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Pequena
história das linhas de
pesquisas em comunicação
(Trecho extraído da tese
de doutorado da professora Marta Maia)
Ao fazer uma
análise do desenvolvimento das pesquisas na área de
comunicação, Mauro Wolf traça um panorama que
mostra como as teorias foram (e são) decisivas para a discussão
sobre o papel desempenhado pelos meios massivos no interior da sociedade1.
Segundo Wolf, uma das primeiras teorias, conhecida como hipodérmica,
analisa os meios a partir da manipulação e da propaganda,
tendo sido desenvolvida em meio ao período das duas guerras
mundiais e à difusão das comunicações
de massa. A teoria hipodérmica prevê o alcance da comunicação
a partir do estímulo, pois se este for bem respondido é
porque a mensagem conseguiu obter o efeito desejado.
Seguindo a linha
histórica traçada por Wolf, é possível
perceber uma alteração no desenvolvimento das pesquisas
quando entra em cena "a abordagem empírica de campo
ou 'dos efeitos limitados'"2.
Neste caso, o aspecto inovador é a ampliação
do campo de influências para outros campos da sociedade. Wolf
faz uma crítica àqueles que interpretam de maneira
redutivista a contribuição que esta teoria proporcionou
à literatura da área, pois esta, além de estudar
o comportamento do público e de seus modelos de consumo em
uma linha distinta da hipodérmica (que analisava o indivíduo
em sua solidão), também irá realizar pesquisas
sobre "a mediação social que caracteriza esse
consumo"3.
Mesmo situada em uma linha de pesquisa administrativa, ela traz
contribuições especialmente para o entendimento do
comportamento do eleitor nas campanhas políticas.
Os efeitos
provocados pelos meios de comunicação de massa "dependem
das forças sociais que predominam num determinado período"
(Lazarsfeld, 1940, 330). Por conseguinte, a teoria dos efeitos
limitados deixa de salientar a relação causal directa
entre propaganda de massas e manipulação da audiência
para passar a insistir num processo indirecto de influência
em que as dinâmicas sociais se intersectam com os processos
comunicativos.4
O desenvolvimento
das pesquisas sobre comunicação de massa, especialmente
nos Estados Unidos, passa pela abordagem dos efeitos, das influências
e pelas funções exercidas na sociedade, chegando até
à teoria dos "usos e satisfações",
que coloca o receptor inserido no contexto social de maneira mais
autônoma, utilizando as mídias de acordo com suas necessidades.
No outro pólo destas linhas de pesquisas, denominadas administrativas,
está a chamada teoria crítica, de tradição
européia.
A teoria crítica
tem origem no Instituto de Pesquisa Social da Alemanha, fundado
em 1923 por marxistas, e que acabou conhecido como Escola de Frankfurt,
tendo sido obrigada a encerrar suas atividades com a ascensão
do nazismo. Os seus pensadores continuaram a atuar em outros países
e, em 1950, retomaram as suas atividades na Alemanha. Esta teoria
faz sérias críticas à perda de autonomia do
sujeito na sociedade da indústria cultural. Embora seja importante
registrar que esta corrente teórica introduz no debate conceitual
as marcas do sistema que tenta manter-se dominante, ela faz do receptor
um mero espectador da indústria cultural, que tem na alienação
o seu objetivo5.
Evidencia-se um caráter eminentemente manipulador dos meios
de comunicação de massa, o que de fato acaba ocorrendo
em muitas situações. Todavia, este tipo de análise,
corre o risco de excluir a complexidade que a rede de relações
sociais tece na prática e desconsiderar as múltiplas
manifestações atuantes na sociedade.
Há então,
por um lado, uma busca por resultados passíveis de veracidade,
com a chamada pesquisa administrativa e, por outro, uma tendência
a uma generalização da capacidade de recepção,
como levantam os frankfurtianos. Nesse sentido, é interessante
perceber como Robert K. Merton tem como preocupação
central a possibilidade de mensurar os efeitos da comunicação
de massa, quando compara as atividades de pesquisa da "tradição
européia da sociologia do conhecimento" na área
da comunicação e o "estudo norte-americano da
sociologia da opinião e das comunicações de
massa". O pesquisador europeu solitário é contraposto
aos grupos de pesquisas norte-americanos, que conseguem resultados
mais objetivos e, portanto, "científicos":
Assim, a própria
estrutura do grupo de trabalho imediato, com seus vários
e diversos colaboradores, reforça o perene interesse da
ciência, incluídas as ciências sociais, pela
objetividade: a veracidade interpessoal e intergrupal dos dados.
Afinal de contas, se o conteúdo das comunicações
de massa é classificado ou codificado por vários
qualificadores, isto suscita inevitavelmente a questão
de saber se os diferentes codificadores (observadores) obtêm
na realidade os mesmos resultados.6
A questão
da subjetividade, que é descartada pelas teorias administrativas,
tem um papel central na teoria crítica. Esta última
contribui para a análise dos diversos fenômenos oriundos
da comunicação de massas, mas é incompleta7,
pois não trabalha a partir do receptor - mesmo pressupondo-o
- na medida em que o qualifica como objeto. Jesús Martín-Barbero
faz uma crítica severa, especialmente a Theodor W. Adorno,
que merece ser citada:
Cheira demais
a um aristocratismo cultural que se nega a aceitar a existência
de uma pluralidade de experiências estéticas, uma
pluralidade dos modos de fazer e usar socialmente a arte. Estamos
diante de uma teoria da cultura que não só faz da
arte seu único verdadeiro paradigma, mas que o identifica
com seu conceito: um "conceito unitário" que
relega a simples e alienante diversão qualquer tipo de
prática ou uso da arte que não possa ser derivado
daquele conceito, e que acaba fazendo da arte o único lugar
de acesso à verdade da sociedade.8
Ainda para Martín-Barbero,
tanto a teoria funcionalista quanto a teoria crítica reservam
ao povo somente o papel de receptor passivo, sem condições
de ter autonomia perante o conteúdo veiculado pelos meios:
E necessitaríamos
também replanejar por completo as teorias da recepção,
tanto a funcionalista como a crítico-negativa. Porque ambas
prolongam cada qual a sua maneira, uma longa e obstinada tradição
que começa com a concepção "ilustrada"
do processo educativo e segundo a qual esse processo discorre
de um pólo ativo, que detém o saber - a elite, o
intelectual - para um pólo passivo e ignorante: o povo,
a massa. Com a conseguinte divisão marcante e inapelável
entre a esfera da produção, que é a da criatividade
e a atividade por um lado, e a do consumo, que é a da passividade
e o conformismo por outro.9
Novas formulações
teóricas, sustentadas mais na prática social e no
cotidiano, sensibilizam-se com o que Michel de Certeau chama de
o "homem ordinário", herói anônimo,
que representa o "murmúrio das sociedades"10.
Para escutar este "murmúrio" é preciso tentar
fugir de uma visão esquemática e localizar o sujeito
na história a partir de sua leitura da realidade e de sua
prática social. É o que propõem, desde a década
de 50, os pesquisadores ligados ao Center for Contemporary Studies,
de Birmingham.
O objetivo
dos cultural studies é definir o estudo da cultura
própria da sociedade conteporânea como um campo de
análise conceptualmente relevante, pertinente e teoricamente
fundamentado. No conceito de cultura, estão englobados
quer os significados e os valores, que surgem e
se difundem nas classes e nos grupos sociais, quer as práticas
efectivas através das quais esses valores e esses significados
se exprimem e nas quais estão contidos. Relativamente as
tais definições e modos de vida - entendidos com
estrutura colectivas - os mass media desempenham uma função
importante, na medida em que agem como elementos activos dessas
mesmas estruturas.11
Seguindo a linha
dos estudos culturais, Jesús Martín-Barbero rompe
com a visão segmentada do processo da comunicação,
discutindo o espaço da cultura como produtor de significações
e não somente como espaço de circulação
de informações. Ele acrescenta ainda que as diversas
mediações existentes na sociedade podem contribuir
para a ressignificação do que é transmitido
pelos meios:
Parto do princípio
de que a recepção não é somente uma
etapa no interior do processo de comunicação, um
momento separável, em termos de disciplina, de metodologia,
mas uma espécie de um outro lugar, o de rever e repensar
o processo inteiro da comunicação. Isto significa
uma pesquisa de recepção que leve à explosão
do modelo mecânico, que, apesar da era eletrônica,
continua sendo o hegemônico dos estudos de comunicação.12
A visão
mecanicista, geralmente, reforça a força do emissor
no processo de mensagem, situando o receptor como ponto final de
um determinado conteúdo emitido. A produção
de sentidos, possível a partir da circulação
e reelaboração das mensagens na sociedade, acaba sendo
desprezada por pesquisadores que seguem esta concepção.
Eles acabam concebendo a história de maneira linear, desprezando
também as multiplicidades históricas que uma mesma
época pode gerar. É preciso então buscar esse
novo sujeito, como diz Mauro Wilton de Sousa:
Quanto às
comunicações, chama atenção a busca
dos novos condicionantes do sujeito, das mediações
que ultrapassam a noção de um determinismo entre
emissor e receptor, ou sujeito e objeto. Embora esse "quem"
da comunicação, esse sujeito, teoricamente ainda
não esteja configurado, sabe-se que ocupa um espaço
contraditório, o da negociação, o da busca
de significações e de produções incessantes
de sentido na vida cotidiana. O receptor deixa de ser visto, mesmo
empiricamente, como consumidor necessário de supérfluos
culturais ou produto massificado apenas porque consome, mas resgata-se
nele também um espaço de produção
cultural; é um receptor em situações e condições,
e por isso mesmo cada vez mais a comunicação busca
na cultura as formas de compreendê-lo, empírica e
teoricamente. Esse receptor é melhor percebido no mundo
da cultura em produção, mais popular, em que a própria
comunicação se encontra, daí surgindo novas
chances para o encontro do sujeito.13
A América
Latina vai se constituindo por sua heterogeneidade cultural, por
seu processo de hibridação14,
em que o tradicional e o moderno, o popular e o massivo não
se prestam a categorias distintas de análise, pois há
sempre um forte imbricamento cultural. O aporte teórico para
esta visão, nem apocalíptica e nem integradora, vem
de Antonio Gramsci, que busca, no conceito de hegemonia, justificar
uma influência recíproca entre "dominados"
e "dominantes". A relação entre superestrutura
e infra-estrutura, na visão gramsciana, deixa de ser determinista
e confere uma relativa autonomia no campo cultural. Para ele os
meios de comunicação não representam a expressão
uniforme da ideologia dominante, mas representa o resultado da luta
entre classes e frações de classes dominantes.
A noção
de hegemonia - entendida como sistema de práticas e representações
- admite a presença de certo grau de dominação
na relação entre produtores, gerenciadores e receptores
culturais. O pressuposto da existência de permanente embate
entre as partes envolvidas - na defesa de seus interesses, idéias,
projetos - permite, entretanto, que se redefinam os conceitos
clássicos de cultura e ideologia como conjunto de valores
determinados pelo recorte de classe. Ultrapassar o sentido da
contínua dominação e entender o campo cultural
como campo de lutas na construção de hegemonias
permite que a esfera da cultura adquira relativa autonomia no
interior das relações mais gerais que compõem
a sociedade moderna.15
É possível
então identificar espaços de negociação
no interior da sociedade de classes. Desta forma, pode-se estabelecer
um paralelo da noção de hegemonia com o conceito de
cultura como produtora de significações e não
só de bens materiais, compreendendo o porquê da sua
importância no processo da comunicação, já
que o receptor, além de receber informações,
também atribui um ou vários sentidos às mesmas.
Tomando por base estes sentidos é que se poderá esboçar
um mapa midiático partindo das mediações existentes
na sociedade, assim como o faz Jesús Martín-Barbero
em relação à televisão:
Por isso,
em vez de fazer a pesquisa partir da análise das lógicas
de produção e recepção, para depois
procurar suas relações de imbricação
ou enfrentamento, propomos partir das mediações,
isto é, dos lugares dos quais provêm as construções
que delimitam e configuram a materialidade social e a expressividade
cultural da televisão.16
Notas
bibliográficas:
(1) Mauro WOLF, Teorias da Comunicação.
(2) Ibid., p. 46.
(3) Mauro WOLF, op. cit., p. 48.
(4) Ibid., p. 51.
(5) Deve ser feita uma ressalva, pois boa parte desses fundamentos
foi gestada durante o nazismo, quando o governo alemão utilizava
os meios de comunicação com propósitos altamente
dominadores.
(6) Sociologia - Teoria e Estrutura, p. 13.
(7) Mauro Wilton de SOUSA, A rosa púrpura de cada
dia - Trajetória de vida e cotidiano dos receptores de telenovela,
passim.
(8) Dos meios as mediações - Comunicação,
Cultura e Hegemonia, p. 70.
(9) Jesús MARTÍN-BARBERO, Procesos de Comunicacion
y matrices de cultura: Itinerario para salir de la razon dualista,
p. 113-114.
(10) A invenção do cotidiano: 1. Artes de
fazer, p. 57.
(11) Mauro WOLF, Teorias da Comunicação,
p. 108.
(12) América latina e os anos recentes da recepção
em comunicação social, In: Mauro W. de SOUSA, Sujeito,
o lado oculto do receptor, p. 40.
(13) Sujeito, o lado oculto do receptor, p. 27.
(14) Néstor GARCÍA CANCLINI, Culturas híbridas:
Estratégias para entrar e sair da modernidade, p. 19.
(15) Silvia Helena Simões BORELLI, Ação,
suspense, emoção: Literatura e cultura de massa no
Brasil, p. 35.
(16) Dos meios às mediações: Comunicação,
cultura e hegemonia, p. 292.
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