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Reflexões
Sobre os Sujeitos da
Enunciação e do Enunciado na Publicidade1
Eneus
Trindade2
Resumo
A partir do
projeto de pesquisa Produção Social de Sentido: a
enunciação publicitária nos pólos da
emissão e da recepção, do Núcleo de
Estudos Interdisciplinares da Linguagem Publicitária(NIELP),
do Departamento de Relações Públicas, Propaganda
e Turismo - CRP- da ECA/USP, é que propomos reflexões
e apresentamos resultados parciais do trabalho, ainda em desenvolvimento,
no que se refere às questões da categoria actancial
(pessoa/sujeito) no âmbito da enunciação e do
enunciado das mensagens publicitárias.
Palavras-chave:
publicidade; comunicação; enunciação;
sujeito; processos midiáticos.
Considerações
iniciais
Inserida no
bojo das reflexões sobre a comunicação publicitária
junto ao Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Linguagem
Publicitária do Departamento de Relações Públicas,
Propaganda e Turismo - CRP- da ECA/USP, a pesquisa em desenvolvimento,
Produção Social de Sentido: a enunciação
publicitária nos pólos da emissão e da recepção,
busca discutir as possibilidades de efeitos de sentido dados na
constituição dos aparelhos formais do discurso midiático
da publicidade (categorias de pessoa, espaço e tempo), nos
âmbitos da enunciação da emissão e da
recepção, considerando-se, também, o papel
social do enunciado nestes processos de comunicação.
A pesquisa parte
do entendimento sobre o processo de comunicação como
processo de enunciação, mas busca ultrapassar os limites
das teorias da enunciação de origem lingüística
ao considerar a enunciação na recepção,
pois esta última só considera a recepção
a partir das projeções pressupostas do enunciatário
no enunciado ou dos efeitos possíveis do enunciado sobre
o receptor. Isso nos permite colocar que as questões da enunciação
midiática necessitam de um olhar interdisciplinar. O que
do nosso ponto de vista privilegia o campo da comunicação
como local de convergências e ressignificações
de saberes, auxiliando-nos na compreensão global do nosso
objeto.
Nesse sentido,
este artigo é um recorte referente a um aspecto abordado
na pesquisa, que trata sobre aspectos gerais e mais recorrentes
na categoria de pessoa/sujeito nos processos de enunciação
e enunciados da publicidade.
Na enunciação
são considerados, nos seus níveis de constituição,
os actantes para a formação do discurso e as possibilidades
de representações destes (debreagens actanciais ou
enunciações-enunciadas de pessoa) nos enunciados,
tanto no que diz respeito à emissão quanto ao que
se refere à recepção.
São estudados
também alguns aspectos recorrentes dos sujeitos nos enunciados
publicitários, mas ressalta-se a dificuldade para realizar
tal empreitada, pois cada discurso publicitário atualizado,
é único e seus efeitos de sentido sempre terão
aspectos particulares a cada manifestação discursiva
e aos momentos de suas recepções.
Contudo, para
este estudo nos detivemos aos aspectos comuns e mais recorrentes
dos actantes/atores dos enunciados publicitários como: a
marca, locutores, os garotos-propaganda, sujeitos testemunhantes,
personagens/atores e espaços-sujeito, observando a partir
desses elementos os mecanismos de embreagens actanciais mais freqüentes
nas comunicações publicitárias.
Para esta reflexão
foram importantes as contribuições de autores como
Émile Benveniste, Catherine Kerbrat-Oercchioni, Algirdas
Julien Greimas, José Luís Fiorin, Jesus Martín-Barbero,
entre outros. A metodologia de trabalho consiste na observação
de aspectos gerais das mensagens publicitárias e na formulação
de postulados que passam a definir tais aspectos gerais identificados
no universo dos discursos publicitários.
A concepção
de enunciação publicitária
Em oportunidade
anterior (BARBOSA & TRINDADE, 2003.) postulamos, a nossa compreensão
sobre a enunciação e o enunciado publicitários
e apresentamos um modelo geral da enunciação publicitária,
que aqui que se fazem resgatar para que a nossa reflexão
sobre os sujeitos da enunciação da mensagem midiática
publicitária possa ter seqüência.
Na base lingüística
a enunciação é resultante da condição
existencial no processo de interação da comunicação
verbal, pois de acordo com Bakhtin (1995. P. 95), "a forma
lingüística ... sempre se apresenta aos locutores no
contexto de enunciações precisas, o que implica sempre
no contexto ideológico preciso."3
Para apreendermos
melhor essa colocação, é preciso considerar
a enunciação a partir do signo verbal como "...a
colocação em funcionamento da língua por um
ato individual", (BENVENISTE. 1974. P. 80), ou ainda, "...uma
atividade 'linguageira' exercida por aquele que fala, no momento
e onde esse alguém fala, e também por aquele que escuta,
no momento e onde esse alguém escuta." (ASCOMBRE &
DUCROT apud KERBRAT-ORECCHIONI. 1980. P. 28-29).4
Essa compreensão
do processo enunciativo nos faz perceber que os discursos - enunciados
- são produtos do processo de enunciação, ideológicos
e também vivenciais para os interlocutores. Portanto, os
sujeitos envolvidos nesse processo (que é único e
circunstancial), estão imersos em um contexto situacional,5
que é histórico e extrapolam o universo lingüístico,
já que estão referenciados numa prática que
transcende os aspectos puramente verbais, mas que estão marcados
no discurso ou enunciado.
Se a enunciação
depende da interação entre sujeitos em contextos espaço-temporais
precisos, os discursos também se materializam e se plasmam
com marcas: actanciais (sujeitos); topológicas (espaço)
e histórico-culturais (tempo), que viabilizam as práticas
discursivas. Esses traços constitutivos dos processos enunciativos,
perceptíveis nos enunciados, são denominados dêiticos,
ou seja, os elementos que,
...
dão o funcionamento semântico-referencial (seleção
da codificação para a interpretação
na decodificação), o que implica numa aspiração
em considerar certos elementos constitutivos da situação
de comunicação a saber: o papel que tem no processo
de enunciação, cada actante do enunciado; e as
situações espaço-temporais do locutor e
eventualmente do elocutário. [(KERBRAT-ORECCHIONI. 1980.
P. 36. )Tradução nossa.].
Kerbrat-Orecchioni,
autora da definição acima apresentada, recupera a
importante reflexão de Benveniste6,
tecendo críticas, ampliando e percebendo outras complexidades.
Ela discute
as relações subjetivas/actanciais no processo de enunciação,
estas primariamente dadas na relação de um eu que
emite uma mensagem/discurso a um tu, ainda que pressuposto no enunciado,
posto considerar que o ato de construção de enunciados,
a enunciação, está vinculado ao seu produto,
o enunciado, deixando-lhe digitais, às vezes sutis, implicitadas
por estratégias de ocultamento; noutras explicitadas em retórica
hiperbólica (ao reiterar sentidos). Contudo, em ambos os
extremos, de uma ponta à outra, restam traços materializados
por intermédio de marcas dêiticas. Tais contribuições
complementadas pela análise do dêitico de pessoa na
literatura brasileira, realizada por Fiorin (1999, p.59-126), por
exemplo, tornam-se aqui fundamentais para a identificação
dos mecanismo actoriais na enunciação publicitária.
Mas voltando
às considerações de Kerbrat-Oreccihionni, a
autora acrescenta também que a subjetividade pode manifestar-se
em várias combinações, como por exemplo na
relação eu e vós, nós
e vós, entre outras possibilidades. A pesquisadora
ao fazer um estudo aprofundado sobre os pronomes sujeitos ou retos,
como dêiticos de pessoa, discute também as marcas de
tempo e espaço, o que nos convida a pensar a questão
enunciativa em discursos híbridos e sincréticos como
os midiáticos. Isso implica também na observação
sobre relações desses elementos (dêiticos) em
discursos com as referências extralingüísticas
a que estão vinculados. Lingüisticamente, tal complexidade
pode se dar a ver basicamente em três categorias referenciais:
a absoluta - Pedro vai a São Paulo; a contextual - Pedro
vai à cidade mais importante para economia brasileira; e
a dêitica - Pedro vai para lá. Sobre isto ver (KERBRAT-ORECCHIONI.
1980. P. 34-69).
Esses dêiticos
levam-nos pensar sobre enunciações complexas como
nos processos midiáticos, especificamente no nosso caso -
a enunciação publicitária - pois nos colocam
diante à possibilidade de se compreender os níveis
da enunciação e do enunciado entre os diversos sujeitos
constituintes desse processo, considerando-lhes a natureza, ou seja,
a do hibridismo midiático contemporâneo e de suas especificidades
de gênero e estilo - que nos remete ao universo de discurso
publicitário. E, pode permitir uma substancial reflexão
a ser estendida ou atualizada junto à comunicação
social como um todo. Adaptando as reflexões caso a caso,
porém, esta certamente se manifesta por processos de enunciação
complexos e sofisticados.
Posto isso,
em função das reflexões anteriores, construímos
a seguinte definição de enunciação publicitária:
A
enunciação publicitária, portanto, é
apreendida como atividade da comunicação cultural,
de natureza 'linguageira'(manifesta-se no cotidiano), hibridizada
e sincrética - apresentando suas constantes e normas
específicas de coesão estilística - o que
permite identificá-la como tal, sendo exercida por aqueles
que possuem competências para constitui-la nos diferentes
níveis da emissão, nos momentos/espaços
em que os diversos sujeitos da enunciação na emissão
exercem seus papéis; nos enunciados que estabelecem suas
mediações, incluindo-se aí os dêiticos
dos agentes da enunciação na emissão, em
conjunção com os dêiticos que incluem nas
mensagens os receptores/targets privilegiados nos enunciados;
mas também por aqueles sujeitos da enunciação
nos diferentes níveis do processo de recepção,
nos momentos/espaços que esses sujeitos da enunciação
na recepção interagem com os enunciados, que os
estimulam à aceitação de valores e que,
por seu intermédio levam, às mercadorias/bens
materiais e simbólicos. (BARBOSA & TRINDADE, 2003,
p. 10).
Nossa
compreensão sobre a enunciação publicitária
orientou a confecção de um modelo geral da enunciação
na publicidade que se articula em níveis, considerando dois
aspectos: o processo de produção global de campanhas,
enunciados publicitários, e o fato de se ter o discurso publicitário
como ponto de partida para o exterior de sua formação
discursiva nos percursos da enunciação da emissão
e da recepção, identificado seus sujeitos. É
a partir do modelo a seguir que damos seqüência aos estudos
da categoria pessoa no processo de comunicação publicitária.
Cabe acrescentar
que, os níveis da enunciação e do enunciado
possuem sujeitos distintos que podem variar quanto às possibilidades
de manifestação de suas marcas no discurso em função
da especificidade semiótica de cada manifestação
textual publicitária.
Portanto, o
estudo da categoria pessoa será muitas vezes sobredeterminado
pelo tempo, espaço e pela natureza do canal em que a mensagem
é veiculada, não estando esses aspectos desassociados,
mas para fins específicos de investigação,
aqui, os aspectos da categoria pessoa serão tratados de forma
isolada, fazendo-se, quando necessário, pontes com aspectos
das categorias dêiticas de espaço, tempo e com elementos
referentes ao canal suporte da mensagem.
Posto isso,
o enunciado publicitário, considerando-se a sua natureza
semiótica híbrida e sincrética é compreendido
da seguinte forma:
(...)
sobre o processo de enunciação publicitário,
esclarecemos que o enunciado, ou seja, aquilo que é dito
(no âmbito lingüístico), passa (na publicidade)
a ser um espetáculo semiótico, ou seja, é
um enunciado em linguagens sincréticas e híbridas,
não é apenas aquilo que é dito, mas também
inclui aquilo o que é dado a ver/escutar e a sentir (...)
um espetáculo intersemiótico, que precisa ser
analisado através de metodologia interdisciplinar. BARBOSA
& TRINDADE, 2003. p.10).
A enunciação
na publicidade
A categoria de pessoa na publicidade: algumas possibilidades
e reflexões
Como já
mencionamos, Fiorin (1999) faz um estudo detalhado sobre a enunciação
na literatura brasileira, desenvolvendo conceitos sobres as categorias
de pessoa, espaço e tempo. Ressaltamos que aí houve
um grande material empírico que subsidiou a formulação
conceitual do autor, mas que aqui em nosso trabalho não temos
espaço para desmembrar todos os aspectos. Cabe-nos apenas
apresentar as categorias do autor e registrar suas prováveis
potencialidades para analisar a enunciação publicitária:
a) Na categoria
de pessoa temos os efeitos de: pessoa demarcada; multiplicada, transformada;
subvertida, pessoa transbordada e desdobrada;
b) Na categoria
de tempo temos os efeitos de: tempo dominado; demarcado; sistematizado;
transformado; subvertido e tempo desdobrado;
c) Na categoria
espaço temos os efeitos de: espaço dominado; demarcado;
sistematizado; transformado; subvertido e espaço desdobrado.
Ver (FIORIN. 1999. p.41-300).
No que se refere
à pessoa ou sujeito, objeto desta reflexão, percebemos
que Fiorin determina seis subtipos que no texto verbal se referem
às possibilidades de debreagem e embreagem7,
efeitos de trocas de pessoas, nas referências absoluta, contextual
e dêitica.
A pessoa
demarcada corresponde à identificação dêitica
de pessoa nos enunciados, tanto nas marcas dos sujeitos da enunciação
no discurso, quanto do sujeitos do enunciados em si. Essas marcas
de pessoa, assim como as de espaço e tempo, como já
foi colocado podem ser de três referências: a absoluta
- Bom Bril" a marca que se enuncia como eu emissor;
a contextual - "a esponja de aço que tem mil e uma utilidades"
e a dêitica - Ela (a marca Bom Bril) é
líder de mercado.
Mas temos que
considerar ainda dois aspectos da demarcação de pessoas
nos enunciados, ou seja, as marcas dos sujeitos do próprio
enunciado e os da enunciação da emissão e da
recepção.
Por exemplo,
assinaturas de marcas corporativas, da marca nominal do produto/serviço,
ou seja, os anunciantes, bem como a assinatura da agência
responsável, são marcas de sujeitos da enunciação
do 6º ao 3º níveis do pólo da emissão
no enunciado.
Já as
marcas da enunciação da recepção podem
se dá por debreagens dos sujeitos dos enunciados, enquanto
projeções do receptor-enunciatário idealizado
no enunciado, pelas intenções do pólo emissor
entre o 6º e o 2º níveis da enunciação
da emissão, configurando aquilo que Dominique Maingeneau
(2001, p.95-104), trata como ethos do discurso, ou seja,
o ethos do target na mensagem publicitária,
seu público-alvo idealizado pela mensagem, caracterizando
o ser consumidor ideal e leitor-receptor, ou seja, o nível
da enunciação da recepção, como no exemplo
quando o locutor ou personagem do comercial fala "Olá!
Donas de casa". São marcas de projeção
do receptor no enunciado.
Já os
sujeitos do enunciado em si, pela complexidade e híbrida
e sincrética da comunicação publicitária
se dá por meio dos elementos que dão voz, que se dão
a ver e a escutar e a sentir. O produto/serviço mostrado
é o sujeito/actante, objeto de quem se faz referência,
ou ainda a cena busca construir a partir de seus personagens um
conceito que configura o sentido de subjetividade da marca anunciada,
objeto do anúncio ou comercial.
Os sujeitos
do enunciado também se articulam em níveis de interlocução
distintos, podendo haver uma interlocução interna
entre esses atores/personagens do enunciado, ou ainda pode haver
uma interlocução do sujeito narrador/locutor para
o sujeito observador/receptor-leitor-enuncitário da enunciação,
ou seja, locutores presentes integralmente ou parcialmente que,
neste último caso, podem se dirigir ao público receptor,
estabelecendo com este último a conexão empática
e simpática necessária à circulação
do enunciado, sendo também estes sujeitos (atores/personagens
e testemunhantes) o resultado do acúmulo de papéis
narrativos da enunciação da emissão no enunciado,
por efeito de debreagem, representando as marcas da enunciação
no enunciado, e por efeitos embreagem, caracterizados por efeitos
de trocas de pessoa no nível do enunciado, pois o ator/personagem
ou testemunhante acumula o papel de representante ou porta-voz do
anunciante, substituindo-o.8
Nesse sentido,
os conceitos de observador, narrador, locutor, interlocutor que
são bastante utilizados na análise literária,
passam a ser relevantes ao nosso estudo, pois o acúmulo de
papel de um sujeito ator/testemunhante, garoto-propaganda, uma locução
em off, ou ainda o plano do produto ou marca produzido por
fotógrafo, ou câmera man refletem esse acúmulo
de papéis muito estudado no âmbito da literatura no
trabalho de identificação marcas autorais implícitas
nos textos, ou seja, marcas da enunciação no enunciado
como podemos observar nas discussões de Genétte (1983,
p. 93-107) e Fiorin (1999, p.64-65).
Esse tipo de
ocorrência gera os efeitos de pessoa multiplicada e
de pessoa desdobrada.
A presença
da marca corporativa e da marca nominal do produto ou serviço
anunciado na mensagem publicitária também configura
outro efeito de pessoa multiplicada já que a marca
é um ente que traduz, por um acúmulo de papéis
no enunciado, as marcas da enunciação do 6º ao
4º níveis do pólo da emissão. Outro exemplo,
é da o debreagem do 2º nível da enunciação
da emissão, o sujeito produtor (fotógrafo ou câmera
man), que induz e conduz o olhar dos sujeitos enunciatários,
na medida em que a imagem focada sobre a marca ou produto, que se
dá a ver no enunciado, confunde-se com o olhar do receptor.
Este último
exemplo, gera o aspecto marcado pelo uso da retórica tautológica,
amplamente aplicado em anúncios impressos e mensagens publicitárias
audiovisuais, que exibem planos da marca ou do produto, configurando
a pessoa transborda, pois tratam de um eu (emissor
do enunciado) que se dá a ver. Trata-se do dizer "eu
sou o que sou", Omo é Omo, em uma imagem
auto-explicativa de si, que ao mesmo tempo marca a debreagem do
2º nível da enunciação da emissão,
o da produção da peça pelo olhar do fotógrafo
ou do câmera man, e o olhar do enunciatário-receptor
orientado pelo pólo da emissão.
Já o
caso da pessoa transformada, como coloca Fiorin (1999, p.72-84),
refere-se ao discurso reportado nas suas várias possibilidades
no discurso direto, indireto e o indireto livre, marcados por citações
a discursos de outrem e a circunstâncias de outras enunciações
e enunciados a que o enunciado dado se faz reportar, existindo assim
muitas possibilidades e modos dessas citações acontecerem,
gerando marcas intertextuais.9
Na publicidade,
percebemos que as citações a filmes, personagens de
telenovelas, canções de compositores e cantores conhecidos
configuram possibilidades de apresentação da pessoa
transformada, em que o discurso citado ganha uma nova circunstância
de sentido pelo discurso narrativo que o abriga, ou seja, o lugar
onde ele está reportado. É o caso, por exemplo, do
comercial da Empresa de Correios e Telégrafos do Brasil (2000),
que cita a carta de Pero Vaz de Caminha sobre o Descobrimento do
Brasil, dirigida ao Rei de Portugal, D. Manuel, em 1500, narrada
pela locução de um famoso ator brasileiro, Antônio
Abujamra, que contrapõe as imagens do Brasil contemporâneo
à descrição verbal do Brasil da época
do descobrimento.
Por fim, o fenômeno
da pessoa subvertida, segundo Fiorin (1999, p.84-5), dá-se
por mecanismos de embreagens internos ao discurso na categoria de
pessoa. Por exemplo, a troca de um eu por um nós,
entre outras possibilidades. Para a mensagem publicitária,
muitos personagens ou garotos-propaganda subvertem o seu eu para
a primeira pessoa do plural, o nós, muitas vezes embreado
na categoria da terceira pessoa do singular, ele, quando
esse nós que inclui o eu que fala e o outro
(receptor e possível consumidor), geralmente substituído
pela marca dêitica contextual "a gente". Ou ainda,
quando o eu que fala, sujeito do enunciado (ator, garoto-propaganda),
usa o nós para se referir ao anunciante, marcando
a embreagem de terceira pessoa do singular "ela, a marca",
que também é, como já mencionamos, a debreagem
da enunciação-enunciada do 6º nível do
pólo da emissão no enunciado. Exemplo: "Nós
da Nestlé estamos...". Novamente a marca que se constitui
como um ente em suas várias possibilidades de efeitos
de subjetividade.
Outra situação
comum em mensagens publicitárias, de pessoa subvertida
é quando o garoto-propaganda e marca se confundem(cf. nota
08) e um passa a substituir o outro ou não se consegue desassociar
um do outro. Por exemplo, o garoto-Bombril, o ator Carlos Moreno,
que durante mais de 20 anos atuou como garoto-propaganda da marca
de esponja de aço Bombril, teve ao longo de sua vida
profissional sua imagem confundida com a marca do produto/anunciante.
Tal fenômeno remete a uma construção de efeito
de subjetividade fundamentada em aspectos da enunciação
tipicamente publicitária.
Além
disso, existe o problema de estarmos trabalhando com um produto
midiático e de linguagem híbrida, como a publicidade,
e que por isso, manifesta outras possibilidades de sincretismos,
como a transformação do espaço no sujeito,
ou seja, uma embreagem híbrida no âmbito do enunciado
em que as cenas do espaço configuram o aspecto actancial,
o sujeito. O exemplo já citado do comercial dos Correios
e Telégrafos (2000) ilustra também este aspecto, pois
locução referente ao texto da carta de Pero Vaz de
Caminha fala de um Sujeito Brasil que se apresenta em imagens antitéticas,
espaciais, do Brasil contemporâneo, que se opõem às
imagens do Brasil do descobrimento, mencionadas pela carta no comercial.
Outro problema,
refere-se à questão da enunciação da
recepção como já enunciamos em outra oportunidade
(BARBOSA & TRINDADE, 2003.). Trata-se de um fenômeno que
demanda uma investigação teórica interdisciplinar
que extrapola os limites das teorias da enunciação
e da semiótica de origem lingüística, que encontra
na Comunicação um outro olhar que possibilita a inclusão
da produção de sentido da recepção e
busca conhecer os resultados dos processos de significação
e produção de sentido como efetivamente eles acontecem,
ou seja, a partir leitura das mensagens e da sua re-codificação
precedida por um processo de decodificação que inclui
aspectos das mediações culturais, biológicas,
circunstanciais, afetivas da vida dos indivíduos, leitores-consumidores,
no caso da leitura e recepção das mensagens da publicidade
e da propaganda.
Assim, consideramos
necessário elencar algumas contribuições, que
pelo espaço deste artigo não poderão ser melhor
discutidas, mas que na nossa percepção orientam a
fundamentação teórico-metodológica que
dará seqüência à nossa investigação
sobre o sujeito enunciatário-receptor da publicidade.
Tal empreitada
teórica se dá pelo reconhecimento das contribuições
da: Teoria Literária, com a estética da recepção
(Ver ZILBERMAN, 1989); da Sociologia da leitura (aqui representada
no trabalho de Roger CHARTIER, 1998); da antropologia com os métodos
da etnografia em comunicação (LEAL, 1986); das propostas
de compreensão da recepção pela teoria das
Mediações com (CANCLÌNI, 1995), (BARBERO, 2001),
(SOUZA,1994) e (LOPES et al, 2001); dos Estudos Culturais,
a partir do trabalho de Stuart HALL (2003); além das contribuições
teóricas sobre uma semiótica da recepção
e estudos sobre o leitor de Umberto ECO (1976,1986 e 2000) e Santaella
(2002).
Tais contribuições
são valorosas e permitem uma abordagem interdisciplinar para
estudos do leitor-receptor-enuncitário e consumidor, destinatário
das informações das mensagens midiáticas publicitárias,
o que nos permite indicar a formulação e aplicação
de um modelo metodológico que no decorrer da pesquisa será
desenvolvido e que em outras oportunidades acadêmicas iremos
pô-lo em discussão.
À
guisa de conclusão
Em que pese
as possíveis críticas ou aperfeiçoamentos da
aplicação das categorias de pessoa determinadas por
Fiorin e sua adaptabilidade às questões da enunciação
publicitária, esclarecemos que esta é uma primeira
reflexão, passível de ajustes ao longo da realização
da nossa pesquisa, que necessita de uma aplicação
empírica que aqui não foi realizada, o que não
invalida esta reflexão, pois consideramos ela como ponto
de partida para a formulação de análise dos
procedimentos de análise categorias actancias da publicidade
em seus vários suportes midiáticos.
No que se refere
aos estudos da enunciação da recepção,
percebemos que o caminho inicial consiste no resgate da mediação
da leitura, como atenta BARBERO (2001. P.300-303), muito estuda
em mídia impressa, mas pouco estudada nos outros suportes.
O que no contexto contemporâneo significa uma pouca compreensão
ou desconhecimento sobre os aspectos da leitura movente e imersiva,
ao contrário da leitura contemplativa como a do livro, revistas
e jornais, como explica Santaella (2002)10,
que requer atenção por parte dos pesquisadores para
se chegar ao um princípio de compreensão sobre a produção
de sentido da recepção. Assim, acreditamos estar no
processo contínuo de investigação que levará
a concepção de comunicação/enunciação
da publicidade na sua globalidade.
Notas
(1) Trabalho apresentado ao NP03- Publicidade
Propaganda e Marketing, no V Encontro dos Núcleos de Pesquisa
do XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação
-INTERCOM, UERJ, Rio de Janeiro.
(2) Doutor e Mestre em Ciências da
Comunicação pela Escola de Comunicações
e Artes da USP; Docente da ECA/USP e da Universidade Metodista de
Piracicaba; Membro do NIELP/CRP/ECA/USP e do Grupo de Pesquisa Processos
Midiáticos e Culturais da UNIMEP. E-mail: eneus_trindade@hotmail.com.
(3) Para o autor o sujeito falante é
constituído individual e coletivamente a partir de suas inserções
e relações no contexto da vida social.
(4) Texto original em ASCOMBRE e DUCROT.
1976.P.18.
(5) Aqui esse contexto situacional da comunicação
é assim manifesto para diferenciar-se da concepção
estruturalista que concebe tal contexto apenas como infra-textual.
(6) Émile BENVENISTE pode ser considerado
um dos precursores da teoria da enunciação lingüística,
publicando obras essenciais para este tipo de investigação:
Problèmes de linguistique générale. Paris.
Gallimard.1966 e . Problèmes de linguistique générale
II. Paris. Gallimard.1974.
(7) Ver GREIMAS & COURTÈS , 1979.
No dicionário em questão, compreendemos o processo
de debreagem como sendo a presença das marcas dêiticas
da enunciação no enunciado e a embreagem como efeitos
de troca elementos de uma mesma categoria dêitica, ou entre
categorias dêitas distintas.
(8) As campanhas publicitárias realizadas
por testemunhais e garotos-propaganda, por exemplo, caracterizam-se
pelo fato de atores ou pessoas famosas, autoridades oferecerem suas
imagens e vozes para dar credibilidade ao produto/serviço/marca.
Tal ocorrência acaba por confundir esse sujeito do enunciado
com os sujeitos de outros níveis da enunciação,
funcionando como porta-vozes do pólo da emissão no
enunciado.
(9) Sobre intertextualidades ver GENÈTTE,1982.
(10) Em seu artigo, Santaella formula as
características de três leitores, ao longo da história
da leitura a saber: o leitor contemplativo, o leitor movente dos
espaços urbanos, a publicidade se insere aqui, e o leitor
imersivo, o navegador da web.
Referências
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