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Revista
Ocas: notícias de uma nova vida
Marta
Regina Maia
Naiara Pinto Lima
Introdução
Se o passado
não abriga boas lembranças, muitas vezes, a saída
seria retardar as memórias que teimam em surgir de tempos
em tempos. Entretanto esta barragem simbólica não
pode ser obtida por uma simples vontade pessoal, afinal aquilo que
já passou pode vir a tona a qualquer momento. Os campos de
Auschiwitz, por exemplo, deixaram marcas para a posteridade, afinal
um acontecimento histórico não desaparece porque sempre
há algo a relatar, a denunciar, a esclarecer. O tempo é
implacável, tanto para o bem quanto para o mal.
O tempo também
é um elemento essencial para que um projeto na área
de comunicação consiga obter alguns resultados positivos
a partir das experiências de vida de seus integrantes. É
o que ocorreu com a ONG Organização Civil de Ação
Social (OCAS), que desde 2002 resolveu contribuir para minimizar
os sofrimentos de quem mora na rua e em abrigos na cidade de São
Paulo. O projeto é baseado nos Streetpapers de alguns
lugares da Europa e EUA. Tendo como pressuposto a noção
de que a comunicação se constitui dentro de um tecido
de relações sociais e também é formadora
dessas relações, a Revista Ocas, mantida pela entidade,
procura dar voz as pessoas em situação de risco de
rua e ainda possibilita a retomada de suas vidas por intermédio
do trabalho e do convívio com outras pessoas.
O advento de
novas tecnologias comunicacionais, principalmente a Internet, facilitou
o acesso da sociedade ao processo de circulação das
informações. No entanto não são todos
os que estão inseridos neste processo. A liberdade de expressão
não é garantida para todos indistintamente, pois há
poucos espaços onde as pessoas de baixa condição
social possam se manifestar. O que se ouve, lê e assiste diz
respeito aos interesses de pequenos grupos com grandes interesses
mercadológicos.
A Revista Ocas
tenta justamente resistir a esse processo, permitindo que conteúdos
sociais e culturais independentes das corporações
econômicas venham a tona. Ela atua em duas frentes, em primeiro
lugar possibilita à reintegração de pessoas
no contexto da cidadania por intermédio do trabalho e da
recuperação de suas histórias de vida e ainda
dá voz as classes subalternas. "O direito à comunicação
constitui um prolongamento lógico do progresso constante
em direção à liberdade e a democracia"
(RAMOS, 2005: 67)
A Ocas é
vendida nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, mas ultrapassa
as fronteiras dessas cidades e abre novos horizontes em suas matérias,
reportagens e crônicas, já que os assuntos abordados
na revista passam, entre outros, pelo Fórum Social Mundial,
Viagens pela América Latina e o Trem de Paranapiacaba, em
São Paulo.
O conteúdo
da revista é um elemento fundamental. Os vendedores, com
raras exceções, sentem orgulho de vender a revista.
Por seu caráter social e cultural, várias figuras
importantes do mundo intelectual e artístico foram capas
da Ocas e concederam entrevistas exclusivas, como Chico Buarque,
Maria Rita, Ziraldo e Seu Jorge.
A oportunidade
de mudança é o principal objetivo da revista. Pelos
depoimentos do livro "Terapia de Todos Nós: Vida e Rua",
é possível perceber que, na maioria das vezes, a relação
dessas pessoas com a família é conturbada, a utilização
de drogas é comum, mas a busca em mudar essa perspectiva
é constante e este desejo é de todos. "Todo mundo
tem um sonho, este é um objetivo. O que não conseguimos
lidar é com a não-concretização daquele
objetivo" (2006: 51). Este livro foi produzido pelos vendedores
da Revista junto com uma assistente social voluntária, que
realizou com o grupo um trabalho de terapia, utilizando o psicodrama.
Inúmeros vendedores expõem seus sentimentos, histórias
de vida e idéias de uma maneira bastante sensível
e peculiar.
Com o objetivo
então de mostrar como esse trabalho se desenvolve, serão
utilizados como fontes para a produção deste artigo
as últimas edições das revistas, o conteúdo
veiculado pelo livro citado acima e um trabalho de campo feito junto
aos vendedores da Revista . Após contar um pouco da história
da ONG e da Revista pretende-se estabelecer uma relação
entre o direito à informação e à cidadania
e o direito à memória como itens essenciais no processo
de crescimento pessoal, intelectual e até mesmo financeiro
dos participantes do projeto. Por intermédio deste, ex-moradores
de rua têm condições de recuperar a auto-estima
e se tornar visíveis perante a sociedade. Este trabalho irá
discutir ainda o aspecto da participação nas oficinas
e nas próprias páginas da Revista, pois quando os
vendedores contam sua história, ressignificam fatos de sua
vida a partir de um novo ponto de vista, no qual estão inseridos.
O direito
à informação e à cidadania
A revista Ocas
é produzida por voluntários que também compõem
a diretoria da ONG. Alguns deles apenas escrevem para a Revista,
enquanto outros realizam oficinas ou outros tipos de trabalho com
os vendedores, como a Oficina de Criação que produz
textos para a editoria "Cabeça Sem-Teto" da própria
Revista, e o grupo de psicodrama orientado pela assistente social
Maria Alice Vassimon.
As oficinas,
não obrigatórias, estão abertas para os vendedores
que desejam participar. Já em algumas reuniões programadas
é exigida a presença do vendedor, pois há discussões
sobre a distribuição das revistas e a definição
dos pontos de venda onde cada vendedor irá trabalhar durante
a semana. Nesse encontro, os vendedores expõem suas dificuldades
e trocam informações entre si, relacionando-se de
forma direta e horizontal.
Na Oficina de
Criação, além de produzir alguns textos, os
vendedores realizam uma avaliação geral da revista.
Este é um encontro onde os vendedores participam da elaboração
da revista e ganham voz para realizar denúncias sociais,
para dizer aquilo que pensam e que acham importante. O caráter
não obrigatório desse encontro edifica a vontade de
participação. Os vendedores passam de uma condição
de invisibilidade, enquanto moradores de rua, para agentes atuantes
de um processo de construção de um meio de comunicação,
cidadãos que têm mais que liberdade de expressão,
têm um lugar para projetar suas idéias.
A Ocas se coloca
como um lugar de passagem. Lugar onde as pessoas conquistam a possibilidade
de retomar suas vidas, muitas vezes esquecida na embriaguez das
drogas e na solidão das ruas. Dessa maneira, o destino dos
vendedores da revista toma um caminho diferente por meio do trabalho
e reintegração em uma comunidade.
A cidadania
e o direito de emitir opinião podem parecer elementos básicos
de uma democracia, mas são negados a todo momento pela sociedade
a esses homens e mulheres considerados invisíveis. Quando
o espaço de discussão e opinião é conquistado
acaba sendo valorizado por eles:
A gente
aprendeu a ter voz. Muitas coisas que a gente falou entrou para
o planejamento. Construção do Plano Estratégico.
O mais importante é a gente ter conseguido mostrar voz
na missão da Ocas, não só Plano Estratégico.
Quando se percebeu que a voz do vendedor tinha visão
diferente conseguimos fechar. Dentro da estrutura, agora o vendedor
tem voz. (ANDRADE, 2005: 73)
A partir do
momento em que o vendedor ingressa no projeto da Ocas, ele é
encaminhado, caso necessário, a um albergue ou moradia provisória.
Todos devem obedecer a um Código de Conduta, que segue impresso
em todas as revistas. Aquele que descumpre essas regras é
retirado do projeto.
O objetivo da
revista é oferecer uma oportunidade para que pessoas em situação
de risco social possm trabalhar para melhorar sua condição
de vida. A revista atualmente é vendida por R$3,00, sendo
que R$2,00 ficam para o vendedor e R$1,00 para a revista (para a
cobertura de despesas como impressão e transporte).
Direito à
memória
O conceito de
memória que norteia este artigo vem de um consagrado cientista
da área de Neuroquímica, Iván Antonio Izquierdo,
que, mesmo voltando seus estudos mais específicos para a
área biológica, não isola as pessoas de sua
vida social:
Todas
as memórias se formam a partir de experiências
[...] O aprendizado é aquisição de memória.
Aprendemos pelas experiências e o número delas
é literalmente infinito. Lembrar-se do que foi aprendido
é o que chamamos memória. A única forma
de avaliar o aprendizado é medir a memória que
ele deixa ou quando esquecemos dele. (1999: 12)
O grande desafio
da ONG que trabalha com moradores de rua é justamente saber
ouvir, em uma época que assiste o fim da "comunidade
de ouvintes", como diria Walter Benjamin (1993: 205). Mas nem
tudo está perdido, pois o testemunho ainda encontra espaço
na sociedade. É preciso persistência e tenacidade para
se conseguir compartilhar, para trocar idéias, histórias
de vida, fracassos, angústias e até alguns lampejos
de felicidade.
Recorre-se portanto
às lembranças como o elemento que vai trazer à
tona as circunstâncias-chave que podem traduzir um momento
singular do tempo vivido pelos depoentes. A memória, neste
caso, não é vista como absoluta ou genérica,
mas sim em função das práticas culturais cotidianas
de determinadas pessoas em determinado tempo e espaço, especialmente
àquelas relacionadas com suas histórias de vida. É
importante ressaltar que o filtro da memória pode reduzir
o que se pretende trazer à tona, afinal passado e presente,
incluindo também o futuro, não são momentos
estanques, separados mecanicamente. Há uma disposição
constante, permeada pela tensão, em construir/reconstruir
a identidade e a memória participa ativamente desse processo.
Ao discutir
a "cultura do passado", Beatriz Sarlo recupera a noção
da narração como experiência sensorial, que
pode levar o sujeito a uma espécie de retorno ao passado
e que também pode ser traduzida na prática de tornar
comum algo originário de uma experiência privada. Para
ela "não há testemunho sem experiência,
mas tampouco há experiência sem narração:
a linguagem liberta o aspecto mudo da experiência, redime-a
de seu imediatismo ou de seu esquecimento e a transforma no comunicável,
isto é, no comum" (2007: 24). Os encontros terapêuticos
ocorridos entre os vendedores da revista exemplificam esta questão
de uma maneira concreta. É possível perceber, nos
depoimentos, que a possibilidade de ter sua história ouvida
e até comentada por outros, reacende a noção
de pertencimento a uma sociedade que até então só
lhe proporcionou indiferença.
No livro "Terapia
de todos nós: vida e rua" é possível perceber
as inúmeras marcas que o tempo deixou em cada um deles. Segundo
a terapeuta foram compartilhadas histórias de todas as matizes,
mas o que prevaleceu foi o espírito de grupo, o que mostra
a importância da troca, da sociabilidade cultural e social,
da comunicação interpessoal como base para a criação
de uma "estrutura de sentimentos", como definiria Raymond
Williams, que está mais interessado "nos significados
e valores tal como são vividos e sentidos ativamente"
(1979: 143).
Entre muitos
relatos significativos fica a difícil tarefa de escolher
um que possa mostrar toda a complexidade dos depoimentos:
Com seis
anos de idade, eu cheirei cola, minha mãe não
sabia. Eu cheirei cola e saiu no jornal. Eu ia para escola só
para comer merenda, eu roubava desde pequeno. Com sete anos,
minha mãe morreu, Minha mãe disse: "Quem
vai pra feira comigo hoje?" Ela tinha um cara que era bandido.
Ela chegou atrasada, ele deu sete facadas nela. Meu pai era
mestre pintor, caiu de um prédio. Eu fui escolhido como
mula para levar droga. Vimos para São Paulo. Fiquei aqui
preso, aprontando. Aí fui conhecer a Ocas, eu chegava
drogado. Tenho irmãos em Salvador, não culpo.
Eu estava em presídio na Febem. Minha irmã existe,
ela sofreu muito, Eu fui atrás dela em Salvador. (ANDRADE,
2005:12)
Iván
A. Izquierdo, a partir de suas pesquisas, garante que "a amnésia
atinge em maior grau ou maior gravidade as pessoas de baixo nível
cultural (primário incompleto) do que as pessoas com nível
de educação superior: a proporção é
de 5 a 1 e independe do nível sócio-econômico".(1999:
13). Este fator está intrinsecamente aliado ao nível
cultural que o entrevistado apresenta, não no sentido de
nível de erudição, mas no sentido de garantir
uma espécie de lastro mnemônico com o passado, identidade
e família. Pode-se notar que os depoimentos, em geral, são
entrecortados, sem muita coesão, típicos de quem não
mantém nenhuma relação iconográfica
e tampouco familiar que podem contribuir para que a lembrança
seja recorrente.
Nesse sentido,
as inúmeras reuniões realizadas semanalmente, em especial
as sessões de terapia, tentam garantir o que se poderia chamar
de direito à memória. Para Halbwachs (1990), a vivência
do coletivo é essencial, pois o homem se define e se constrói
pela cultura, já que se encontra inserido em um contexto
social.
Dando
relevo às instituições formadoras do sujeito,
Halbwachs acaba relativizando o princípio, tão
caro a Bergson, pelo qual o espírito conserva em si o
passado na sua inteireza e autonomia. Ao contrário, o
que o sociólogo realça é a iniciativa que
a vida atual do sujeito toma ao desencadear o curso da memória.
Se lembramos, é porque os outros, a situação
presente, nos fazem lembrar. (BOSI, 1994: 54)
Entretanto,
quando os indivíduos são chamados a relembrar, apesar
da filtragem pressuposta, pode-se romper certos limites e dar vazão
a fluxos intensos e amplificados. Se a idéia do caráter
espontâneo da memória é praticamente impossível,
segundo Halbwachs, talvez a provocação aos participantes
do projeto possa representar uma forma de se lembrar, como ele mesmo
afirma: "O maior número de nossas lembranças
nos vem quando nossos pais, nossos amigos, ou outros homens, no-las
provocam".(APUD BOSI, 1994: 54)
Vínculos
que possibilitam a mudança
Nas ruas os
indivíduos sobrevivem por si mesmos, "abandonados"
pelas famílias e pela sociedade, afinal retomar a vida é
muito difícil, pois significa relembrar de momentos tristes,
abandonar (em muitos casos) as drogas, assumir compromissos, organizar-se
e obedecer regras.
Ao vazio gerado
pelo desemprego, pela falta de moradia, durante o período
em que se está nas ruas, de acordo com um dos vendedores
da revista, leva a depressão. Uma forma de aliviar essa dor
é o uso de drogas, dessa maneira não se sente as angústias
e cria-se a ilusão de que aquela situação não
é tão ruim. Nas palavras do vendedor "ficar aqui
é cômodo a gente não sente muito" (ANDRADE
, 2005: 15)
Há inúmeros
empecilhos, na maioria pessoais, que dificultam o processo de reintegração
social. O "compromisso" é um deles. Em várias
falas do livro, é possível observar isto: "Assumir
um compromisso apesar de todas as dificuldades que há. Eu
tenho ojeriza ao compromisso. Tive uma criação abastada,
isto custa tanto trabalho. Compromisso, responsabilidade, medo".
(ANDRADE , 2005: 34). Outro vendedor também toca no assunto:
Vivemos
pelo mundo, compromisso pressupõe organização.
Antigamente eu não tinha compromisso nenhum. Eu estava
cavando uma cova, eu pensei, dormir na rua, albergue, brigava.
Mudar, cheguei na Ocas. Por experiência própria,
o tal kwon do, a violência paciente, liberação
de energia. Durante a semana eu pensei, dois anos e meio, terapia
individual. Eu falava da minha vida pra ela, terapia de grupo.
(ANDRADE , 2005: 58)
Outra dificuldade
para a realização da mudança de vida é
a baixa auto-estima, comum entre a população que vive
na rua. O desafio é resgatar a confiança no outro
e em si próprio, para isso é necessário os
vínculos dentro da comunidade. No livro escrito pelos vendedores,
um deles relata um episódio de sua vida que lhe despertou
a importância de manter relações. "Criar
vínculos é importante. Amor ao cachorro. Estava um
ano albergado, um rapaz me ajudou a comprar um pão com calabresa,
pra mim e pra ele, não me deixou desistir, recriar vínculos"
(ANDRADE , 2005: 41). Este fato aconteceu em um albergue, mas em
qualquer lugar onde as pessoas convivam, em especial onde mantém
um interesse em comum, pequenas ações podem despertar
para a ação comunitária, a solidariedade e
cooperação.
De qualquer
modo, se relacionar é uma maneira de construir um futuro,
estabelecer compromissos e repensar o passado, difícil de
ser encarado, e que deixa marcas impagáveis.
De acordo com
um dos depoimentos do livro, algumas "marcas" impedem
o relacionamento entre as pessoas e bloqueiam a felicidade. A comunidade
é um lugar onde as pessoas podem estabelecer esses vínculos
e encontrar sustentação para a re-construir a vida.
Ela dá suporte para a mudança. "A transformação
é onerosa e prazerosa, mas não se consegue transformar
o outro. Às vezes momentaneamente desperta uma coisa nova".
(ANDRADE, 2005: 50)
Em seu livro
"Homens Invisíveis: Relatos de uma humilhação
social", Fernando Braga da Costa escreve que "um homem
se alimenta do olhar de outro homem" (2004: 216). Mas para
Braga esse olhar deve ser compartilhado entre as pessoas e partir
de uma relação horizontal: "Sentimo-nos de fato
iluminados - alimentados - na experiência intersubjetiva do
olhar desembaraçado: ver e sentir-se como quem é visto.
O olhar dos outros homens, desamarrado de posições
classistas, é força que nos sustenta". (2004:
217)
Enquanto os
vendedores da revista Ocas buscam um recomeço de vida, a
sociedade continua a movimentar-se rapidamente. A produção,
o consumo e o dinheiro, engendram esse movimento, que não
permite que as pessoas parem. O tempo entre aqueles que estão
à margem da sociedade e aqueles que trabalham e conseguem
se manter é outro. É isso o que percebe um vendedor
da Ocas: "Estou na moradia provisória e eu tive que
voltar no Colégio Sto Antonio de Lisboa. Um ano e tanto em
situação de rua, eu fiquei longe depois fui rever
todos. Eu cumprimentei a todos, mas as pessoas estão muito
ocupadas". (ANDRADE , 2005: 30). Analisando as falas do livro
em questão nota-se que o reencontro com a família
é o desejo da maioria dos vendedores, é a necessidade
de vínculos que o ser humano tanto necessita.
O espaço
aberto a Terapia consistiu num lugar de cumplicidade, onde as pessoas
poderiam expressar aquilo de mais íntimo que considerassem
necessário. Um espaço para ser ouvido e para ouvir,
compartilhar e trocar conselhos. "Foi importante ter falado
aqui. Recuperei muitas coisas. Nunca tinha falado de minha história,
só um e outro ouviu o que eu vivi". (ANDRADE , 2005:
10)
A percepção
do outro, e de seu valor é um despertar. Mas isso só
acontece quando primeiro o indivíduo está inserido
em uma comunidade e relacionando-se com as pessoas. "Tem que
se estruturar para depois poder ser gente. Eu vivi muito tempo isolado,
porque pensei que nós éramos só nós".
(ANDRADE , 2005: 56). Como na revista Ocas os encontros e oficinas
não são obrigatórios, nem todos os vendedores
conseguem atingir esse objetivo. Em muitos casos a rivalidade, a
disputa está presente (quem vende mais revista). De qualquer
modo essa atitude é a prova de que mesmo excluídos
socialmente e economicamente, a cultura hegemônica do mercado
está presente e não deixa de ser referência
para muitos.
Considerações
finais
A revista abre
espaço para os vendedores expressarem suas opiniões,
angústias, enfim contribui para a tradução
de sentimentos em palavras, que contribui para a própria
reconstrução do passado. Não há uma
busca pela verdade absoluta, mas sim uma tentativa de encontro compartilhado,
cujos vínculos podem ser cada vez mais encontrados nas conversas,
no estar junto. Inclusive os participantes do processo também
passam pelas agruras de um trabalho social que, muitas vezes, enfrenta
dificuldades de financiamento.
Ao proporcionar
a experiência do "estar juntos", seja nos espaços
sociais de discussão, seja nas próprias páginas
da revista, o direito de ser cidadão é exercido. A
construção de um conhecimento coletivo, a existência
de uma postura ativa porque repleta de sentidos, o direito da lembrança,
mesmo carregada de insatisfações, e a perspectiva
- muitas vezes negada pela condição de vida -, do
encontro com o outro, da noção de coletivo para esse
ser solitário em meio à multidão.
A Ocas
pode ser considerada uma comunidade gerativa, pois não
é uma organização que está unida
somente como forma de sobrevivência da identidade, mas
como forma de sobrevivência enquanto vida realmente. Aqueles
que dela usufruem necessitam de ajuda financeira, social e psicológica,
para compreender que as experiências vividas não
têm um único culpado, mas são situações
que quaisquer pessoas podem enfrentar, por melhor que elas sejam.
(FRANZONI, LIMA, 2005: 57)
As políticas
públicas sociais do país, incluindo as de habitação,
não são condizentes com as necessidades reais da população.
O trabalho de entidades como a Ocas contribuem para minimizar a
dura realidade enfrentada por pessoas que não conseguem ter
o direito à dignidade.
O vínculo
a uma publicação como a revista recupera um sentimento
comunitário que perpassa a vida cultural dos indivíduos,
afinal as pessoas tem muito o que contar, o que falta, muitas vezes,
são os espaços para tal empreitada. Portanto nada
mais justo do que terminar este artigo com as palavras dos próprios
vendedores, que na data de aniversário de três anos
da revista, produziram um texto coletivo na Oficina de criação,
que sintetiza o trabalho desenvolvido:
Hoje
o dia é especial, Hoje o dia representa um ano - mais
um - de experiência, de esperança. Hoje o dia é
uma ponte que une passado e futuro. O hoje é feito de
recordações, de um tempo que passou, mas que a
gente revive ao relembrar. O hoje contém o que desejamos
para amanhã, para daqui a um, dois, dez anos. O hoje
merece um bolo, pastéis, guardanapos, flores, tubaínas.
O hoje pede amigos, filhos e abraços; também pensamento,
solidão e reflexão. O hoje é contraditório
- tão universal quanto particular para cada um de nós.
(Revista Ocas, 2005, ed. nº 36: 11)
Nota
-
Em 2005, uma das autoras deste artigo teve a possibilidade de
conviver com alguns vendedores, por causa de uma pesquisa participante,
fruto do trabalho de Projeto Experimental do curso de Jornalismo
da Universidade Metodista de Piracicaba. A citação
da monografia resultante desta pesquisa encontra-se nas Referências
Bibliográficas.
Referências
Bibliográficas
ANDRADE,
Antonio César e outros. Terapia de Todos Nós: Vida
e Rua, São Paulo: Editora Eventos Ltda, 2005.
BENJAMIN,
Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios
sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas,
vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1993.
BOSI,
Ecléa. Memória e Sociedade. 4ª ed. São
Paulo: Companhia das Letras, 1994.
COSTA,
Fernando Braga da. Homens Invisíveis: Relatos de uma humilhação
social. São Paulo: Globo, 2004.
FRANZONI,
Ana Paula e LIMA, Naiara Pinto. Revista Ocas: Virando as páginas
da vida. Piracicaba, São Paulo. Monografia do Projeto
Experimental do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de
Piracicaba, 2005.
HALBWACHS,
Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice,
1990.
IZQUIERDO,
Iván Antonio. O apaixonante estudo da memória.
In: Revista do INCOR, n° 48, 1999.
OCAS,
Revista. Edições nº 36 à nº 43, São
Paulo: Organização Civil de Ação Social,
2005 à 2007.
RAMOS,
Murilo César "Comunicação e Direitos
sociais e políticas públicas" in MELO, José
Marques, SATLHES, Luciano (org.) Direitos à comunicação
na sociedade da informação. São Bernardo do
Campo, SP: Umesp, 2005.
SARLO,
Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva.
São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.
WILLIAMS,
Raymond. Marxismo e Literatura. Rio de Janeiro: Zahar Editor,
1979.
Trabalho
apresentado no V Seminário Memória Ciência e
Arte: razão e sensibilidade na produção do
conhecimento, 2007, Campinas/SP, realizado pelo Centro de Memória
da Faculdade de Educação da Unicamp.
Marta
Regina Maia é Doutora em Ciências da Comunicação
- Jornalismo - pela Escola de Comunicações e Artes
da Universidade de São Paulo (ECA/USP), Mestre em Educação
pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) e professora
da Metrocamp (Faculdades Integradas Metropolitanas de Campinas),
sendo responsável pela área de pesquisa no curso de
Comunicação Social desta Instituição.
Também é historiadora formada pela Unicamp. Vice-líder
do Grupo de Pesquisa "Processos Mediáticos e Culturais",
do CNPq
Naiara Pinto Lima é jornalista formada pela Universidade
Metodista de Piracicaba e pós-graduanda na Universidade de
São Paulo.
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