje,
a Globo cobre praticamente todo o território nacional,
sendo vista por 99,84% dos 5.043 municípios brasileiros.
Os números da Rede Globo são prova definitiva
de seu crescimento: 113 emissoras entre Geradoras e Afiliadas,
74% de share no horário nobre, 56% no matutino, 59% no
vespertino e 69% de share de audiência no horário
noturno. (...) leva hoje a cultura brasileira a espectadores
de cerca de 130 países em todos os continentes. (...)"
(site da Rede Globo - dezembro/2001).
Ela se desenvolveu
e se consolidou durante o período de ditadura militar no
país (1964-1985), sendo íntima a relação
entre sua história e a do período autoritário
no Brasil. E emplacou por reunir três fatores: os fortes investimentos
(graças ao acordo com o grupo norte-americano Time-Life)
(6); poder contar com os favores do governo a quem servia (sob comando
dos militares) e os métodos de administração
modernos e racionais (a Time-Life não apenas financiou a
TV Globo, enviou-lhe seu "know-how"). Foi graças
à implantação do sistema de telecomunicações
da Embratel (Empresa Brasileira de Telecomunicações)
que pôde se ampliar, atingindo rapidamente amplas parcelas
do território nacional (Ramos & Borelli, 1991:81). Os
militares modificaram a política de comunicações,
criando o Ministério das Comunicações em 1967
e implantando, pela Embratel (filiada à Intelsat - Consórcio
Internacional de comunicações por Satélite),
o Plano Nacional de Telecomunicações que possibilita
as redes nacionais de TV, com estações repetidoras
(Mattelart, 1987), iniciativas das quais a Globo se beneficiou rápida
e diretamente.
As emissoras
de televisão em nosso país - e de modo particular,
a Rede Globo - tiveram papel ativo, auxiliando a disseminar ideologias
em sintonia com os propósitos dos governos militares. Tanto
as atitudes e os depoimentos de diretores da Globo quanto as declarações
dos governantes confirmam a relação 'amigável'
entre a Globo e os militares no poder. Entre os fatores facilitadores
do crescimento da Globo, Mattos (1984) destaca a rapidez com que
se desenvolveu a economia brasileira e sua indústria publicitária,
além do relacionamento amigável com os governos militares.
Kehl (1986a) descreve a Globo como: "Não diretamente
controlada, mas viabilizada pelo Estado (...)".
A seguir, trecho
de depoimento de um dos diretores executivos da Rede Globo, à
época do regime militar:
"Contem,
o presidente Geisel, as Forças Armadas, os legisladores,
com o apoio de todos os meios de comunicação social
deste país, que acima de seus debates e controvérsias
colocam sempre seu compromisso de orientar e conduzir a opinião
pública na sua luta permanente contra a radicalização,
em busca dos caminhos da Justiça, da Ordem e da Democracia."Depoimento
de Mauro Salles, citado em Kehl, (1986a:207).
Sobre a satisfação
dos governos com os meios de comunicação, destaca-se
a antológica frase de Médici, em 1973, dando conta
de sua tranqüilidade em relação aos noticiários
(subentenda-se: principalmente o JN), que tratavam de aliviar o
quadro real do país (Mattos, 1990:17):
"Sinto-me
feliz, todas as noites, quando ligo a televisão para
assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta
de greves, agitações, atentados e conflitos em
várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo
ao desenvolvimento. É como se tomasse um tranqüilizante
após um dia de trabalho."
Dessa espécie
de simbiose com os governos militares, a Globo, atualmente, defende-se.
Na fase atual, tenta se desvencilhar da imagem de empresa que teria
surgido e se desenvolvido à sombra dos 'anos de chumbo',
com auxílio de favores dos governos militares.
Em 1990 - portanto,
já no período pós regime militar - numa das
raras entrevistas que concedeu, Roberto Marinho fez questão
de frisar independência em relação aos militares.
"Não
recebi concessão nenhuma desses governos (militares),
comprei as televisões de empresários malsucedidos.
Só recebi duas concessões, uma do Juscelino,
que o Globo atacava, e a outra, do outro adversário,
o Jango Goulart, em 62, a TV de Brasília."
(Roberto Marinho, em 'O Estado de S. Paulo', 05/05/1990, pp.
4-5.) (Os grifos são nossos)
No site da emissora
também destaca-se o fato de ter obtido a concessão
de governos civis, anteriores ao período militar. E ainda
que, em vários casos, adquirira canais junto a grupos privados
já portadores da concessão (sem contato direto com
o respectivo governo):
"Eram
11h daquele 26 de abril, em 1965, quando a Rede Globo de Televisão
- então apenas o Canal 4 do Rio de Janeiro - entrava
no ar e dava início a uma trajetória vitoriosa.
(...) Destacando-se em um mercado televisivo essencialmente
amador, flagrante na data de sua inauguração,
a Rede Globo, cuja concessão no Rio fora outorgada no
governo do presidente Juscelino Kubitschek, foi ampliando sua
cobertura e, em pouco tempo, entrava no ar em São Paulo,
através do Canal 5 (antiga TV Paulista, adquirida
do grupo Victor Costa); em Belo Horizonte (pela emissora
adquirida do grupo J. B. Amaral em 1968), em Brasília,
em 1971 (concessão feita pelo presidente João
Goulart em 1962), e em Recife (através de emissora
adquirida do grupo Victor Costa), no ano seguinte."
- site da Rede Globo - link história da empresa, dezembro/2001.
(Os grifos são nossos)
Mas, por mais
que a publicidade da Globo busque desintegrar, no plano simbólico
(ou ideológico) o passado recente, caberia indagar se ela
consegue efetivamente fazê-lo no plano prático. Para
além de uma aliança tática - em que procuraria
conviver com um determinado tipo de governo, sem no entanto ser
conivente para com ele - a Globo compartilhou projetos nacionais
decisivos com os governos militares, tais como o da promoção
da integração nacional, visando desenvolver e impulsionar
o consumo de massa, em que acabam tendo papel central, as telenovelas.
Touraine (1969)
fala da integração social como forma de dominação,
ao abordar a manipulação cultural e os aparelhos administrativos;
e do acesso e controle da informação como fatores
de poder político. A sociedade pós-moderna seduz,
manipula e integra. Segundo Adorno (1977), a indústria
cultural é sinônimo da integração dos
consumidores.
Promover a integração
nacional - objetivo compartilhado pelas Organizações
Globo com os governos militares, e que rendeu a ela a ampliação
de seus interesses empresariais - esse é fundamentalmente
o intuito da emissora desde sua criação, e que se
coadunou perfeitamente com os propósitos da fase de desenvolvimento
da produção/consumo de massa em nosso país.
Barros (1974),
em meados da década de 70, já demonstrara que no Brasil,
o Estado intervinha, buscando obter através da televisão
uma ".. conversão de grande parte de um público
heterogêneo, no sentido de homogeneizá-lo." Ao
descrever de que forma o golpe de 64 teria afetado os meios de comunicação
de massa, no Brasil, Mattos (1990:13) afirma que:
"O
crescimento econômico do país foi centrado na rápida
industrialização, baseada em tecnologia importada
e capital externo, enquanto os veículos de comunicação
de massa, principalmente a televisão, passaram a exercer
o papel de difusores da produção de bens duráveis
e não-duráveis."
Sobre a importância
de criar disposição ao consumo, é reveladora
a afirmação do então diretor executivo da Globo,
Walter Clark, em meados na década de 70:
"Esta
é a importância maior da comunicação
em um sistema produtivo: transformar a população
em mercado ativo de consumo, gerando a disposição
ao consumo, relacionando cada bem, produto ou serviço
ao estrato social a que está destinado, atingindo simultaneamente
a todos os estratos e imprimindo maior agilidade ao mecanismo
produtivo." (7)
No esforço
de indução ao consumo que, de resto, constitui a base
e a razão de ser da indústria cultural, é funcional
a criação de uma "identidade nacional".
Kehl (1986a)
define a TV Globo como um eficiente veículo de integração
nacional - de uma população unificada não enquanto
povo, mas enquanto público; uma imensa rede, transmitindo
uma única programação para milhões de
telespectadores. A integração se daria ao nível
do imaginário - já que apenas parte da população
teria realmente condições de participar da distribuição
de bens, de integrar-se de fato. Vale destacar os parâmetros
do "consumo simbólico" e do "consumo de imagens"
no Brasil: há elevado número de domicílios
com aparelho de TV, mas sem geladeira. Segundo dados recentes, em
cerca de 2 milhões de lares brasileiros o único eletrodoméstico
é o aparelho de TV. Ao lado disso, aponta-se que, atualmente,
apenas 15% do público são responsáveis pela
compra de 65% de tudo o que é veiculado pela publicidade
televisiva (8). Segundo o IBGE (Instituto de Pesquisa de dados sobre
a população brasileira), só a presença
do fogão supera o percentual de aparelhos de televisão:
|
Existência
de bens duráveis em domicílios brasileiros em
%
(1997-2001)
|
| |
1997
|
1998
|
1999
|
2001
|
| Nº
de dom. da amostragem |
40.644.623
|
41.839.703
|
43.859.738
|
46.570.967
|
| Fogão |
97,01
|
97,4
|
97,4
|
97,6
|
| Filtro
d'água |
57,22
|
56,4
|
55,6
|
52,7
|
| Geladeira |
80,27
|
81,9
|
82,8
|
85,1
|
| Freezer |
18,77
|
19,7
|
19,6
|
18,8
|
| Máq.
Lavar roupa |
31,72
|
32,3
|
32,8
|
33,7
|
| Rádio |
90,33
|
90,4
|
89,9
|
88,0
|
| Televisão |
86,21
|
87,5
|
87,7
|
89,0
|
| Fonte:
IBGE - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. |
A Globo
não omitiu ou manipulou fatos, nem dispensou tratamento desigual
a políticos e partidos?
Já na
vigência de um governo civil, o início da década
de 90 é ainda marcado por discursos e disposições
práticas que revelam que o envolvimento da direção
da emissora com representantes do poder, ao menos naquele momento,
era tido como natural. Antes de existirem outras emissoras com condições
e capacidades concretas de avançar na luta pela audiência,
a Rede Globo não demonstrava preocupação em
defender-se de críticas à sua proximidade com governantes.
Ao contrário, as ligações com os poderosos,
ou o uso da TV em favor de políticos, eram admitidos pelos
dirigentes da emissora, com tranqüilidade e sem disfarces.
Ou seja, se no período pós ditadura, em clima de redemocratização
do país, houve a necessidade de demonstrar distância
em relação aos militares, em entrevista que Roberto
Marinho concedeu pouco depois da eleição de Collor
de Mello, o dono das Organizações Globo não
manifestava ainda esforços em demonstrar independência
dos governos civis que se sucederam. Ao contrário, revelava
até mesmo certa arrogância, ostentando o seu poder
de influência nos rumos do país.
Ao responder
sobre se usava seu poder e o que achava melhor para o país,
respondeu enfatizando sua 'colaboração' para o engrandecimento
do país:
"...eu
só usei o poder nesse terreno opinativo no 'Globo'; em
declarações e discursos eu uso essa colaboração
- que eu considero modesta para o país. Você vê
que a Rede Globo não é política, embora
os jornais da Rede Globo tenham uma repercussão muito
grande e uma forma de opinar. Não opinar mostrando o
melhor, opinar em favor de determinados indivíduos, mas
na melhoria e no aprimoramento e engrandecimento do país."
(Roberto Marinho, entrevista publicada in O Estado de S. Paulo,
Caderno 2, 05/maio/1990, p. 4-5.)
Indagado sobre
se a Globo teria força de eleger um presidente, respondeu
que ela poderia 'contribuir' para isso:
"Não.
Ela pode, dentro de um conjunto de circunstâncias, contribuir,
poderosamente ou não para eleger um presidente, um senador.
Amanhã a TV Globo pode apoiar uma pessoa que não
seja eleita." (idem, ibidem.)
Nesse momento,
o dono da Globo julgava natural que um poderoso meio de comunicação
interceda num processo eleitoral, apoiando um candidato, 'contribuindo'
para que seja eleito; não se preocupa em manter independência
e/ou eqüidistância em relação aos candidatos.
Também não faz questão de demonstrar que dispensa
tratamento imparcial aos postulantes ao poder, ao contrário:
expõe abertamente seus diletos e desafetos. Sobre Brizola,
afirmou:
"Ele
(Brizola) dizia que, quando ele assumisse a Presidência
da República, a primeira coisa que faria era fechar a
Rede Globo. (...) ... ele ficou em terceiro lugar, não
conseguiu nada. Agora vai tentar ser governador, o que será
uma pena. A cidade precisa de outra pessoa, capaz de restaurar
o Rio de Janeiro." (idem, ibidem.)
E expôs
sem reservas a sua aflição, ao ver a possibilidade
de que, com auxílio dos votos transferidos por Brizola no
segundo turno da eleição disputada com Collor em 1989,
Lula vencesse:
"As
coisas começaram a empretecer quando o Brizola trouxe
seu contingente de votos para o Lula." (idem, ibidem.)
Ainda nessa
fase, Roberto Marinho exibia sua galeria de contatos com os mandatários,
nos diferentes momentos da historia recente. Parecia não
se incomodar - mais que isso, achar bastante justificável
e 'natural', que um poderoso meio de comunicação mantivesse
íntima relação com os governantes. Revelava
não apenas sua responsabilidade e autoridade na escolha de
ministros, confirmando-se, praticamente, como um 'Estado dentro
do Estado', como os privilégios dados à sua emissora,
como o de dar notícias em primeira mão:
"Fui
almoçar com o Sarney e ele disse: 'Doutor Roberto, o
senhor me ajuda a escolher um ministro da fazenda?' (...)...
Conversei muito com ele (Maílson da Nóbrega),
achei que ele entendia daquelas coisas todas e, quando ele saiu,
telefonei para o Sarney dizendo que tinha gostado do Maílson,
que achava uma boa solução. Então ele me
disse: 'Por favor, dê a notícia na TV Globo'. Telefonei
e mandei dar a notícia". (Grifos nossos). Observe-se
ainda que, quando relata o diálogo entre eles, o faz
em um modo que evidencia até mesmo nas 'entrelinhas'
a sua importância e autoridade: ele se referia a Sarney
informalmente, usando o tratamento 'você', enquanto o
então presidente da República, por sua vez, era
quem o reverenciava: tratava-o por 'Doutor' e 'Senhor'. Do mesmo
modo, em outro trecho da mesma entrevista, se referirá
a outro presidente, Collor de Mello, informal e paternalmente,
chamando-o 'esse menino'. (idem, ibidem)
Parece-nos que
nesse momento, 1990, a direção da Globo ainda não
manifestava as mesmas preocupações que surgiriam na
fase seguinte, após a queda de Collor. Ultimamente, tem tentado
se eximir da denúncia de ter omitido ou manipulado fatos,
bem como de ter dispensado tratamento desigual a políticos
e partidos, conforme as conveniências do momento.
Como as principais
críticas que recebeu - do final da ditadura em diante - dirigem-se
a ter sido indiferente aos atos públicos em favor de eleições
diretas, em 1984, e aos protestos pela saída de Collor da
presidência, em 1992, ela, no presente, tem se referido a
tais eventos. O tom de auto-crítica aparece de modo mais
claro na Revista Época, uma publicação da Editora
Globo:
"Com
uma audiência potencial de 157 milhões de brasileiros,
atingindo 98,75% dos 5.500 municípios, ou seja, com esse
poder, a Globo poderia criar e derrubar presidentes, privilegiar
ou ignorar coberturas jornalísticas. Foi justamente contra
esse poder que a população saiu às ruas,
em 1984, para protestar. 'O povo não é bobo, abaixo
a Rede Globo' foi o slogan mais repetido na campanha pelas eleições
diretas, que comoveu o país naquele ano, mas não
empolgou a rede. A Globo demorou para cobrir os comícios
e foi duramente criticada pela omissão." (Revista
Época, Caderno Especial, Agosto/2003, p. 22-23)
Para livrar-se
da acusação de omissão, sua estratégia
baseia-se num esquema relativamente simples: escorar-se nos jargões
dos tempos de ditadura, apresentando-se como refém da censura,
portanto, alvo do autoritarismo. A um só tempo, busca justificativa
para seus enfoques e edições, e atribui a si própria
um papel de vítima do sistema. Como exemplo exacerbado dessa
manobra, com a morte de Roberto Marinho, a título de render-lhe
homenagens póstumas, produziu-se uma edição
especial do JN, (em 7/08/2003, um dia após a morte do empresário),
em que vem a público frase atribuída a ele, em suposta
defesa dos comunistas que trabalhavam para o seu jornal durante
a ditadura militar. A mesma frase encontra-se na Revista Época
de 11/08/2003:
"Ministro,
o senhor faz uma coisa, vocês cuidam dos seus comunistas,
que eu cuido dos nossos lá do Globo." (Idem,
ibidem, p. 12)
Em 1965, o Ministro
da Justiça do governo Castello Branco, Juracy Magalhães,
teria chamado donos de jornais para uma reunião em que fixava
como queria que a imprensa se comportasse. Na ocasião, teria
entregue ao dono de 'O Globo' uma lista com 64 nomes de profissionais
que deveriam ser demitidos. Com a frase acima, Roberto Marinho teria
se recusado a fazê-lo (9).
Para referir-se
aos tempos de 'distensão' do regime militar e início
da chamada 'Nova República', para os quais o pretexto da
censura teria pouca eficácia, a emissora apresenta cenas
sacadas de seus arquivos de imagens. Em agosto de 2003, ao comemorar
os 34 anos do JN, a Rede Globo lançou inserções
de trechos antigos desse noticiário nos intervalos comerciais.
As antigas imagens do JN escolhidas traziam os locutores narrando
o movimento pelas Diretas e os protestos pelo impeachement de Collor.
Viam-se Cid Moreira e Sérgio Chapelin noticiando passeatas
e comícios pelas diretas e pelo impechemant, com a data respectiva
impressa na tela. Nada mais era dito ou escrito além da frase
comemorativa ao 34o aniversário do telejornal. O objetivo
parece claro: confrontar, tacitamente, a afirmação
corrente segundo a qual ela se omitira em tais momentos.
Tais manifestações
públicas foram, de fato, anunciados pelo JN. Porém,
passados quase 20 anos da campanha pelas diretas e cerca de 11 anos
da queda de Collor, relembremos que, à época, o telejornal
de maior audiência só deu enfoque quando, em cada um
dos casos, já não era possível negá-los,
quando adquiriam proporções numéricas (e/ou
abrangência política) que já não permitiam
ser escondidos. Sempre a 'primeira' em tudo, a Globo era a última
a noticiar reivindicações e/ou escândalos que
afetassem os governos. Ambos acontecimentos tinham em comum o fato
de desfavorecer os setores políticos mais conservadores do
espectro político nacional, em favor dos movimentos populares,
das organizações sindicais e partidárias de
esquerda.
De resto, algumas
formas de edição se tornaram tão conhecidas
quanto previsíveis, rendendo à Globo algum descrédito:
os números dos participantes de assembléias de movimentos
grevistas e de atos públicos era sempre subestimado; imagens
do local não eram feitas, ou o eram em momento em que já
não houvesse mais tantos participantes.
Dentre os episódios
pelos quais a Globo foi acusada de um comportamento flagrantemente
parcial no tratamento da notícia, destaca-se o do segundo
turno das eleições presidenciais de 89, como talvez
o mais crítico. Momento delicado da história do jornalismo
da emissora, a edição do debate entre Collor e Lula,
pelo JN, às vésperas do primeiro turno das eleições,
ainda não foi definitivamente enterrada. Vários anos
depois, encontram-se tentativas de justificar o ocorrido. Exemplo
disso pode ser visto através do programa que levou ao ar
para comemorar os 50 anos da televisão no Brasil, em 2000,
em que 'revisita' o ocorrido e procura insistir num ponto: Lula
foi mal no debate. Passa 'em branco' o fato da emissora haver emitido
julgamento que caberia ao eleitor; e não se contesta o fato
de que performance televisiva não pode ser confundida com
programa de governo. Sair-se bem nos 60 minutos de debate adquire
importância decisiva, como se o candidato ao governo se candidatasse
ao papel de ator, num programa de calouros, ao vivo. Como se a eficácia
de sua plataforma política fosse redutível à
sua aparição na tela da TV. A Globo definiu os parâmetros
a serem usados para desqualificar ou eleger um chefe de Estado:
a boa aparição no vídeo, a imagem, a forma
e impostação ao falar (a de Collor, supostamente mais
firme), substituindo todos os complexos elementos envolvidos numa
escolha do mandatário da Nação.
E a assimilação
passiva de tais critérios revela em que medida raciocina-se
pela ótica imposta pela "era da TV": sem questionamentos
ao fato de que realidade e imagem televisiva se confundam.
Entretanto,
o episódio de 1989 (edição do debate dos candidatos)
é exemplo a não ser repetido pela emissora. Nos processos
eleitorais seguintes (1994 e 1998) - na grande imprensa, a Globo
incluída - mais que a manifestação da preferência
por um candidato, optou-se por alardear as conquistas do plano Real
(freio à inflação e estabilidade econômica),
ao qual o nome de Fernando Henrique estava associado (em 94, como
Ministro de Itamar Franco, em 98, como Presidente). Merece referência
o episódio em que o ministro Rubens Ricupero explica - sem
dar-se conta de que os microfones abertos, suas falas decodificáveis
pelas antenas parabólicas - que às informações
positivas sobre a política econômica do governo era
dada visibilidade, enquanto as negativas eram omitidas é
ilustrativo da visão generalizada sobre a facilidade de manipular
informações, construir imagens públicas. Com
cínico orgulho, escancara o domínio sobre o modelo
"esconde-revela". Em 2002, novo formato de debate na Globo:
um candidato não dirige questões diretamente ao outro,
participa sempre sob a mediação do apresentador do
programa (o jornalista Willian Bonner). Ao final do processo fez-se
o 'elogio das eleições', da 'festa' da democracia,
da 'modernidade' representada pela urna eletrônica (observada
por analistas de mais de 40 países), o alto nível
dos debates (entenda-se: marcado por menor agressividade e ataques
mútuos), enfim, a espetacularização do acontecimento
político, a sua cada vez maior apropriação
e modulação pela TV, em ritmo de despolitização.
A decisão sobre a performance de cada candidato (que desta
vez, não foi posta em confronto; cada candidatos (Antony
Garotinho, Ciro Gomes, José Serra e Luís Inácio
da Silva) foi entrevistado, individualmente, ao longo de julho/2002,
no Jornal Nacional. Depois disso, a Rede Globo encomendou pesquisa
ao Ibope - transferindo, assim, responsabilidades, sobre qual teria
tido melhor desempenho, segundo os telespectadores). Eleito o candidato
de esquerda, a eleição de um operário foi mostrada
como mérito da democracia brasileira, funcionando como o
seu 'certificado de qualidade' (conforme resumiu o editorial da
Revista 'Veja': "Sua vitória (de Lula) representa
o triunfo de uma idéia, de uma férrea vontade pessoal,
mas é também o certificado de qualidade da democracia
brasileira."('Veja', 30/10/2002, p. 35). Enfim, o auto-elogio
portando prestígio, que coroa, por extensão, o papel
da imprensa no processo eleitoral.
Destaca-se,
para além disso, uma tendência geral dos meios de comunicação
em todo o mundo: processa-se uma fusão cada vez maior entre
realidade e ficção, novela e jornalismo, cena política
e televisiva.
Bucci (1996)
aponta que, ao dramatizar tudo, o jornalismo teria perdido a capacidade
de explicar temas complexos. Do mesmo modo, podemos afirmar que
a superficialidade e a fragmentação dos fatos também
estão presentes nas telenovelas e minisséries que
se propõem a retratar acontecimentos históricos ou
a abordar movimentos sociais e outros temas da realidade. O resultado
parece ser uma teledramaturgia pretensamente 'realista', de um lado,
e um jornalismo 'romaceado', de outro. Nas telenovelas, um indício
significativo de que não haveria mais nenhum esforço
em manter separados espetáculo televisivo e realidade: a
Globo já não inclui nos créditos de apresentação
de suas novelas a clássica advertência "Esta é
uma obra de ficção. Qualquer semelhança entre
fatos e personagens aqui retratados terá sido mera coincidência".
Também se tornou um tanto inadequado intercalar o penúltimo
e último blocos de um capítulo com a advertência
'a seguir, cenas dos próximos capítulos', porque a
vida real não se passa em capítulos e se a novela
quer parecer-se ao máximo com a vida, o seu formato não
deve ser constantemente relembrado ao seu público.
Mas diante dessa
conveniente mixórdia de real e ficcional - mal encobrem-se
as incompatibilidades entre informação e interesses
políticos e econômicos.
As novelas
da Globo não 'alienam', ao contrário, remetem à
realidade?
A Globo tem
insistido em apresentar suas novelas essencialmente conformadas
pelo 'realismo'. Contrapõe-se à crítica, segundo
a qual seriam fantasiosas, fora da realidade.
Num especial
sobre telenovelas, em 2001, ano em que a TV no Brasil completava
50 anos - e a Rede Globo, 35 anos - o autor Benedito Ruy Barbosa
faz a abertura, declarando que as novelas refletem a realidade do
país. Esse discurso - alusivo a uma mais clara incorporação
dos movimentos sociais e lutas políticas na teledramaturgia
atual - pode ter se intensificado após a posse do governo
Lula, mas não é novo, nem exclusivo da emissora: está
presente em algumas teses acadêmicas.
E está
associado a outro elemento que nos interessa muito de perto: a idéia
segundo a qual as novelas trazem para o seu público a reflexão.
O depoimento de atores e diretores dão bem a medida do que
estamos afirmando. No Especial 40 anos das telenovelas, Vinícius
Dônolla volta a insistir sobre o tema ficção
e realidade e é Tony Ramos a transmitir uma idéia
geral sobre essa relação:
Vinícius
Dônolla: "Melhor do que ninguém, atores sabem
o quanto a ficção influencia a realidade."
Tony Ramos (concedendo seu depoimento no local em que fora filmado
o capítulo em que ele e outra personagem de 'Mulheres
Apaixonadas' são baleados): "Não podemos
acreditar que mexemos de tal forma e que mudamos de tal forma
a vida das pessoas. Não! Nós propomos com eles
a discussão dessas vidas." (grifos nossos)
A Globo exibe
orgulhosa mostras de seu poder de influência sobre o público.
Exemplos estão em toda parte (iniciando pelo papel de polícia
que exerce através do programa Linha Direta). Mas sublinha:
'sem imposições', movendo seu público na direção
de ações pela cidadania.
Na fala do diretor
Jayme Monjardim, um misto de surpresa e gratificação,
na constatação de que, com a TV, os resultados a uma
proposta são obtidos velozmente:
"Você
planta uma idéia e minutos depois você já
está colhendo isso. De repente uma campanha anti-drogas
para um país inteiro e o país inteiro adere..."
(ao fundo, cenas de O Clone, 2001). "De repente, você
plantou a idéia de doação de órgãos
e..." (ao fundo, cenas de 'De corpo e Alma', 1993).
No mesmo Programa,
Glória Perez, a autora dessas novelas dá seu depoimento:
"Quando eu fiz a campanha dos transplantes, recebi carta de
agradecimento do INCOR, dizendo que, pela primeira vez, tinham chegado
corações a mais."
Mostrar o seu
papel como propulsora de reflexão e prestadora de serviços
de utilidade pública, formação de cidadania;
visa converter suas ações em forma a mais de auto-propaganda;
as falas dão a dimensão das ações sociais
pelas quais a Globo quer ser reconhecida como precursora.
À época
dos militares, segundo a emissora, suas telenovelas teriam ocupado,
eventualmente, o lugar do jornalismo na tarefa de criticar a realidade,
uma vez que este era fortemente vigiado:
"Durante
o regime militar, em que o jornalismo da Rede Globo - em alguns
casos, mais do que outros veículos de comunicação
- era cerceado pela censura, coube à dramaturgia desempenhar
a tarefa de retratar e criticar a realidade política
e social do país. Com toda essa força de comunicação
- e acima de tudo por sua aceitação pelos brasileiros
-, a emissora é hoje uma das mais importantes fontes
de difusão cultural dentro e fora do Brasil."
(Luis Erlanger, Diretor da Central Globo de Comunicação,
'Apresentação' in: Dicionário da TV Globo,
Vol I, Rio de Janeiro, Jorge Zahar editor, 2003:ix).
No já
citado Especial 40 anos de telenovela, no esforço de revolver
o passado, desenterrar dele uma imagem 'subversiva' e corajosa para
a Globo, a edição pôs-se a esmiuçar as
novelas do período militar, revelando ao público -
com décadas de atraso, então - que o que se mostrava
eram traços sutis de rebeldia e crítica social. Pela
lógica expressa no documentário, as novelas exprimiam
a crítica social, desafiando, para tanto, o poder dos militares.
Um exemplo: afirma que a novela 'O Bem Amado', de Dias Gomes, de
1973, continha a crítica à mortalidade no Nordeste:
Vinícius
Dônolla: "Real, surreal. No tempo em que as palavras
eram proibidas, as imagens de um Brasil fantástico driblavam
a censura." (ao fundo, cenas do personagem Odorico Paraguaçu,
personagem vivido por Paulo Gracindo, discursando do palanque,
na novela 'O Bem Amado', de 1973) Segue-se depoimento do ator
Lima Duarte: "Sucupira era a cara do Brasil; de um Brasil
que não podia se expressar, um Brasil que não
podia falar. Era um país onde não morria ninguém,
no Nordeste. Quer ironia maior que esta? Não morria ninguém;
ele (o prefeito Odorico Paraguaçu) não conseguia
inaugurar o cemitério, porque não morria ninguém."
(ao fundo, cenas da mesma novela, em que o próprio prefeito
morre e, finalmente, será possível inaugurar o
cemitério da cidade). Vinícius Dônolla:
"A crítica se fez pela sutileza; mais tarde, a novela
recontou a história do Brasil..."
A mesma novela
é comentada, como exemplo de crítica bem humorada.
Novamente é destacado o papel da Globo em driblar a censura:
"Décadas
de história. (...) Vencemos a censura nos anos 80, falando
de tramóias e corrupção; algumas vezes
com uma visão crítica e contundente da realidade,
outras, com uma boa dose de humor."
Adiante, outra
novela de Dias Gomes é relembrada: 'Saramandaia',
de 1975. Explica-se, quase 30 anos depois, que o personagem que
tinha asas e voou no capítulo final representava a liberdade:
"João Gibão voou sobre a cidade de Bole-bole.
Em 'Saramandaia', Dias Gomes sugeriu o vôo da liberdade nos
tempos de repressão. Realidade, porém fantástica."
Eis que a Globo,
para muito além de buscar defender-se da acusação
de conivente com os desmandos autoritários ou de porta-voz
dos interesses das classes dominantes, lança-se para o terreno
de vanguarda. Assim, a considerar por sua auto-imagem, através
das novelas, sempre esteve em sintonia fina com os anseios populares
por valores como a liberdade de expressão e a igualdade e
justiça social. Mais que a atualização dos
conteúdos e formatos de itens da programação,
a Globo parece tentar remover da memória coletiva a idéia
segundo a qual teria tido algum tipo de colaboração
com os governantes nos tempos 'de chumbo', apagar, definitivamente,
essa espécie de 'mancha' que tem marcado sua história.
A considerar pelo discurso atual desta importante empresa de comunicações,
ela não estaria simplesmente tentando adaptar-se, nas últimas
décadas, aos ares da redemocratização do país
e da América Latina, ela postula ser reconhecida como agente
central desse processo. Na história que refaz e divulga,
teria até mesmo feito parte da resistência à
ditadura.
Telenovelas:
para elas, o tempo não para, ou assistimos a um museu de
'grandes' novidades?
Ainda que não
esteja descartada a capacidade do público de produzir usos
originais a partir dos media, isto é, de reelaborar-lhes
os significados, permanece válido o afirmado por Sarques
(1983:226), a respeito da legitimação dos valores
dominantes:
"...
a novela, na medida em que legitima, de forma explícita
ou latente, os valores dominantes com os quais as telespectadoras
se identificam, concorre para mantê-las conformadas à
ordem vigente e reforçar a reprodução da
ideologia que alicerça a estrutura de dominação
e discriminação."
Afinal, somos
levados a indagar: continua atual a reflexão sobre o caráter
tendencioso dos media? A própria junção cada
vez maior entre ficção e realidade representa, segundo
nossa opinião, a superficialidade, a fragmentação,
a banalização de tudo, em resumo: a exacerbação
da era do espetáculo, tal como definida por Debord (1997).
No referente às telenovelas, vale revisitar os estilos de
narrativas e as marcas impressas pelos autores e diretores que,
agora, mais que nunca, vêm aparentemente incorporando a realidade,
mas fazendo, de fato, o vasto uso do 'velho' naturalismo, enfatizando
a afetividade, recorrendo à simbologia; cabendo-nos investigar
se, ainda que a pretexto de provocar a reflexão e incitar
a imaginação, tais elementos articulam-se ou não
de modo a delimitar o campo dentro do qual deve se dar o debate.
Numa outra linha de proposição, poderíamos
indagar: Quanto espaço uma telenovela deixa à livre
interpretação? Ou, ao contrário, esse gênero
é fechado em si, conduz sutil ou abertamente a uma moral,
a uma conclusão unívoca? E que papel as novelas de
fato desempenham se, a despeito de darem maior visibilidade aos
movimentos sociais e à organização sindical
e demais lutas coletivas dos trabalhadores, o fizerem a partir de
referenciais patronais ou de construções que imitam
o movimento real, subtraindo-lhe, porém, aspectos essenciais
ao representá-lo na ficção? Trazer 'mais realidade
em cena' pode surgir como forma a mais de 'domesticação'
do protesto e não de - como quer fazer crer a Globo - propor
a reflexão e/ou a mudança. A reflexão, nesse
caso, já comporta soluções. Muitas vezes -
ainda que, aparentemente contemplando anseios populares - traz em
si respostas alinhadas com o pensamento das classes dominantes,
para as quais talvez não interessem alterações
sociais profundas.
Embora, na atualidade,
a Globo busque destacar exclusivamente o caráter inovador
e/ou contestador de suas novelas, mesmo sob a ditadura militar,
o que se vê, conforme indicam estudos realizados sobre novelas
dos anos 70, é a sintonia entre telenovelas e políticas
governamentais (Khel, 1986b); (Ramos e Borelli, 1991). À
época da ditadura militar no Brasil, a esfera estatal solicitava
- e a Rede Globo a ela correspondia - uma programação
televisiva com enfoque nacionalista e temas considerados educativos,
o que envolvia as telenovelas.
Ao problematizarmos
o poder excessivo e a interferência dos meios de comunicação,
para o caso brasileiro, cabe indagar se é louvável
ou deplorável para a democracia que sejam as novelas a abordar
a 'realidade' e apresentar, segundo a lógica da emissora
que a produz, alternativas. Martín-Barbero (2001) menciona
o desproporcional espaço ocupado pelos media em países
da América Latina, apontando a debilidade das sociedades
civis como um dos fatores para essa desmedida capacidade de representação
que neles adquire a televisão. O espaço e assumido
cada vez mais pelo ritmo e presença da TV e da linguagem
publicitária têm consequências e riscos. Estamos
de acordo com a afirmação de Beatriz Sarlo:
"Pois
bem, se os conflitos não são apresentados pela
política, as mídias tomam seu lugar, indicando
outros caminhos pré-políticos ou antipolíticos
para resolvê-los (...)" (10).
No caso da Rede
Globo e as formas como busca articular-se como estrutura de poder,
importa antes de mais nada o discurso generalizante, em torno da
suposta identidade (cultural) nacional, da qual faz derivar seus
slogans: ele comporta deformações e pressupõe
conformismos, exclusão e preconceitos. Confere ao fenômeno
- contraditório e em que as modificações são
permanentes - uma aparência unificada e estável. Segundo
Hall (1997:10):
"A
identidade totalmente segura, completa, unificada e coerente
é uma fantasia. Ao contrário, à medida
que os sistemas de significado e de representação
cultural multiplicam-se, confrontamo-nos com uma multiplicidade
desconcertante e fugaz de identidades possíveis (...)."
Mas o fato a
enfatizar é que a emissora - não mais exclusivamente
com base na programação que leva ao ar - vem buscando
ampliar por meio de ações concretas a sua esfera de
influência. Sob o risco de realizarmos uma análise
ultra simplificada, que encara o discurso publicitário da
emissora como encerrado sobre si mesmo, carente de materialidade,
é fundamental que, ao lado da vasta propaganda, destaquemos
a presença efetiva - e crescente - das Organizações
Globo em ações sociais.
A Globo investe,
diretamente ou através de sua Fundação Roberto
Marinho, criada em 1978, em projetos nas áreas de educação,
saúde e cultura: Criança Esperança, Geração
de Paz, Amigos da Escola, Ação Global, Jornalismo
Cidadão. Também há formas de ação,
como o chamado 'comercial social', em que a emissora abre espaços,
gratuitamente, em seus intervalos comerciais, para mensagens sociais
e comunitárias tais como: campanha de amamentação,
doação de sangue, contra a dengue, parcerias contra
as drogas, bem como com a Fundação Abrinq (brinquedos
para a criança) e com a Fundação Onda Azul
(Reciclagem, Ecologia). Destaca-se ainda o 'mershandising social',
este, um conceito criado pela própria Globo, envolve diretamente
suas telenovelas, as quais devem - segundo a emissora - sempre abordar
um tema de importância social, dentre os mais recentes, destacam-se:
respeito aos idosos, campanha contra o alcoolismo, contra drogas,
pela doação de medula óssea, prevenção
da Aids, pela adoção de menores (Ver site da Rede
Globo).
Para Mattelart,
Xavier & Mattelart (1987:127) fundações como as
da Globo são
"...mecanismos
poderosos que permitem a essas empresas (...) ampliar consideravelmente
suas funções sociais. Podemos facilmente imaginar
a importância dessas zonas de influência não-tradicionais
para a introdução das novas formas de ação
cultural."
Destaque-se,
ainda, a eficácia de sua suposta colaboração
junto a instituições da Justiça, vide o programa
'Linha Direta' (11). A emissora tem se orgulhado em afirmar que,
em quatro anos e meio de exibição, o programa auxiliou
na captura de mais de 283 pessoas que estavam foragidas da justiça.
Eis o peso de sua influência. Cabe destacar esse novo arranjo
ou deslocamento, em que a Globo assume para si ainda mais parcelas
de responsabilidades sociais (tradicionalmente atribuições
do Estado), e simultaneamente trata de intensificar a propaganda
(que sempre promovera) coroando seus supostos méritos.
Miceli (1984:51)
refere-se à publicidade oficial no pós-64: "O
Estado avoca a si o papel de manter acesa a chama da memória
nacional e por conseguinte se transforma no criador e bastião
da identidade nacional."
Na atualidade,
de mero veículo dos slogans oficiais dos governos militares,
a emissora teria passado, pouco a pouco, a formular, por si, metas
e responsabilidades para com a preservação da cultura,
do patrimônio histórico, bem como melhoria da saúde
e da educação, ou ainda contra a violência urbana
entre outras, e a fazer cumpri-las - orientadas, naturalmente, a
partir de suas próprias concepções políticas
e culturais -, e acompanhadas de respectiva propaganda integradora.
Notas
-
Cf. Keila Jimenez e Sônia Apolinário. "O preço
da hegemonia". In 'Telejornal', 'O Estado de S. Paulo', 28/05/2000.
-
Cf. "Um dia em Asa Branca" In 'Veja', 02/10/1985.
-
Cf. dados citados em "Carrossel Mexicano" In 'Veja',
12/06/1991.
-
No Brasil, o documentário teve sua exibição
proibida no MIS, São Paulo. Exibido por sindicatos e entidades
estudantis, foi depois registrado no livro: Geraldo Anhaia Mello.
Muito além do cidadão Kane. São Paulo: ed.
Pagina Aberta Ltda., 1994.
-
Roberto Irineu Marinho, então vice-presidente, em convenção
interna, fevereiro/1994, citado em Bucci (1996:163).
-
A associação iniciada em 1962 entre a Globo e a
Time-Life foi contestada juridicamente. O Código Brasileiro
de Telecomunicações e o Regulamento dos Serviços
de Radiodifusão foram violados pelos contratos assinados
pela Globo com a Time-Life. Instalou-se Comissão Parlamentar
de Inquérito para investigar as ligações
entre a emissora e o grupo norte-americano - consideradas ilegais,
sobretudo pela associação com capital estrangeiro.
A documentação acusatória foi considerada
insuficiente e o processo encerrado, dando livre curso ao acordo.
Daniel Herz. A história secreta da Rede Globo. Porto Alegre:
Tchê! Editora Ltda., 1987.
-
Depoimento de Walter Clark, numa palestra em 06/07/1976 (cf. Kehl,
1986a:205).
-
Cf. dados de "Os paradoxos da TV no seu cinqüentenário".
In: 'O Estado de S. Paulo', Caderno 2 - p. D1, 18/06/2000.
-
Cf. Revista Época, Caderno Especial, 11/08/2003.
-
Sarlo apud Martín-Barbero (2001:98).
-
Programa semanal que vai ao às 5as feiras, em que são
reconstituídos casos policiais e disponibilizado no de
telefone para denúncias do paradeiro de 'foragidos da justiça'.
A encorajá-las, a ressalva: "Sua identidade será
mantida no mais absoluto sigilo".
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Texto
publicado originalmente no livro: BEZZON, Lara (org.). Comunicação,
Política e Sociedade. Campinas-SP, Ed. Alínea, 2005,
pp. 151-175. ISBN: 8575161148).
Márcia
Fantinatti é jornalista e socióloga, é doutora
em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas,
professora do Instituto de Artes e Comunicações -
Departamento de Jornalismo - da Pontifícia Universidade Católica
de Campinas.
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